Mostrar mensagens com a etiqueta Wings. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Wings. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Desafio XLVIII - Resposta

There's little in taking or giving,
There's little in water or wine;
This living, this living, this living
Was never a project of mine.
Oh, hard is the struggle, and sparse is
The gain of the one at the top,
For art is a form of catharsis,
And love is a permanent flop,
And work is the province of cattle,
And rest's for a clam in a shell,

So I'm thinking of throwing the battle
Would you kindly direct me to hell?


Estavam os dois sentados no café. Passados tantos anos, reencontraram-se. Tinham sido irmaos em tempos. Longiquos, longiquos tempos em que a vida era simples e as responsabilidades caiam sobre o tipo de ego que se não quer ter. Longos e ténues tempos em que eles eram irmaos, em que eram iguais.
O homem loiro acendeu o cigarro e , discretamente, olhou para o seu amigo de infancia, para o seu irmao de sangue. Ainda hoje sentia a culpa inocente de ter sido bem sucessido, de ter um ego bélico, de ter conseguido quebrar todas as convenções ridiculas que o estrangulavam. Que estrangularam os dois. Ainda hoje sente culpa por o não ter conseguido libertar , o seu irmao de sangue. O seu único irmao neste mundo tao cru.
O outro, calmo, tranquilo e alegre tentou introduzir um topico de conversa mas eles já não eram nada um ao outro. E o homem moreno sabia-o. Mas gostava tanto do seu irmao naquele dia chuvoso como gostava quando eram crianças. Tinha um orgulho no irmao, por ter sobrevivido, por ter conseguido reunir um grito mudo e ter-se libertado. Lá no fundo sabia que nasceu a ser um caso perdido e que a fé que o irmao tinha nele era inutil. Ele nasceu condenado e ia morrer condenado. Acendeu tambem o seu cigarro e fumou-o como se fosse o ultimo e esticou uma folha de papel ao irmao. Ficou espantado e sempre fora perspicaz , penteou o cabelo loiro como demonstraçao de nervosismo. E medo. Ninguem connhecia o seu irmao melhor que ele. Leu o papel e disse-lhe “Não. Não o farei”. O outro perdeu o sorriso. Ele tinha de aceitar era a sua única hipotese de conquistar alguma paz. Tentou convence-lo:
“Esta vida, esta forma de vida, ah nunca foi uma ideia minha. Nunca quis ser isto mas é preciso cobardia para rejeitar o que sempre fui.Sempre fui isto, um pouco isto. Há um pouco disto em todo o lado, na àgua, no fogo. Há uma parte moribunda em cada canto do mundo. Ate em ti. Mas sempre foste melhor que isso, quem me dera ser como tu!
O outro continuou a dizer um Não definitivo e assustado. O não ia fazer. E disse-lhe que eles sempre foram iguais, ele simplesmente tinha tido sorte porque Deus já morreu há muito. E outro, na sua alegria triste existencialista, deu-lhe um sorriso triste e continuou:
“Entende, o amor é simplesmente um continuo suceder de fracassos se não achares que existe algum proposito no mundo e eu sinto-me condenado a ser isto. Sinto-me vendado e encurralado por mim. Por todos os que me querem bem. So me magoaram mais com um amor que me tinham . Sempre foram incapazes de me compreender, sempre me desejaram o melhor que , ao não se adequar a mim, me foi assassinando aos poucos.”
“Eu sempre te compreendi . E não faço isto. Nem pensar.”Nos seus olhos tao duros, tao resistentes e tao estrategos , o azul ganhava uma lágrima de espelho. Não ia fazer aquilo que o seu irmao lhe pedia.
“Por favor, so te peço que garantas que vá para o Inferno. Sempre me condenaram ao paraiso e a uma vida longa cheia de um sucesso vazio que nunca se adequou a mim. E perdi o contacto contigo, meu irmao. E vi-te a seres tu e a brilhares enquanto eras orgulhosamente tu. Vi o reflexo de quem desejava ser mas nunca poderia. Concede-me uma boa morte, concede-me um fim digno e honravel: está lá, no penhasco que dá para o mar. Porque vou morrer de qualquer forma porque já estou morto há muito. Esta la por mim. Por favor.”
O homem loiro olhou o irmao nos olhos. A tristeza era tao violenta que perdeu a única lagrima que tinha. O outro voltou a insistir: por favor, é a maior prenda que me podes dar. Garantir que por uma vez vou para o sitio que quero ir. Ambos sabemos que o Paraiso e bastante aborrecido.

Saiu do penhasco com o seu sobretudo negro a esvoaçar, tenebrosamente, em unissono com o seu longo cabelo loiro. Não conseguiu olhar para baixo e ver o seu irmao desfeito. Mas o que o mais incomodava era a quebra da metáfora horrivel que definia o seu irmao de sangue. Finalmente o corpo estava tao desfeito quanto o ser dele, finalmente tinha um sitio para ir chorar a catastrofe que a sua vida tinha sido, que a sua curta vida tinha sido. Finalmente, podia ir chora-lo aquele penhasco. Pelo seu irmao de sangue e por si. Afinal, tambem morreu qualquer coisa dele naquele dia.
Nunca mais foi o mesmo homem. Perdera o seu irmao de sangue, o seu irmao num mundo cru e torturoso. E era injusto, ambos eram inocentes, por isso é que queriam ir, gentilmente, directos para o Inferno.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Desafio XLVII- Resposta

"Nada do que se sonha é tao estranho como aquilo que se vê"

Quando se sentou naquele café com ele soube que nada seria igual ao que tinha sido. Conhecia-o vagamente de vista, eram vizinhos, viam-se frequentemente mas tornaram-se amigos (primeiro) numa festa qualquer. Aconteceu tudo de uma forma tao estranha e genuina que não lembrava nenhum livro cheio de um romance dramatico. Por isso é que o sorriso dele a encantava. Não tinha visto nenhum sorriso como o dele, como aquele meio sorriso fundo cheio de desafio, amor e timidez. E profundidade. Uma profundidade que o cabelo desalinhado dele não preve a não ser que se repare nos peculiares pormenores dele que demonstram uma genialidade lucida que a loucura encobre.
Ela tremeu levemente quando olhou para os olhos azuis dele e ele sorriu, deu-lhe aquele meio-sorriso que so ele tinha. As conversas que tinham eram leves e, inesperadamente profundas. A voz dele era sempre de seda quando falava com ela e as maos enormes ganhavam uma suavidade que a fazia querer acariciar a pele branca. Mas nada do que fazia era convencional, não , muito pelo contrário. Tudo o que conquistou dela conquistou por não ser convencional, por ter sido sempre honesto, por ter sido sempre ele. E, ela sempre pensou, que so se apaixonaria por um monstro, um monstro reflexo dela. Alguem cruamente perspicaz, alguem cheio de uma beleza dificil de se aceitar por ser muito maior que este Universo. Ela sempre amou monstros e ele era um monstro com uma textura diferente. Era simplesmente louco, ele. A imaginaçao voava com frequencia, a realidade facilmente perdia lugar a uma ideia para a proxima banda-desenhada que criaria. E era muito grande, muito bruto, muito pouco romantico. Menos quando falava com ela, quando era com ela ele ganhava uma qualquer sensibilidade que o tornava encantador sem o tornar minimamente comum. Ninguem era igual a ele, nada era comparavel ao longo, vermelho e eternamente despenteado cabelo dele. Nada se comparava a agressividade que ele demonstrava quando um principe , cheio daquelas caracteristicas baratas que encantam as meninas nas historias de encantar, se aproximava dela. E era entao que ela se apercebia que havia um pouco de monstro nele. como havia nela.
Nunca pensou ama-lo. Ela gostava de monstros, talvez por se identificar com eles, talvez por conseguir salva-los da melancolia existencial ao quebrar uma solidao que se instala quando se cresce a parte da sociedade. Mas nunca sonhou que amaria um louco, um louco como ele era. Nem no seu sonho mais excentrico alguma vez pensou que um louco, um sonhador acordado como ele era, podia ter tantas ideias lucidas em comum com ela. Nunca sonhou que o rapaz que morava no predio em frente que ouvia as suas musicas preferidas e passava a vida a imaginar situaçoes de banda desenhada podia ser a pessoa, no mundo inteiro, que mais semelhanças tinha com ela. E amava-o. Não, nunca imaginou isso ela.
Ele acariciou-lhe a mao. A dela era tao mais pequena que a dele, perdia-se inteiramente na enorme branquidao da mao dele. Afinal, ela era o monstro, sempre fora o monstro.
Sempre comentara que o vizinho doido que morava em frente a ela era dono de uma beleza diferente das outras. Mas nunca imaginou ficar presa a algo tao diferente, tao excentrico, tao anti-social. Mas viu isso acontecer e o meio sorriso dele afastou-lhe todos os pensamentos. Nunca ela pensou nisto, nesta realidade em que é ela o monstro. Sonhou tantas vezes, tantas cenas excentricas, tantos cenarios diferentes mas nenhum onde ela fosse o monstro e a bela fosse louca. Loucamente lucida . Mas nada do que se sonha é tao estranho como aquilo que se ve, as vezes.

Desafio XLIX - Resposta

"C'est par la musique qu' a commencé l'indiscipline"


A verdade é que ela sempre fora louca. Mas não com uma loucura daquelas que são geniais e, na intimidade, quase insuportaveis. Nem daquelas loucuras sociais que abraçam novas amizades facilmente. Não, ela sempre teve uma loucura diferente. Pacata, tranquila. Defini-a, a loucura dela. Como se em algum momento alcançasse um extremo e o mundo tornava-se invertido. Era uma loucura lucida e logica que quando era activada a transpunha para outro mundo.
Era um dia de Outono profundo, um dia perfeito para se ver o Mar no seu horizonte azul e frio. Combinaram encontrarem-se na praia sombria longiqua da cidade, ela e os amigos. Fora uma tarde agradavel e ela tinha tido uma conduta perfeitamente anormal. Nunca respondia claramente às perguntas que lhe faziam mas não deixava de responder. Tinha sempre uma ideia que era levemente descontextualizada, mas não estranha o suficiente para causar o sentimento de choque. Adoravam-na os amigos, era um genio discreto e tranquilo, carinhoso e cheio de uma compaixao que não viam em mais ninguem. Ela é que os não adorava a eles, tinham sempre a sensação que não lhe chegavam, que ela precisava de algo mais. Gostava dela desde a primeira vez que a vira com a sua beleza excentrica e funda, com o seu rosto vindo do futuro, Luis sempre gostara dela e ela parecia nem nunca ter reparado nisso. So se importava com música ela, so lhe interessava a musica. As bochechas ficam vermelhas da excitaçao, os gestos tornavam-se rapidos e confusos, os olhos ganhavam um brilho exímio que a presença dele nunca lhe causava. E ele não podia competir com a música embora gostasse muito de vencer essa batalha. E, se ele vencesse, ela nunca mais ficaria assim a ouvir musica, afinal metade dela era igual a ele.
Mas o amor revela-se como essencia da arte nos momentos mais estranhos e desconexos. A camioneta que os levaria de volta para a cidade nunca apareceu e entraram em panico, o grupo de jovens. A praia sombria, no final do mundo, a duas horas a pé da cidade. Entraram todos em pânico menos Luis que esperou que o seu amor entrasse em panico para, convencionalmente, a confortar. Mas , como sempre, a música chegou primeiro. Quando todos se entregaram ao desespero, ela pegou no mp3 e começou a ouvir musica. Estavam todos a discutir o que iriam fazer e ela olhava para o mar e repetia que o mar era lindo e que adorava jazz. Perguntavas-lhe, repetidamente, se já alguma vez tinham ouvido jazz. Ninguem queria saber, tudo o que eles queriam era chegar a casa, a salvo, aquecerem-se do frio gélido que se tinha instalado nos ossos, entre os fios de medo que nascia no espirito de quem considera que está bastante perdido.
E foi ela que resolveu o problema. Disse-lhes para irem a pé. Disseram-lhe que era perigoso e ela respondeu que jazz era fabuloso, sentia a alma a encher-lhe o coraçao com uma coisa qualquer. Esperança, talvez? Optimismo. Amor estava intimamente a uma visao aberta que se focava nos pormenores que nunca antes tinham sido vistos. Amor era optimismo. Iam a pé e era escusado chorar nada mais havia a fazer. Foi a resposta dela e depois foi o silencio dela. Continuou a ouvir musica, a cantar a melodia que estava a ouvir e a perguntares-lhe de tempos em tempos, se já tinham ouvido jazz. Mandaram-na calar muitas vezes e ela parecia não se importar minimamente. Parecia não querer saber deles para nada. Luis chamou-lhe doida, a rejeiçao em pessoas que se dedicam a estabilidade, resulta sempre em insultos detestaveis e crueis. Mas ela so se importava com a musica e respondeu-lhe: so agora é que descobriste? Já ouviste jazz? Ah, este ritmo é fantastico. É duro mas é melodico, como esta situaçao. Ele afastou-se dela e ela sorriu-lhe. Afinal sempre soube, sempre soube tudo, simplesmente nunca gostou dele. O coraçao tinha uma melodia que ele não podia compreender. O amor não se podia ajeitar.
Chegaram a casa todos em perfeito estado. Todos surpreendidos com ela, a rapariga cheia de uma beleza excentrica e diferente que , durante duas horas terriveis e sombrias, so falou de jazz. Mas eles já deviam saber, a musica é o começo da indisciplina. E ela sempre fora louca, sincopadamente louca. Por isso é que gostavam tanto dela.
E, desde aquela tarde, em que ela descobriu o quanto amava a musica que se tornou verdadeiramente indisciplinada. Passou a fazer unicamente aquilo que a fazia ser ela propria. É a maior indisciplina de todas, quebrar a convençao da miseria de uma estabilidade vazia.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Desafio XLIV -Resposta

http://www.youtube.com/watch?v=Ek4D7Rrq144

Ela disse-te, o amor por si só vale menos do que se convencionou que valeria. E não importa que a tivesses amado (ou que a ames ainda) se nunca compreendeste a genialidade da essencia do ser dela. Que importa que lhe tenhas oferecido a conquista do mundo como presente se tudo o que ela desejava era a excentricidade de uma liberdade aberta nos pequenos pormenores do quotidiano? Tudo o que ela desejava era ser livre, ser livre aqui onde ninguem é. Tudo o que ela desejava era ser ela, exponencialmente ela. Tudo o que lhe ofereceste consistiu naquilo que gostavas que ela desejasse mas o amor não se sustenta com isso.
Aínda hoje lamentas a ida sem volta dela, para longe de ti, para longe dessa realidade onde viviam os dois. E ainda hoje lamentas a felicidade dela , o alivio dela. Porque, de facto, a amaste e ela amou-te mas o amor não aguenta isso. Que importa que a amasses mais do que alguma vez amaste a realidade onde estavas preso, que importa que a amasses mais do que amaste a tua vida seria e adulta? Nada. Porque ela era discretamente genial, a forma como se ria e do que se ria era genial, era peculiar.Nunca percebeste porque é que se ria das desgraças, nunca viste que não se ria de uma qualquer desgraça. Oh não, nada disso. Ela ria daqueles momentos em que alguem anulava o pessimismo , que o tornava em pouco. Isso garantia-lhe toda a força bélica e resistente que tinha no peito e pela qual sempre a admiraste. Era porque se ria das desgraças, ela. Tornava-as pouco, explorava-as e dissecavas ate se tornarem um pormenor quotidiano como outro qualquer. Por isso é que era tao resistente, tao forte. A vida era uma aventura e se tudo for bom é um caminho vazio. A arte reside no que fazes com as adversidades que te aparecem. E ela ria-se, criticava , ironizava e ria-se. Por isso é que conseguiu deixar-te deixa-la quando a tornaste infeliz por a não deixares rir-se.
Mas tu nunca entendeste e ela sempre te disse que o amor, por maior que seja, não aguenta girar no sentido contrario do mundo. Sempre te disse que a tua vida não tinha desgraças, era perfeita, e por isso mesmo, vazia. Sempre te disse que te não sabias rir porque a vida, a tua vida, era demasiado seria e adulta e economica. Sempre te disse que “A vida é demasiado curta para ser levada a serio” e tu nunca esboçaste um sorriso pela ironia veridica nesta frase. Não, tu nunca entendeste porque é que ela idolatrava o Oscar Wilde.
E, naquele dia cheio de Sol, em que ela correu para ficar quieta a olhar fixamente para o tumulo dele, tu nunca entendeste a protecçao que ela sentia. So por estar la, no tumulo dele, sob o olhar dele. Nunca entendeste Oscar Wilde, nunca compreendeste o que a maravilhava nele.Nunca entendeste nada.
E, nesse dia, ela deixou-te , perspicazmente, deixa-la. Porque sempre foi mais estratega do que tu alguma vez foste. A vida dela não era seria, a imaginaçao que lhe escorria e cada pensamento tornou-a resistente e forte. A tua vida era demasiado seria para não ser insignificante.
Hoje, passas por ela, e magoa-te tanto como te magoou naquele dia. A felicidade dela, a iluminaçao do ser dela e o teu, cinzento baço, distorcido e tenue. Moribundo. Porque nunca entendeste que o riso é um dos teus bens mais preciosos. O optimismo verdadeiro consiste em ver a alternativa, nem que seja a mais ridicula. Não, nunca entendeste que “estamos todos na lama, mas alguns conseguem ver as estrelas.” E ela nasceu a saber isto, o Oscar Wilde resumiu um pensamento confuso dela numa frase simples.

Desafio XLV- Resposta

“Face the facts of being what you are, for that is what changes what you are.”

É filosofia pura, meu amigo. É um exercicio de filosofia que te salva a essencia. Todas as pessoas compadecem dessa tua vergonha, desse teu medo. Ate eu. Mas não deixa de ser filosofia, meu amigo, se aguentares a dúbia existencia de Deus, o existencialismo ou o quanto es ainda igual aos animais, aguentas isto.
Porque, no final, és apenas o que és e nada mais do que isso. No final , chegas a casa relaxas a cabeça na almofada e tudo o que tens és tu. Nada mais do que isso. É o que todos nos temos, so temos o que somos. Ser é ter, não invertas, não te favorece. É por isso que és infeliz e eternamente insatisfeito, para ti ter é ser. Alimentas uma ambiçao em ti que nunca vais satisfazer .
Por isso, meu amigo, faz o que te digo. Experimenta ser em vez de ter. Senta-te em frente ao espelho e repara em todos os pormenores do teu rosto. Conhece quem és porque, de todas as pessoas que te rodeiam, é a tua propria essencia que desconheces mais. Descobre quem te olha do outro lado do espelho, desenha essa realidade alternativa onde os ses moram para saber que mundo paralelo é que tornaste verdade. Descobre o que te fez escolher o que escolheste. Investiga as subtilezas do teu ser, procura os teus pequenos segredos recalcados pela tua ignorancia. Nosce te ipsum, é a tua única forma de seres feliz. Se não sabes quem és, se não aguentas ser o que és , desconheces o que verdadeiramente alimenta o teu espirito e te torna mais tu.
Tens de saber porque é que escolheste ser o que és porque o escolheste inconsciente mas intencionalmente. E tens de querer ser melhor do que isso, do que tudo o que és. Tens de ter uma utopia a viver em ti, a encher-te o peito de novas ideias. Tens de querer ser mais e melhor ( do que tu) para conquistares o direito de viver em vez de existir.
Tens de acreditar que tu és tu para te tornares num argumento válido desta realidade. E, só assim, vais conseguir introduzir alguma mudança em ti. Se não sabes o que és, como é que podes modificar alguma coisa em ti? Vais-te dedicar a fazer promessas vazias cheias de uma honesta bom intençao. Vais-te tornar em mais um parasita ignorante deste mundo, meu amigo.
Compreendo o teu medo e a tua vergonha. Saber o que és é um caminho solitário e ,por vezes, inglorio. Mas a recompensa é muito maior do que alguma vez imaginaste. Podes mudar quem és mantendo o que és.E isto é uma utopia que podes tornar realidade.
Por isso, meu amigo, Nosce te ipsum”. Conhece-te a ti mesmo.

Desafio XLVI - Resposta

"Love never dies a natural death. It dies because we don't know how to replenish it's source. It dies of blindness and errors and betrayals. It dies of illness and wounds; it dies of weariness, of witherings, of tarnishings."

Sentou-se naquela esplanada com vista para o mar onde o fazias sentir-se mais humano. Quando deixaste de o tornar mais efemero ele sentiu-se mais fragil e o amor perdeu o sentido. Houve um momento em que escolheste a realidade que o descredibilizava, anulava e aniquilava. E ele é um brilhante estratego de guerra, mesmo que tivesse escolhido uma morte cheia de romance e amor com o sentido de permancer contigo, não seria possivel. Escolheu não morrer facilmente há muito, mas muito mais tempo.
Olhou o mar de Inverno. O cenário tenebroso fazia-o sentir-se mais em casa. O cabelo negro oscilou ao sabor do vento , o beijo que recebeu foi frio. O amor que te tinha congelou, congelou o amor que lhe entregavas pelo vento. E é tao logico não estares lá com ele, como uma vez foi estares, o amor nunca morre de uma acidental causa natural. Nunca é infundamentado, nem no inicio nem no fim e tudo é sustentado por uma explicaçao quer a conheças ou não. Foste perdendo-o aos poucos, no arrastar de um quotidiano fixo. A estática que lhe ofereceste deixou que as diferenças se instalassem e ele lembrou-se que desejava ser livre e ser o ícaro. E cair como ele. Inumeras vezes. Quando o prendeste a ti para evitares que ele fizesse essa viagem louca em busca da concretizaçao da utopia foi uma traiçao para ele. Não podia escolher entre o amor que te tinha e o amor que tinha por ele proprio, pelas suas utopias, pelos seus sonhos. Foi uma traiçao. Deixaste que a duvida que sempre existiu nele lhe conquistasse o coraçao e ele foi-se afastando. Sentiu a necessidade de explorar outros mundos inconscientemente. Porque é um sobrevivente, instintivamente, procura salvar-se sempre. E, à medida que ia vendo o amor morrer em pequenos suspiros, em pequenos acidentes quotidianos tao naturais e lógicos, o seu espirito nómada iniciava o estalar do esquecimento.
Porque o amor nunca morre de causas naturais. Apesar de tudo ser fundamentado o amor morre quando o aborrecimento se instala e os espelhos revelam a verdadeira essêencia de cada um. E ele era um monstro que tu nunca conseguiste saber como amar, apenas se foi embora antes que percebesses isso. O amor morre em pequenos erros que nunca viste que cometias.

sábado, 13 de novembro de 2010

Desafio XLIII- Resposta

Sometimes I feel
Like I don't have a partner
Sometimes I feel
Like mt only friend
Is the city I live in
The city of Angels
Lonely as I am
Together we cry


Under the Bridge- Red Hot Chili Peppers


Caminhava com o seu sobretudo negro devagar e compassado. Para que ter pressa se não tinha destino algum que desejasse alcançar? Estava triste, estava melancolico . O seu ser arrastastava-se melodicamente por Lisboa. O seu ser arrastava-se melodicamente pelos predios e pela calçada e pelas fontes que já viram a História mudar a mentalidade de uma sociedade e essa sociedade arruinar-se em pequenas luxurias infundamentadas e inuteis.
Caminhava lentamente como se Lisboa fosse algo que nunca tivesse visto , procurava curiosidades em todas as ruas estreitas e calorosas. Deixava-se encantar pelos pormenores simples que tornavam Lisboa bela . O castelo lá no alto dava-lhe uma sensação medieval de protecçao. Estava em casa e Lisboa nunca fora casa alguma. Não que não gostasse simplesmente nunca fora a sua cidade, o seu lugar do mundo. Limitava-se a ser apenas o sitio que o tinha visto nascer.
Mas não hoje, hoje só Lisboa lhe fazia companhia. Encontrava o seu estado de espirito miseravel e diluido num negro de veludo em cada ruela. Cada estatua parecia tenebrosa e sombria. A pequenez de Lisboa era tao claustrofobica como o aperto mudo que tinha no peito. Perdia-se nos cruzamentos de ruas sombrias que nunca vira mas encontrava-se depois, procurava algo familiar e chegava a uma rua maior e conhecida. Lisboa era demasiado pequena ate para alguem se perder. Como o coraçao dele, como o espirito dele. As vezes so desejava perder-se e deixar-se lá estar , nesse bosque denso e escuro muito maior que ele . Nesse bosque nordico que nunca existiu em Lisboa e que era a casa dele. Não a que o tinha visto crescer ou tornar-se num homem adulto e integro mas a casa que ele tinha escolhido porque reflectia o que desejava ser.
Caminhava com o seu sobretudo negro a contrastar com o cabelo loiro e a pele demasiado branca. Mesmo fisicamente, nunca se enquadrou em Lisboa. Demasiado alto, demasiado magro, demasiado branco, demasiado estrangeiro na sua cidade natal. Mas não hoje, hoje Lisboa era a única a fazer-lhe companhia. Ouvia em certas esquinas o seu lamento, o choro pelas mortes a que assistiu ou o riso emocionado e orgulhoso pelas vitorias heroicas que presenciou. Hoje só Lisboa lhe fazia companhia, so Lisboa o confortava tristemente. Chegou ao Cais das Colunas e sentou-se a ver o Tejo azul profundo . Ouviu a cançao surda que encantava aquele lugar, viu os barcos fantasmas que se afundaram anonimamente e viu os que inovaram o mundo. Viu corpos de homens inocentes que procuraram no Rio um abrigo e foram mortos por isso mesmo; viu a revolta que o tornou num homem livre, anos depois. Viu isso tudo, ouviu isso tudo. Lisboa, so Lisboa lhe fez companhia. E era tao triste, continuava a não ser a sua casa, o lugar quente e aconchegador depois do frio Invernal.
Amava Lisboa, Lisboa fazia-lhe companhia. Mas ele era triste, era desfasado.Estava condenado a isso. Lisboa era a única que lhe fazia companhia e era o único sitio onde não podia ficar.Amava Lisboa mas amava ainda mais a casa que tinha escolhido como sua.

Os estrangeiros, vindos do norte da Europa ,que passavam encontraram um cenario digno de um quadro impressionista. Um homem muito loiro, muito alto sentado naquela uniao perfeita entre o mar e a terra, o passado e o futuro , com o cabelo loiro a ondular ao sabor do vento em conjunto com o negro do seu casaco. Uma uniao estranha e logica. Mas o mais impressionante era a postura dele, a tristeza impenetravel do rosto dele. Distante e proximo, triste e resistente. Tao intimo com Lisboa e, ao mesmo tempo, tao diferente fisicamente , tao igual a eles, estrangeiros vindos do Norte da Europa.
Era um condenado e naquele momento so Lisboa lhe fazia companhia.

Desafio XLII- Resposta

“Great spirits have always found violent opposition from mediocrities. The latter cannot understand it when a man does not thoughtlessly submit to hereditary prejudices but honestly and courageously uses his intelligence.”
(Albert Einstein)


A tua arte é o dom da manipulação dissumalda enbelezada com o que denominas romance. Mas não é romance, é uma forma de viver tao triste quanto qualquer outra. Não não é romance, é a mais triste forma de se viver porque, se vires bem, nem tu acreditas profundamente na tua mentira que não passa de uma ilusao faminta .
Por isso o nunca compreenderás. Para ele a vida é romance, viver é sentir o Amor brilhar-lhe nos olhos; viver é a propria definiçao do ego dele. Porque ele é estratego e é genial na forma como vive, como encara o acto de viver. Como saboreia o vento a beijar-lhe o rosto ou o mar violento no final da tarde de Inverno. Ah sim ele é inteligente, é iluminado e tu não. Enfeita as pequenas artes da vida com ornamentos simples e profundos, nada para ele é linear sem deixar de ser, implicitamente, simples.
Mas para ti o romance é o vazio que tens no teu peito, a tua mediocridade está tao colada ao coraçao num abraço de simbiose que és esse ser negro, aparentemente fragil. Aparentemente doce. Aparentemente só aparentemente. Porque a tua arte, a tua única arte, é o dom da manipulaçao dissmulada, o dom de conseguires inverter a simplicidade dele em algo banal. O teu dom é denominares os crimes existenciais que praticas romance porque são em nome de um ideal ( o teu ideal) que é fantasma, que é inocuo e infertil. Um ideal antigo e gasto, corrompido pelas crueis certezas da vida.
Mas não ele. Descodifica as pequenas intrigas da realidade segundo padroes, observa os pormenores e interpreta-os segundo as leis da matematica, da fisica e da filosofia. Procura a uniao perfeita. Vive segundo o momento tornando-o imortal ao assumir a efemeridade de tudo o que existe.
E tudo o que sabes fazer, tudo o que procuras fazer, é rompe-lo, rasga-lo. Porque o não compreendeste o nunca compreenderás. Ele é um génio, um artista, um ser iluminado pela junçao do raciocinio com a maxima sensibilidade humana e tu és esse ser antagonico ao dele. És uma fraude com um ego demasiado mediocre para conseguires aguentar viver sem te alimentares da ruína que lhe causas.

domingo, 24 de outubro de 2010

Desafio XLI- Resposta

http://www.youtube.com/watch?v=_mVW8tgGY_w

Oh tu não entendes e sinceramente não me considero capaz de te explicar. Porque a liberdade , quando a sinto no peito, uma tranquilidade diferente nasce-me no ego. E é melódica e é harmoniosa e é perfeita. Perfeita. A liberdade é perfeita. Tens de a ouvir, tens de a sentir. A liberdade é azul mas tens a visão do teu espirito enclausurada para as cores do mundo, se não ves te não posso explicar.
Chamas-me louco. Porque não valorizo a minha vida? Oh não. Não. Quero ser livre. Não. Sou livre. Não me podes tirar aquilo que é meu, aquilo que me orientava neste mundo surdo e cinzento antes de eu definir quem era. A minha vida é liberdade, nasci livre, morrerei livre. Viverei livre. Ouvirás o meu ser elevar-se numa força resistente e calma, numa tranquilidade de ferro impenetravel. Porque sou livre. Porque me podes torturar, podes fazer-me desejar uma morte rápida. Mas nunca me tirarás a liberdade, se morrer morro livre. Sou livre. Tens razao , é um destino triste. Porque morro. Mas sem liberdade já morri. Sem liberdade era como tu, um morto a passear-se pelos vivos a fingir que o sopro da vida não se esgotou no teu peito por seres apático e fraco.
Não existe vida sem liberdade, sem sentires a benção de estares vivo. Mas te não consigo explicar. Seguia-o sim, seguia o Herói até à morte e para alem dela. Porque ele era livre, porque inovou a propria liberdade. Seguia-o até a minha morte e para além dela porque tambem sou livre, livre de escolher uma morte digna.
Oh tu não entendes. É a liberdade que existe em ti e que tu não entendes. Que tu desprezas. Queres essa vida calma e estavel, sem terrores ou pesadelos. Mas a não escolheste, foste ceifado pela tua propria fraqueza. E um dia arrepender-te-ás. Porque não escolheste a liberdade, faltou-te coragem para morreres por aquilo que é teu. A tua liberdade.
Oh sim eu sigo-o. Sigo o Herói até à morte e para alem dela. Não ha nada como sentir a liberdade a romper, suavemente, da pele. Senti-la a aquecer o meu coração, a consolar o meu espirito. A arrepiar-me cada pedaço de pele e de alma. A oferecer-me uma nova força, uma brutalidade bélica crua mas não inocuamente violenta. A oferecer-me a força estrondosa e invencivel de ser livre. Porque poder-me-ás matar, ah, é tao facil o meu sangue é igual ao teu. Mas morro como homem livre, o meu espirito é livre (e o teu não).
Ah te não consigo explicar porque largas a tua liberdade no lixo como se não fosse importante. Um dia arrepender-te-ás porque sem liberdade tu não existes, não tens reflexo.
Sinto-a agora a correr-me nas veias. Os olhos fechados sentem o som melódio e harmonioso. Perfeito, a liberdade é perfeita. Divina. Ah, é um chamamento. É uma honra. Sigo-O até à morte e para alem dela. Porque sou livre. Porque o Herói sempre o foi, mesmo quando o não era.

Desafio XL- Resposta

O tédio. O tédio é o ínicio de todos os graves pecados do mundo. Não? Experimenta ocupar a tua mente e o teu espirito com uma ideia em movimento, experimenta alimentar continuamente o apetite de descobrires e explorares novas coisas, novas realidades e diz-me se alguma vez te aborreceste. E, depois, diz-me se alguma vez cometeste alguma extravagancia mal fundamentada e desvairada. Porque isso é o tédio, uma experiencia que termina em grande plano mas sem um bom sustento para o teu ego.
É um ciclo. Cometerás erros se desejares conhecer novos mundos, novas perspectivas. E falhas, claro, se preencheres sempre a tua curiosidade sobre a novidade , falharás algures. Mas não serão pecados, todas essas situações nascidas de uma ideia extenuante e cheia de uma periogosa adrenalina inovadora têm uma percentagem de uma moral que não deixa de ser curiosa. Porque és tu, és tu a elevares-te no pior ou no melhor mas és tu. Sabes o que fazes . Mais. Sabes porque é que fazes. Queres alimentar a tua visao do mundo, queres ser maior. Necessitas de saciar essa vontade de sentir toda a existencia do mundo num pedaço de pele.
Mas as ideias que nascem do tédio não são assim. A tua mente fica em branco, o espirito torna-se pouco nítido. Estás a entrar no domínio onde nada existe e como o nada não é possível acordas. Abres bem os olhos e esticas os musculos mas o teu espirito continua desfocado. Por isso é que os maiores pecados nasceram do tédio. Depois de não se ter ideia alguma só uma péssima ideia poderia surgir. E a seguir a isso, logico, um péssimo acto com ausencia de uma qualquer moral. De qualquer justificação bem fundamentada.
Não te deixes envolver pelo tédio. Corroi-te o corpo, corroi-te mente, corroi-te o coraçao. Deixas de ser tu e ideias mal compassadas e estáticas surgem-te para que não morras de tédio, perdendo a consciencia humana cheia de uma moral curiosa que te torna homem.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Desafio XXXIX- Resposta

Ele amou-te mas que importa isso para ti? Nada. Disse-te que o amor era inutil para ele , que era irrelevante. E quando um dia se foi embora, nunca mais voltou. Nunca mais voltou para ti. Mas para ti o amor não era inutil nem irrelevante. O amor era tudo o que te fazia levantar da cama no dia seguinte. E o amor dele, o ser dele, era o teu sol de Verão que aquece e ilumina.
Mas nunca mais ele telefonou. Nunca mais lhe ouviste o riso alto e exótico. Nunca mais viste o seu rosto tao belo, tao peculiar e desumanamente belo. Porque quando se foi embora, deixou-te o pedaço de coraçao de pano negro dele que te pertencia. Para nunca mais voltar. Porque o amor para ele era inutil mas sabia que para ti não era, tornou o sentimento real , para não ficares com nada. Amava-te, ele, te nunca esqueças disso. So que já não pode voltar.
Mas, às vezes, quando caminhavas na rua e alguem se parecia com ele uma esperança moribunda e triste nasciate no peito, os teus dedos ganhavam vida. O coraçao entregava-se ao fogo expectante e ardia de tristeza. Porque não era ele, sabias que não era ele. Mas o teu ser preferia essa ilusao, essa pequena ilusao de felicidade durante uma fracçao de tempo. Porque já nem o consolo da ausencia de vida tinhas, tinhas menos do que nada e nada disto é possivel. Tinhas muito menos do que nada e, nesses momentos, abrias o cofre e seguravas com carinho o pedaço de coraçao de pano dele. Era tao fragil e ele é este ser, que um dia se foi embora e no dia anterior já não estava mais contigo.
O tempo passa sempre e congela sempre a dor mais crua e aguda. A tua memória dele tornou-se desfocada, perdeu nitidez. Deixaste de te lembrar exactamente de quem ele era, deixaste de ter um referencial para procurar. Continuaste à espera do telefonema mas como nunca o recebeste habituaste-te a não espera-lo.
E , um dia, ias a caminha na rua e ouviste o riso dele. O teu coração reconheceu-o de imediato. Lembraste-te que nunca te telefonou e que agora estava ali, igual ao que sempre foi. E deste-lhe o teu pedaço de coraçao de pano que lhe pertencia, que lhe pertenceu durante todos estes anos porque tu já não eras tu. Porque ele era o teu Sol de Verão e na ausencia dele tornaste-te na pessoa que ama o Inverno. A memoria dele passou a ser desfocada, o teu coraçao ardeu. Tu já não és tu por todas as noites que não dormiste à espera do telefonema dele, do telefonema que ele te prometeu que nunca faria.
Ele tornou o teu amor inutil.

Desafio XXXVIII- Resposta

Ah não te consideras pouco ou mesquinho? Não claro que não, como poderias tu, tudo o que vês é tudo o que és. Vês pouco, julgas muito, condenas em vácuo. Não importa o que almejas ser o teu horizonte é demasiado curto .
Mas poder-me-ias ouvir , só por respeito. Só por uma questao de não deixares transparecer que essa tua opiniao mediocre que te define é tudo o que tens, se a puserem em causa morres vivo e amanha estaras morto, estando vivo ainda.
Oh vá lá não faças isso não me tentes distorcer e estrangular o coraçao até te estou a tentar ajudar. Estou-te a tentar dizer que tens uma leve hipotese. Não reajas assim ao choque, não o critiques, não o abomines. Não o condenes porque vês um pecado monstruoso. O choque é te util para ti enquanto Homem que deseja ser melhor. O choque é te util porque te obriga a reflectir. O choque faz-te ponderar sobre tudo o que tu já conheces, sobre tudo o que consideraste que já conhecias. Sei, eu sei, o choque bruto e aberto é extraordinariamente desconfortavel. Tens a tendencia da repulsa, da repugnancia , tens intrinseco em ti o acto de virar a cara e condenar sob julgamento moral.
Sob o teu julgamento moral, não ajas dessa forma de pessoa minuscula que diz que o seu valor moral é o valor moral do mundo. Sabes que o não é, tens as tuas opiniões que são verdade absoluta para ti. E é isso que o sentimento de choque explicito te faz. Reflectes sobre as tuas opinioes, consolidas as tuas teorias ou deixas a mente fluir para encontrares outras. O choque é o exagero máximo que te deixa formular uma opiniao fudnamentada. Uma reflexao válida. Porque, ouve-me, não importa se o que pensas é verdade absoluta, interessa que seja válido. Os argumentos têm de ser válidos, a verdade não deixa de ser sempre subjectiva.
Oh vais morrer assim, de mansinho. Nem as tuas cinzas vao conseguir não serem apenas isso. Pedaços de uma existencia pequena e mediocre, altamente parasita. Porque? Porque?! Porque nunca quiseste ser salvo pelo sentimento de choque, pela repulsa do choque. Levantaste a mao e condenaste porque para ti, para a tua verdade absoluta ,era pecado.
Mas normalmente o choque é fundamentado. É valido. Normalmente, o choque é uma forma extraordinária e perspicaz de te fazer passar uma mensagem de uma forma tao excentrica que te obriga a reflectir sobre ela. O choque é o inverso da discriminação, dos tabus, das convençoes sociais visiveis e invisiveis. O choque é te util e tu sempre o condenaste. Morrerás porque recusaste ser salvo por esse sublime sentimento que te alcança quando podes não ter razao. E morrerás assim, pequeno e mediocre. Parasita. E ninguem chorará por ti porque nunca causaste choque algum. Nem quando agias sob pensamentos radicais extremistas, cheios de uma falta de humanidade decorada com carnificina. Ninguem se importará porque nunca causaste choque, foste simplesmente mais um inutil cru que viveu neste mundo. E nem sequer foste bom o suficiente para esse papel.
Ironico, não? Devias ter-me ouvido porque eu fui educado pelo sentimento de choque em bruto.

Desafio XXXVII - Resposta

Estava lá sentado calmamente. Confortavel e dístraído enquanto o vento marítimo brincava com o seu cabelo vermelho. Parecia absorto do mundo que escorria debaixo dos olhos de mar dele. A vida que sustentava a existencia da praia era lhe tao distante e estava tao perto.
Tinha sempre momentos daqueles em que o mundo circundante tornava-se desfocado porque estava em auto-reflexao e não se apercebia do quanto atraia as mulheres com a sua beleza peculiar e postura carismática. Não queria saber, intrinsecamente, sabia so por respirar que nenhuma delas o interessava.Se fossem carismáticas não se exibiam daquela forma tao banal.
E esta percepção sempre foi a sorte estranha que o acompanhou. Não era sortudo numa tonalidade aleatoria, tinha sorte aos jogos que exigiam um raciocinio astuto. Alias, era mestre nesses jogos que favoreciam quem tinha uma percepçao perspicaz rapida da realidade. Ele era um estratego brilhante. Insconscientemente, inatamente, inocentemente brilhante.
Bebeu devagar o café. Fumou devagar . Deuses, ele tinha sorte ou já não estaria vivo. Mas, ao mesmo tempo, tinha mérito. Era mestre em aproveitar as oportunidades que surgiam quando nasciam dos seus dedos. Sempre foi mestre em morrer honradamente pelo ideal que o move. Sempre procurou problemas existenciais que lhe acrescentavam uma certa irresponsabilidade e sempre teve perspicácia suficiente para aprender com eles e sair vivo assumindo-se na maior plenitude de toda a liberdade que podia ter. E isto não foi sorte, a sorte vem depois. Sempre foi uma mistura de favorecimento não-aleatório do Universo com a mente aberta e astutamente perspicaz dele.
A vida continuava a escorrer na praia, eram os ultimos dias de Verão. O mar nunca parecia tao bonito como nos ultimos dias de Verao. O fim das coisas enche-as de uma beleza utopica.
E ele sempre teve esta mente minuciosa e consciente. O mar de Inverno, violento e triste, sempre o fascinou mais. O mar de Inverno era so seu porque ele era dos unicos que amava verdadeiramente o mar. E isto não é sorte a sorte vem depois.
Encostou-se para tras e riu-se baixinho e discretamente. As mulheres que o rodeavam devem ter pensado que era louco e ele confirmou a sua teoria. So um louco reconhece outro louco e se sente tao confortavel ao ponto em que descobre que loucos são os que não são loucos. São tao desinteressantes que são loucos, negativamente. Como elas. Vazias. Se não fossem inócuas seriam loucas e se fossem loucas o não encontravam atraentemente louco. Viam alguem igual a elas.
Conseguia, no final, nunca errar um pensamento sensorial porque, sempre brilhante, começava por se deixar fascinar por aquilo que passa despercebido a maioria das pessoas. Os pequenos pormenores que ninguem considera relevantes . Não tinha sorte, tinha sorte por saber esmiuçar espontaneamente as oportunidades que o espirito dele criava.
Sentou-se de novo direito na cadeira. Era uma sorte gostar mais do mar de Inverno. Não era uma sorte ser o ser que ama o mar, que procura o sentimento de paz e faz da praia um Santuário. Isto não é sorte, é ele que é este ser suficientemente astuto para ser abençoado com a sorte.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Desafio XXXVI- Resposta

É incrivel como no quotidiano arrastado as pequenas coisas tao cheias de uma beleza suave se tornam aborrecidas e uma luxuria bem fundamentada e legitima conquista um espaço fixo num coraçao que se sente a sufocar nessa monotonia escorregadia.
Mas agora, com o seu amor morto, ela nem sequer consegue verdadeiramente lembrar-se desses tempos. Sentada ao lado da lápide dele, tudo o que sente é um amor cheio de uma saudade avassaladora.
Mas a verdade é que o conceito de rotina sempre foi independente do conceito de Amor. E ele era só isso, um pedaço de passado que, no agora dela, so prometia um futuro infertil por não a preencher com ilusoes que um dia serão verdades. Dizer que o não amava era uma meia verdade. Não o amava, ate certo ponto e por outro lado, ama-lo-ia sempre. Há coisas pequenas cheias de beleza que nunca se repetem. Mas a rotina monotona dele impos-se sobre qualquer amor que ela lhe tivesse, o sorriso dele tinha sempre o mesmo angulo caloroso. Não havia espaço para algo novo , tinham envelhecido . Não, ela tinha envelhecido, ele estava simplesmente igual. As aborrecidas actividades dele tao regulares mantinham-no jovem.
Foi para se libertar desse sufoco que se impunha no ser dela que decidiu perder-se num lugar qualquer e o encontrou, ao outro. Nada tinha que ver com o seu amor ( tao sem vida, agora). Era fugaz, fazia-a sentir-se viva. Dava-lhe o que ela julgava que lhe faltava, uma qualquer mudança. Não que o amasse, mas nem sempre o amor so por si é suficiente.
Sentada tao lealmente ao lado da lapide dele, recorda-se sem falhas de memoria do dia que mudou todo o rumo da vida que tinha. Combinaram encontrar-se no restaurante e ela decidiu terminar o que já não existia e contar-lhe que era o fim e que tinha outro. Outro que tinha para lhe dar o que ele não dava. Tencionava ser breve , havia uma enorme mudança que sentia a crescer no peito.
Mas nunca lhe disse isso. Passou a mao pela pedra fria, nunca lhe disse nada disto. Porque nesse dia o rosto dele tao belo e tao suave tinha uma sombra negra a ilumina-lo. Foi quando lhe disse da sua morte que estava para breve. Foi quando lhe disse que tinha uma doença terminal. E ela amava-o apesar de o não amar, uma verdadeira compaixao instalou-se e deu-lhe os melhores meses da vida dele. Seriam os ultimos, que importava que fosse ilusao? Que importava que fosse um papel que ela cumpriria?
Passava longos tempos no cemitério ao pe dele. A rotina parecia acalma-la, suavizar a falta que ele fazia. Na verdade, era o que mais a magoava. A falta que as rotinas aborrecidas dele lhe faziam. Porque, quando ela fez tao perfeitamente o papel de o amar, de partilhar e de sorrir as rotinas quotidianas dele, tornou-se nesse ser. Que o ama, que ama as rotinas. Que se enche de alegria so de ver o sorriso dele, sempre tao igualmente caloroso . Ao representar uma personagem , do interior para o exterior, tornou-se na personagem que representava. E por agir como se o amasse acabou por ama-lo de novo, apesar de nunca o ter deixado de amar.
É incrivel como as pequenas coisas cheias de uma beleza suave se perdem no quotidiano arrastado. Ela desejou a mudança e teve-a. A mudança foi a rotina, passou a cumpri-la em vez de a descartar. E vai todos os dias ao cemiterio, sentar-se ao lado da lapide dele. Fica quieta e em silencio e quando algum homem com um sobretudo preto igual ao que ele usava sempre, igual aquele que ele prometeu que se desfazia por estar demasiado gasto mas que mantinha sempre. Os olhos dela enchiam-se de esperança de que fosse ele.
Por agir como uma mulher apaixonada tornou-se numa. E por representar um papel com amor , tornou-se no papel que representava. A mudança alcançou-a e ela nunca mais foi a mesma.

domingo, 5 de setembro de 2010

Desafio XXXV- Resposta

Deixa-o só. Há alturas em que a dor é inevitável e às vezes o amor é so isso. Uma forma bonita e melodica de ter como reflexo o rosto da propria dor. Deixa-o só, deixa-o em paz. Se o amas, deixa-o ser livre. Se ja o não amas respeita-o, isto é tudo o que tem, esta tentativa de se tornar livre, senhor de si mesmo. Respeita-o porque ele tem o coraçao pequeno, não consegue auto-disciplinar-se o suficiente para se respeitar. Intrinsecamente.
Que importa que tenha sido amor. O passado às vezes é apenas um cemitério triste que ele visita para encarar a fatalidade de que nada daquilo existe. Que importa que ainda seja amor, ele so quer ser livre. Deixa-o ser só, não te quer aqui. Quer ser livre, quer ter como reflexo uma dor que seja só dele. Não o incomodes, mesmo que o ames. Se o amas deixa-o só. Porque no final, no final de cada dia so tem no peito a marca da dor, os dias felizes cheios de sol contigo estao enclausurados na memoria. Não que sejam inuteis, não que sejam insignificantes. Simplesmente deixa-o só, não o obrigues a visitar o cemitéro. Para ele os mortos morreram, não os teme e o amor que lhes dedica causa-lhe desgosto nenhum. Não o faças descer ao seu profundo cemitério perguntar-se se o amas ainda, se respiras ainda.Para ele os mortos morreram, não lhe quebres esta esperança. Porque é inutil, é inocuo. Não o perturbes, esta paz é tudo o que tem, é o principio de uma nova liberdade. De uma nova vida. Deixa-o só, mesmo que o ames já aqui não estas. E ele deseja ser senhor de si proprio, quer ver no reflexo do espelho o futuro não o passado.
Por isso deixa-o so. Não lhe retires esta calma tranquila que chega depois do pronuncio de morte. Não o perturbes. Não lhe cortes as asas com essa faca pontiaguda de desespero e de amor. Não lhe faças isso se o amas. Porque ele tem esta necessidade de ser maior e melhor que a memoria do que foi, tem esta fome do infinito, esta vontade de tocar o inalcançavel horizonte. Não lhe ofereças tao pouco como a hipotese de o amares depois de ele ter como reflexo todas as noites a dor a sorrir-lhe do outro lado do espelho. O que quer que lhe ofereças não chega, já não lhe chega. A tua voz, a doçura da tua voz... não que não tenha saudades apenas já não é suficiente. Se lhe curasses as saudades que tem tuas era como se preenchesses o vazio dele com algo horrivel. Era como se assassinasses a sede dele com agua salgada. Se o amas ainda, deixa-o so. Já não é suficiente, pensares que é e forçá-lo a aceitar é cortares-lhe as asas e esperares que ele voe.

Desafio XXXIV - Resposta

A verdade é que sempre tiveste esse encanto alternativo e ela sempre te amou por isso. Tinhas o encanto de ter encanto nenhum. A segurança e a estabilidade que brilhavam nos teus olhos de uma forma tão solitária e afável tornavam-te único. E ela amava-te por isso, por seres alternativamente melhor.
Tinhas o encanto de ser desencantador. Eras alguem limpo e distante dos pecados do mundo. Eras alguem melhor , cheio de uma energia boa e iluminada, direccionada para fazer o bem. E ela amava-te por isso mas em noites de consciencia profunda , uma voz grave e caótica sussurava-lhe que eras bom sob proposito nenhum. Para proposito nenhum. Ela amava-te mas não eras melhor, tinhas um espirito disforme de uma forma alternativa.
Mas ela amava-te por teres o encanto de não teres encanto, eras o melhor ser que alguma vez existiu. Não necessitaste de ter no ombro a marca dos condenados a morte para rejeitares viver na escuridao e procurares o iluminismo. Não precisaste do conceito de dor e de morte para seres feliz. Ela amava-te por seres bom sem precisares de ser o melhor.
Mas a verdade é que o único encanto que tinhas era o de não ter encanto. O teu ser demonstrava-se tranquilo e condescente perante tudo. Mas o que era o tudo para ti? Uma felicidade fácil de comprar em cada esquina, uma alma tao limpa dos males do mundo que se torna ignorante. Ela amava-te mas algures esse teu encanto de não teres encanto algum tornou-se numa ilusão que lhe escorregava dos dedos. Não te amava menos, amava-se a si propria menos. Era o encanto dela, ter o coração no sitio do cerebro e as maos cheias de uma esperança numa fé de um melhor conceito de existir.
A verdade é que ela te amava e isso era inutil. Não era insignificante mas revelar-se-ia inutil. Eras um homem sem um encanto honesto no seu gesto mais pequeno e peculiar. Eras limpo dos pecados do mundo e , exactamente por isso. Não viste que cometeste o pior deles. O aborrecimento. Deixaste-te ser espectador da tua propria vida nunca conseguiste ter o papel decisivo de narrador ou de contador de historias. Eras simplesmente alguem com o encanto de não ter encanto nenhum que vivia num clima de paz sustentado por tranquilidade infundamentada.
Ela amava-te mas não era como tu. O encanto dela vivia na forma como encarava os desafios, como era responsavelmente irresponsavel. Como lidava com o desejo ardente de ser inconsequente e escolher se-lo. Ou não. Mas tu tinhas a tua vida cuidadosamente limpa e arrumada, tudo encaixado. E algures isso, essa arrumaçao com proposito nenhum, projectou-se no teu ser, no teu rosto.
E ela amava-te. Assim. Com o encanto de teres encanto nenhum. Via-te bom e tranquilo, quase intemporal. Mas algures perdeste o encanto. E algures ela perdeu o encanto e deixaram de se reconhecer. O encanto está no que fazes com o caos, não na ausencia dele.
A tua alma tao limpa dos pecados do mundo deixou-se corromper pelo ser dela, tao melodicamente irresponsavel e encontrou um mundo paralelo impossivel de existir. E ela rejeitou ter o seu caos interior organizado sem um bom fundamento. Lá no fundo, em algum momento, ela compreendeu que eras demasiado limpo e demasiado bom e que isso era detestável por ser uma limpeza unicamente superficial, no fundo eras igual a qualquer um.
Ela amava-te porque ela era o caos. Mas o que eras tu?

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Desafio XXXIII- Resposta

Não existem coincidencias porque te moves sempre num intuito de preencher um proposito. Não existem coincidencias porque tudo é fundamentado.
É verdade que este dia infértil define quem não és mas tambem é verdade que isso é uma escolha sensorial tua. Porque quando a maioria dos teus semelhantes aproveita as reminiscencias deste vazio para decidir quem são tu afastas-te do que nao és. E isso é uma escolha tua que não existe, coincidencias não existem.
É certo que este é so um mau dia. Objectivamente. Com propósito nenhum. A tua fome primitiva de satisfazer pequenas curiosidades avassaladoras perde importancia perante a triste fatalidade desta vertente cinzenta da vida. Mas esta realidade é muito maior que tu, atribuis-lhe significado. Só isso. E apenas isso. Esta realidade existe para alem de ti, depois de ti. E tu sabe-lo tao bem ao ponto de, inatamente, este dia ser um dia vazio. Sabes a extensao da tua impotencia, da tua fragilidade.
Porem não es como os outros. Procuras o que és e não quem és, coincidencias não existem. Há certos erros pequenos existenciais que nunca cometes, compreendes perfeitamente que escolhes a equação matemática que se adequa melhor, que soa melhor, a mais correcta. E depois realizas pequenos e discretos testes para garantires a validade da resposta. Procuras a calma e a segurança de uma equação para encontrares a resposta que sentes mas não consegues ver. Mas nunca te esqueces que foste tu que escolheu a equaçao , não o inverso.
Reconheces que esta realidade é muito maior que tu e que, por sua vez, a matemática é abstracta e intemporal. Está muito para alem de qualquer realidade. A verdade é que tu escolheste a equação, procuraste uma resposta válida e verdadeira. Isso torna-a correcta mas não demonstra a sua exclusividade. Porque a equaçao responde-te a um problema que só tu sabes qual é. O facto de estar correcta apenas prova que foi uma escolha tua porque os acasos não existem. Não existe necessariamente uma relação estreita entre a realidade e a matematica porque tu és fragil. E apercebes-te que precisas de , inconscientemente, atribuir significado a tudo. Não existem acasos porque não sabes o que existia antes de poder existir o acaso.Nao consegues ser imparcial ou pensar, intrinsecamente, como se tu não fosses tu, os acasos não existem porque não sabes se eles verdadeiramente existem. A matemática é infalível e tu dás-lhe um porque ocasional .
Existem dias assim. Inférteis. Mas tu decidiste que estes momentos de chuva densa definiam o que eras. E quem não eras. E não és isto, alguem demasiado fraco para assumir que morre e que a matematica é a realidade suprema por ser abstracta que consegue prever a tua morte e existir para alem da compreensao do teu cerebro. A concisao e exactidao matematicas são utilizadas para estabelecer as leias da tua realidade, são usadas como referencial. Nunca o inverso.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Desafio XXXII- Resposta

Tu mentes e às vezes a mentira é inocente, é ingénua. Ás vezes a mentira é uma ilusão que gostavas que fosse verdade. Tu mentes as vezes para não teres a consciencia bruta de que o fogo consome a tua existencia, de que vai consumir a tua vida. Entao mentes, talvez procures mais tempo para descobrires como consertar-te. Talvez queiras acordar já queimado e desfeito e dedicaras-te a lamentar e a sobreviver.
Mas não ele. Bem, talvez procure enganar-se tanto como tu ( não tentamos todos?). Talvez tambem seja invadido por esse conceito de um melhor ideal que sustenta a mentira mais simples. Mas tem momentos de dura lucidez, de consciencia em estado cristalino e bruto. E apercebe-se que mente, mente para fugir à dor. Tenta enganar-se a si proprio para não descobrir que é um animal civilizado. Mais, que somos todos isso. E quase endoidece e depois apercebe-se que é a verdade que o endoidece, a realidade irrefutavel. Ao menos que fosse a mentira a trai-lo. E ele perde-se na traição cuja ignição foi a cobardia legitima dele. E entao pega na folha de papel a sentir-se doido. Não, doido não. Louco. Absolutamente louco. E escreve, escreve até a verdade que o traiu por ser demasiado feia em comparação com a mentira tao bela sair da pele dele. Da mente. Da consciencia aguda .
Tu mentes e esperas que a mentira te consuma, esperas que essa ilusao se apodere da tua vida e que a queime. Quando acordas para lavares o rosto em vergonha já é demasiado tarde. O fogo já consumiu tudo e tu nem sabes quem é a cinza que inicou o processo.
Ah mas ele sabe. Foi aquela fracção de segundos em que teve consciencia que a verdade enlouquecia.Aquele momento curto e singular em que se apercebeu que teria sido mais facil se nunca tivesse cedido a tentaçao da mentira salvadora que é sempre ilusao. E escreveu, escreveu sobre os pensamentos à flor da pele. E libertou-se porque desmentiu a verdade crua e incisiva que vive em qualquer boa mentira.
Tu mentes e queres convence-lo de que ele e tu são iguais. Mas ele nada tem que ver contigo, separa-se no momento em que escreve. Porque ele é um poeta e tu não passas de alguem que não aguenta e suporta ser quem é. Mas ele é um poeta, quando a vida arde irremediavelmente, a poesia magnifica que escreve em momentos que se sente louco é a cinza desse fogo clarividente. É nesse momento que descobre que não é louco, minimamente. Quando tudo o resto arde, a poesia é a evidencia elegante da vida. É a pequena cinza irrefutavel que tu não consegues descobrir em ti porque preferes uma mentira boa a uma verdade dura.

sábado, 14 de agosto de 2010

Desafio XXXI- Resposta

O amor corre-lhe nas veias misturado com o proprio sangue. Flui no espirito dele desde que se lembra de quem é ele, do que é ele. O amor é a sombra que o acompanha quando não há Sol , o amor é a solidao que existe tao docemente entrelaçada com o coraçao dele que nunca o deixa só. O amor que o torna individualista, que o deixa só garante que nunca vai ter uma morte vã e triste . Porque o amor , este amor, define-o.
O amor era descontrolado, era fugaz. Ouvia-o como eco das suas proprias palavras, ouvia-o nas ausencias de respiraçao, oferecia ao silêncio uma voz aromatica e fresca. Às vezes fugia do sentimento de paixao, daquela sensação de existir em plenitude, de ser feliz, de ser ele. De estar cheio, de ter o ego realizado. E daquela paz que o invadia , ate os musculos mais cansados se relaxavam. Os problemas deixavam de existir. O tempo tornava-se irreal. A vida quotidiana perdia importancia só importava ele. Ele e o seu amor, entrelaçados num gesto invisivel tao explicito que passava despercebido. Só existia ele e aquela paixao que o dominava sem oprimir quem era ele. O que era ele. Porque ele era este amor intenso e sensorial, quase animalesco, quase violento. E, no entanto, tao sublimemente doce e belo, tao fragil e tao efemero. Tao sedutor por quebrar a envolvencia bruta do mundo.
Às vezes fugia deste amor. Só para lhe ter saudades, só para não o gastar. Só para não correr o risco de o banalizar. Ou de o compreender demasiado bem. Por isso escondia-se ate as saudades lhe secarem o sangue. E entao numa fracção de segundos ele abria muito os olhos e esgueirava-se pela cidade, procurando o caminho mais rápido e mais sinistro. Porque o amor, esta paixao descontrolada que nasceu com ele, quando o encontrava suavizava-lhe o peso da existencia.
O amor corre-lhe nas veias, sempre passeou longamente pelo cais. Para ele qualquer mar é diferente, qualquer mar tem personalidade. Tem uma cor diferente, uma espuma branca com outra tonalidade. Um cheiro a sal com nuances, ele não sabe explicar só sabe sentir é por isso que é tao bom. Tao purificante.
Observa os veleiros, memoriza o corte que deixam na agua. Ouve o som da sua propria respiraçao tao bem compassada com a natureza circundante. Senta-se no cais, ao lado do mar a deixar-se invadir por aquele sentimento de poder . Poder de ser qualquer coisa, sentir qualquer coisa. Qualquer coisa é possivel porque ele esta em paz. Ali, ao lado do mar, todas as reflexões, todos os pensamentos perdem importancia. Só sente, ele. Só tem percepções que lhe relaxam os musculos, que lhe adoçam o espirito. Tudo é possivel. No cais, com o clima de sal e espuma branca, ele é ele . Não pensa sobre quem é mas sobre o que é. E é isto, um eterno amante do mar. Do azul infinito e do som agradavel da agua. Da visao dos veleiros a deslizarem tao elegantemente pela agua. Ele é este ser.
E às vezes, quando o amor se torna violentamente intenso ele atravessa a praia e alcança o promontorio. Vê um conceito de fim do mundo, vê um conceito de principio, porque foca-se sempre no mar e não na terra. Vê o inicio onde só existe o fim. Vê a infinidade azul , vê o paraíso. Vê o seu proprio ser reflectido no extenso mar azul fino. E a forma como o mar se move é o reflexo de todas as sensaçoes e percepções que lhe rasgam a pele sem a romper. Estão em perfeita sintonia , desde a onda mais violenta à onda agradavel, suave e meiga.
O amor corre-lhe nas veias. Não sabe quem é, esta em continuo movimento. Mas sabe o que é quando esta no cais e o mar se torna no seu reflexo , na sua imagem. Um ser indecifravel que vive daquilo que sente, daquilo que deseja ser para permanecer em harmonia consigo mesmo. O ser que tem esta paixao maritima entrelaçada com as memorias passadas que definem o que é.

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Desafio XXX- Resposta

Provavelmente esta diferença conceptual existirá em nós até ao fim. Dois seres com duas percepções de fracasso diferentes.
O meu erro é evidente, é explicitamente cru. Tenho no peito um ego faminto por uma novidade que não perca o encanto , que nunca se torne numa rotina vazia de um velho ideal arruinado pelo conceito maduro de envelhecer. E este ego sedento de uma agua que me mantenha vivo orienta-me para esse mundo relativo onde se falha sempre, inevitavelmente. A dinamica que procuro impõe a derrota para que a vitória possa ser em plenitude, digna e timidamente magnanima.
Mas o teu erro é discreto, é pequeno quase insignificante. Vives nesta realidade onde ser feliz é saber ser ignorante e ignorar a subtileza de existir e persistir sempre que respiras. Nunca pensaste em sentar-te , paciente e calmo à beira-mar e contemplares o azul profundo infinito e salgado? Nunca desejaste respirar fundo, sem tristeza ou revolta, sem mágoa ou ressentimento e observares um pormenor interessante que te escapa no quotidiano padronizado? Alguma vez sentiste o mar salgar-te a pele e sorrires por estares aqui, vivo sem preocupações sobre qualquer futuro , indefinidamente indefinido, ou sobre qualquer passado cheio de arrependimentos incertos e imprecisos? Nunca desejaste fugir porque te apeteceu não estar aqui apenas, nunca quiseste fugir para sitio nenhum? Alguma vez sentiste no teu ego um desejo de seres genuinamente condescendente e encontares em ti a coragem para desculpar porque, intrinsecamente, apercebeste-te que és ninguem para julgar e perdoar . Também tu cometes inumeros erros, so os desculpas porque os entedes.
Não. Nunca quiseste nada disto, nunca quiseste esta felicidade ou esta moderação epicurista de existir. Na verdade, a tua compreensao das minhas palavras fica-se pela dedução logica da compreensão literal que fazes.Sentes nada.Imaginas nada.
O teu erro é teres um coração grande e uma fraca e doente imaginação.E onde não existe esta imaginaçao activa e descontraída , não nascem novas ideias, novas perspectivas. Depois perdes a esperança e afundas-te no teu ser sem te aperceberes que te afogaste.
Eu erro. Oh Deus tenho na pele marca de inumeras cicatrizes que poderia ter evitado, talvez. Mas depois sento-me à beira-mar, observo a textura salgada da agua. O meu espirito purifca-se, torno-me nesse ser feliz e complacente. Onde não existe passado ou futuro.Vivo o presente. E o agora é sublime. Não ha tristeza porque sei o que sou.
Temos erros diferentes. Mas eu descanso do meu, se não sabes qual é o teu como é que podes sentir-te feliz ao saber que ele é uma sombra que nunca dás pela presença?