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sábado, 13 de novembro de 2010

Desafio XLII- Resposta

“Great spirits have always found violent opposition from mediocrities. The latter cannot understand it when a man does not thoughtlessly submit to hereditary prejudices but honestly and courageously uses his intelligence.”
(Albert Einstein)


A tua arte é o dom da manipulação dissumalda enbelezada com o que denominas romance. Mas não é romance, é uma forma de viver tao triste quanto qualquer outra. Não não é romance, é a mais triste forma de se viver porque, se vires bem, nem tu acreditas profundamente na tua mentira que não passa de uma ilusao faminta .
Por isso o nunca compreenderás. Para ele a vida é romance, viver é sentir o Amor brilhar-lhe nos olhos; viver é a propria definiçao do ego dele. Porque ele é estratego e é genial na forma como vive, como encara o acto de viver. Como saboreia o vento a beijar-lhe o rosto ou o mar violento no final da tarde de Inverno. Ah sim ele é inteligente, é iluminado e tu não. Enfeita as pequenas artes da vida com ornamentos simples e profundos, nada para ele é linear sem deixar de ser, implicitamente, simples.
Mas para ti o romance é o vazio que tens no teu peito, a tua mediocridade está tao colada ao coraçao num abraço de simbiose que és esse ser negro, aparentemente fragil. Aparentemente doce. Aparentemente só aparentemente. Porque a tua arte, a tua única arte, é o dom da manipulaçao dissmulada, o dom de conseguires inverter a simplicidade dele em algo banal. O teu dom é denominares os crimes existenciais que praticas romance porque são em nome de um ideal ( o teu ideal) que é fantasma, que é inocuo e infertil. Um ideal antigo e gasto, corrompido pelas crueis certezas da vida.
Mas não ele. Descodifica as pequenas intrigas da realidade segundo padroes, observa os pormenores e interpreta-os segundo as leis da matematica, da fisica e da filosofia. Procura a uniao perfeita. Vive segundo o momento tornando-o imortal ao assumir a efemeridade de tudo o que existe.
E tudo o que sabes fazer, tudo o que procuras fazer, é rompe-lo, rasga-lo. Porque o não compreendeste o nunca compreenderás. Ele é um génio, um artista, um ser iluminado pela junçao do raciocinio com a maxima sensibilidade humana e tu és esse ser antagonico ao dele. És uma fraude com um ego demasiado mediocre para conseguires aguentar viver sem te alimentares da ruína que lhe causas.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Desafio XLII - Resposta

Conduzes a vida com um sonho na algibeira. E sonhas que algum dia esse sonho te faça inchar os bolsos e rebente com as calças do fato feito à medida da tua perna, e finalmente vás trabalhar vestido de ti. Tu mesmo, vestido apenas da tua pele última e verdadeira.

E gastas metade dos teus dias no inferno, suando num fato, e enchendo os bolsos de moedas, a cabeça de números e a boca de simpatias. Aguentas mais uma conversa sem rumo e alimentas mais um sorriso fácil, porque te palpita um coração no bolso que é maior do que a tua vida e do que a vida dos outros. Esse coração tomará um dia conta de ti. És como um chocolate, escritor por dentro e engenheiro por fora. Crias bibliotecas na cabeça, e um dia vais virar-te do avesso e todos os livros te cairão ao chão, e só terás que apanhá-los e atirá-los ao Mundo.

Porque sim, tu és mais do que a tua condição de escravo de carreira, a forma moderna de controlar a mente e congelar o sangue rumo a uma morte lenta. Porque sim, tu és capaz de te erguer do chão. Porque sim, o teu sonho é real e tem um corpo. É só esperar, e ele um dia vai tomar conta de ti.

Movido por essa esperança, o dia chega em que tu despes o fato. O Mundo é mais verde e o céu mais azul, e tu vais escrevê-lo com as mesmas cores vivas. Abandonas o inferno onde és estrangeiro, e à tua frente não há senão estradas e caminhos e possibilidades inúmeras, tantas quantas as combinações de palavras. Sentes a liberdade como uma brisa a passar-te pelo rosto, e prossegues a fazer do teu impossível o teu quotidiano.

E nada te sai. E descobres que as frases e as personagens que outrora se escreviam na tua mente eram apenas ecos e sombras de sombras. E quando se vive entre sombras, nunca se chega a ser concreto. Ficas imóvel, incapaz de arrancares uma linha para uma folha. Há uma mão a tolher a tua mão.

E aí o Mundo arde e o céu fecha-se em tempestade permanente. Achavas que dentro do fato vivias o inferno. Mas não. Conheces o inferno quando descobres que não chegaste sequer a viver teu o sonho tão querido e tão próximo, uma vez que nunca se perde o que nunca existiu. O inferno é o sítio onde não tens nada teu.

Os teus bolsos estiveram sempre vazios.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Desafio XLII - Resposta



“Tens que ouvir a música” Foi o que eu lhe disse. Estávamos os dois cá fora, o parque prometia um Outono que custava a sair das folhas e do cheiro das castanhas assadas.
“Ouve a música”. E foi assim que o deixei naquele jardim, de mãos dadas com a minha ausência. E as minhas costas tornaram-se num pequeno rectângulo negro recortado no quadro impressionista.



Conhecia-o há pouco tempo, tão pouco que na verdade não o conhecia. Ele foi um corpo pronto a acomodar a minha vontade de imaginar personalidades. E enquanto não fui sabendo quem ele era, ele foi sendo toda a gente.
Quando fomos àquele concerto, naquela primeira noite, estava ainda despejado sobre ele aquele perfume encantador do mistério de não se saber quem se encontrou. Como uma prenda que se guarda na mala e que ainda não se abriu.
Mas quando entrámos na sala, a primeira coisa que vi foi o piano de cauda iluminado por uma luz tépida que contrastava com o escuro dominante do público. Um piano solitário e desprotegido que aguardava que alguém o habitasse.
Foi logo ali que ele passou de ser toda a gente para ser Ele. E comecei a sentir a excitação e o desânimo alternados de começar a pegar na prenda e finalmente abri-la.
Ele olhava simultaneamente para mim e para o piano criando uma linha que me entristeceu. Como se o piano e eu tivéssemos algo em comum.

Sentei-me e ouvi a rapariga tocar. Gostei logo dela, com um amor fácil como o que cultivo pelas nuvens de trovoada. Mais tarde percebi que gostei dela porque ela habitava o piano e não o deixava sozinho.

Durante todo o concerto senti que aquela linha que ele criara se intensificava e comecei a sentir um formigueiro instável. A minha impaciência tornou-se gélida quando após as últimas palmas, a rapariga se levantou e disse que queria convidar uma pessoa do público para tocar um pouco. E imobilizei-me quando ela disse o meu nome.
Finalmente percebia a razão de tudo aquilo. Porque tudo tem um propósito e todas as prendas acabam por ser abertas.

Levantei-me e sai da sala. O coração doía-me dolorosamente e sentia o corpo a encher-se de raiva. Com passos curtos e determinados dirigi-me à saída. Lá, ele estava à minha espera como se tivesse ultrapassado o tempo. Parecia assustado e arrependido e isso só me enfureceu mais.
“Só queria que tivesses a oportunidade de tocar num piano!”

Lembro-me que olhei para ele como se fosse uma formiga, um bicho indesejável que viajara comigo preso ao meu casaco. Ele já não era toda a gente. Ele era Ele. E era Dele que eu não gostava.
“Eu não toco em pianos” e afastei-o da minha frente, para finalmente entrar na noite húmida.

No dia seguinte ele ligou-me e de todas as vezes eu desliguei o telefone, adiando-o. Todo aquele mistério que ele carregara desaparecera instantaneamente. Sem mistério, ele era só um rapaz que tentava fazer-me feliz.

Mas eu nunca seria feliz ao piano.
A professora de música da escola convencera os meus pais de que eu tinha um talento especial para a música. E com pouco mais de cinco anos as minhas tardes de terça-feira eram passadas numa sala minúscula com um piano incrustado na parede e um cheiro a mofo das pautas que eu endireitava com as minhas pequenas mãos.
Já naquela altura eu era demasiado irrequieta. Quando me sentava ao piano ficava de costas para a janela e era constantemente repreendida. A música saltava-me do coração para a vida e eu corria a recolhê-la. Porque o piano exigia-me as escalas e a rapidez das mãos enquanto a professora batia com a caneta no tampo. Já nessa altura eu dava mais atenção ao ritmo da caneta do que à melodia do piano. Dava mais atenção aos ténis do que às sabrinas. Era mais agressiva do que suave.
E quando produzia melodias no piano, sentia que era ele que estava apaixonado por mim.

Um dia deixei-o sem razão aparente. Não expliquei o meu divórcio, mas mantive-o sagrado, longe da incompreensão dos que me convenciam a voltar para aquele que diziam ser “o meu instrumento”.
Troquei-o mais tarde por uma bateria, quando a violência que eu sentia dentro de mim se tornou insuportável. E apaixonadamente, sendo eu em cada centímetro de pele, criei ritmos e solos. Aprendi pautas a quatro membros, rompi preconceitos e cansei os tornozelos numa algazarra confusa e barulhenta.

Ocasionalmente, a minha solidão espreitava-me e abanava-me a cabeça quando à noite estava à janela. “És teimosa”, dizia-me ela. “O piano foi feito para ti, é solitário como tu”.
E eu sentia saudades. De levantar a tampa preta e de conversarmos. Sentia saudades do amor que ele me dava. Que só ele me dava. Que só ele me tinha.

Porque o ritmo nunca existiu isolado. E a minha agressividade só fazia sentido enquadrada com as guitarras. Mas as guitarras nunca chegaram.

Hoje eu sei que elas nunca vão chegar. E sei que esta minha insistência em ser o ritmo de uma banda não é mais do que um profundo sonho que acalento desde pequena que é o de não estar só.

E o piano sabia.



terça-feira, 19 de outubro de 2010

Desafio XLII

Wings para Alice in Wonderland:

http://www.youtube.com/watch?v=_mVW8tgGY_w


Alice in Wonderland para Ricardo:

"Imagine if you suddenly learned that the people, the places, the moments most important to you were not gone, not dead, but worse, had never been. What kind of hell would that be? "

from A Beautiful Mind




Ricardo para Wings:

“Great spirits have always found violent opposition from mediocrities. The latter cannot understand it when a man does not thoughtlessly submit to hereditary prejudices but honestly and courageously uses his intelligence.”
(Albert Einstein)