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domingo, 25 de abril de 2010

Desafio XV - Resposta

"Eu agora tinha a morte dentro de mim. E é horrível estar grávido da morte."
António Lobo Antunes

“Seis meses”.
Há sete meses que este espaço temporal o perseguia, todos os dias. A toda a hora, a todos os momentos. Há sete meses que fecundava dentro de si uma morte lenta, excruciante, apenas tratada, e a custo, com muitos comprimidos e analgésicos.

“Seis meses”.
Hoje, exactamente sete meses e sete dias depois desse fatídico dia, ele estava na sala de professores pela última vez. Vestia o seu melhor fato, como se do seu enterro se tratasse. Tinha tudo preparado. Tremiam-lhe os papéis nas mãos, as suas cábulas, como se da primeira aula da sua vida se tratasse. Sentia um nervoso miudinho, misturado com adrenalina, alegria, tristeza, e todos os outros sentimentos que tinha sentido nos últimos meses.

De alguma forma, sentia-se abençoado. Sabia quanto tempo tinha. Durante todo aquele tempo conseguiu organizar a sua vida. Toda. Conseguiu trazer para junto de si as pessoas junto a quem quereria morrer. Conseguiu tratar de papelada, conseguiu organizar os melhores momentos em família. Conseguiu, como se possível fosse, quase esquecer o que o levou ao sítio onde estava agora. Racionalizou tudo na sua vida, e aceitou, quase, a sua morte.

Naquele momento sabia que não queria estar noutro sítio. Faltava terminar mais um capítulo da sua vida. Faltava fechar, se possível com chave de ouro, vinte anos de ensino na “sua” faculdade.

Quando o vieram finalmente chamar à sala de professores, levantou-se de um ápice, perdendo momentaneamente o equilíbrio. Culpa dos medicamentos. “Estou bem”, assegurou aos seus pares. Depois caminhou, qual corredor da morte, lentamente, excruciantemente, os poucos passos que o separavam do Grande Auditório. Quando entrou, o silêncio apoderou-se instantaneamente da sala. Por um momento, no mais impressionante silêncio que viveu nos últimos sete meses e sete dias, sentiu a morte dentro de si. Sentiu-a mexer-se, como se de um bicho se tratasse. Sentiu que se apoderava dele, pouco a pouco, mas sem perdão. A morte não falharia. E iria, mais depressa ou mais devagar, tomar completamente conta dele.

Olhou em volta. Quase um milhar de alunos olhava-o, com o ar de pena que habitualmente caracterizava as pessoas que encontrava. Dirigiu-se lentamente para o palanque. Confiante. Com tão pouco tempo que tinha, nada podia correr mal. Tinha de ser tudo maravilhoso. Inesquecível. Não venceria a morte agora, mas nutria o ardente desejo de se libertar dela o mais depressa possível.

terça-feira, 6 de abril de 2010

Desafio XIV - Resposta

"Oh! Se eu soubesse que o Inferno
não era como os padres mo diziam:
uma fornalha de nunca se morrer...
mas sim um Jardim da Europa
à beira-mar plantado...
Eu teria tido certamente mais juízo,
teria sido até o mártir São Sebastião!
E inda há quem faça propaganda disto:
a pátria onde Camões morreu de fome
e onde todos enchem a barriga de Camões!
Se ao menos isto tudo se passasse
numa Terra de mulheres bonitas!
Mas as mulheres portuguesas
são a minha impotência!"

Almada Negreiros, Cena do Ódio

- “Zé, já viste? É tudo tão barato!”

Foi a chapada mais forte dos últimos 5 dias. Foi basicamente a chapada que me trouxe de volta à realidade. Mas eu devia ter imaginado. Já não era a primeira vez que acontecia, e eu sabia que acontecia de cada vez que voltava para casa: quanto mais se aproximava a hora do voo para casa, mais eu começava a ouvir a minha língua.

Sejamos sinceros, não foi a minha língua que provocou a enorme chapada que levei. Essa guardo-a com a maior das estimas, aquela com que se guarda o único verdadeiro meio de nos comunicarmos em total completude. Não. O que me trouxe de volta à realidade foi a inabalável força com que somos sugados de volta a casa. Casa?

“Home is where the heart is.”

Gostava que um dia “casa” fosse todo o meu mundo. Todo o mundo que eu conheci e que valeu a pena. E também aquele que não valeu a pena, mas que me ensinou que somos todos diferentes, e que a bondade toma muitas formas, mas que é sempre bondade.

- “João!!!” – gritos pelo terminal – “Vou levar as revistas de futebol dos ingleses!”

Típico.

Todas as viagens acabam como começaram. Pelo menos é isso que vê quem olha de fora. Quem disse “Adeus” no dia da partida e agora os espera nas Chegadas. Mas é de tal forma um engano que muitas vezes os próprios viajantes negam, ou refutam, as mudanças que trouxe a viagem à sua vida (umas férias de 2 semanas num resort na República Dominicana mudará a nossa vida?... talvez, mas menos que as 4 horas passadas neste terminal frenético desta cidade frenética). Para quem vê de fora, todas as viagens acabam como começaram. Para quem viajou, tudo mudou. Tudo muda. E a experiência é sempre à medida do viajante, obviamente (nem todos experienciam Amesterdão da mesma maneira). Mas todas as pessoas, à sua maneira, mudam.

E é essa mudança constante, cumulativa, que me atira de novo para o terminal. Dez minutos antes do início do embarque, já nem me sinto no estrangeiro. Estou sentado numa sala de espera rodeado de conterrâneos. Sinto vergonha. E eu não sou diferente deles. Ou pelo menos não sou totalmente diferente deles. Na verdade sou igual a eles. Sou igual porque me fiz igual, porque quero ser igual. Porque na minha simplicidade sinto-me bem, confortável, sendo igual a eles.

Quatro horas rodeado de pessoas que não conheço, de culturas que se cruzam aos encontrões nos corredores, dão que pensar.

Sinto-me sozinho naquela sala de espera. Sinto o peso dos meus sentimentos nos ombros. Sinto um vómito anti-patriótico. Neste preciso momento, sinto um profundo nojo pelas pessoas que me rodeiam. As mesmas que com a mesma facilidade fazem tudo para sair por cima. Tudo. Sinto que na cabeça deles apenas pensam no pastel de bacalhau e no copo de três que os espera em casa. N’A Bola em cima da mesa. Sinto outro vómito.

Fiz-me igual a eles. Na verdade eu sou igual a eles. A diferença é que, nesta enorme sala de espera cheia de gente barulhenta e tão igual a mim, eu sou o único que não quer voltar.

quarta-feira, 24 de março de 2010

Desafio XIII - Resposta

"Põe quanto és no mínimo que fazes"
Ricardo Reis

Chamam-me um “pateta alegre”. Não será, acredito, com má intenção, mas algo na forma como o dizem mexe-me com as entranhas.

Sinto que tive uma boa dose de sorte ao longo da minha vida. Sinto que tive quem me educasse, e quem me ajudasse, e quem me acompanhasse. Não o sinto, na verdade, sei-o. Sei que nunca estive sozinho, mesmo que bem lá no fundo sentisse a mais desesperante solidão. Sei que tive e que tenho quem me ampare na queda, e quem me ajude a levantar de novo, sempre.

Serei fraco?

A questão ecoa nas paredes da minha casa. Serei fraco porque não sofri? Serei fraco porque decidi voltar, serei fraco porque tive sorte ao longo da vida e portanto nunca precisei de realmente lutar?

Muito bem, assumamos que sou fraco.

Silêncio.

Lá está, nada mudou. Ainda há um nada era pateta, e agora passei a fraco. Se continuarmos esta conversa passarei a inútil, e depois a dispensável. Passarei a um simples consumidor de um já raro oxigénio.

E no entanto, continuo aqui. E no entanto sorrio ao ver o que sou, onde estou, e o que consegui. Sozinho ou acompanhado. Revejo-me em mim próprio. Arrependo-me da minha quota-parte de situações, e dou graças por um outro conjunto de situações que fortuitamente aconteceram.

Um momento de silêncio, por favor.

Sim, sou fraco. Sim, tenho dificuldades em dizer que não. Sim, tremo quando sei que tenho razão mas não ma dão, ao ponto de querer explodir sem no entanto o fazer, sabendo que se o fizesse perderia a razão. Sim, prefiro evitar os problemas a enfrentá-los (“Confront your enemies, avoid them when you can”). Sim, tenho dificuldades em engolir situações novas, por medo de perder o conforto em que me instalei nas antigas.

E no entanto, sou íntegro. Sou aquele que tenta apaziguar, mesmo que não consiga sempre evitar cair na simplicidade do “dizer mal”. Sou aquele que faz o que pensa, e que faz aquilo em que acredita, habitualmente.

No entanto, sou aquele que vive feliz consigo próprio. Aquele que dorme bem à noite, aquele que não sabe onde vai chegar e que se preocupa com isso. Aquele que prefere o mapa à aventura, e que acha o próprio mapa uma grande aventura.

Sou aquele que pára o carro no trânsito matinal para tirar uma fotografia ao nascer do sol. Sou aquele que sorri como resposta a um simples sorriso. Aquele que se alegra com as alegrias dos outros.

Sou pateta? Fraco? Simplório? Talvez. Mas sem nenhuma dúvida sei quem sou. Sou eu, e sou eu quem decide a minha vida. Mesmo que essa decisão seja de fazer o que as outras pessoas esperam que faça, ou o que me pedem para fazer. Sou sempre eu. Às vezes não pareço. No fundo, sou sempre eu.

segunda-feira, 15 de março de 2010

Desafio XII - Resposta

"A bondade consiste em estimar e amar os outros para além do que eles merecem."
Joseph Joubert


Ele brincava nervoso com a aliança que trazia no dedo anelar esquerdo. Não era raro mexer-lhe, embora nos últimos tempos o fizesse de mais em mais frequentemente. Tinha à sua frente, naquele velho restaurante escondido da cidade de Lisboa, um copo de um qualquer aperitivo esbranquiçado que ia sorvendo de quando em vez. Na mesa estavam postos dois couverts; era evidente que esperava alguém.

Enquanto o fazia, olhou em volta. O restaurante estava quase igual à última vez em que lá tinha estado, havia mais de vinte anos. “Vinte anos”, pensou carregadamente, suspirando. “Uma vida inteira”. A decoração tinha mudado bastante, assim como os empregados. Reconheceu, mal entrou no restaurante, o patriarca daquela casa, que se movia lentamente pela sala, garantindo que tudo estava bem com os seus clientes. Os seus provavelmente oitenta anos pesavam-lhe muito mais que da última vez, quando corria por todos os lados, fazendo voar pratos pelas mesas de forma que nenhum cliente ficasse atrasado da sua curta hora de almoço, no entanto apreciando sempre boa comida.

Foi lá, enfim, que pediu a sua namorada em casamento, depois de mais de dez anos de namoro. Ela tinha sido o seu primeiro amor; a sua namoradinha de infância; a sua miúda da adolescência; a sua companhia de universidade; a sua namorada, a sua mulher. E não podia deixar de admirar o seu pequeno toque de ironia ao convidá-la naquele dia, de entre todos, para almoçar ali.

Quando ela entrou no restaurante, vinha despenteada e um pouco perdida. Trazia na mão alguns papéis, e o casaco mal arranjado.

- “Desculpa o atraso, mas tive de fazer uns telefonemas importantes antes de sair.”

- “Não… não faz mal…” – Foi naquele momento que ele percebeu que ia custar mais que todos os planos que tinha feito à noite para si próprio. Era um facto que o casamento não corria bem, e que a culpa era muito dela, que sempre quis mais para si que para eles os dois. Foi ela que não quis ter filhos para não perturbar a sua ascensão galopante na empresa, para que ele não se visse obrigado a ter de os educar sozinho. E ele tinha estado sempre ao lado dela, tinha-a sempre motivado e apoiado, tinha-a levantado nos momentos difíceis e tinha festejado à sua sombra as vitórias dela. Ele tinha estado sempre lá. Sempre.

Mas hoje acabava. Tinha sido demais. As desconfianças de algumas histórias mal contadas, com o acumular de tantos anos de frustrações tinham atingido o limite. Não podia mais. Queria poder passar o resto da sua vida a pensar em si, em aproveitar a quão magnífica era a sua própria vida. Queria conhecer mais pessoas, queria usar e abusar do seu tempo, queria ir onde nunca tinha ido e ver o que nunca tinha visto. Acabava ali.

- “Tenho uma coisa para te dizer.” – começou, ganhando fôlego.

Ela olhou-o, notando uma reverência pouco habitual nele. E quando se tentou concentrar no que ele lhe queria dizer, vieram-lhe de repente todas as memórias dos últimos dias: a clínica, os exames, a biopsia, os resultados. Ele não podia saber. Ela não queria saber. Não era justo, não agora que ela tinha todo o seu tempo planeado para atingir o posto mais elevado da sua empresa. Agora que os apoios apareciam à esquerda e à direita. Não, não podia ser. E até àquele momento tinha vivido tudo de uma forma racional. De alguma forma aquele espaço, aquele homem à sua frente, e a reverência com que a olhava devolveram-lhe a fragilidade. Por um momento. Por um pequeno momento. O bastante.

Poucos segundos depois de começar a olhar para ele, começou a chorar. Grossas lágrimas caíam da sua face em direcção à mesa, e ela soluçava descontroladamente num restaurante onde toda a calma tinha desaparecido.

“Mas eu ainda não disse nada! Será que ela já sabia?”, pensou para si. Ele não tinha falado com ninguém de nada. Era impossível era saber. Perguntou o que se passava, e ela simplesmente passou-lhe os papéis que trazia na mão para as suas mãos. Um tumor maligno em fase avançada. Foi descoberto muito tarde. Tarde demais. Em resumo, não havia nada a fazer. O papel assinava gravemente a sua sentença de morte: 1 ano, não mais.

E num só momento tudo se desvaneceu. O mundo parou e rodou ao contrário por um pequeno instante. Desapareceram as frustrações, as semanas a pensar e a decidir dar finalmente o grande passo. As casas que procurou para alugar. Tudo. À sua frente estava, simples e frágil como há vinte anos, a sua mulher, o amor da sua vida, a única pessoa que tinha despertado nele tudo o que havia de melhor. A única pessoa que realmente amara, e que agora estava a morrer. Que agora via a vida a passar-lhe por entre os dedos como finos grãos de areia.

Tentou dizer-lhe nesse ano o quanto a amava como se de dez anos se tratassem. A sua saúde piorou rapidamente, e passado pouco tempo ele passou a viver para ela, e ela largou finalmente o seu trabalho. Os tratamentos mantinham-na um pouco melhor, mas a sua própria desmotivação não ajudava. Um ano depois daquele almoço, ela repousava na cama do hospital, num coma induzido para minimizar as dores, enquanto lentamente morria por dentro. Enquanto o tempo amargamente e cruelmente fazia o seu trabalho, como sempre fazia. E ele dormia ao seu lado, num sofá improvisado, onde os médicos simplesmente não conseguiram recusar a sua estada prolongada.

Dez anos depois daquele almoço, ele voltou ao restaurante. O patriarca tinha já morrido, assim como a sua mulher. Ele vivia agora num pequeno apartamento, e refizera a sua vida, a pouco e pouco. Não teve mais ninguém, e arrependia-se do dia em que chegou a pôr essa hipótese. Um dia pediria desculpa à sua mulher. Naquele dia, pediu o mesmo aperitivo que tinha pedido dez anos antes. Depois deixou-se ali ficar, em silêncio, olhando o mundo indiferente à sua dor. Queria apenas silêncio, queria apenas um sítio acolhedor onde as memórias boas pudessem aquecê-lo um pouco de novo. Olhando à volta, bebendo da vida das outras pessoas que iam entrando e saindo, foi-se deixando ficar. Estavam dois couverts na mesa. E ele brincava ainda nervoso com a aliança.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Desafio XI - Resposta

"The future is something which everyone reaches at the rate of 60 minutes an hour, whatever he does, whoever he is."
C. S. Lewis

Não olhes para mim com essa cara!

Enganas-te se pensas que só por eu estar aqui sentado e tu aí a trabalhar, o teu futuro vai chegar mais depressa do que o meu... Enganas-te se pensas que me conheces. Não fazes senão perder o teu tempo se tens pena de mim quando por mim passas. E desprezo-te amargamente quando pões o teu ar superior e me debitas um qualquer cliché que outro pensou e que a ti te daria muito trabalho, mesmo que lá pudesses um dia chegar.

Mas não chegas, nem chegarias, e sabes porquê? Porque te manténs aí sentado, com esse fato que me poderia ter alimentado mais de um mês, com essa camisa que outros te lavaram e engomaram, com esses sapatos que outros, iguais a mim, te engraxaram. Preferes vê-los aos teus pés, bem sei. É isso que te permite o poder a que te permites, bem sei. Nunca serás nada.

Eu? Também não, mas sabes o que nos difere? Eu tenho um filho. Não, não abras sequer a boca para dizer essas palavras. O que tu tens não são filhos, são seres humanos com quem partilhas a casa e preferes ver pelas costas. Porque isso é trabalho para as amas, que estão certificadíssimas para as educarem na nobreza e nos bons costumes. Sim, eu admito. Se soubesse o que sei hoje não teria sido pai. Mas o meu filho foi apenas fruto do amor, enquanto o teu foi a rota habitual da conveniência. Depois a minha mulher morreu, e hoje vejo-me obrigado a usar o meu único rendimento para pagar um vão de escada, a comida do meu filho, e a poupança que faço para ele. Porque ele será alguém na vida ao contrário do pai, e enquanto eu cá estiver para ver, ele nunca será como tu, deus assim o permita.

Está na minha hora de me levantar. Pensavas que vivia de esmolas, era? Enganas-te. Por ironia, és tu quem me dá trabalho. Tu e todos os que atiram lixo para o chão no dia-a-dia, porque os caixotes do lixo são simplesmente sujos demais para te aproximares.

Pensas que te odeio? Que te desdenho, que falo mal de ti a todo o momento? Pensas que penso em ti mais que o tempo que perdi a desabafar nestas linhas? Pensas que tudo gira à tua volta, como todos os outros. Enganas-te. Quando acabar de escrever, tu vais ser apenas mais uma pessoa nessa fila de trânsito. Que veículo tão potente que conduzes, se não fazes mais que gastar a embraiagem.

Desculpa-me, tenho de ir trabalhar. Depois à noite vou ao teatro com o meu filho. Tenho bilhetes que me ofereceram por ter um part-time a limpar a sala de teatro antes das sessões.

O teu futuro não é assim tão risonho. Tu apenas o pintas para que assim pareça. No fundo, o teu futuro vai sempre andar a par do meu. E no fim ao menos eu sentirei que fiz tudo ao meu alcance para conseguir ter uma vida melhor. Para ti terá sido tudo simplesmente fácil demais.

terça-feira, 2 de março de 2010

Desafio X - Resposta

“I don't believe in an afterlife, so I don't have to spend my whole life fearing hell, or fearing heaven even more. For whatever the tortures of hell, I think the boredom of heaven would be even worse.”
Isaac Asimov

O que os tornava tão especiais era o quão eram diferentes. Naquela tarde de Inverno, embrulhados numa manta grossa de lã, bebiam chá enquanto viam o pôr-do-sol ao fundo da rua. O prédio onde moravam era igual a tantos outros naquela velha cidade europeia. Como tantas. Como muitas.

Embora fosse um ritual tão repetido nas tardes de sexta-feira – ver o pôr-do-sol de forma a apreciar o início do fim-de-semana e beberem um chá como todos os habitantes naquela cidade – ele não podia deixar de se sentir desconfortável. Já perdia a conta ao tempo a que faziam aquilo, no entanto sentia ainda os olhos dos transeuntes e dos vizinhos sobre eles quando passavam, entrava ou saíam do prédio. Ela, por seu lado, sentia-se completamente à vontade, e acima de tudo feliz. Na verdade aquele era para ela dos poucos rituais que fazia com prazer; todos os outros eram feitos como compensação do seu companheiro embarcar muitas vezes contrafeito nas aventuras dela. E era exactamente aquele dicotomia que os tornava especiais. Porque o amor que sentiam um pelo outro ia muito além dos rituais e tradições dele, ou da sede de aventura e inconstância dela. Era algo muito mais profundo e inexplicável. Era um sentimento de pura completude, como se a partir de um momento um não pudesse existir sem o outro, como se a loucura dela não pudesse viver sem a calmaria dele.

- “Já pensaste como será o céu?” – Foi ele quem quebrou o silêncio. E conforme abriu a boca, uma nuvem de vapor saiu e juntou-se à que saía da chávena de chá com que aquecia as mãos.

- “Ou o Inferno? Não sei, não acredito especialmente nessas coisas.”

- “Porquê o Inferno? Fizeste alguma coisa de mal?”

- “Pequei contra a sociedade.”

- “Que tola… só se pecaste por escolher tomar a tua vida nas mãos, ao contrário de todos os outros que se deixam ir.”

- “… Como tu?”

- “Eu deixei-me ir por ti. Não sei, achas que mereço o Inferno?”

- “Eu acho que merecemos os dois ir para o Inferno.” – A cara dela continuava séria.

- “E lá se vai o meu desejo de eterno repouso.”

- “O eterno repouso é uma seca!”

- “E eu para Inferno já bem me basta o meu dia-a-dia.”

- “Vamos fugir?”

A pergunta ficou no ar. Ele lembrou-se imediatamente daquele dia de Fevereiro. Chovia a potes quando aterraram no seu destino, o céu estava negro para um dia que ainda mal começara, e nem sabiam muito bem o que haveriam de fazer. Decidiram fugir, não no sentido rápido da fuga, visto que foi algo planeado e pensado, mas fugiram na mesma. Das famílias, e dos amigos, e do país e de todas as coisas que deixaram para trás. Com eles apenas duas malas e duas mochilas. Os olhos dela irradiavam luz. Os dele transpareciam medo.

- “Já fugimos que chegue. Vamos assentar. Vamos para o céu.”

- “Que piada teria isso, assentar?... Que sentido faria tal coisa? Como pôr um ponto final na nossa vida, e não passarmos de mais dois escravos da sociedade?” – Ela sorveu um pouco do seu chá, depois olhou-o nos olhos pela primeira vez. – “Tu gostavas de assentar?”

Ele bebeu também um pouco de chá. Depois olhou o pôr-do-sol um pouco, reflectindo sobre a pergunta dela. Ele próprio já se tinha questionado várias vezes sobre isso. Depois olhou-a de novo nos olhos.

- “Um dia, talvez… Mas senão também vou contigo para o Inferno.”

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Desafio IX - Resposta

"Fairy tales are more than true.
Not because they tell us that dragons exist.
But because they tell us that dragons can be beaten."
Coraline e a Porta Secreta - Neil Gaiman

O João corria que nem louco naquele sábado. Era o seu dia de anos, e mesmo o dia que ameaçava chuva não podia ser mais bonito, com os seus ténis novos, a camisola de lã da avó e os seus três livros novos. O João era apenas mais uma criança, com os mesmos gostos e as mesmas diversões das outras crianças. Habitualmente era mais calmo e recatado, mas não naquele sábado.

O jardim era pequeno. Era apenas um pouco de verde, uns bancos, um café, tudo rodeado por prédios a toda a volta. Era um jardim pequeno, com poucas árvores, ideal para os pais que não se queriam cansar demais e que de certeza não perderiam os filhos de vista. E que descanso era para os pais de João, que corria que nem doido, umas vezes perto dos pais, outras longe.

Perdendo o filho momentaneamente de vista, foram encontrá-lo de novo sentado ao lado de uma criança, com quem partilhava um dos livros que lhe tinha oferecido. João ainda não sabia ler, mas desfolhava com a criança o livro. E falava com ela, e ambas riam. A outra criança ria também, e esbracejava. Os pais do João continuaram a sua conversa, com um olho um no outro, e outro no João. Depois João correu até eles. Pegou em mais um livro, e disse rapidamente “vou ler outra história”, enquanto corria de volta para a criança. Ambos sorriram. O importante era que se divertisse no seu dia de anos.

Depois chegou outra pessoa, que se aproximou do banco. Olhou para as crianças, com um sorriso vago nos lábios. Depois interpelou, a medo, o casal.

- “Desculpem incomodar, mas… é o vosso filho?”

- “Sim, é. Porque pergunta?”

- “O Ricardo é o meu filho… a criança com quem o vosso filho está a brincar.”

- “Pelos vistos estão muito divertidos a ver aquele conto de fadas. Oferecemos-lhe o livro agora porque ele vai entrar para a escola e convém começar a ter livrinhos para ler, mas ele já sabe a história de cor, é bem capaz de o contar todo só com as imagens.”

- “Pois, mas… sabem, o… o Ricardo, o meu filho… ele é surdo.”

Uma onda de vergonha passou pelos pais de João. “Esbracejar”, que absurdo! Podiam ter compreendido mais cedo.

- “Desculpe, o João não faz por mal…”

- “Desculpar? Claro que não, é óptimo para o Ricardo arranjar amigos…nem sempre é fácil, as crianças acabam por não gostar muito de brincar com ele.”

- “O João adora histórias, é só ter quem lhe dê atenção para as poder partilhar…”

E depois João voltou, buscar outro livro.

- “João, estás-te a divertir?”

- “Sim, estou a ler as histórias para aquele menino. Ele gosta muito.”

- “João… tu sabes que o menino não te consegue ouvir?”

- “Não faz mal mãe. Eu também não sei ler. E a história também é só a brincar.”

Um grave silêncio apoderou-se daquele banco de jardim, conforme João se afastou e se sentou ao lado da outra criança, e de novo retomou história do livro. Tantos adultos, e foi precisa uma criança para lhes ensinar a maior lição de todas: o que interessa não é se os monstros existem ou não, o que interessa é que todos os monstros podem ser vencidos.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Desafio VIII - Resposta

Carpe Diem.
Horácio

Sempre associei liberdade com voar. Sempre olhei para o céu invejando todos os pássaros, todos os aviões, todas as folhas caídas no Outono.

O aproveitar da vida não pode ser algo de fixo ou de estipulado, algo determinado por uma lei, por uma sociedade, por uma cultura ou uma religião. Aproveitar a vida não pode ser simplesmente ver os dias a passar da janela, de um quarto fechado, de um qualquer espaço que nos limite o movimento e nos tape a visão para o céu. Mas também não pode ser simplesmente louco, partir à aventura, só viajar, ou só trabalhar, ou só gozar e festejar e nem sequer dormir por uma hora que seja num fim-de-semana de Verão. Não. Tem de haver algo mais. E não, eu não considero que aproveite bem a vida, eu próprio não sei o que é esse algo mais…ou sei, talvez, mas escuta… será que alguém a aproveita realmente? E já agora, o que é realmente aproveitar a vida? Não me dizes?... O teu silêncio preocupa-me.

No outro dia diagnosticaram ao meu colega do lado na empresa um tumor maligno. Um tumor no pâncreas. Um tumor daqueles que não se remove nem se cura. Daqueles que fica lá até ao dia em que finalmente a ele sucumbimos, ou a qualquer outra complicação derivada dele. Nesse dia o meu colega não veio trabalhar. Terá ficado em casa, suponho. A chorar? A confortar-se com os familiares? A decidir como melhor aproveitar os três a seis meses que lhe restam?

Não sei. Mas no dia seguinte lá estava ele. De fato. Impecável. Impenetrável. Sentado à sua secretária, fazendo o mesmo que faz todos os dias. Ninguém lhe dirigiu palavra. O seu semblante era de tal forma sério que ninguém teve coragem de o incomodar. Sorriu duas ou três vezes. Aproveitar a vida? Como? Quando? Será nos últimos dias antes de morrer que o fará? Quando estiver já no hospital, numa cama onde terminará os seus dias?

Seremos todos fracos? Ou faz apenas parte da nossa condição? Não conseguir dizer “não” sempre que queremos. Não conseguirmos quebrar as barreiras que todos queremos quebrar. Não conseguirmos tomar uma mão forte e decidida na nossa vida. Não conseguirmos gritar, não conseguirmos blasfemar alto e em bom som. E depois fraquejamos. E quanto mais fraquejamos mais tendemos a fraquejar, e a conformarmo-nos, e a sermos esquecidos. E quanto mais nos conformamos mais vemos o nosso dia chegar. “Causa de morte: tristeza”. Ninguém irá ao funeral…

Não. Não pode ser. Aproveitar a vida tem de ser mais que isso. Aproveitar a vida tem de ser uma luta estóica com a Morte. Com a morte física e com a morte psicológica. Com a morte por esquecimento, por tristeza, por alheamento do mundo e da vida que vivemos. Aproveitar a vida tem de ser travar uma luta de cavalheiros com a Morte. Dizer alto: “Morte, eu sei que estás aí, e eu sei que esperas ansiosamente pelo dia. Mas até esse dia chegar, em que eu conformar-me-ei com a tua vitória, vou lutar contra ti, e contra todos os que como tu tentam que a morte psicológica venha ainda antes da física…”.

Porque a morte é a melhor coisa que pode acontecer a cada um. O medo da morte é o melhor motor de arranque que podemos ter. E sim, todos temos medo da morte. Todos choramos quando alguém nos determina um prazo máximo para viver, e todos sentimos um enorme arrepio de medo quando sentimos o momento próximo. A morte é o melhor da vida. A morte é o que nos tem de fazer querer viver, querer aproveitar, querer estar, querer ser, querer deixar uma marca forte e pessoal no mundo. Antes de tudo acabar.

Porque a gaivota começa a morrer lentamente quando perde uma asa, eu olho de novo para o céu. Não podia ter melhor metáfora para o meu carpe diem diário. O céu lembra-me como é importante aproveitar a vida. Como é importante voar enquanto temos asas. Como é importante tomarmos o pulso da nossa vida, e dizer “não”, e dizer “basta”, e dizer “merda”.

E gritar.
E voar.

sábado, 13 de fevereiro de 2010

Desafio VII - Resposta

"O Homem põe e Deus dispõe"
(provérbio)

O dia do terramoto amanheceu nada menos que lindo. Uma manhã soalheira, nem uma nuvem no céu. Sete horas da manhã, quando o céu ficou cor-de-rosa e a vida começou. Ele, e ela, de mão dada, olhavam ao longe da varanda da sua casa. Tinha sido a sua primeira noite da nova vida. Não tinham verdadeiramente fugido da antiga, mas apenas dado o passo em frente. A sua casa nova estava pronta, e reluzia com os primeiros raios da manhã. O silêncio, apenas entrecortado pelo primeiro chilrear dos pássaros, era o primeiro sinal de que nada era como antes.

Ainda fazia frio. Fevereiro mal tinha começado, e apenas agora os dias começaram a crescer. Eles olharam-se, enquanto o Sol começava a despontar no horizonte. Trocaram um beijo no silêncio. Sorriram um para o outro. Depois, tudo o resto foi muito rápido. Rápido demais. Primeiro um tremor, que tomaram como um arrepio de frio. Mas não. Depois correram, uma mão para cada lado, escadas abaixo, porta fora, longe da casa. Tremores mais fortes. Era um daqueles momentos em que não pensavam, não sentiam, não respiravam. A mão que mantinham dada um ao outro, não a sentiam. Apenas a crueza dos factos que viam à sua frente. Apenas a vida, assim como a casa, assim como tudo, que viam desmoronar-se à sua frente.

Aos poucos, nuvens de pó foram aparecendo à esquerda e à direita. Casas, perdidas. Depois a sua, e a dos vizinhos, e os prédios. Tudo quanto estava de pé rapidamente se deitou. Menos eles. Foram os cinco minutos mais longos das suas vidas. Tinham a certeza que daqui a muitos anos ainda se lembrariam daqueles cinco minutos, como se de alguma forma ainda os vivessem, como quem olha para uma lâmpada e fica com o reflexo da luz nos olhos durante muito tempo.

Quando a calma voltou, eles sabiam. Olharam-se. Depois, olharam para cima. Nenhum deles acreditava em nenhum deus, mas não conseguiram evitar. Isto era mais que eles, era acima deles. Logo naquele dia. Aquela terrível coincidência. Olharam de novo um para o outro. Depois choraram. Choraram longamente, abraçados, corações a bater descompassados, e pensamentos a passar a milhares de quilómetros por hora.

Aos poucos haveriam de recuperar. E não decorreria uma hora antes de ambos voltarem ao que sobrou da sua casa. Onde antes estava o sonho de uma vida, agora havia escombros. E só eles sabiam quanto custava ver os sonhos por terra. Não fazia mal. Eles eram fortes. Tinham chegado ali. Retornariam ao ponto de partida, e de novo recomeçariam. Ainda os corações batiam descompassados, e os pensamentos corriam à velocidade da luz; ainda as lágrimas não tinham secado quando ele lhe murmurou ao ouvido aquela que seria a palavra que doravante os poria de novo no rumo do seu sonho: “Persiste!”

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Desafio VI - Resposta

“When I came out into society I was 15. I already knew that the role I was condemned to, namely to keep quiet and do what I was told, gave me the perfect opportunity to listen and observe. Not to what people told me, which naturally was of no interest, but to whatever it was they were trying to hide. I practiced detachment. I learned how to look cheerful while under the table I stuck a fork into the back of my hand. I became a virtuoso of deceit. It wasn't pleasure I was after, it was knowledge. I consulted the strictest moralists to learn how to appear, philosophers to find out what to think, and novelists to see what I could get away with, and in the end, I distilled everything to one wonderfully simple principle: win or die.”
Choderlos de Laclos, "Dangerous Liaisons" (adaptação para o filme)

Quando entrei naquele comboio, eu sabia que era exactamente o que queria. Era tudo o que queria. Não havia nada que me fizesse mudar de opinião. Na verdade, eu não poderia querer superar-me a mim próprio, ou levantar uma voz assertiva numa discussão, se eu não tivesse a moral e o conhecimento para tal. Eu sou, no fundo, um tímido.

Mas um tímido daqueles que não faz mal a ninguém. Não sou um tímido que esconde um grande segredo, ou que analisa e avalia os outros no silêncio e no recôndito da minha mente. Não, sou apenas tímido. Evito conversas de ocasião. Evito falar sobre o que não sei. Evito discutir gostos ou opiniões estritamente pessoais. E espremendo tudo, no final, fico com muito pouco assunto.

E tanto que isso me frustra. Frustra-me querer mais, mas não conseguir nunca dizer as coisas certas, ou fazer as coisas certas, nos momentos certos e nos sítios correctos.

Era por isso que estava ali. Eu só poderia ser mais do que eu se tivesse a superioridade de poder falar. Se tivesse a experiência que me permitisse subir um nível acima dos meus pares, e desse alto anunciar enfim a mais profunda verdade, ou definir a mais importante lei moral, ou social, ou cultural. E não havia sido há muito tempo que eu descobrira isso. Não foi algo pensado durante anos, ou longamente planeado. Não. Foi uma conclusão muito bem tirada de um conjunto de situações. De um conjunto de discussões, de uma mão cheia de tentativas de ter razão. Mas não tinha. E agora eu sabia porquê.

Eu não vira tudo.

Claro, era isso. Eu não tinha visto tudo. Eu não conhecia tudo, e portanto não podia saber tudo. Era normal, fazia sentido. E foi aí que eu decidi que faria isso antes de dar continuidade à minha vida e aos meus planos. A minha viagem seria, a partir daquele momento, a minha vida, os meus planos.

O comboio estava prestes a partir. Na plataforma, as poucas pessoas que se vieram despedir tinham um ar triste, embora estivessem felizes por mim. Elas sabiam, tão bem quanto eu. A minha sede era muito maior que o tamanho do país que daqui a poucas horas abandonaria. A minha sede de conhecimento não tinha, neste momento, limites. Eu sentia-me hiper-activo. Hiper-atento. Beberei tudo o que puder nos próximos… meses, anos… ? Depois voltarei. Mais forte. Mais sábio. Mais culto.

Melhor.

Melhor que tudo, e melhor que todos. Porque a História só reza dos que vencem, e nesta História eu não aceitarei o segundo lugar.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Desafio V - Reposta

“Quando eu morrer voltarei para buscar
os instantes que não vivi junto ao mar”
Sophia de Mello Breyner Andresen

Eu conheço o mar. Eu posso dizer, com alguma vaidade mesmo à mistura, que conheço o mar. Não o conheço todo, como é óbvio. Mas conheço. Vejo-o ao acordar, e vejo-o ao adormecer. Vejo quando a luz rosa do nascer do sol se reflecte no mar, e vejo quando a luz laranja lhe deita os seus últimos raios do dia. Vejo a lua reflectir-se nas ondas, e medir a ondulação a partir fraca luz dos candeeiros da rua reflectida.

Eu conheço o mar no Verão e no Inverno. Nos dias de tempestade e de bonança, de luz e de névoa, de chuva e de seca. Nos dias de calor e nos dias de frio. Eu conheço o mar frio, e conheço o mar quente. E conheço o mar do Minho e o mar do Algarve. E o mar de Lisboa feita Império, e o da Beira feita Litoral e do Alentejo feito maresia. Sim, eu sei qual é a sensação de navegar, e a sensação de estar na praia, e a sensação de estar mergulhado a deixar-se levar ao sabor da corrente.

Eu sei, ainda mais do que isso, qual é a sensação de estar feliz. A sensação de não sentir nada senão a mais pura completude, a mais perfeita fusão, a mais infantil felicidade. É o mar. É o mesmo mar de quando era pequeno. O mesmo onde brinquei, onde mergulhei, onde ainda hoje mergulho. O mesmo onde curei feridas do corpo, e feridas da mente. O mesmo do qual nos afastamos, e o mesmo para o qual voltamos. Porque “melhor que ir, só mesmo voltar”.

E eu conheço, acima de tudo, a minha maior visão do paraíso. Se o paraíso for “a melhor coisa do mundo” para cada pessoa, o meu paraíso tem de ter mar. É impossível não ter. É impossível o meu paraíso não contemplar um dia de calor abrasador, com o sol no seu ponto mais alto, e um imenso mar à minha frente, calmo, sereno, tépido. É impossível eu não poder ficar eternamente por baixo do meu chapéu-de-sol, a ler todos os livros que queria ter lido antes de morrer, e em frente a este mar. A ouvir toda a música que não tive tempo para descobrir ou conhecer. Ocasionalmente uma onda mais marota num dia de maré mais cheia vir-me-á beijar delicadamente os pés, e relembrar-me como o mar é frio. E como o sol é quente.

No meu paraíso haverá mar. No meu paraíso eu poderei ver o mar todos os dias. Eu poderei ver o Sol a nascer no fundo do mar, e o Sol a pôr-se no fundo do mar. Eu poderei ver o mar tomar todas as cores, poderei ver o mar envelhecer enquanto eu, já morto, o acompanharei para sempre. E se o meu paraíso não tiver mar? Não faz mal. Nesse caso terei apenas de voltar a nascer, para de novo poder viver junto ao mar.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Desafio IV - Resposta

"The evil uses very masks, but the most atrocious is the virtue"

Enquanto conduzia, grossas lágrimas rolavam pela sua face, embora ela não chorasse realmente. O seu estado de apatia era, na verdade, o mais incomodativo. Fazia aquele caminho mecanicamente, sem nunca ter pensado no que estava a fazer desde que saíra de casa.

Enquanto conduzia, pensava no que tinha acontecido. As suas malas à porta. A cara fria dele, impenetrável. Nem um pingo de tristeza, de humanidade. Nem um pingo do homem que amava. E era isso que lhe doía mais. Ela amava-o. Ela ainda o amava. E não o conseguia tirar da cabeça, por maior que tivesse sido a maldade que ele fizera.

Foi o amor que a cegou. Foi o ver nele a sua alma gémea, a pessoa perfeita. Conseguira lidar com os seus defeitos, e amava as suas qualidades. E ele retribuía. Retribuíra sempre. Ela sentia que viveram felizes. Muito felizes. Um com o outro. Anos. E nem quando ele lidava mal com situações adversas ela compreendeu a real profundidade do seu ser. Da sua máscara. Daquilo que ele escondia no dia-a-dia, e que apenas não conseguia esconder quando sentia a necessidade de se defender, ou de rápida e fatalmente atacar um inimigo.

Não, ele não era animal. Ou seria, talvez, enfim, um pouco animalesco. Defendia-se quando pressentia o perigo. E defendia-se atacando. Ela vira por várias vezes as suas explosões. E apaziguava-as. E chorava à noite, justificando-se que era apenas a personalidade dele, mas nada de grave. O amor por ele cegou o seu sexto sentido. Ela devia ter sentido.

E ele sentia-se bem. Tinha a sua mulher. Tinha uma boa vida. Tinha a vida que queria ter, porque quando não tinha lutava contra isso. Lutava veementemente, intensamente. E foi aquela carta que despoletou tudo. Ele próprio não conseguia justificar o que sentia. Era algo superior a si. Era uma crueldade que ele não compreendia, que ele não controlava, mas que no entanto o fazia sentir-se bem consigo mesmo.

E depois foi tudo o que aconteceu. As acusações, os berros, os vizinhos a vir à porta, a estalada final, uma porta a bater. Ela lembrava-se apenas de uma mancha vaga e difusa de tudo o que aconteceu. Não compreendia ainda como tinha acontecido. No banco ao seu lado no carro, a carta amarrotada que ele tinha na mão quando ela entrou em casa. Era estéril. E o seu marido reagiu com ela como reagira com qualquer outro que o tivesse ameaçado. Ferozmente. Sem piedade.

A virtude dele cegara-a. E foi assim, cega, que negou todos os sinais da forma como ele via o mundo. Da forma como ele era cruel para todos os que o rodeavam.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Desafio III - Resposta

"Faithless is he that says farewell when the road darkens."
J. R. R. Tolkien

A neve cercava-os. E enterrava-os até muito acima do tornozelo. A pequena floresta onde estavam, apenas um pequeno aglomerado de árvores que conheciam desde a infância nas traseiras da casa, estava coberta de neve pela primeira vez em muitos anos. Nenhum deles realmente se lembrava de alguma vez a ter visto assim, embora aquele não fosse o motivo que os levava ali. O silêncio, como sempre numa paisagem branca, era avassalador. Era como que uma amostra do fim do mundo, do fim do desenho, quando não há mais história nem mais tinta, e fica apenas o papel branco.
A infância já lá ia há muitos anos, e ambos tinham crescido. Ambos tinham seguido diferentes caminhos, ambos abandonaram a aldeia com diferentes objectivos. O namoro dos tempos de escola passara, assim como muitas paixões depois dessa. Ambos tinham vivido muito desde o namoro da escola. Ambos tinham vivido mais de quinze anos desde então. Por vezes tinham-no vivido juntos. Por vezes às escondidas de tudo e de todos. Nem todos os caminhos foram os melhores. Nem sempre nos cruzamentos da vida tinham tomado os melhores caminhos.

Ela lembrava-se perfeitamente daquela noite, dois anos antes. O telefone tocou enquanto ela trabalhava horas extraordinárias que nunca lhe seriam pagas, à luz de um velho candeeiro, olhos cansados postos no computador. Não reconheceu o número. Atendeu. Do outro lado, uma sombra de homem pedia-lhe ajuda. Não era longe. Não tinha mais ninguém. Vergonha demais para pedir ajuda. Onde estava? Não estava… A sombra em que ele se tinha transformado jazia num velho vão de escada de um velho prédio na zona velha da cidade. E ela não teve como dizer que não. Eram quatro da manhã quando finalmente o recolheu, o aqueceu, e lhe emprestou a sua casa. Nunca o faria se não nutrisse por ele a maior das amizades e o maior dos carinhos. Apenas ela, sabia-o agora, viu na sombra dele o homem que ele fora, e o homem que ele poderia ter sido. Apenas ela sentiu um profundo amor por ele. De novo.

Depois ele ficou melhor. O calor dela aqueceu-o, não só por fora mas também por dentro. Recompôs-se. Voltou para a aldeia, foi recebido pelos pais que o acharam magro, mas bem. Desconheciam tudo o resto. E tudo ficou bem.

Mais que o branco e o silêncio, o frio enregelava-os. Ela trazia a sua roupa de Lisboa, e ele vestia uma coçada roupa de campo. Mas ele já não era de novo o mesmo homem. Ela tinha sabido assim que o vira naquele Inverno. Tinha sentido. Sentido a sombra de novo a apoderar-se dele. Mas desta vez ela não estaria cá para ele. E sim, ela sabia como ele precisava dela. Como ela era o seu pilar, presente ou ausente do seu dia-a-dia.

Tinham ido à floresta conversar naquele dia de rigoroso Inverno. Ela arranjou uma oportunidade de trabalho. “Em Lisboa?”, perguntou ele. “No Japão”, respondeu ela, sem conseguir esconder o quanto lhe custava dar a notícia. Na cara dele viu-se o choque, depois a profunda tristeza e desespero. Depois o silêncio. O longo silêncio. Depois veio a revolta. A impotência.

- “Desleal é aquele que se despede quando o caminho escurece.”

Uma lágrima criou-se e desceu pela cara dela. Grossa, longa. Tão longa quanto a tristeza de de novo o ver assim. Tão longa quanto a desilusão de de novo ver cair sobre ele uma escura e profunda sombra. Mas já tinha decidido. Não iria voltar atrás. Não desta vez.

- “Talvez. Mas não jure caminhar no escuro aquele que não viu cair a noite.”

De novo o silêncio. Antes de voltar para casa, ele olhou de novo em volta. A neve cercava-os.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Desafio II - Resposta

"The things you own end up owning you."
(Chuck Palahniuk, Fight Club)

Ele só voltou a sentir-se realmente sozinho muito depois de ter deixado Lisboa. Com a azáfama do aeroporto, e do avião, e de novo do aeroporto, só voltou a sentir-se sozinho quando saiu pela porta do aeroporto e inspirou pela primeira vez o frio de França. Estavam exactamente menos dez graus que em Lisboa, e a roupa de meia estação que trazia protegiam-no apenas o mínimo razoável para o frio que agora sentia. Olhou em volta. Conhecia tudo aquilo muito bem, tudo bem demais.

Esperou pelo primeiro táxi. Ele não era um turista qualquer. Não, ele nem sequer era um turista. “Saint Nicolas, côté Pont Neuf”. A determinação nas palavras e na voz deixavam para trás qualquer dúvida. E foi aí, foi ao falar pela primeira vez na “sua” França, que em vez de frio sentiu calor. Sentiu o mesmo calor que sentia de cada vez que voltava a Lisboa. “Melhor que ir, só mesmo voltar”, ouvira uma vez, e com que razão. Sentiu-se em casa. E assim que este pensamento se materializou na sua cabeça, sentiu um arrepio. Sentiu-se em casa. Casa.

Viu pela enésima vez passar a auto-estrada periférica, depois entrar na cidade, as ruas e ruelas. Em tempos sentiu-se um turista naquela cidade. Muito mais que um estudante. Sentiu-se perdido, depois campónio numa azáfama desconhecida de uma cidade que não era sua. E que foi descobrindo aos poucos. O castanho. As vielas. As pequenas lojas, as pessoas, a voz. A língua. Que aos poucos e poucos tomou como sua. Era a sua cidade, era a cidade onde agora passava os dias, com quem partilhava alegrias e tristezas. E foi a sua cidade até ao dia em que se foi embora, e de novo voltou a Lisboa. E o voltar soube-lhe bem.

O táxi parou sem que ele desse por isso. Tinha chegado. A casa era mesmo ali. Pagou e saiu. Sentiu-se de novo sozinho, e de novo inspirou. Sentiu o frio que lhe entrava pelo corpo. Sentiu o calor de estar em casa. Pensou apenas escassos segundos no que tinha feito. No que estava a fazer. Depois tocou à campainha, e ouviu-a ressoar lá dentro. Abriram. Entrou pelo pátio interior, direito à casa. Ouviu a porta da rua fechar-se atrás de si. Sentiu outro arrepio. Mais do que a sua cidade, ele fazia agora parte da cidade.

Quando finalmente a viu, ambos sorriram. Mesmo que fosse por pouco tempo, agora ele era dali. E o voltar soube-lhe tão bem.

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Desafio I - Resposta

“- Tens de ser mais feliz.”

Foi esta a última frase que Joana leu do seu livro antes de sair do comboio. Odiava que no Inverno chegasse já a casa de noite, mas não havia nada a fazer. Ao menos não chovia. Podia fazer o resto do caminho calmamente a pé, e não a correr debaixo de um chapéu de chuva. Dar-lhe-ia tempo para ver uma ou outra montra, para inspirar o ar frio, e para desentorpecer as pernas. Levava o livro debaixo do braço, e a mala ao ombro. E foi ao passar pelo jardim que ocupava o último quarteirão antes do seu que ela o viu. De novo. E por um momento abrandou o passo, sem no entanto parar. Conhecia a cara dele de algum lado. Mudou de rumo para passar à sua frente no banco de jardim, sem chamar muito a atenção. E depois reconheceu-o. Sim, era o seu vizinho. Sim, aquele vizinho que sempre quis conhecer, mas com quem nunca conseguiu ir além de uma conversa de elevador. Sim, era ele. E estava ali, sozinho. Vestido com um enorme casaco fechado até ao pescoço, um gorro, mãos enfiadas nos bolsos. Sem se mexer de todo.

Joana sabia que havia algo mais naquele cenário. Algo que ela não se lembrava. Algo que lhe dizia qualquer coisa mas que ela simplesmente não conseguia recordar. Aquele cenário era-lhe familiar; aquele banco, aquele vizinho, aquele jardim. Cada um deles por si só seria normal. O jardim onde passou a infância, principalmente com os seus avós. Um banco de jardim, onde já várias vezes tinha comido gelados, ou tinha namorado, ou tinha apenas passado tardes memoráveis com amigos. O seu vizinho, e as infindáveis memórias de frustrantes conversas de ocasião no elevador. Mas as três memórias juntas…

E aí lembrou-se. Claro! Naquela manhã! Ele estava lá, no mesmo sítio, no mesmo banco, no mesmo jardim, com a mesma roupa na mesma posição! Teria ali passado o dia? O que esperava ele? Ou desesperaria simplesmente? Joana parara agora em frente ao seu vizinho sentado no banco de jardim. Não podia simplesmente ir-se embora. Tinha de dizer qualquer coisa, ajudar de qualquer forma. Seria desumano não o fazer. Mas dizer o quê? O que se dizem nestas situações?

- “Tens de ser mais feliz.” – Foi o que lhe saiu descontroladamente da boca.

Ele olhou para cima, com um olhar confuso. Nas profundas olheiras e no seu olhar de tristeza via-se um pequeno brilho. O brilho de quem via alguém pela primeira vez em muito tempo.

- “Não se pode ser mais feliz quando não se é nada.” – Foi a resposta que encontrou.

- “Enganas-te. Não se pode ser menos feliz quando não se é nada. Mas pode-se sempre ser mais!”

Ele levantou-se. Não havia nada a dizer. Fez um sinal com a cabeça, na direcção de casa. Casa. Seguiram juntos. A companhia era melhor que seguir sozinho. Era melhor que todo seu nada.