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quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Desafio XXXII- Resposta

O meu amor tem duas vidas para amar-te
Por isso te amo quando nao te amo
e por isso te amo quando te amo



Há momentos em que não te amo. Em que te desprezo, em que fluis na direcção contrária à minha. Em que me entorpeces os músculos. Em que os meus cigarros parecem flores ao pé do teu hálito.

Nesses momentos pondero silenciosamente colocar as minhas mãos no teu pescoço e com uma carinhosa maldade ver-te deixar a minha vida. Expurgá-la das tuas ideias e das tuas não-ideias que não deixam um centímetro de vazio dentro de mim. E eu gosto de uma boa explosão no vácuo do meu cérebro de vez em quando.

E vejo-te a desaparecer do meu horizonte com toda a minha solidão espalmada. A plenitude da minha tristeza mais áspera do que agressiva a crescer-me pelo corpo. A mágoa do meu destino infeliz enraizada nesta ideia de que ele é infeliz.

Sempre foi assim, eu sempre fui esta pessoa triste. Demasiado igual aos outros para conseguir argumentar a sua diferença. Demasiado só.

E demasiado qualquer coisa para mudar o que quer que seja. A vida feliz e o céu azul são pedaços esporádicos duma vida que espreito pela janela, mas que nunca poderá ser minha. Que nunca quero que seja minha.

E quando quebras este meu amor desmiolado, eu sinto a urgência feroz de um contra-amor que destrua tudo.

Mas o meu destino é tão infeliz, que nos meus poucos momentos lúcidos compreendo que não há altura em que te ame mais do que esta, em que não te amo.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Desafio XXXII- Resposta

Tu mentes e às vezes a mentira é inocente, é ingénua. Ás vezes a mentira é uma ilusão que gostavas que fosse verdade. Tu mentes as vezes para não teres a consciencia bruta de que o fogo consome a tua existencia, de que vai consumir a tua vida. Entao mentes, talvez procures mais tempo para descobrires como consertar-te. Talvez queiras acordar já queimado e desfeito e dedicaras-te a lamentar e a sobreviver.
Mas não ele. Bem, talvez procure enganar-se tanto como tu ( não tentamos todos?). Talvez tambem seja invadido por esse conceito de um melhor ideal que sustenta a mentira mais simples. Mas tem momentos de dura lucidez, de consciencia em estado cristalino e bruto. E apercebe-se que mente, mente para fugir à dor. Tenta enganar-se a si proprio para não descobrir que é um animal civilizado. Mais, que somos todos isso. E quase endoidece e depois apercebe-se que é a verdade que o endoidece, a realidade irrefutavel. Ao menos que fosse a mentira a trai-lo. E ele perde-se na traição cuja ignição foi a cobardia legitima dele. E entao pega na folha de papel a sentir-se doido. Não, doido não. Louco. Absolutamente louco. E escreve, escreve até a verdade que o traiu por ser demasiado feia em comparação com a mentira tao bela sair da pele dele. Da mente. Da consciencia aguda .
Tu mentes e esperas que a mentira te consuma, esperas que essa ilusao se apodere da tua vida e que a queime. Quando acordas para lavares o rosto em vergonha já é demasiado tarde. O fogo já consumiu tudo e tu nem sabes quem é a cinza que inicou o processo.
Ah mas ele sabe. Foi aquela fracção de segundos em que teve consciencia que a verdade enlouquecia.Aquele momento curto e singular em que se apercebeu que teria sido mais facil se nunca tivesse cedido a tentaçao da mentira salvadora que é sempre ilusao. E escreveu, escreveu sobre os pensamentos à flor da pele. E libertou-se porque desmentiu a verdade crua e incisiva que vive em qualquer boa mentira.
Tu mentes e queres convence-lo de que ele e tu são iguais. Mas ele nada tem que ver contigo, separa-se no momento em que escreve. Porque ele é um poeta e tu não passas de alguem que não aguenta e suporta ser quem é. Mas ele é um poeta, quando a vida arde irremediavelmente, a poesia magnifica que escreve em momentos que se sente louco é a cinza desse fogo clarividente. É nesse momento que descobre que não é louco, minimamente. Quando tudo o resto arde, a poesia é a evidencia elegante da vida. É a pequena cinza irrefutavel que tu não consegues descobrir em ti porque preferes uma mentira boa a uma verdade dura.

domingo, 15 de agosto de 2010

Desafio XXXII - Resposta

Aquela folha caiu-me algures entre as páginas dos melhores destinos de férias para o Verão e as páginas contendo os mais apetecíveis preparados refrescantes para refeições leves. Era um pedaço de papel gasto, em folha pautada. Olhei em volta, não sei se desconfiando estar a fazer algo ilícito ou se para me certificar que não era uma brincadeira, e baixei-me para o elevar do chão por baixo da minha cadeira de aeroporto. Decidi guardá-lo no bolso do casaco e aproximar-me do terminal do meu voo, pousando pelos caminhos amplos de Orly a revista francesa que o albergava numa prateleira de revistas.

Estava já a muitas milhas do solo quando o desembrulhei. O papel era frágil. Vários riscos e palavras enfeitavam-no em toda a sua extensão. Havia muitas datas, nomes de locais. Nenhuma área ficara por preencher, dir-se-ia mesmo que eram as zonas brancas a traçar os padrões pelo meio da tinta colorida em fundo. Numa caixa bem identificada, em torno da qual todos os outros riscos partiam, um texto escrito a azul brilhante chamava a atenção.

“One love can be bigger than the World if it’s worth more than its own context. But if one love is bigger than countries, bigger than families, bigger than ideologies, bigger than jobs, then it needs to fly away. One such love is not enclosed in artifacts, or even in its own memories. To save something that reminds one such love means that the possibility is there for it to be forgotten. But one such love is forever. One such love spreads, expands, and touches everything and everyone. And one such love may even burn out in the hearts of the two people where it was born, and still it will not die.
We ask you to be the airplane that flies this great love. Make sure this letter never stops travelling. Don’t keep it, but don’t pass it to anybody else either. Just let it be found by whoever it wants to be found. Because true love also happens that way.”

Senti que devia rir. Mesmo sendo bem mais criativa, não passava de uma evolução no correio electrónico em cadeia, na correspondência do tipo “envia-me a 10 pessoas e encontrarás a felicidade”. Mas não ri, talvez por ver ali tão explícito o número de pessoas cujas mãos tocaram aquelas letras e cujos espíritos se sentiram tocados pelo conteúdo. Quando recebo uma mensagem que me pede para ser reenviada, quase literalmente um vírus ao propagar-se, ela não me revela quantos hospedeiros já habitou. Aqui, no entanto, estavam todas as datas, os nomes, os locais, tantas vezes com pequenas mensagens pessoais, em tantas, tantas línguas. Identifiquei dezenas de nacionalidades, centenas de caligrafias, mais centenas de simples riscos bem no final do verso da página, quando o espaço claramente já se havia extinto para escrever algo com nexo. Guardei-a no bolso e no espírito. E assim cheguei ao aeroporto onde a minha namorada me esperava.

Não lhe falei na carta. O meu espírito prático e a minha visão desprovida de floreados e romantismos bacocos foram sempre o que mais a atraiu em mim. Sobretudo por ela ser tão diferente, sempre com um “amo-te” colado à boca. Sentia que o facto da carta, de alguma maneira, ter perdurado no meu pensamento e ter-se mantido no bolso do meu casaco, iria desiludi-la. Iria fazer-me parecer demasiado com ela.

Os presentes que lhe oferecia já eram concessão demasiada. Uma concessão que me habituei a fazer, tranquilamente. Com um contentamento orgulhoso, já em casa, estendi-lhe o meu presente de viagem. Estava embrulhado em papel dourado, impecável. Lá dentro, um pequeno globo escondia uma Torre Eiffel mergulhada em água e em pequenas partículas brancas, simulando neve. Era a minha pequena evocação de Paris, onde estivera em trabalho. Era um túnel escavado na memória da cidade onde nos conhecemos ainda como estudantes. Era a nossa saudade daqueles tempos de amor sôfrego, de devoção completa ao outro. Era o amor submerso em paixão, perfeitamente misturados como dentro daquele globo que ela agora agitava.

Nos seus olhos não vi gosto, alegria nem interesse. Mas também não vi desgosto. Vi apenas o notório desinteresse do costume, coroado por um abraço fraco e um ténue “obrigado”. Pegou no globo, sorrindo distraída, e colocou-o na estante que nos ocupa toda uma parede de casa e onde ela colecciona todos os artefactos que nos marcaram em cada momento, todas as cartas que trocámos, todas as fotografias de todos os sítios onde já estivémos. Um estranho seria capaz de reconstruir o nosso amor estudando aquela estante. Voltou-se, abriu mais o sorriso e disse-me: “amo-te”.

E eu relembrei-me da carta, e perguntei-me se um amor que se recorda constantemente de si mesmo pode ser amor de todo. E questionei-me, como quem dá já uma resposta, se o armário das nossas recordações seria, para ela, uma forma de garantir que o nosso amor viveria nas nossas memórias muito depois de se extinguir nos nossos corações. Mas talvez um sentimento que se recorda seja um sentimento que esquece. É um sentimento que nunca se corporiza em algo exterior ao seu próprio contexto, e por isso é meramente circunstancial, não se pode dizer que tenha propriamente existência. Não se pode dizer que seja amor. E perguntei-me se foi por isso que aquele casal escreveu aquela carta e a pôs a correr o Mundo. Perguntei-me se eles saberiam algo que eu nunca soube. Se amariam de uma forma que eu não sei amar.

No dia seguinte, fui ao aeroporto. Abri uma revista portuguesa e coloquei cuidadosamente a carta, no mesmo estado em que a encontrei, algures entre as páginas dos melhores destinos de férias para o Verão e as páginas contendo os mais apetecíveis preparados refrescantes para refeições leves. Voltei para casa, e nunca mais pensei no assunto.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Desafio XXXII

Wings para Alice in Wonderland:

Saberás que nao te amo e que te amo
pois que de dois modos é a vida,
a palavra é uma asa de silêncio,
o fogo tem a sua metade de frio.

Amo-te para começar a amar-te
para recomeçar do infinito
e para nao deixar de amar-te nunca:
por isso nao te amo ainda.

Amo-te e nao te amo como se tivesse
nas minhas mãos a chave da felicidade
e um incerto destino infeliz.

O meu amor tem duas vidas para amar-te
Por isso te amo quando nao te amo
e por isso te amo quando te amo.

Cem Sonetos de Amor, Pablo Neruda



Alice in Wonderland para Ricardo:

"Conservar algo que possa recordar-te seria admitir que eu pudesse esquecer-te"
William Shakespeare


Ricardo para Wings:

Poetry is just the evidence of life. If your life is burning well, poetry is just the ash.
Leonard Cohen