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quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Desafio XLVII - Resposta

"An artist has no home in Europe except in Paris."
Friedrich Nietzsche


Se uma partícula encontrar a sua anti-partícula, é certo que ambas se destroem.

E esta história, era uma história igual a tantas outras, exceptuando que durante o tempo em que foi contada parecia diferente.
Ela era muito nova quando começou a fugir de casa e a encontrar o amor em camas vazias ou caixotes do lixo. Perdeu a virgindade antes de ter perdido a cabeça, pensava ela que era assim que se debatia dos males do mundo e deixava a loucura consumir-lhe o cérebro.
Soube argutamente, escolher os homens da sua vida, era neles que confeccionava a sua estranheza detalhada e era neles que encontrava a sua inspiração. Dizia ela que escrever assim, era melhor, primeiro sentia o horror da vida e depois, quando se fartava de vaguear voltava para a secretária e escrevia sobre a sua vida. Por isso, tentava albergar dentro do seu tenro corpo todos os amores e ódios e mudava de tema e de coração como quem muda de roupa para ver qual lhe assenta melhor.
E na verdade, foi assim que foi tendo sucesso, na sombra das pessoas que escutavam a sua história e a achavam diferente e ousada, sem consultarem no livro o tamanho da aldrabice dela ou o tamanho da sua própria mediocridade.
Um dia, convenceu o seu amante a levá-la a Paris, pois sabia desde criança que era lá que os artistas se fixavam e ela queria agora escrever na capital francesa, pisar todos os pontos obrigatórios para se ser artista – e julgava ela que aquela vida pensada ao pormenor de originalidade era tudo o que o era preciso.


Como eu fui parar a Paris, foi um acaso da sorte. Em nova, perdi lá um amor e nunca pensei lá voltar. Paris ecoava-me a solidão nas ruas, como se eu estivesse permanentemente a percorrer aqueles corredores de escola vazios em fim de tarde em que todas as crianças já tinham ido para casa menos eu, caída no esquecimento.
Por isso, ao contrário dos artistas, concentrei-me em curar as minhas feridas com álcool que me anestesiasse e que afastasse aquela dor física que eu sentia. E por isso, ao contrário dos artistas afastei-me de Paris.
Em ambientes hostis de aborrecimento, estendi as garras da minha existência, exigindo um direito às lágrimas e à minha tristeza tão ácida que me corroía mais o fígado do que o álcool.
E bebia e fumava sozinha, na escuridão dum quarto. Permanecia por descobrir, atrás de uma cortina negra que me separava da rua - enquanto esperava que aquela dor passasse.
E como nunca engoli os comprimidos de resignação que me deixavam todas as noites em cima da mesa-de-cabeceira com o copo de água para a minha ressaca permanente, fui-me rebelando contra os relógios de parede, contra as portas abertas e os exames obrigatórios. Cheguei a um ponto em que já nem suportava os horários dos autocarros e nesse dia, dei por oficial a minha doença.
Como para me curar dum mal que ninguém sabia qual era, sugeriram-me que viajasse, que apanhasse outros ares. E lá me levantei dum sofá como se o tempo, ele próprio me, tivesse criado artrite nos pensamentos.
Arranjaram-me um emprego em Paris, por ironia. E de malas pouco cheias, voltei àquela cidade de solidão, onde o meu amor ainda andava perdido. E a primeira coisa que fiz, foi percorrer os túneis do metro, à procura dele. Encontrei pedaços dele nas frestas das paredes e nos lugares vazios. Mas voltei para casa, nesse dia, sem o ter encontrado. Nos dias seguintes, fugir à ausência dele tornou-se no meu vício, a única heroína que acalmava o meu espírito.
Até um dia. Era Inverno e chovia muito e eu estava cansada daquela viagem e de todas as outras que nunca fizera. Percorria o metro uma vez mais, e na multidão desenfreada não havia qualquer sinal dele, como sempre. As cabeças mexiam-se como numa dança ondulante e eu imaginei os campos de searas frescos a ondularem ao sabor daquele vento. Quem me dera o céu azul, o vento na minha cara, o chão fresco da terra. Mas só havia a chuva violenta de Paris, os semáforos a gritar com os carros, e a multidão apressada em esconder-me o meu amor. Então, devagar deixei-me escorregar pela parede, enquanto de olhos fechados comecei a cantar. Era uma canção antiga, que me veio à cabeça, falava da multidão e dum amor de braços abertos que se perde. E eu não encontrava o meu. Fui cantando enquanto o frio me consumia: minha voz aquecia-me. Quando abri os olhos, as minhas mãos estavam como congeladas e à minha frente, havia um generoso balde de moedas. Alguém passou e disse de forma comovida, que eu cantava aquela música como a Edith.
E lá do fundo, uma rapariga que me fitava enregelou-se com este comentário. Parecia-se estranhamente comigo, tinha o mesmo cabelo apesar de parecer ser muito mais nova e na sua mão estava pousado um livro e uma agenda como se estivesse estado a escrever.
Olhei para ela de baixo para cima e vi quem eu poderia ter sido. Vi de forma clara a razão pela qual eu nunca encontraria o meu amor perdido. E fechei novamente os olhos.

Mas a rapariga não prosseguiu mais, porque chegou a casa e deixou de escrever.

domingo, 19 de dezembro de 2010

Desafio XLVI - Resposta




“Custa acreditar que não lutas pelo homem que amas”


Que frase tão banal, pensara. Era tão má, que de facto, custava a acreditar. Não saberia ela que também o amor está condenado à morte?
E fora o amor que morrera.
Fora o seu amor que morrera, e jazia agora enterrado em dois corações desconhecidos. E ela nem respeitava a sua dor imensa.
“Não se ama um monstro. E agora, eu sou um monstro” - Ocorreu-lhe dizer.
Mas para ela era como se tivesse desistido, como se tivesse deixado de correr e não desejasse suficientemente a meta. Era como se a culpa fosse sua, como se metade da morte tivesse saído da sua espingarda.
E os seus olhos olhavam-na como culpada – e era-o: culpada de não perpetuar uma mentira.
Por fim, suspirou-lhe para cima:

“Nunca viste o filme? Até a Bela se apaixonou pelo Monstro…”

Que forma tão oca de se estropiar o Amor. Aquilo era uma violação. E como uma vítima sufocada pelo desejo frenético e egoísta, afastou-a com um levantar de boca: o mais parecido com um sorriso que o seu corpo conseguia simular.
Chegou a casa e tomou um banho para secar o esperma do seu corpo. Doía-lhe ainda mais a perda do seu Amor e custou-lhe ainda mais olhar-se ao espelho: um monstro consumido e usado.
Antes de se deitar, porém manteve-se ciente da Morte.
A Bela nunca viu Monstro algum.

Desafio XLIV - Resposta

Wait until the war is over
And we're both a little older
The unknown soldier

Breakfast where the news is read
Television children fed
Unborn living, living, dead
Bullet strikes the helmet's head

And it's all over
For the unknown soldier
It's all over
For the unknown soldier
(...)

Make a grave for the unknown soldier
Nestled in your hollow shoulder
The unknown soldier

Breakfast where the news is read
Television children fed
Bullet strikes the helmet's head

The Unknown Soldier, The Doors



Breve Carta de Suicídio

O meu nome é essa pessoa anónima. Não sabem o meu nome, vocês. E há força de não o saberem, também eu o esqueci.
Vivemos intermitentemente neste jogo de convenções: vocês convencionaram que eu não era importante, eu desconvenci-me disso e estabeleci-me no limite da vida, na borda consciente das não-etiquetas.
Porém, é a mim que me dói a sombra por estar permanentemente nesta guerra oculta. E é a mim que os cabelos embranquecem por estar fora de tempo.
Porém, neste leilão, sou eu que perco.
E nunca achei que a minha vida fosse um pedaço de carne. Por isso, despeço-me com a arrogância de um soldado anónimo que estoirou os miolos, na derradeira tentativa de combater por si - e é essa a única guerra válida.
E é natural que não compreendam esta carta. E que não reconheçam o rosto da guerra: é exactamente por isso que ela nunca se vence.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Desafio XLIII - Resposta

Em cada cem pessoas:
Sabendo tudo mais que os outros:
⁃ cinquenta e duas,
inseguras de cada passo:
⁃ quase todas as outras,
prontas a ajudar desde que isso não lhes tome muito tempo:
⁃ quarenta e nove, o que já não é mau,
sempre boas porque incapazes de ser outro modo:
⁃ quatro; enfim, talvez cinco,
prontas a admirar sem inveja:
⁃ dezoito,
induzidas em erro por uma juventude, afinal tão efémera:
⁃ mais ou menos sessenta,
com quem não se brinca:
⁃ quarenta e quatro,
vivendo sempre angustiadas em relação a alguém ou a qualquer coisa:
⁃ setenta e sete,
dotadas para serem felizes:
⁃ no máximo vinte e tal,
inofensivas quando sozinhas, mas selvagens quando em multidão:
⁃ isso, o melhor é não tentar saber mesmo aproximadamente,
prudentes depois do mal estar feito:
⁃ não mais do que antes,
não pedindo nada da vida excepto coisas:
⁃ trinta, mas preferia estar enganado,
encurvadas, sofridas, sem um lanterna que lhes ilumine as trevas:
⁃ mais tarde ou mais cedo, oitenta e três,
justas:
⁃ pelo menos trinta e cinco, o que já não é mau,
mas se a isso juntarmos o esforço de compreender:
⁃ três,
dignas de compaixão:
⁃ noventa e nove,
mortais:
⁃ cem por cento, número que, de momento, não é possível mudar.
(Wislawa Szymborska)



O meu irmão nasceu grande demais. A minha mãe deu por si na casa de banho a impedi-lo de nascer, ou pelo menos a atrasá-lo entre as dores atrozes que sentia como fios de facas nas pernas.
O resultado foi uma massa disforme e uma mulher pequena esvaída em sangue, distribuídos pelos azulejos brancos.

Como um pronuncio de tragédia atravessada pelas vidas, o meu irmão foi sempre grande demais para os sítios e carregava com ele um inevitável coro de desgraças. Tudo nele cheirava a uma tragédia eminente, como se estivesse marcado com tatuagens ancestrais, anteriores a Deus, que o condenavam a uma desgraça de vida, pior do que a morte.

E era tudo tão paradoxalmente triste, que quando ele sorria eu fixava as covinhas que lhe apareciam nas pontas das suas bochechas. Porque era de mim que ele gostava mais do que tudo.
Em pequenos, fomos estrategicamente separados e nunca andamos sequer na mesma escola. E enquanto eu era aparentemente calma, o meu irmão atravessava o seu corpo desgraçado pela vida e voltava todos os dias com problemas para os meus pais. Era demasiado influenciável e desinteressado. Era demasiado. Sempre.
Mas não comigo.
Era como se eu fosse a única coisa viva da vida dele.

Um dia os meus pais descobriram que ele se drogava, era pouco mais do que um adolescente.
Fiquei fechada no meu quarto, com a cabeça encostada à porta, enquanto eles gritavam com ele e lhe chamavam inútil apesar do tamanho que tinha, como se pelo facto de ele ser assim tão grande devesse mais à Humanidade.
As minhas mãos tremiam agarradas à porta e conseguia sentir as lágrimas invisíveis que lhe saltavam dos olhos. Conseguia ver o rosto lavado daquela tristeza tão entranhada que nenhum dos meus pais, entalados numa vida comum conseguiam descortinar.

Depois desse dia fecharam-no em casa e proibiram-no de se encontrar com os seus amigos, cientes de que eram as más influências que lhe traziam a droga. Sem nunca entenderem que a drogar estava ali em casa e que eram eles que lha davam, quando estipulavam horas para ele ler e ver televisão, acabaram por condená-lo à morte.
E não que ele se tenha resignado. Um dia quando cheguei da escola, ele tinha aberto as janelas e espalhava música para um quintal de prédios todos iguais a não perder de vista da sua prisão.
Porque o meu irmão não era deste mundo. Era grande demais.

No dia em que entrei na faculdade e me preparava para deixar a minha casa, os meus pais foram buscá-lo à rua onde passara mais uma noite, enroscado nas mantas esburacadas que o aqueciam. Ele entrou no meu quarto, afastou a mala meio desfeita e sentou-se no meio da minha cama a observar o tecto onde eu tinha colado o sistema solar fluorescente que brilhava no escuro.
Eu queria dizer-lhe que sabia exactamente o que ele sentia, mas não disse nada. Entre nós a vida sempre fora silenciosamente simples.
Então de repente, beijei-o. Os seus olhos encontraram os meus e não houve nenhum laivo de surpresa. Passamos a noite debaixo dum céu estrelado.
Afinal, a drogada era eu.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Desafio XLI - Resposta

“We don't read and write poetry because it's cute. We read and write poetry because we are members of the human race. And the human race is filled with passion. And medicine, law, business, engineering, these are noble pursuits and necessary to sustain life. But poetry, beauty, romance, love, these are what we stay alive for.”

 
“Bom dia, o meu nome é Lúcia e tenho 27 anos. Sou Engenheira.” Foi assim que me apresentei naquele estranho grupo. Parecíamos alcoólicos anónimos, sentados numa roda em cadeiras desconfortáveis. Quando levantei a cabeça, vi-os a olhar para mim sem muito interesse. Afinal, ninguém percebera qual era o meu problema.


Foi logo aí que eu senti que nada ia mudar.

A psicóloga olhou para mim com um ar condescendente. Fora ela que me trouxera ali. Ela sabia qual era o meu problema, depois de eu lhe ter explicado várias vezes, depois de lhe ter falado de filmes e de músicas que me inspiravam. Depois de lhe ter lido alguns dos meus poemas, ela começou a aceitar. Mas demorou muito tempo. E como toda a gente, nunca entendeu.

Quando todos tínhamos terminado, senti uma vontade incontrolável de voltar para o meu quarto e enterrar a minha cabeça na almofada mais profunda. Todas aquelas pessoas estavam cheias de cicatrizes, de horrores de infância, de maus tratos. E eu voltei a sentir que o horror era meu, que eu carregava o próprio problema, como um filho que estava permanentemente em gestação mas que nunca nascia para seguir o seu caminho.

E entendi a sua mensagem: o meu problema não existia perante o Mundo. Que audácia era a minha de sofrer perante aquela amálgama de cortes nos pulsos, de mortes nas veias e vidas estripadas por pais?

Entendi a mensagem, porque já a tinha ouvido muitas vezes.
Era sempre assim.

E dei por mim a vasculhar horrores na minha vida, vestígios e sobras de alguma coisa que me pusesse em pé de igualdade com aquela gente mutilada com razões para acabar com a vida.
Aparentemente o suicídio deve ser acompanhado de uma explicação. E dei por mim a sorrir com a ironia da situação, porque foi justamente por nunca conseguir escrever uma carta a explicar coisa alguma que a morte me seduzia tanto.

Foi quando passei a porta que uma rapariga veio ter comigo e abruptamente me disse que gostava de me falar. Tinha um ar carrancudo.
“Se alguém te mandou falar comigo, para me convencer que devia seguir a minha vida ordinária, podes ir embora”, disse-lhe eu de mau humor. “Não acho que devias viver a tua vida ordinária”. Mas eu continuei “Se alguém te disse que devia arranjar um escape, um fetiche, uma vida dupla, uma máscara, por favor poupa-me a esse discurso. Já o ouvi tantas vezes que sou capaz de vomitar aqui”. Ela pareceu surpreendida, “vamos beber alguma coisa então, não quero que fiques maldisposta”.
E assim começou a nossa amizade.

Entramos num café e eu disse-lhe de rompante que as pessoas que só pensam em pagar os seus impostos e a segurança social me deixam nervosa. Ela riu-se e pediu dois martínis.
Com o descer do álcool pela minha garganta lisa fui ficando mais lúcida e comecei a achar que tinha sido ridícula: há ainda uma altura em que suponho que dramatizo demais um problema que não existe.
"Desculpa, estou irascível hoje. Aqueles encontros de grupo arrasam-me”.
Depois olhei para ela e vi que era incrivelmente bonita. Mas havia algo de estranho na sua beleza, como se a roupa estivesse mal pendurada num cabide.
“ Eu ando naquele grupo de acompanhamento e resolvi deixá-lo hoje.”
Senti um terreno deliciosamente frágil, como uma porção de areia lisa e virgem na madrugada em que o pisamos.
Não voltamos a falar daquilo, mas também não regressamos ao grupo e eu deixei de atender a minha psicóloga a partir dessa tarde.

Não demorei muito a descobrir porque é que ela frequentava aquele grupo de anónimos. Disse-me frontalmente que queria mudar de sexo.
E eu sobretudo, sabia o que era viver num corpo errado.

Um dia contou-me que já tivera muitos namorados e que o sexo nunca a satisfazia porque ela sentia-se um homem, pensava como um há já muito tempo. E era engraçado ver que era verdade. Quando comecei a sair com ela, a ir ao cinema, a partilhar cafés apercebi-me que era um homem quem ali estava. Um homem retraído e esquisito debaixo de um corpo voluptuoso cheio de curvas.
Não me admirei, portanto, que quando fosse pequena se tivesse achado estranha ao espelho. Inatamente, a sua mente era masculina e isso transparecia nos seus gestos e expressões. E por isso tinha também deixado o mesmo acompanhamento em que eu estava, quando um dos psicólogos lhe disse que ela não era homem nenhum, se nem de futebol gostava.

Passamos muitas horas a conversar. Às vezes ela encontrava-me à saída do meu trabalho, onde me enfiava em números e jogos de bolsa que atiravam a Arte a originalidade pela janela.
Um dia ela perguntou-me como é que eu me tinha metido nesta vida. “Sei lá, disse-lhe”. Nessa altura bebia todas as noites e àquela hora a minha boca já estava pastosa. “Quando era pequena disseram-me que eu tinha jeito para os números e eu acreditei. A mentira tornou-se verdade.”
Ela sorriu-me. “E se agora acreditares no contrário, não podes construir a tua nova verdade?”
“É difícil” e foi a primeira vez em muito tempo que respondia a estas perguntas. “Já construi demasiada vida baseada em Ciência. É a minha aptidão para estas coisas que me paga a renda de casa ou me faz viajar. O meu sucesso é a falta de pressão e de paixão no que faço. Eu sou científica para com a própria Ciência. E é isso que eu odeio em mim, a Ciência está no meu cérebro em cada momento.”
“Não podes usar o teu sucesso para viver a tua criatividade? Adoro quando vais sair do trabalho e passas pelo centro comercial para trocares de roupa. Adoro quando vives essa tua pele em êxtase. És tu. Tu és a pessoa que se veste formal de manhã e se transforma à noite.”
Olhei-a longamente através da noite. Aquilo era diferente. Aquilo não era uma vida dupla para mim. Aquilo era eu, eu era uma vida dupla.

“Porque não amas uma mulher?”

“Quem te diz que não amo?”


Não voltamos a falar por uma semana. Instalou-se entre nós um silêncio desconfortável e comprometedor, que me abafava de medo e ao mesmo tempo me electrizava o corpo. Nessa semana não consegui pegar no baixo, nem tive paciência para a minha habitual mudança de roupa antes de seguir para a escola de música. A janela apanhou-me desprevenida a olhar para um computador onde os números desfocados faziam um efeito engraçado nos meus olhos. Também não consegui escrever e os dias pareceram-me ainda mais tristes do que costumavam ser, fechados entre quatro paredes, durante oito horas. O Inverno também não ajudava com dias curtos preenchidos por trabalho produtivo, nobre e necessário. E também seco, encarquilhado e sem romance.

Por isso liguei-lhe e encontramo-nos debaixo de uma chuva torrencial. Às sete estava escuro como se fosse noite cerrada.
Assim que me viu, agarrou-me num longo beijo. As poucas pessoas que passavam na rua pararam para olhar.

“Estava à porta da tua casa, quando me ligaste”

Voltamos para minha casa de mãos dadas. Eu não sabia se estava apaixonada por uma mulher, ou por um homem que vivia num corpo de mulher. Mas também não queria saber, a vida nunca me parecera tão autêntica.
Enquanto nos despíamos das roupas molhadas coladas ao corpo, ela passava as mãos pela minha pele. Nunca nenhum homem me tinha desejado daquela forma. E eu senti o romance e a unicidade da vida que ela me passava. A verdade é que também nunca tinha desejado alguém daquela forma.

“És a poesia da minha vida”

“És o homem da minha vida”

De manhã, quando acordamos, foi um Novo Mundo que acordou em nós.







segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Desafio XL - Resposta


É quanto dura a memória. Um quarto de tempo escorrido que nem água,
e desapareci.

A tua memória de mim cristalizou-se nas palavras que escrevia todos os dias.
E como um Narciso espelhado nelas, foste o viajante que prendi nos meus poemas
recitados à distância.

E cada vez que o relógio batia a nossa hora, mais um poema desabrochava nas minhas páginas, para que ávido, pudesses ler quem foste.

E engana-se quem julga que o fulgor da memória se esfumava com o bater
das nossas horas.

A cada martelada no tempo, renasciam breves e fugazes os meus poemas, marcando
o ritmo da tua ausência.

Mas no dia em que te perdoei, o relógio voltou à hora que era nossa e ficou confuso.
E como não parou como dantes, perdeu-se o tempo de vasculhar
Dentro mim.

Foi assim que me esqueceste.
Um quarto de perdão. É quanto dura a memória.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Desafio XLII - Resposta



“Tens que ouvir a música” Foi o que eu lhe disse. Estávamos os dois cá fora, o parque prometia um Outono que custava a sair das folhas e do cheiro das castanhas assadas.
“Ouve a música”. E foi assim que o deixei naquele jardim, de mãos dadas com a minha ausência. E as minhas costas tornaram-se num pequeno rectângulo negro recortado no quadro impressionista.



Conhecia-o há pouco tempo, tão pouco que na verdade não o conhecia. Ele foi um corpo pronto a acomodar a minha vontade de imaginar personalidades. E enquanto não fui sabendo quem ele era, ele foi sendo toda a gente.
Quando fomos àquele concerto, naquela primeira noite, estava ainda despejado sobre ele aquele perfume encantador do mistério de não se saber quem se encontrou. Como uma prenda que se guarda na mala e que ainda não se abriu.
Mas quando entrámos na sala, a primeira coisa que vi foi o piano de cauda iluminado por uma luz tépida que contrastava com o escuro dominante do público. Um piano solitário e desprotegido que aguardava que alguém o habitasse.
Foi logo ali que ele passou de ser toda a gente para ser Ele. E comecei a sentir a excitação e o desânimo alternados de começar a pegar na prenda e finalmente abri-la.
Ele olhava simultaneamente para mim e para o piano criando uma linha que me entristeceu. Como se o piano e eu tivéssemos algo em comum.

Sentei-me e ouvi a rapariga tocar. Gostei logo dela, com um amor fácil como o que cultivo pelas nuvens de trovoada. Mais tarde percebi que gostei dela porque ela habitava o piano e não o deixava sozinho.

Durante todo o concerto senti que aquela linha que ele criara se intensificava e comecei a sentir um formigueiro instável. A minha impaciência tornou-se gélida quando após as últimas palmas, a rapariga se levantou e disse que queria convidar uma pessoa do público para tocar um pouco. E imobilizei-me quando ela disse o meu nome.
Finalmente percebia a razão de tudo aquilo. Porque tudo tem um propósito e todas as prendas acabam por ser abertas.

Levantei-me e sai da sala. O coração doía-me dolorosamente e sentia o corpo a encher-se de raiva. Com passos curtos e determinados dirigi-me à saída. Lá, ele estava à minha espera como se tivesse ultrapassado o tempo. Parecia assustado e arrependido e isso só me enfureceu mais.
“Só queria que tivesses a oportunidade de tocar num piano!”

Lembro-me que olhei para ele como se fosse uma formiga, um bicho indesejável que viajara comigo preso ao meu casaco. Ele já não era toda a gente. Ele era Ele. E era Dele que eu não gostava.
“Eu não toco em pianos” e afastei-o da minha frente, para finalmente entrar na noite húmida.

No dia seguinte ele ligou-me e de todas as vezes eu desliguei o telefone, adiando-o. Todo aquele mistério que ele carregara desaparecera instantaneamente. Sem mistério, ele era só um rapaz que tentava fazer-me feliz.

Mas eu nunca seria feliz ao piano.
A professora de música da escola convencera os meus pais de que eu tinha um talento especial para a música. E com pouco mais de cinco anos as minhas tardes de terça-feira eram passadas numa sala minúscula com um piano incrustado na parede e um cheiro a mofo das pautas que eu endireitava com as minhas pequenas mãos.
Já naquela altura eu era demasiado irrequieta. Quando me sentava ao piano ficava de costas para a janela e era constantemente repreendida. A música saltava-me do coração para a vida e eu corria a recolhê-la. Porque o piano exigia-me as escalas e a rapidez das mãos enquanto a professora batia com a caneta no tampo. Já nessa altura eu dava mais atenção ao ritmo da caneta do que à melodia do piano. Dava mais atenção aos ténis do que às sabrinas. Era mais agressiva do que suave.
E quando produzia melodias no piano, sentia que era ele que estava apaixonado por mim.

Um dia deixei-o sem razão aparente. Não expliquei o meu divórcio, mas mantive-o sagrado, longe da incompreensão dos que me convenciam a voltar para aquele que diziam ser “o meu instrumento”.
Troquei-o mais tarde por uma bateria, quando a violência que eu sentia dentro de mim se tornou insuportável. E apaixonadamente, sendo eu em cada centímetro de pele, criei ritmos e solos. Aprendi pautas a quatro membros, rompi preconceitos e cansei os tornozelos numa algazarra confusa e barulhenta.

Ocasionalmente, a minha solidão espreitava-me e abanava-me a cabeça quando à noite estava à janela. “És teimosa”, dizia-me ela. “O piano foi feito para ti, é solitário como tu”.
E eu sentia saudades. De levantar a tampa preta e de conversarmos. Sentia saudades do amor que ele me dava. Que só ele me dava. Que só ele me tinha.

Porque o ritmo nunca existiu isolado. E a minha agressividade só fazia sentido enquadrada com as guitarras. Mas as guitarras nunca chegaram.

Hoje eu sei que elas nunca vão chegar. E sei que esta minha insistência em ser o ritmo de uma banda não é mais do que um profundo sonho que acalento desde pequena que é o de não estar só.

E o piano sabia.



sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Desafio XXXIX - Resposta

(A origem do Mundo)


Foi o meu primeiro namorado.
O amor escorregava-nos das mãos desastradas. Éramos dois inexperientes com vontade de tentar e por isso cada gesto tosco tinha um gosto especial. Reunimos, sem saber, as condições que fazem duma receita a melhor do mundo.
Foi a primeira vez que senti um descontrolo das minhas veias e um bater do coração que me assustou como se a morte tivesse chegado.
E depois foi a tua mão no ombro, aquele abraço apertado antes da música que circundava a casa que cheirava a cera. O teu perfume que cheirava a cera como a casa. Dançamos num jardim onde as rosas espreitavam invejosas o nosso amor inocente. E depois fugimos para aquele recanto, tu descobrias quem eu era e eu sabia que a morte afinal era o maior prazer que podia ter.
Tudo foi virgem e solitário, impregnado dum suor delicioso que ainda hoje existe quando abro a caixa das recordações e vejo a tua fotografia naquela tarde.
E sempre que a vejo, amo-a perdidamente.
Porque foi a primeira. E foi ali que tudo começou. A origem do meu mundo começou contigo e com o teu beijo de saliva que cheirava a futuro.

Só que na verdade foi só isso. O amor que arde por tudo quanto foi maravilhoso é uma bala disparada eternamente. E se por um acaso me desligar desse fotografia que me traz a origem, não há muito que fique da tarde que passei contigo. Ela existe em mim desta forma, porque foi a primeira.

Porque a origem do Mundo não é mais do que uma coisa tremendamente feia e desconcertada, errada em cada segundo de existência. Mas porque é a origem do futuro, torna-se linda.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Desafio XXXVIII - Resposta

Algum desgosto prova muito amor mas muito desgosto revela demasiada falta de espírito



Lembro-me perfeitamente do dia em que ouvi contar a história dela. Era um dia de Primavera, apetecível como algodão doce. Sentei-me no banco do jardim a observar aquele pequeno Mundo tão feio ao lado da minha esperança de que em algum lugar ele fosse bonito.

E conheci-a há muito tempo. Era uma velhota simples, com um andar arrastado, umas gargalhadas bem-dispostas de mais para quem é velho antes do tempo. E quando ela passou, naquele dia, voltei a fixar-me nela, talvez porque ela fosse um Mundo feio que já albergou em tempos uma esperança de beleza.

E talvez porque fixei de mais os meus olhos no traço de caminho que ela fazia ao atravessar a rua suja, surgiu uma voz no fundo da minha cabeça, que recordei mais tarde. “Sabe, ela nunca se recompôs, foi um choque para todos nós, mas ela, ela nunca se recompôs verdadeiramente. Sabe que ela é muito mais nova do que parece?” Rodei alguns graus, e subitamente uma cabeça tapou o meu sol de Primavera. “Conhece-a?”, perguntei. “Toda a gente a conhece aqui”, disse a voz impaciente, destapando o sol e sentando-se ao meu lado no banco. “Sabe aquelas histórias de filmes, que parecem impossíveis? Não são. Aquela senhora que viu passar foi abandonada pelo noivo no dia do casamento, quando tinha dezoito anos. Foi aqui mesmo, na igreja lá de cima” e olhou para mim. Mas eu fitava o rasto do caminho que ela tinha deixado, um rasto triste e sujo como o sítio. E a verdade desceu sobre mim, porque a realidade era essa e é isso que os filmes não contam: as histórias tristes acontecem em sítios feios e sujos e cheiram mal.

O meu coração contraiu-se pela vida desgastada e desperdiçada que atravessara aquela rua. E antes de arquivar este caso na minha cabeça, perguntei-lhe “Ela nunca se voltou a casar? Nunca se voltou a apaixonar? Nunca?” E a voz encolheu os ombros e de novo, respondeu aquilo que já tinha dito, que ela nunca se recompôs. Que o noivo a deixou, à porta da igreja.



E foi assim que me esqueci dela. Ironicamente, não demorou muito até que eu encontrasse a beleza pela qual tantas vezes suspirara. O amor e as vertigens vieram nas asas do vento, sopravam do estrangeiro e bateram na minha janela com estrondo. Agarrei na mochila que já tinha feito anos antes e saltei pronta para recolher a essência destilada da flor mais perfeita. E o Mundo revelou-se perfeito, com todas as pétalas abertas, vigorosas, coloridas. O Mundo era sonoro e vibrante, longe daquele lugar sujo e decrépito onde se morria em bancos ou à procura de uma brisa que sabia a algodão doce.

E fugi. Fugi com o meu amor para um lugar onde a electricidade se bebia ao pequeno-almoço. E onde à noite, trincávamos a Lua, trocando de lugares no grande labirinto de espelhos. Dávamos as mãos e separávamo-nos em seguida, respirando intensamente para imagens desfocadas, vários “nós” difusos que por ali vagueavam. E fizemos amor ali, deixando de saber quem éramos. Foi quando nos perdemos que encontramos a essência única e irrepetível. O sabor primeiro, doce e amargo de tão efémero. E nesse momento, sentimo-nos na ponta do Mundo. Como se tivéssemos nos nossos corpos a chave para aquele sítio misterioso do Mundo que só existe por segundos breves, uma vez na vida.

E por isso, quando um dia a porta do labirinto se fechou e não mais senti electricidade no meu corpo, que voltei para trás, coberta de uma vergonha pegajosa. A minha mochila pesava-me como pedras e sentia a boca seca, como se tivesse atravessado um deserto cheio de miragens. Olhei para a minha janela, e fechei as portadas. Deixei a escuridão entrar no meu quarto e deitei-me na cama.

Nos meses seguintes, por várias vezes sonhei com aquele labirinto. Mas quando acordava, os móveis toscos e uma realidade com cheiro a mofo envolviam-me. Sentia os olhos molhados e voltava a deitar-me, agarrava-me com força à almofada e esperava que o sonho chegasse de novo. Ainda que não fosse verdade, era melhor do que a verdade.

E só os sonhos, só uma realidade que já não existia, me fez correr sangue nas veias. De resto, perdi a capacidade de ter esperança e com isso, o mundo feio onde vivi relevou-se em toda a sua tímida e crua realidade, onde o algodão doce é demasiado doce para não ser enjoativo. E quando me obrigavam a levantar da cama, levantava-se um nevoeiro em mim. Porque tudo aquilo era demasiado pouco, demasiado repetível, para quem já tinha tido no corpo a primeira chave. A única, a irrepetível. A que se perdera e para qual não haveria volta. Porque quando me obrigavam a levantar da cama, eu sabia em todos os meus poros o que era a morte.

E um dia desistiram de mim. Deixaram-me, como se deixa um corpo em coma, ligado á máquina. Com o passar do tempo, fui comendo e bebendo para não deixar a minha carcaça apodrecer. Com o tempo, fui-me levantando e habituando àquele nevoeiro constante e à morte que vinha com ele.

E assim, um dia fui capaz de me arrastar da cama até ao banco do jardim. Deixei um rasto triste e sujo atrás de mim. Quando me sentei, ela voltou a passar à minha frente, no passo arrastado que eu agora tão bem conhecia. Agora também eu era uma história de filme, horrorosa e decrépita, feia e triste. Agora também eu definhava sem qualquer propósito, engolida por uma tristeza solitária que desaparecia da minha lápide mal chegasse a primeira chuva. Porque ela era eu.

Só nunca contei que me amasse tanto a mim mesma. Por isso, quando ela desapareceu eu resolvi fazer a minha história, realizar o meu filme, fabricar uma nova chave, decidir quantas vezes é que se atinge o inatingível do Mundo. Decidi mudar as regras, já que não conseguia cumprir as que existiam. E por isso, esvaziei as pedras da mochila e saltei da janela. Desta vez, sem ilusão nenhuma, levava comigo a determinação de fabricar o mundo à minha maneira. E nenhum amor conhece esse poder.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Desafio XXXVII- Resposta

"If you can get nothing better out of the world, get a good dinner out of it, at least."


A corda rente balançava – lhe nos olhos. Era quase irónico que da janela listada onde se encontrava visse tão perfeitamente a corda rasteira que lhe arrastaria a vida para a morte.

Na sua pequena cela limpa e arrumada havia um silêncio incómodo, politicamente correcto. Sentou-se na borda da sua cama, mentalizando-se de que aquela seria a última noite. Nunca mais existiria um fim de tarde, um jantar, um “boa noite”. Cada segundo que passava era já o último, cada pequeno ritual irrepetível esvaia-se com o movimento do ponteiro do seu relógio fiel colado na parede. Aquele momento em que costumava pensar na borda da cama terminou quando ele se levantou e morreu. Porque nunca se repetiria. E assim, de mansinho percebeu que já estava a deixar de existir. Foi mais isso que o comoveu, do que propriamente a ideia do seu pescoço naquela corda que o fitava lá de fora.

De pé, lentamente para não gastar o espaço, foi andando em círculos na sua cela. De manhã tinha tido visitantes que lhe perguntaram se estava arrependido. Não abrira excepção e permanecera em silêncio. Há muito tempo que perdera a paciência para a comunicação. Há muito tempo que se recusara a usar palavras e a ler livros. Um sorriso tímido e honesto espreitou dos seus lábios quando pensou nas pessoas, sempre à procura de razões e propósitos. Sempre à procura de uma utilidade para as acções. Tantas vezes lhe perguntaram qual era o propósito dele, o que esperava ele. “Queres destruir as Pessoas? Tens outros propósitos na vida que não a felicidade?” E muitas vezes ele negou todas as respostas. Outras permaneceu em silêncio. Um dia disse-lhes “Deus não existe”, mas ninguém o ouviu. Ele voltou para a sua cela solitária e escrevinhou na parede: “Não existe propósito na vida, a não ser vivê-la”. E quando veio a sua condenação, pediu que lhe escrevessem isso na campa.

Quando o relógio cansado chegou às nove, os dois guardas pediram-lhe que saísse da cela e os acompanhasse. O seu último jantar esperava-o, com o sabor venenoso de ser o último. E esquecendo-se disso, saboreou-o como se tivesse acabado de nascer.

Quando terminou, um dos guardas olhou para ele com desdém e disse-lhe “Ao menos tiraste um bom jantar da tua vida”. Ao que ele respondeu laconicamente pela última vez “ Nunca houve muito mais a tirar”.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Desafio XXXVI - Resposta

And I want my anger to be healthy
And I want my anger just for me,
And I want my anger not to control me,
And I want my anger to be me
And I need to set my anger free
Saint Anger 'round my neck
He never gets respect



Nunca respeitaram a minha raiva. Porque a minha raiva existia, era uma pessoa, com o seu fato. A minha raiva acompanhava-me sempre, mas nunca a respeitaram. Como se ela não limpasse os pés quando entravamos em casas alheias e sujasse os delicados tapetes. Então ficava à porta, à minha espera.

“É só um momento”, diziam-me. “Não é muito apropriado”, diziam-me.



Passei todo o tempo de escola a escrever. Sempre gostei de observar as pessoas e os seus códigos morais. E as histórias nasciam-me como flores na primavera, num ciclo demasiado natural para eu conseguir evitar. Mas escrever era uma actividade demasiado inútil para que qualquer dos meus professores a considerasse. Ano após ano desacreditaram-me e instigaram-me a estudar outras matérias e a desistir deste vício escarnecido que era o que pegar numa caneta e escrevinhar sobre o Mundo na forma de um conto.

Nunca tiveram como me obrigar. Felizmente, era um fidalgo preso naquele orfanato e escrevia sempre que me apetecia. Os outros alunos gostavam das minhas histórias, repetiam-nas à noite e liam-nas aos mais novos.

O meu melhor amigo era um desses alunos mais novos, uma criança órfã que trabalhava no campo todo o dia. Não lhe era cedido o privilégio de aprender a ler. Deixavam-no respirar e por isso mesmo, ele tornara-se numa pessoa agradecida e calada. Mas os seus olhos perspicazes eram vorazes. Cercava-me silenciosamente e puxava-me a camisa “Escreveste mais histórias?”.

Porque ele não se limitava a respirar. E quebrava todos os limites quando se dispunha a sonhar através das minhas histórias. Um dia, dei por mim a escrever só para ele. Só para os sonhos dele, como se as minhas histórias o mantivessem vivo para além da respiração monótona de todos os dias que trazia do campo.

E quando voltava da sua lide, eu lia-lhe o que escrevia. E antes de adormecer, repetia-me freneticamente “Não deixes de escrever. Nunca deixes de escrever.” Quando estes gemidos se tornaram mais agrestes, coloquei-lhe a mão no ombro e destapei-lhe as equimoses. Com um único fio de palavra, ele disse “eles não querem que tu escrevas”.

Foi aí que a minha raiva nasceu. E era diplomática, bem vestida como eu. O professor olhava para mim de soslaio e perguntava-me se escrevera alguma coisa. Senti pela primeira vez as veias do meu pescoço a latejarem e uma vontade incontrolável de esmurrar tudo e todos à minha frente. Mas não escrevi mais.

E senti-me inútil e desprotegido. E não podia mais ajudar o meu amigo, que voltava ininterruptamente do seu trabalho do campo como se não houvesse distinção entre o dia e a noite. Afagava-lhe os ombros, beijava-lhe a testa e ele adormecia a dizer-me “Porque é que deixaste de me contar histórias?”

Adoeceu de tal forma que uma noite, à socapa me disse: “Não me importo com o que me possam fazer, já estou morto de qualquer forma. Mas tu, não deixes de escrever.” “Nem penses nisso”, disse-lhe rapidamente. E na sua infantilidade séria de criança agarrou-me na caneta “ Faz-me viver um pouco, pelo menos um pouco”. E foi quase como um suicídio assistido. Escrevi-lhe ali uma história, e no dia seguinte o meu amigo foi para o campo e já não voltou.



A minha raiva nunca foi respeitada. Sabiam que ela existia, mas exigiam-lhe que ficasse à porta, que se colocasse no seu lugar. E então eu entrava e sossegava-a à porta, prometia-lhe que não demorava. E deixava-a escrever por mim.

Um dia editei livros com as minhas histórias. E sem saberem, a minha raiva destruía-lhes directamente os sonhos. E nunca senti dó.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Desafio XXXV - Resposta

A Hidra de Lerna dia apareceu-lhe em sonhos. A primeira vez era ainda criança e o Monstro horrível assustou-a tanto que deixou de conseguir adormecer na escuridão do seu quarto ondulante.

Habituou-se a distrair a mente com um livro antes de as pálpebras se fecharem. E dormia com uma mão pousada na transparência da almofada, filtrada pela luz ténue e discreta dum candeeiro bordado que fabricava sombras pelo tecto. Quer fizesse calor, quer fizesse frio, dormia sempre tapada, como para se proteger do monstro sôfrego que a perseguia e era capaz de derrotar o Reino de Luz frágil que ela tecera como origamis.

E como o Monstro era horrendo. Quando já era mais velha, descobriu-lhe uma imagem num velho livro que tinha lá por casa. Tinha a mesma boca sedenta de dentes mal afiados, dois olhos redondos e fixos com uma íris negra demasiado pequena. Um corpo fino e bem delineado cheio de escamas azuis claras e escuras que brilhavam no papel impresso, tal como no seu sonho. Um corpo feroz de silêncio que a perseguia sem piedade desde o começo dos tempos. E tal como no livro, em todos os seus sonhos o monstro tinha aquela peculiaridade que tanto a perturbava: três cabeças imponentes brotavam dos seus três pescoços estreitos e independentes. Três cabeças que a fitavam impiedosamente de todos os cantos do quarto, quando a persiana fazia balançar as sombras no tecto e o Monstro saia do armário. Três cabeças que a ameaçavam e nunca desprendiam os olhos magnéticos do seu corpo, como que a exigindo.

O êxtase daquele medo evoluiu até à noite, em que já não sendo mais criança, decidiu deixar o Monstro sair do armário e enfrentá-lo. Nessa noite dourada de sombras percebeu a razão do medo enraizado nas veias geladas do seu coração; pois Monstro era invencível: quando lhe cortou a primeira cabeça nasceram três pescoços hirtos no lugar do coto. Não tinha por onde fugir nem como matar o monstro.

E este êxtase irreversível e horroroso atravessou-a de tal forma que o medo tomou posse dela, entrou-lhe no corpo e misturou-se com as suas entranhas.

E um dia quando deu conta já não precisava de candeeiros para conseguir dormir. Era no escuro que as rendas da imaginação lhe decoravam o quarto. Era no medo fermentado que encontrava uma armadura resistente ao choque de se encontrar com a sua morte de vez em quando.

E sempre que lhe cortavam um sonho, nasciam três.

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Desafio XXXIV - Resposta


Discordo daquilo que dizes mas defenderei até à morte o teu direito de o dizeres


Ela estava deitada no chão, à chuva e chorava enquanto a água a sacudia. Era livre agora para não continuar presa.
Era difícil compreenderes.
Tinhas na mão o poder de evoluir, de educar com a força da mente que impele os músculos numa brutalidade demasiado física para um qualquer corpo banal repelir.
Tinhas razão. A variabilidade, a troca, a confusão. Isso sim é a vida, é a progressão. Uma estrada para a frente tem que ter muitas bifurcações e muitos cruzamentos e principalmente, muitos caminhos proibidos ou inexistentes que são inventados, quando sem querer, afastamos um ramo de folhas.
E ela foi um filho desses caminhos, uma estrada irregular e incerta que se elevou numa montanha de poder prestes a ribombar e explodiu como um vulcão desgarrado sobre os pobres de espírito que nunca souberam o que significa andar para a frente sem ser às voltas.
Tinhas razão. A progressão não contempla os incultos ou os fracos, sem qualquer tipo de habilidade que os marque nesta vida. O poder dela era demasiado grande para que lhe resistissem. E a petulância deles em destrui-la, tornou patético e justificável, toda a tua existência e toda a tua determinação em tornar o mundo livre. Livre deles.
Porque eles podiam ao menos, implorar pela liberdade de existirem. Mas como nunca o fizeram, o mundo tornou-se acorrentado pelos ideais invejosos de quem despreza o poder que não lhe nasceu nos genes.
Sempre tiveste razão. Não concederes a liberdade, foi uma forma de seres livre. Porque se não os prenderes e os resumires ao pó que representam na evolução da Humanidade, eles castrarão e afogarão essa Humanidade em miséria e em falta de originalidade que só a promiscuidade e a loucura prometem.
Sempre tiveste tanta razão em querer salvar o mundo da não-evolução, que nunca compreenderás porque é que ela escolheu aquela liberdade. Foi uma aberração, disseste tu, um desperdício. Ela podia tornar o Mundo livre.
O que não sabes é ser ela. O que não sabes é ter o poder dela. Saber que está num patamar de evolução solitário, e que poder moldar a Humanidade como plasticina, sem obstrução. Ela matar-te-ia pelos mesmos motivos, porque perante ela, não és nada, tal como eles.
Perante ela, ninguém é nada. Por isso, perdoa-lhe que tenha escolhido a liberdade reconfortante de não estar absolutamente só no mundo.

Nunca vais compreender que a liberdade não se dobra a nada, nem à evolução.

                                                                     (Rogue - XMEN)

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Desafio XXXIII - Resposta

"It's a long time since I had champaigne."
(Últimas palavras de Anton Checkov)



Desde sempre que na minha cabeça
martela o som das borboletas
ou o rumor imprescindível do conhecimento

E a vida tornou-se nestas asas salgadas
de desejos incontroláveis
Páginas de livros soltas que se esmagam
contra as nuvens

Máquinas vibrantes, fábricas e compotas
de amoras colhidas dos campos
Vidas em corações e em fígados
A correria ainda que estática do tempo.

Mas de vez em quando procurava a reversibilidade
do espelho,
A calma exacta do Universo em equilíbrio.
Aquele momento de consciência que não dói.
Como aquela frescura concreta
Daquele champanhe na minha garganta
polida.
Em que todos os segredos do mundo
são bebidos.


Sempre quis morrer de madrugada
Quando tudo começa.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Desafio XXXII- Resposta

O meu amor tem duas vidas para amar-te
Por isso te amo quando nao te amo
e por isso te amo quando te amo



Há momentos em que não te amo. Em que te desprezo, em que fluis na direcção contrária à minha. Em que me entorpeces os músculos. Em que os meus cigarros parecem flores ao pé do teu hálito.

Nesses momentos pondero silenciosamente colocar as minhas mãos no teu pescoço e com uma carinhosa maldade ver-te deixar a minha vida. Expurgá-la das tuas ideias e das tuas não-ideias que não deixam um centímetro de vazio dentro de mim. E eu gosto de uma boa explosão no vácuo do meu cérebro de vez em quando.

E vejo-te a desaparecer do meu horizonte com toda a minha solidão espalmada. A plenitude da minha tristeza mais áspera do que agressiva a crescer-me pelo corpo. A mágoa do meu destino infeliz enraizada nesta ideia de que ele é infeliz.

Sempre foi assim, eu sempre fui esta pessoa triste. Demasiado igual aos outros para conseguir argumentar a sua diferença. Demasiado só.

E demasiado qualquer coisa para mudar o que quer que seja. A vida feliz e o céu azul são pedaços esporádicos duma vida que espreito pela janela, mas que nunca poderá ser minha. Que nunca quero que seja minha.

E quando quebras este meu amor desmiolado, eu sinto a urgência feroz de um contra-amor que destrua tudo.

Mas o meu destino é tão infeliz, que nos meus poucos momentos lúcidos compreendo que não há altura em que te ame mais do que esta, em que não te amo.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Desafio XXXI - Resposta

A busy life is a wasted life


Faço isso muitas vezes. Sento-me nas estações de metro e deixo-os passarem.

Hoje é um dia particularmente quente. Levo a mão ao peito e sinto restos de um coração que se está a derreter. Hoje, deixei-me ficar na estação e passaram todos os metros por mim. É assim que o mundo se inverte e que de certeza sou eu a passar pelos metros e pelas pessoas que me espreitam.

Hoje deixei-me levar pelos metros que foram passando. E esqueci-me da hora. E o coração começou a derreter.

Normalmente, costumo viajar por toda a cidade. Normalmente, aceito desafios para ocupar a mente e me esquecer das coisas em que penso quando me sento nos bancos do metro. Normalmente até faço desporto. Até aprendo línguas. Normalmente até vou á universidade. Normalmente até vou ao ginásio ou ao curso de teatro.

Normalmente até tenho uma vida ocupada. E chego a casa à noite e estou tão cansada que adormeço sem saber quem sou. E quando acordo de manhã, entre a pressa das gotas do duche, vou olhando para a casa e reconhecendo os contornos de uma mobília que já não me lembro que comprei.

Mas como o meu coração nasceu gelado, esta eficiência tem de ser quebrada de vez quando. Porque é para isso que ela serve, para ser quebrada. E entre as finas frestas de gelo da minha vida ocupada, nascem estes momentos de verdade nas estações de metro. Estas ilhas de consciência num mar de ócio de ocupação. Onde está a vida e o seu coração futurista.

A minha maior qualidade sempre foi a minha tendência para a ineficiência.
Só que hoje abusei dela e o meu coração quase derreteu.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Desafio XXX - Resposta

O poeta é um fingidor
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente

Gosto de fingir a minha realidade. É por isso que escrevo peças de teatro, é por isso que sempre gostei de escrever argumentos e de me sentar no fundo do teatro. E de ver, como encenador, os actores mexerem-se como se fossem as minhas marionetas.

Nunca me preocupei em inventar histórias, tal como nunca desenhei de cabeça. Sempre usei a minha realidade como cenário, as minhas memórias enviesadas e os cheiros nostálgicos como jogos de luzes.
Sempre usei a minha tristeza como fingimento.

E quando nascia mais uma das minhas peças, eu fingia ali a minha vida. E a minha vida fingida, ultrapassada, interpretada era como se não fosse minha. Era como se se despegasse do meu corpo e pairasse ali no palco, por algumas horas. As pessoas riam e choravam, apontavam o dedo. As pessoas ridicularizavam, dramatizavam. As pessoas horrorizavam-se.
As pessoas expunham.
Eu fingia.
E eu estava lá no meio do público. Esquecia-me de quem era, e de quem fingia ser.
Não me lembro de ser tão feliz.

E era por isso que continuava a escrever a minha vida e a fingi-la. No pico do fingimento, eu era dolorosamente feliz.
Mas como o amor é uma faca de dois gumes, também o espectáculo chegava ao fim. E respeitosamente o público cumprimentava-me à saída e dizia-me “Que belo espectáculo”.

“Sou um belo espectáculo”, repetia para mim. E normalmente ficava no escuro da sala a fingir umas lágrimas. Porque não era capaz de terminar o argumento e precisava sempre de mais uma dose do meu vicio.
Nem que fosse para fingir que me fingia.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Desafio XXIX - Resposta

E como nasci? Por um quase. Podia ser outra. Podia ser um homem. Felizmente nasci mulher. E vaidosa. Prefiro que saia um bom retrato meu no jornal do que os elogios.



Como é que eu nasci? Foi um acaso. E nasci mulher. Podia ter sido um homem. Infelizmente, sou uma mulher fechada num mundo estridente de outras mulheres. Num mundo agudo, berrante e descaracterizado de corpos com mais silicone do que entranhas.

Fecho a porta de casa. Abandono o salão de cabeleireiro, as lojas de roupa, as sapatarias e entro no primeiro salão de jogos que encontro para jogar matraquilhos. Aqui há um sossego de vida. Porque há barulho, há asneiras e há cervejas.
Normalmente, o cor-de-rosa fura-me os olhos e eu tenho uma natureza sensível como a maior parte dos homens. Porque as mulheres são muros de betão disfarçados. Mascaram-se de romantismo e de histórias de amor. Vêem-se ao espelho dez vezes por hora para garantirem que não perdem a Cinderela que compraram. Porque raptaram uma fada madrinha e a mantêm na despesa a fabricar milagres.

Há muita ligeireza e cor na vida das mulheres. Mas é uma vida demasiado dura porque é demasiado falsa.
E nunca me incomodou a futilidade. Sempre preferi a honestidade de um belo corpo do que a sabedoria de um belo cérebro. Amar a inteligência é falta da própria inteligência.

E é por isso que já amei homens. Porque destilam beleza na forma como vestem t-shirts pretas se riem infantilmente de piadas ordinárias. Na forma como desejam impulsivamente os segredos do Mundo.
E é por isso que já amei homens fúteis. Como eu.
A diferença é que encomendo os sapatos e maquilhagem pela internet. E vou ao cabeleireiro uma vez por ano para evitar aqueles sorrisos de plástico e os conselhos vomitados para destruir adversárias.

Também adoro ver-me ao espelho, arranjar-me e sentir-me linda. E sair para o salão de jogos e sentir-me tão bem, que me esqueço de quem sou e dou o meu suor pela minha equipa enquanto gritamos todos e eu marco mais um golo. Gosto dessa beleza selvagem e do facto da vida saber-me bem. É a minha futilidade.

Mas nasci mulher. E sabes que mais? Ainda bem. Se fosse um homem, seria gay.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Desafio XXVIII - Resposta

“Hoje roubei todas as rosas dos jardins
e cheguei ao pé de ti de mãos vazias...”

Foi triste meu Amor. Ainda hoje é triste e já tu não és o meu Amor. A tristeza foi a única a sobreviver-nos, a manter-se quente no meio de dois corpos frios que já não se acendem um pelo outro. Ás vezes, quando te reencontro, são os teus olhos tristes a única parte de nós que reconheço.

Naquele dia, corri todos os jardins do Mundo para te trazer as rosas mais lindas. Como tu. E quando cheguei ao pé de ti, trazia os braços cheios das rosas mais frescas.

Mas tu olhaste para mim e os teus olhos marcaram a hora da despedida. Nunca esquecerei a tristeza daquele momento em que congelámos o futuro. Tiraste os teus olhos de mim pela última vez quando me olhaste e viste que voltara para ti de braços vazios. Que não existiam rosas afinal. Que tudo não passara de uma bela ilusão que ambos bebemos e a que chamávamos por distracção, de paixão.

Foi nesse dia que a tristeza se estreitou entre nós. E hoje é tudo o que me sobrou.
Porque eu tinha os braços cheios das rosas mais viçosas.
Mas o tempo endureceu e tu guardas a memória de um homem de braços vazios.

domingo, 11 de julho de 2010

Desafio XXVII - Resposta

I've never believed in God, but I believe in Picasso


Acredito em Deus.

Fartei-me de mundos científicos e pontiagudos, onde se definem as arestas do pensamento. Fartei-me da verdade absoluta, da solução única para cada equação de pessoa.
Fartei-me de números exactos e de operações cirúrgicas onde para tudo se tem uma explicação, tudo é demonstrado, tudo é dissecado, tudo é desmontado, tudo é catalogado.

Dantes, Deus não existia porque as tempestades são explicadas pelo electromagnetismo. E não existem milagres que não estão na cabeça ou nos olhos de quem os vê. E já sabes que para um objecto se mexer é preciso exerceres uma força sobre ele.

Mas isso hoje é dia é irrelevante. Dizer que Deus não existe é como continuar agarrado a esses ignorantes que estão agarrados à crença de que Deus existe.
E eu quero distância deles. Ambos acreditamos que Deus existe, e isso é tão pouco, como se nada nos unisse.
Eles acreditam em Deus, como acreditariam nesta chávena de café, se eu quisesse. Por isso, deixa-os, larga-os, não te comprometas nem comprometas o teu pensamento só para passares o resto da vida a negá-los, dizendo que Deus não existe só para estares no lado oposto da bancada.
Porque assim é que garantidamente não estás.

Eu acredito em Deus como eles, e no entanto nunca seremos parecidos. E é nesta dualidade que nunca compreenderás, que me separo de ti. Porque essa Ciência no seu dogma da luta pela verdade não me contempla nos seus manuais científicos exíguos, não me inclui nas suas verdades, porque eu, oh sim, eu cometi o pecado mais capital de todos e acredito em Deus como os ignorantes.

Mas não sou ignorante.

Porque a arte não se presta a silogismos.