terça-feira, 23 de março de 2010
Desafio XII - Resposta
- Desculpe perguntar, mas qual é a razão?
- Eu sei quem e o que sou. Sei que aos olhos da sociedade não sou uma boa pessoa, não segundo os seus padrões. Não sigo as regras se não concordar com elas, digo a verdade quer queiram quer não. Critico qualquer pormenor que sinta que não está bem, e mesmo assim nem sempre me sinto satisfeito. Se não for feito à minha exclusiva maneira há-de estar incompleto, ou pelo menos poderia ter ficado melhor. Não tenho nenhum senso de solidariedade, nem sequer de companheirismo. Para mim o mundo gira à minha volta, e este meu mundo vai contra a corrente de todos os outros. Agora imagine se fossemos todos assim. Não posso aceitar juntar-me a um clube que aceite este comportamento porque seria insustentável.
segunda-feira, 15 de março de 2010
Desafio XI - Resposta
Não me canso de perguntar: o que é o amor?
Desde pequena que o vejo por todo o lado, no mais simples olhar, num abrço, num gesto. Uns dizem-me que é algo bom e maravilhoso, outros que é algo amargo e que nos faz sofrer. Está bem. Mas que me diz isso da essência do sentimento? Podem-me dizer que o quadro tem vermelho e azul, mas fico sem saber o que é.
Tantos são infelizes por falta deste amor. Talvez perceba. Mas porquê? O que nos faz amar alguém? A sua aparência, personalidade, o seu cheiro? E porque se ama alguém se nunca o vamos conhecer completamente?
Não estou a duvidar do valor de amar. Como iria desvalorizar algo que move rios e montanhas, que mata e vida dá? Apenas penso que se o compreendesse, se soubesse o que é e o pudesse descascar até ao amâgo, poderia... talvez aproveitar melhor. Não sei, não sei nada.
Talvez um dia perceba. Ou talvez não. Se calhar é essa mesma a beleza de amar: o mistério de nunca ao certo se saber como e porquê. Uma aventura. Talvez, talvez...
domingo, 28 de fevereiro de 2010
Desafio X - Resposta
- Passa-me o telefone, por favor.
- Não tens saudades de quando escrevíamos cartas? De quando esperávamos ansiosos por uma resposta, de ponderar no que escrevíamos naquela letra tão cuidada?
- Não. Perdíamos imenso tempo. Liga-me isto à tomada, que preciso de pôr o computador a carregar.
- E não sentes falta de teres de ler e pesquisar em livros, em vez de automaticamente copiares a informação que procuras? Agora a internet tem tudo, as pessoas nem precisam de sair de casa para terem o que procuram.
- Como te disse, isso veio-nos poupar imenso tempo e trabalho.
- Como é que pode ser cansativo ir a uma biblioteca folhear livros e estar rodeado daquele cheiro hipnotizante? Agora há cada vez menos pessoas a ler, a ter livros na mão. Arranjam documentos no computador e acham que é igual. Até os jornais ficam abandonados nas bancas, porque se tem tudo no computador ou telemóvel.
- Se o que temos agora é muito mais prático, porquê voltar atrás? Diz-me algo de mau que a tecnologia tenha trazido.
- Está a destruir o planeta e a deixar-nos doentes.
- Para isso temos a medicina que cada vez está mais evoluída, Temos tudo ao nosso alcance.
- E com isso as pessoas vivem cada vez mais fechadas em si. Cada um quer mais posses, consumidores que nunca estão satisfeitos. Um por si, e todos por eles próprios. Temos tudo ao nosso alcance, e no entanto, vivemos mais infelizes que nunca.
quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010
Desafio IX - Resposta
“Só criam problemas, aqueles rebeldes. Sofrem de falta de atenção. Ocupam-nos as ruas com os seus cartazes e hinos, e param a cidade para nos impor as suas loucuras.” É o que os ouço dizer.
O que eles não sabem (ou não querem saber) é que há um propósito para a nossa “rebeldia”. Se criamos confusão é para chamar a atenção, não para nós, mas para um fim, um objectivo. Somos diferentes porque a normalidade está a matar o planeta. Criticamos e acusamos para os tentar acordar para a realidade. Não queremos atenção para a nossa pessoa, mas sim para aquilo que temos a dizer.
Mas eles não querem saber. Olham para o comportamento e não para o que ele quer dizer. Nós tentamos. Quando for tarde demais, arrependimento não vos irá servir de nada.
segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010
Desafio VIII - Resposta
"Incompetence - When you earnestly believe you can compensate for a lack of skill by doubling your efforts, there's no end to what you can't do.”
Chegamos a certas alturas da vida e sentimos que falhamos. Parece que tudo foi em vão, que por mais que tentemos tudo corre mal.
- Há-de melhorar.
Mas não. Incentivos parecem parvos, porque ninguém nos percebe. Que raio de incompetentes que somos, para falhar sempre em tudo. (Não que assim seja, mas ficamos cegos, muito cegos).
- Não te faças de vítima.
Mas não somos todos? Fomos feitos para falhar e ser miseráveis e tentar tirar partido disso. Trepar as paredes do poço, aprender e evoluir. Acho que até isso não sei fazer.
- Tens de acreditar. Acredita naquilo que fazes.
Ah! Ora aí está um bom conselho! Pelos vistos não se faz nada de jeito se não acreditarmos que conseguimos. Um simples mecanismo psicológico ajuda-nos a ultrapassar barreiras feitas de tijolos de incompetência.
- Agora que acreditas, tenta outra vez...
... e outra, outra, outra... Vê o castelo a ganhar forma, o quadro a ganhar cor, o puzzle a completar-se. Ou seja, vê os teus sucessos a acumularem-se.
Quem diria. Afinal não falhei assim tanto.
quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010
Desafio VII - Resposta
Faço? Não.
Faço? Talvez.
Faço?
Não me consigo decidir. Não com estas vozes todas a lutarem por atenção. Dizem sim, dizem não, não sei ao certo o que dizem. Decido-me, volto atrás, dou meia volta e regresso ao início.
Não. É demasiado arriscado. Eles ficariam a saber. Ninguém quer isso, pois não? Não. Mas faz as vozes gritarem de arrependimento.
Ou talvez sim. Arriscar é bom. Traz perigo e adrenalina, faz o sangue correr nas veias. Mas faz as vozes gritarem de culpa.
Berro. Quero berrar porque não me deixam em paz, as vozes. Elas não querem mas EU quero. Eu quero voltar a tomar aquilo que faz as vozes irem embora. Porque elas dizem para não tomar, mas eles, os das batas, vão reparar. E depois vai ser mau, muito mau.
Portanto eu tomo, eu tomo. Assim ninguém sabe o mal que fiz.
segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010
Desafio VI - Resposta
E eu sempre fora uma das duas pessoas que conseguia destruir essas muralhas. E estava a ouvir, naquele tom monocórdico que a Maria tem quando está partida (apenas) por dentro, como a outra morrera num terrível acidente. O amor da vida dela, e ela contava-mo como se falássemos do tempo. E isso indicava sempre o pior.
Pousei o telefone com a promessa que a ia visitar. Que mais podia fazer? Eu era a sua melhora miga e agora único porto de conforto no mundo.
Saí de casa com uma ideia fixa. Quando éramos mais novas, antes desta vida de responsabilidades, tínhamos um ritual. Quando precisávamos de falar, comprávamos uma caixa de bombons, sempre os mesmos, sempre da mesma chocolateira. Por nenhuma razão em especial, apenas pela simples mística do chocolate.
Toquei à campainha e ela convidou-me a entrar. A casa era a mesma, nada mudara. A não ser o olhar de Maria, perdido algures.
Obriguei-a a sentar-se. E quando estava à sua frente, olhos nos olhos, entreguei-lhe a caixa. Uma coisa simples, com um pequeno laço. Mas com tantas, tantas recordações.
- Come chocolate, pequena. - costumávamos dizer, tal como agora lhe disse. - Come chocolate.
Bastaram alguns segundos para ela pegar na caixa e comer o primeiro bombom, enquanto as lágrimas lhe caíam pelas faces.
Porque o chocolate é assim. Cada um o interpreta como uma metáfora diferente. Mas todos sabem que num pequeno doce, estão contido todos os tipos de sentimentos. O chocolate é uma droga, uma dádiva, um vício das sensações.
Talvez seja apenas uma comida. Se o é, digam-me outra que construa e destrua muralhas, que nos ponha felizes e nostálgicos ao mesmo tempo, que é referida como a comida dos deuses.
Eu poupo-vos trabalho: não há.
segunda-feira, 25 de janeiro de 2010
Desafio V - Resposta
Nunca fui uma pessoa de muitas palavras.
Nunca achei realmente necessário partilhar os meus pensamentos, comentar todas as situações. Se me falam eu respondo, senão não vejo motivo para o fazer.
E eles acham isso errado. Criticam-me, dizem-me para falar e dizer o que acho. Também tenho direito de me exprimir e dar opiniões, de tomar partidos. Eu sei que tenho. Também tenho o direito de preferir ficar silenciosa.
Mas não entendo uma coisa. A maioria das pessoas palra que nem papagaios e não diz nada de jeito. Impõe as suas perspectivas, mentem, gabam-se, magoam. Usam e abusam das palavras e não chegam a lado nenhum. Não era preferível ficarem caladas?
Não sei o que pensar sobre isso. Aliás, prefiro manter-me calada neste assunto.
segunda-feira, 18 de janeiro de 2010
Desafio IV - Resposta
Revivia os momentos marcantes, hilariantes, tristes ou inesquecíveis. Relembrava o motivo dos risos, das lágrimas felizes ou infelizes, dos olhares cúmplices. E qualquer que fosse essa razão, fazia-a feliz, por ter podido viver aquelas oportunidades.
E então tentava imaginar aqueles episódios sem as outras pessoas. Estaria lá ela nas fotografias ou existiriam sequer elas de todo? Se não fossem aqueles companheiros de viagem, aqueles fortes pilares, aqueles portos de segurança, onde estaria ela? Com certeza que não teria chegado tão longe.
Ao longe da nossa viagem pelos territórios da vida, passamos por muitas fases. E não devemos fazer nenhuma delas sozinhos. Podemos, se quisermos optar pelo caminho mais difícil, talvez até quase impossível. Mas se o percorrermos com os ditos amigos, os penhascos irão parecer mais suaves, as tempestades menos avassaladoras. Todo o mundo irá parecer mais convidativo.
Tudo isto não passa de palavras muito bonitas, pensava ela. Sentimentos muito engraçados, situações muito imaginárias. No entanto, se se visse isso na prática, ir-se-ia revelar verdadeiro. Nós somos parte o que nós construímos e parte o que é construído pelos amigos que escolhemos. Se não fossem eles, não seríamos metade do que somos.
"Life is partly what we make it, and partly what it is made by the friends we choose."
quarta-feira, 13 de janeiro de 2010
Desafio III - Resposta
Tema: Emoções humanas
Começo por apresentar a frase que deu origem o trabalho em seguida apresentado:
“Mais longe do que o fim do mundo está o fim do coração”
Dir-me-ão os racionalistas que não há grandes temas a abordar a partir desta frase. Está errada, o coração está aqui bem perto de nós, sinto-o neste momento a bater compassado no meu peito. O fim do mundo, a linha do horizonte, é algo que nunca vamos alcançar, por mais que andemos estará sempre muito, muito longe. Deduzimos então que pouco deve haver que esteja ainda mais longe.
Ah, mas a beleza da língua! A profundidade da simples expressão “fim do coração”. A metáfora que nós humanos damos a um órgão, a responsabilidade que lhe damos sobre os nossos sentimentos, as nossas emoções.
Digo desde já que por mais páginas que acrescente a este trabalho, nunca conseguirei chegar ao verdadeiro significado de todas estas emoções. Ao fundo do coração, por assim dizer. Acho que ninguém consegue.
Podia descrever, analisar, cortar os sentimentos aos pedaços e tentar compreendê-los. Impossível. Eles são algo que sentimos, mas não sabemos explicar. Algo que nos dá arrepios, que nos faz chorar, que nos faz rir. Que nos faz matar, que nos faz viver. Que nos faz correr pela chuva berrando em desespero, ou ficarmos felizes com um simples abraço. Não é algo material, nem imaterial. Existe mas não existe, porque não se pode prender, tocar ou ver. Eles aparecerem, tornam-nos loucos e obrigam-nos a fazer coisas impensáveis.
Agora que penso bem no assunto, onde é que eu vou com estas divagações todas? Já cheguei à conclusão: nunca conseguiremos compreender os sentimentos na sua totalidade. Não dá, é uma regra. Nem sei porque continuo a escrever. Talvez o som da caneta no papel me faça sentir bem. Me encha algum vazio no coração. No entanto, acho que ele já está sobrecarregado com tudo por que o faço passar.
Não vale a pena continuar. Ninguém há-de ler isto, pois vou amachucá-lo e atira-lo para o lixo. Penso apenas que estava a precisar de divagar.
Dou então a tese por concluída, há demasiado a dizer sobre os sentimentos e eu nunca conseguiria fazê-lo bem.
P.S.: Penso que este ainda agora se chama desamparo. É já alguma coisa.
segunda-feira, 4 de janeiro de 2010
Desafio II - Resposta
Gosto de estudar o Medo, de ver as reacções das pessoas às mais diversas situações. Há quem me chame louco, há quem me chame demónio. Eu chamo-me estudioso, pois tal como toda a gente tenho direito de investigar o que me interessa.
Fecho as pessoas em salas escuras e vejo-as perder o norte e o sul, estender os braços á procura de apoio que está lá, mas que o medo destrói, dando a ideia de um lugar sem paredes, nem tecto, nem chão. Vejo-as agacharem-se e enrolarem-se em si, para se protegerem de algo que na realidade não existe: os seus demónios interiores. Talvez isso lhes dê confiança, essa que de alguma maneira as trevas levaram. Não compreendo.
Vejo um certo indivíduo a atravessar uma multidão. O modo como olha em redor, os seus olhos brilhando de pressa e urgência, o animal que foge do caçador. Vejo como a respiração se apressa, como treme, como corre para fugir daquele aperto, de todas as vozes que o perseguem e enlouquecem. Não compreendo.
Observo como estremecem ao ouvir trovões. Como se afastam dos parapeitos de grandes altitudes. Como fogem de pequenos animais que lhes zumbem aos ouvidos. Como fecham os olhos e se agarram aos bancos quando o avião se levanta. Não compreendo, não consigo compreender.
No entanto, há algo que percebo de todos estes estudos. Os humanos têm medo de tudo, quer seja grande, pequeno, material ou imaterial. Têm medo da morte, do fim, do desconhecido, e até arrisco dizer que têm medo da vida. Tentam ignorá-lo e ele apenas cresce, limitando-lhes o horizonte. Passam a vida limitados pelo medo.
A Humanidade vive com medo de si própria. Mas parece não se importar, e continua assim. Acho que nunca poderei compreender.
segunda-feira, 28 de dezembro de 2009
Desafio I - Resposta
Não me lembro de quando deixei de sorrir.
De quando deixei de lado o riso para me concentrar em coisas “importantes” como o trabalho, o dinheiro. De quando deixei de lado o riso para crescer e ter sucesso no mundo real, no mundo dos adultos. De quando deixei de lado o riso para… sei lá, uma razão absurda qualquer.
Agora que olho para trás, acho que foi a partir daí que tudo se começou a desmoronar.
Sou um velho, gasto e cansado, que observa os netos a correr pela casa enquanto suspira, sentado na também velha cadeira, com um copo de brandy na mão. Não consigo tolerar os risos, o barulho e a correria. Parece-me tudo tão artificial, tão forçado. Como é que podem viver tão inocentes face a este mundo, que num dia ou outro os irá afundar?
Suspiro. Tornei-me um velho azedo, uma carcaça sem emoções cujo único orgulho é o dinheiro acarretado no banco. Não tenho boas memórias e se alguma vez as tive foram sobrepostas pelo trabalho e pelo orgulho. Oh, se apenas pudesse voltar atrás e trocar este frio e riqueza por felicidade e o ecoar do riso.
No meio das minhas divagações, não reparei na criança que corria na minha direcção, inebriada nas suas brincadeiras. O meu neto chocou contra mim, o copo de brandy saltou no ar, sujando roupa e estilhaçando-se no chão.
De repente o ambiente na sala ficara pesado, de cortar à faca. Os presentes olhavam-me com olhos assustados, mal se mexendo. Seria eu assim tão intimidante? Quase que podia ver reflectida nos olhos deles a faísca dos meus, aquele aviso de que uma tempestade se levanta.
Normalmente ter-me-ia erguido, de cara vermelha e esbracejado com os meus fracos braços, enquanto gritava ameaças e frases praguejadas. Teria posto as crianças a chorar, os adultos com vontade de sair. Mas não. Não fiz nada disso. Talvez tenha sido uma epifania, uma nova oportunidade.
Eu ri-me. Ri-me enquanto abraçava o meu neto surpreendido, e senti em mim um novo calor, que há muito não experimentava. Não tinha nada a ver com o calor do álcool, o calor de cobertores. Era algo completamente novo, que me fez renascer, que chamou a mim a capacidade de sentir e ser feliz.
Afinal, tempo que passas a rir é tempo que passas com os Deuses. Lamento não o ter descoberto mais cedo.