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terça-feira, 2 de março de 2010

Desafio X - Resposta

“I don't believe in an afterlife, so I don't have to spend my whole life fearing hell, or fearing heaven even more. For whatever the tortures of hell, I think the boredom of heaven would be even worse.”
Isaac Asimov

O que os tornava tão especiais era o quão eram diferentes. Naquela tarde de Inverno, embrulhados numa manta grossa de lã, bebiam chá enquanto viam o pôr-do-sol ao fundo da rua. O prédio onde moravam era igual a tantos outros naquela velha cidade europeia. Como tantas. Como muitas.

Embora fosse um ritual tão repetido nas tardes de sexta-feira – ver o pôr-do-sol de forma a apreciar o início do fim-de-semana e beberem um chá como todos os habitantes naquela cidade – ele não podia deixar de se sentir desconfortável. Já perdia a conta ao tempo a que faziam aquilo, no entanto sentia ainda os olhos dos transeuntes e dos vizinhos sobre eles quando passavam, entrava ou saíam do prédio. Ela, por seu lado, sentia-se completamente à vontade, e acima de tudo feliz. Na verdade aquele era para ela dos poucos rituais que fazia com prazer; todos os outros eram feitos como compensação do seu companheiro embarcar muitas vezes contrafeito nas aventuras dela. E era exactamente aquele dicotomia que os tornava especiais. Porque o amor que sentiam um pelo outro ia muito além dos rituais e tradições dele, ou da sede de aventura e inconstância dela. Era algo muito mais profundo e inexplicável. Era um sentimento de pura completude, como se a partir de um momento um não pudesse existir sem o outro, como se a loucura dela não pudesse viver sem a calmaria dele.

- “Já pensaste como será o céu?” – Foi ele quem quebrou o silêncio. E conforme abriu a boca, uma nuvem de vapor saiu e juntou-se à que saía da chávena de chá com que aquecia as mãos.

- “Ou o Inferno? Não sei, não acredito especialmente nessas coisas.”

- “Porquê o Inferno? Fizeste alguma coisa de mal?”

- “Pequei contra a sociedade.”

- “Que tola… só se pecaste por escolher tomar a tua vida nas mãos, ao contrário de todos os outros que se deixam ir.”

- “… Como tu?”

- “Eu deixei-me ir por ti. Não sei, achas que mereço o Inferno?”

- “Eu acho que merecemos os dois ir para o Inferno.” – A cara dela continuava séria.

- “E lá se vai o meu desejo de eterno repouso.”

- “O eterno repouso é uma seca!”

- “E eu para Inferno já bem me basta o meu dia-a-dia.”

- “Vamos fugir?”

A pergunta ficou no ar. Ele lembrou-se imediatamente daquele dia de Fevereiro. Chovia a potes quando aterraram no seu destino, o céu estava negro para um dia que ainda mal começara, e nem sabiam muito bem o que haveriam de fazer. Decidiram fugir, não no sentido rápido da fuga, visto que foi algo planeado e pensado, mas fugiram na mesma. Das famílias, e dos amigos, e do país e de todas as coisas que deixaram para trás. Com eles apenas duas malas e duas mochilas. Os olhos dela irradiavam luz. Os dele transpareciam medo.

- “Já fugimos que chegue. Vamos assentar. Vamos para o céu.”

- “Que piada teria isso, assentar?... Que sentido faria tal coisa? Como pôr um ponto final na nossa vida, e não passarmos de mais dois escravos da sociedade?” – Ela sorveu um pouco do seu chá, depois olhou-o nos olhos pela primeira vez. – “Tu gostavas de assentar?”

Ele bebeu também um pouco de chá. Depois olhou o pôr-do-sol um pouco, reflectindo sobre a pergunta dela. Ele próprio já se tinha questionado várias vezes sobre isso. Depois olhou-a de novo nos olhos.

- “Um dia, talvez… Mas senão também vou contigo para o Inferno.”

Desafio X - Resposta

Lucy. A simplicidade de um nome inglês suspirado num trago. Sem interrupções, sem pausas nem descanso. Lucy, e a sua mão agitando-se ao mesmo tempo dos ombros, palma acima e palma abaixo, dançando como uma onda ao ritmo das luzes e dos sons descontrolados e chiado por uma má aparelhagem. Lucy dançando, Lucy cantando. Habituei-me a ler nos lábios dela o que a música alta não deixa ouvir. Ela só me aparece entre muitos, quando alguma banda vinha à cidade ou quando éramos nós a descer à cidade à sexta-feira à noite. Habituei-me a escutá-la por entre o barulho, a saciar-me com os gestos, com o cabelo solto comprido a oscilar, com um toque no ombro e um sorriso que dizia "trás-me mais uma bebida". Lucy. A simplicidade de um sonho de algum dia a sua voz ser a única onda a escutar.

Ela saltou do nosso grupo de amigos para a minha vida numa despedia de solteiro. No jantar não éramos muitos, uns dez talvez. Dez, como as horas em que saímos precocemente do restaurante. Chegámos ao clube de strip ainda nem eram onze. Onze, e chegou ela. Com a sua camisola de Verão de mangas largas, uma t-shirt de alças por cima, e calças à boca de sino. A minha Lucy fora de sítio, fora do contexto, fora da década. Imaginei aqueles cabelos lisos ondulando no pó de Woodstock, de olhar saltitante, apressado enquanto muda o semblante onde se fixa brevemente, como um pardal pulando de ramo em ramo. Imagino-a sempre como naquela primeira noite. A única mulher entre homens, dez, eu um deles. Eu, de longe. Eu, observando dolorosamente enquanto ela ri, enquanto ela se senta ao colo de um, enquanto coloca uma perna em cima de outro. O corpo, ela usava-o com as strippers que dançavam, parecia que muito longe. O corpo dela era permitido até certo ponto. A fronteira do privado estava demasiado adiantada. Entendi naquele banco de clube, enquanto outra má aparelhagem incitava uma mulher a despir-se, que a minha Lucy nunca seria só minha.

A minha Lucy sentada na estrada à porta do clube, com cinco ou seis resistentes que ainda esperavam quebrar essa fronteira do permitido. Música! Onde quer que esteja a Lucy, há música. Alguém ligou um rádio de um carro. Uma outra má aparelhagem ainda quebra a noite em mil estilhaços que ao cair cobrem a voz de Lucy. Lucy, de mãos viajantes entre as costas de um e o cabelo de outro. Lucy, sempre dando-se e retraindo-se ao mesmo tempo, sempre agitando-se, sempre amante da música.

Apoderei-me do banco do condutor do carro, e mudei a rádio. Alguém por entre as colunas traseiras, vibrando desde o porta-bagagens aberto, cantava

"Lucy in the sky with diamonds".

Lucy deitada no banco de trás do carro. Pela primeira vez. De cabeça encostada no banco, de pernas semi-flectidas apoiadas no vidro do outro lado, olhava pelo pouco que o vidro da frente a deixava descobrir do céu, e sorria. Mexia os lábios, mas eu não a escutava. Ainda não os sabia ler. E as colunas vibravam furiosamente, repetiam freneticamente

"Lucy in the sky with diamonds".

E ela apontou para o céu. Apontou para uma estrela, a única forte o suficiente para rasgar a poluição luminosa da cidade e a sujidade do vidro, e chegar até nós. Quem me dera tê-la ouvido só daquela vez, só falando sobre aquela estrela. Quem me dera que este momento fosse uma fotografia legendada. Apaixonei-me e entristeci-me ao mesmo tempo. E ela foi embora.

O casamento a que fomos, esse, já acabou há muito tempo. Mas a nossa estrela sobreviveu-lhe. A Lucy continua a ser a legenda para o diamante no meu céu. E nele guardo a vontade de um dia vir a ser a única estrela no céu dela.

E apesar de não lhe conhecer a voz, de nem lhe conhecer o nome, sei que ela será para sempre a minha Lucy.

"Lucy in the sky with diamonds".

segunda-feira, 1 de março de 2010

Desafio X - Resposta

"If I had a world of my own, everything would be nonsense. Nothing would be what it is, because everything would be what it isn't. And contrary wise, what is, it wouldn't be. And what it wouldn't be, it would. You see?"

Abriu a porta e fechou-a.
Aquele mundo nunca lhe fez sentido. Na maior parte dos dias, vagueava entre as outras pessoas de forma estranha. Como se precisasse de andar para se manter no mesmo sítio.
Sentou-se. Fechou os olhos e sentiu as viagens nas pálpebras. Sim, para sair dali, teria de permanecer quieta entre a multidão.
Aquele mundo nunca lhe fez sentido. Por isso nunca se tornou real.
E ela manteve-se num estado latente de quem espera acordar de um sonho. Tinha aquela fina persistência no olhar de quem não dá relevância a flores que não falam.
Ás vezes via borboletas no ar. Outras, pensava em torradas. Visualizava ambas com a mesma intensidade morna. Nada lhe era tão estranho, com a própria estranheza húmida que escorria dos habitantes daquele mundo.
Quem lhe dera acordar daquele sonho. O pior é que eles sonhavam com ela. E por vezes aquela realidade translúcida, onde ela não sabia quem era, era só isso, o sonho deles. Que ela penosamente vivia.
Por várias vezes sentiu-se tentada a acordá-los. Mas teve medo da reacção catastrófica: e se afinal ela não fosse mais nada para alem daquele sonho?
Até que um dia, a libertação deu-se: ao virar da esquina pareceu-lhe conhecer as costas que o seu ângulo via. O que viu na verdade foi um propósito suculento. Uma ambição curiosa de descobrir um enigma.
Correu atrás daquelas costas, primeiro devagar depois mais depressa. De repente deu consigo a cruzar a cidade axadrezada. As pessoas pareciam-lhe todas peças de xadrez, umas com mais inteligência do que outras para não serem peões
As costas familiares iam desaparecendo no meio daquele enevoado de sonho. Ela corria, corria, e surgiram no ar as palavras “Quem és tu?” Mas ela não sabia, e não queria olhar para o céu. Queria encontrar aquelas costas, mais do que queria entrar amanhã no autocarro, ir trabalhar, ganhar dinheiro, casar-se e ter filhos. Queria agarrar aquela pessoa como não queria nada e sentia a o coração a percorrer-lhe o corpo.
Fazia-lhe sentido.
E foi sem espanto que viu as costas que espreitava do seu ângulo, entrarem em sua casa. Abrir e fechar a porta. Ela seguiu-as. E quando chegou à sala, viu o espelho enorme e gigante que tinha comprado para ocupar toda a parede. Do lado de lá, ouviu a rapariga que perseguira dizer: “Olá Alice”. Então seguiu em frente, atravessou o espelho e nunca mais voltou.

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Desafio X - Resposta

"Num mundo cada vez mais digital, uma pessoa dá por si a ter uma certa vontade de ser mais analógica."

- Passa-me o telefone, por favor.

- Não tens saudades de quando escrevíamos cartas? De quando esperávamos ansiosos por uma resposta, de ponderar no que escrevíamos naquela letra tão cuidada?

- Não. Perdíamos imenso tempo. Liga-me isto à tomada, que preciso de pôr o computador a carregar.

- E não sentes falta de teres de ler e pesquisar em livros, em vez de automaticamente copiares a informação que procuras? Agora a internet tem tudo, as pessoas nem precisam de sair de casa para terem o que procuram.

- Como te disse, isso veio-nos poupar imenso tempo e trabalho.

- Como é que pode ser cansativo ir a uma biblioteca folhear livros e estar rodeado daquele cheiro hipnotizante? Agora há cada vez menos pessoas a ler, a ter livros na mão. Arranjam documentos no computador e acham que é igual. Até os jornais ficam abandonados nas bancas, porque se tem tudo no computador ou telemóvel.

- Se o que temos agora é muito mais prático, porquê voltar atrás? Diz-me algo de mau que a tecnologia tenha trazido.

- Está a destruir o planeta e a deixar-nos doentes.

- Para isso temos a medicina que cada vez está mais evoluída, Temos tudo ao nosso alcance.

- E com isso as pessoas vivem cada vez mais fechadas em si. Cada um quer mais posses, consumidores que nunca estão satisfeitos. Um por si, e todos por eles próprios. Temos tudo ao nosso alcance, e no entanto, vivemos mais infelizes que nunca.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Desafio X- Resposta

Ele sabe que a não ama já embora a ame ainda. O suficiente para a recordaçao dela ser calorosamente fria. O suficente para sentir falta da falta da ausencia dela.
Amou-a tanto. Não se consegue imaginar sem ela, enquanto o passado é cheio e quente não germina a urgencia de um futuro . Solitáriamente diferente. Mas não consegue mantê-la, não é esse ser. Não consegue mante-la. Sabe que a não ama porque já a amou, ama-a ainda para saber que o que sente é um gasto pedaço do amor que ainda lhe bate no peito. Não a ama , tem o coraçao preenchido com o vazio dela. Porém, o nada que lhe preenche o coraçao tem o seu perfume . Ama-a ainda. Embora a já não ame, todas as estrelas morrem.
Mas não estavam mortas quando ambos contemplavam o céu numa noite qualquer. Talvez fria, talvez quente .Mas ele agora sabe que essas mesmas estrelas eram a reflexao luminosa perfeita da sua propria morte. Não a ama já porque sabe que ainda a ama. Tem de amar, as estrelas ainda dançam no céu uma dança quieta e silenciosa. Uma dança morta. Porque todas as estrelas morreram, a luz simplesmente ainda não fulminou o coraçao dele.
Ele sabe que a não ama mas que ainda a ama. O suficiente para lhe doer saber que será de outro. Ou que ele amará outra. Não sabe ser esse ser, que a não ama. Mas não aguenta continuar a ser esse, que a ama ainda. E doi-lhe, outro no lugar que ele ocupava nos olhos dela. Ou ele substitui-la, porque ele ainda a ama. O suficiente para que o coraçao dele já não tenha a cor dos olhos dela.
Porque ele a ama ( embora saiba perfeitamente que já não ama) para reconhecer que é o fim. Triste e suavemente duro. É apenas o fim, um corte rapido e radical que arrasta consigo no tempo todo o enterrar de memorias que . Ele se quer esquecer para não sofrer com a felicidade melodica que carrega na sua unicidade estéril.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Desafio X

Tiago para Blue Storm:

"Num mundo cada vez mais digital, uma pessoa dá por si a ter uma certa vontade de ser mais analógica."
Nuno Markl

Wings para Ricardo:

Legenda
para aquela estrela
azul
e fria
que me apontaste
de madrugada:
amar é entristecer
sem corrompermos
nada.

Carlos Oliveira



Blue Storm para Alice in Wonderland:

"If I had a world of my own, everything would be nonsense. Nothing would be what it is, because everything would be what it isn't. And contrary wise, what is, it wouldn't be. And what it wouldn't be, it would. You see?"

Mad Hatter
Alice in Wonderland, Lewis Carrol

Alice in Wonderland para Wings:

(...) "De outro. Será de outro. Como antes dos meus beijos.
A voz, o corpo claro. Os seus olhos infinitos.
Já não a amo, é verdade, mas talvez a ame ainda.
É tão curto o amor, tão longo o esquecimento. " (...)


Pablo Neruda - Posso escrever os versos mais tristes esta noite


Ricardo para Tiago:

“I don't believe in an afterlife, so I don't have to spend my whole life fearing hell, or fearing heaven even more. For whatever the tortures of hell, I think the boredom of heaven would be even worse.”

Isaac Asimov