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quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Desafio IX - Resposta

Não compreendem o comportamento diferente, as frases mordazes, o espírito critico e revolucionário. Não compreendem as acusações, os apelos à mudança, as greves e manifestações. No final, não compreendem para que servem. Sabem apenas que os incomoda.

“Só criam problemas, aqueles rebeldes. Sofrem de falta de atenção. Ocupam-nos as ruas com os seus cartazes e hinos, e param a cidade para nos impor as suas loucuras.” É o que os ouço dizer.

O que eles não sabem (ou não querem saber) é que há um propósito para a nossa “rebeldia”. Se criamos confusão é para chamar a atenção, não para nós, mas para um fim, um objectivo. Somos diferentes porque a normalidade está a matar o planeta. Criticamos e acusamos para os tentar acordar para a realidade. Não queremos atenção para a nossa pessoa, mas sim para aquilo que temos a dizer.

Mas eles não querem saber. Olham para o comportamento e não para o que ele quer dizer. Nós tentamos. Quando for tarde demais, arrependimento não vos irá servir de nada.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Desafio IX - Resposta

"Quem luta com monstros deve velar por que, ao fazê-lo, não se transforme também em monstro. E se tu olhares, durante muito tempo, para um abismo, o abismo também olha para dentro de ti."

Eu vivia desenfreadamente na crista da onda mais azul. Um brilho azul-escuro descansava na profundidade infinita do Mar, onde sempre estiveram guardadas as minhas asas. E eu sempre quis isso, as inúmeras viagens que o Mar contém.
Quando me prendias a terra eu ficava na berma da onda, a sentir o cheiro do sal que já tinha dado a volta ao Mundo. Era ali na praia, que tudo começava, que tudo acabava e que tudo estava no meio.
Eu vivia na praia mais do que vivia na vida. Quando chegava a tempestade, ficava eléctrica. Quando era Verão tornava-me nostálgica.
No resto do tempo habitava-me um sonambulismo teimoso que me afastava dos teus olhos inquisidores.
Até que um dia, finalmente as asas começaram a desabrochar-me. Sob os teus olhos impacientes gritei de dor, enquanto as duas asas me rasgaram as omoplatas. E finalmente, naquele dia o monstro que prendeste durante tanto tempo mostrou-se mais aberrante e luminoso do que nunca.
E descobriste uma beleza tão infinita nos milhões de cristais azuis das minha asas que a tua respiração congelou. Um grito seco morreu na tua boca aberta.

Levaste as mãos às costas e sentiste a memória profunda da cicatriz, quando te cortaram as asas à nascença.

Desafio IX - Resposta

"All things taken into account, I would have done the same thing to you." Após as cláusulas, as alíneas e os números, a minuta do contrato está sempre preparada com uma frase final a ser assinada. Em inglês, língua oficial dos contratos da empresa. É um encerrar do assunto, um reconhecimento de irreversibilidade, uma vitória na guerra e não apenas numa batalha; é o Z de Zorro, é a letra escarlate, é a cicatriz de uma cesariana. Um após outro, todos caíram, todos lá vão parar, todos terminam no reconhecimento rebaixante de que o Mundo dos negócios é uma selva onde todos se movem pelas mesmas leis e pelos mesmos objectivos. E que ele, aquele que compra, é o vencedor. Sem desculpas. Sem "ah, o meu objectivo era outro", ou "ah, na verdade estava farto da minha empresa". Não. O vendedor perde a dobrar, porque admite que só perdeu porque não conseguiu ganhar. "All things taken into account, I would have done the same thing to you." Alguém que não está a jogar um jogo onde se envolve, alguém que não está interessado em vencer, não assina por baixo disto.

O último, esse foi mais difícil de dobrar. Uma empresa pequenina de um tipo novo, mas um brilhante fabricante de aparelhos para imagiologia, com 70% do mercado. E nenhum império da electrónica está completo se não dominar nas máquinas de ressonância magnética, de tomologia de emissão de positrões, de radiografia por raios x. "É o domínio absoluto no negócio da saúde", disse ele, triunfante, enquanto presidente do conselho de administração, durante a reunião de accionistas. "É o sector onde nos falta dominar." Mas o outro tipo não queria vender. Dizia que aquele era o negócio da vida do pai, falecido de ataque cardíaco no ano anterior. Uma doença não diagnosticada. Mas ele não tinha chegado ao topo da empresa se não tivesse astúcia suficiente para vencer um miúdo. E, como sempre nestas alturas, ignorou a sua esposa para se fechar durante noites ininterruptas no escritório a investigar. Remexeu no passado; falou com amigos, com colegas, com ex-namoradas. "É assim que nos mantemos acima da concorrência", dizia sempre, "conhecendo os seus defeitos, e destruíndo-os onde pudermos." Os competidores mais vaidosos, destróem-se com notícias de jornal; os mulherengos, com chantagem; os viciados no jogo, com batota; e os invencíveis, os poucos que não têm podres, nunca se chegam a desafiar. Quando não se pode ganhar, não se luta. Naquele caso, a estratégia tinha que ser diferente. O miúdo era um sonhador. Esse era o seu podre. Então, uma noite, convidou-o para jantar.

Depois do jantar, animado pela fluência de um conhaque caro, o miúdo contou, envergonhado as suas ideias loucas sobre máquinas espantosas. "Imagine só o senhor! No nosso sangue há tanto ferro que nós acabamos por morrer de ferrugem. Só que está muito espalhado. Agora imagine se conseguíssemos inventar um íman gigante que apanhasse o ferro todo do nosso corpo... Já estou a ver, pessoas coladas magneticamente em placas verticais que andavam pela cidade a toda a velocidade! Acabavam-se os carros, acabavam-se os acidentes de automóvel." A sua esposa estava encantada, ria como se fosse alguma coisa de especial. O idiota, herdou um negócio de milhões que mantinha para poder esbanjar o lucro a investigar um autocarro de velcro.

E no dia em que lhe fez a proposta para a aquisição, a partir do 20º andar do seu escritório envidraçado com vista para a Praça de Espanha, acrescentou uma pequena variação que fez o miúdo aceitar tudo o que até então recusara. Ofereceu-lhe um financiamento de milhões e um contrato a cinco anos como investigador numa universidade de Londres. Poderia trabalhar no seu íman de autocarros, ou lá o que era. "Mas assino já o contrato e transferem o dinheiro já hoje?" Deus, quanta pressa por ver lá o dinheiro e ter a situação dele segura. "Sim, agora mesmo antes até da venda." E o miúdo portou-se como um miúdo. Aceitou a proposta, assinou na linha infame que dizia "all things taken into account, I would have done the same thing to you", e ainda o abraçou emocionado. "Obrigado, obrigado por esta oportunidade magnífica." O idiota.

Passara-se uma semana, e ainda em regozijo pelo triunfo e pelo louvor na reunião de acionistas que entretanto decorrera, passava horas de mãos nos bolsos das calças olhando pela janela envidraçada do 20º andar. Olhava o trânsito, e as pessoas que cá em baixo se movimentavam a espaços entre semáforos pareciam-lhe não ter segredos. Ele era o derradeiro equipamento de imagiologia. Ele era capaz de descobrir em toda a gente os interruptores certos. Sentia-se na proa de um navio. Sentia-se invencível. E recebeu uma mensagem escrita. Abriu o telemóvel num gesto só, e depois de ler deixou-o cair. "Se tivesses desconfiado que tinhas um rival, tinhas-lhe dado a volta, a ele e a mim. E eu nunca me escaparia desta jaula de casamento onde me prendeste. Mas como não pressentiste um inimigo, desleixaste-te. Por isso adeus. Vou para Londres. E não aches que eu sou má pessoa. All things taken into account, you would have done the same thing to me."

O idiota. Afinal ele não stava a competir nos negócios. Afinal ele estava a competir... pela mulher.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Desafio IX - Resposta

"Fairy tales are more than true.
Not because they tell us that dragons exist.
But because they tell us that dragons can be beaten."
Coraline e a Porta Secreta - Neil Gaiman

O João corria que nem louco naquele sábado. Era o seu dia de anos, e mesmo o dia que ameaçava chuva não podia ser mais bonito, com os seus ténis novos, a camisola de lã da avó e os seus três livros novos. O João era apenas mais uma criança, com os mesmos gostos e as mesmas diversões das outras crianças. Habitualmente era mais calmo e recatado, mas não naquele sábado.

O jardim era pequeno. Era apenas um pouco de verde, uns bancos, um café, tudo rodeado por prédios a toda a volta. Era um jardim pequeno, com poucas árvores, ideal para os pais que não se queriam cansar demais e que de certeza não perderiam os filhos de vista. E que descanso era para os pais de João, que corria que nem doido, umas vezes perto dos pais, outras longe.

Perdendo o filho momentaneamente de vista, foram encontrá-lo de novo sentado ao lado de uma criança, com quem partilhava um dos livros que lhe tinha oferecido. João ainda não sabia ler, mas desfolhava com a criança o livro. E falava com ela, e ambas riam. A outra criança ria também, e esbracejava. Os pais do João continuaram a sua conversa, com um olho um no outro, e outro no João. Depois João correu até eles. Pegou em mais um livro, e disse rapidamente “vou ler outra história”, enquanto corria de volta para a criança. Ambos sorriram. O importante era que se divertisse no seu dia de anos.

Depois chegou outra pessoa, que se aproximou do banco. Olhou para as crianças, com um sorriso vago nos lábios. Depois interpelou, a medo, o casal.

- “Desculpem incomodar, mas… é o vosso filho?”

- “Sim, é. Porque pergunta?”

- “O Ricardo é o meu filho… a criança com quem o vosso filho está a brincar.”

- “Pelos vistos estão muito divertidos a ver aquele conto de fadas. Oferecemos-lhe o livro agora porque ele vai entrar para a escola e convém começar a ter livrinhos para ler, mas ele já sabe a história de cor, é bem capaz de o contar todo só com as imagens.”

- “Pois, mas… sabem, o… o Ricardo, o meu filho… ele é surdo.”

Uma onda de vergonha passou pelos pais de João. “Esbracejar”, que absurdo! Podiam ter compreendido mais cedo.

- “Desculpe, o João não faz por mal…”

- “Desculpar? Claro que não, é óptimo para o Ricardo arranjar amigos…nem sempre é fácil, as crianças acabam por não gostar muito de brincar com ele.”

- “O João adora histórias, é só ter quem lhe dê atenção para as poder partilhar…”

E depois João voltou, buscar outro livro.

- “João, estás-te a divertir?”

- “Sim, estou a ler as histórias para aquele menino. Ele gosta muito.”

- “João… tu sabes que o menino não te consegue ouvir?”

- “Não faz mal mãe. Eu também não sei ler. E a história também é só a brincar.”

Um grave silêncio apoderou-se daquele banco de jardim, conforme João se afastou e se sentou ao lado da outra criança, e de novo retomou história do livro. Tantos adultos, e foi precisa uma criança para lhes ensinar a maior lição de todas: o que interessa não é se os monstros existem ou não, o que interessa é que todos os monstros podem ser vencidos.

Desafio IX- Resposta

Ela parou na entrada no quarto. Ficou a observá-lo, cuidadosamente. Como se estivesse a fotografar um momento ao qual nunca mais assistiria. O cabelo dele, a ocultar-lhe parte do rosto, a evidenciar uma certa loucura. Os olhos dele, presos ao outro mundo, presos às palavras que lhe escorriam dos dedos. Do coraçao. Do lugar ao qual ela nunca foi convidada a entrar.
Talvez lhe deixasse um papel. Talvez a ajudasse a ter consciencia do que ia fazer. Talvez a ajudasse a clarificar aquela situaçao, talvez a permitisse compreender melhor. Mas quando começou a doloroso desenho de simbolos perceptiveis num resto de folha a mão doeu-lhe. Seria uma razao sólida para se ir embora? Era de todo uma razao ?
Não importava. Era insuportavel. A forma como ele se entregava à escrita. E coma suavidade de um final de tarde de Verão, ela teve consciencia da dor que lhe causaria e da forma como ele se curararia. De como abandonaria as lágrimas que nunca choraria na folha de papel, o sentimento de dor profunda ficaria lá, no som melodicamente triste que conseguia transmitir nas palavras que voavam dos seus dedos.
Para ele, a escrita era o suporte da existencia. Escrevia sempre, escrevia sobre tudo. A escrita dele acendia um milagre, garantia a manutençao de um sonho.
Pegou na mala, definitivamente ia-se embora. A escrita dele preencher-lhe-ia o buraco que a traição dela ia provocar. Ele regenear-se-ia em mais um brilhante livro. Que ela veria à venda nas mais ilustres livrarias.
As palavras dele tinham demasiado poder. Eram um mundo à parte só dele. Ao qual ela nunca foi convidada a entrar. Lá no fundo , reconhecia-o, sim. Invejava aquele processo de sobrevivencia dele, aquela arte levemente instruida.
Lá no fundo, sabia que nunca mais o queria ver. Era insuportável, a beleza dele ao candeeiro. E a fealdade dela, porque o nunca compreenderia. Ou compreenderia a libertaçao que era a escrita dele.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Desafio IX

Tiago para Wings:

"Escreve. Seja uma carta, um diário ou umas notas enquanto falas ao telefone, mas escreve. Procura desnudar a tua alma por escrito, ainda que ninguém leia; ou, o que é pior, que alguém acabe lendo o que não querias. O simples acto de escrever ajuda-nos a organizar o pensamento e a ver com mais clareza o que nos rodeia. Um papel e uma caneta fazem milagres, curam dores, consolidam sonhos, levam e trazem a esperança perdida. As palavras têm poder."

Paulo Coelho, in Maktub

Wings para Blue Storm:

"Quando um sabio aponta para a lua o idiota olha para o dedo"

Provérbio Chinês


Ricardo para Alice in Wonderland:

"Quem luta com monstros deve velar por que, ao fazê-lo, não se transforme também em monstro. E se tu olhares, durante muito tempo, para um abismo, o abismo também olha para dentro de ti."
Friedrich Nietzsche


Alice in Wonderland para Tiago:

"Fairy tales are more then true. Not because they tell us that dragons exist. But because they tell us that dragons can be beaten."


Coraline e a porta secreta - Neil Gaiman


Blue Storm para Ricardo:


"I have been up against tough competition all my life. I wouldn't know how to get along without it."

Walt Disney