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sábado, 13 de fevereiro de 2010

Desafio VII - Resposta

"O Homem põe e Deus dispõe"
(provérbio)

O dia do terramoto amanheceu nada menos que lindo. Uma manhã soalheira, nem uma nuvem no céu. Sete horas da manhã, quando o céu ficou cor-de-rosa e a vida começou. Ele, e ela, de mão dada, olhavam ao longe da varanda da sua casa. Tinha sido a sua primeira noite da nova vida. Não tinham verdadeiramente fugido da antiga, mas apenas dado o passo em frente. A sua casa nova estava pronta, e reluzia com os primeiros raios da manhã. O silêncio, apenas entrecortado pelo primeiro chilrear dos pássaros, era o primeiro sinal de que nada era como antes.

Ainda fazia frio. Fevereiro mal tinha começado, e apenas agora os dias começaram a crescer. Eles olharam-se, enquanto o Sol começava a despontar no horizonte. Trocaram um beijo no silêncio. Sorriram um para o outro. Depois, tudo o resto foi muito rápido. Rápido demais. Primeiro um tremor, que tomaram como um arrepio de frio. Mas não. Depois correram, uma mão para cada lado, escadas abaixo, porta fora, longe da casa. Tremores mais fortes. Era um daqueles momentos em que não pensavam, não sentiam, não respiravam. A mão que mantinham dada um ao outro, não a sentiam. Apenas a crueza dos factos que viam à sua frente. Apenas a vida, assim como a casa, assim como tudo, que viam desmoronar-se à sua frente.

Aos poucos, nuvens de pó foram aparecendo à esquerda e à direita. Casas, perdidas. Depois a sua, e a dos vizinhos, e os prédios. Tudo quanto estava de pé rapidamente se deitou. Menos eles. Foram os cinco minutos mais longos das suas vidas. Tinham a certeza que daqui a muitos anos ainda se lembrariam daqueles cinco minutos, como se de alguma forma ainda os vivessem, como quem olha para uma lâmpada e fica com o reflexo da luz nos olhos durante muito tempo.

Quando a calma voltou, eles sabiam. Olharam-se. Depois, olharam para cima. Nenhum deles acreditava em nenhum deus, mas não conseguiram evitar. Isto era mais que eles, era acima deles. Logo naquele dia. Aquela terrível coincidência. Olharam de novo um para o outro. Depois choraram. Choraram longamente, abraçados, corações a bater descompassados, e pensamentos a passar a milhares de quilómetros por hora.

Aos poucos haveriam de recuperar. E não decorreria uma hora antes de ambos voltarem ao que sobrou da sua casa. Onde antes estava o sonho de uma vida, agora havia escombros. E só eles sabiam quanto custava ver os sonhos por terra. Não fazia mal. Eles eram fortes. Tinham chegado ali. Retornariam ao ponto de partida, e de novo recomeçariam. Ainda os corações batiam descompassados, e os pensamentos corriam à velocidade da luz; ainda as lágrimas não tinham secado quando ele lhe murmurou ao ouvido aquela que seria a palavra que doravante os poria de novo no rumo do seu sonho: “Persiste!”

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Desafio VII - Resposta

Oh por favor, ouve-te por um instante. Alguma vez prestas atençao a ti proprio? É que és um crime contra ti proprio. Chacinas a tua vida. Crucificas-te em prol de algo que nem sabes o que é. (Como poderias saber se não te ouves?).
Queres que te oiça, queres que te siga. Que te imite. Se arruinar a vida como tu entao estarás menos deslocado, se arruinar a vida como tu ilibas uma fracçao da culpa que te pesa em todos os pesadelos que tens todas as noites vazias.
Mas porque quereria eu seguir-te? (Ajudar-te?!) Falhas a tua propria vida, destrois a unicidade aromatica da palavra existir. E eu não o farei. Nunca.
Desiste. Não vou civilizar-me. Não vou automatizar-me. O encanto de viver descansa no pensamento fino de ser a coisa mais perigosa que podes fazer. É um dia poderes partir e nunca mais voltar. É garantires a oportunidade de voltar porque a escolha é sempre tua. Porque tu és tu e tu decides, a única escolha que fizeste foi essa. Quem serias amanha.
Oh por favor, ouve-te por um instante. Escolheste a vida já decidida e conquistada, escolheste esse conceito errado de dever, escolheste essa estabilidade inocua. Escolheste esse ser pomposo e vazio. Escolheste não escolher. Vendeste o teu coraçao quando delineaste tudo o que serias. E o coração é que sente o mundo, sem ele és oco.
Devias ouvir-te. É que escolheste mal. Não se escolhem coisas. Não se escolhe dessa maneira, não se escolhe ter. Escolhe-se sempre ser. Nunca ter.
Devias ouvir-te,vá. Experimenta. Já te assassinaste, que mais podes temer?

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Desafio VII - Resposta

Faço? Não.

Faço? Talvez.

Faço?

Não me consigo decidir. Não com estas vozes todas a lutarem por atenção. Dizem sim, dizem não, não sei ao certo o que dizem. Decido-me, volto atrás, dou meia volta e regresso ao início.

Não. É demasiado arriscado. Eles ficariam a saber. Ninguém quer isso, pois não? Não. Mas faz as vozes gritarem de arrependimento.

Ou talvez sim. Arriscar é bom. Traz perigo e adrenalina, faz o sangue correr nas veias. Mas faz as vozes gritarem de culpa.

Berro. Quero berrar porque não me deixam em paz, as vozes. Elas não querem mas EU quero. Eu quero voltar a tomar aquilo que faz as vozes irem embora. Porque elas dizem para não tomar, mas eles, os das batas, vão reparar. E depois vai ser mau, muito mau.

Portanto eu tomo, eu tomo. Assim ninguém sabe o mal que fiz.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Desafio VII - resposta

Todos os homens morrem, mas são poucos os que vivem de facto

Caminharam em sentidos opostos. Um no sentido do mar. O outro no sentido de terra.


Encontraram-se na praia de manhã. A alvorada fresca agitava de forma suave ambas as camisolas, a primeira fina de bom corte e a segunda áspera e larga.
O barco esperava de forma paciente baloiçando e cantando o marulhar do mar. O cenário pintado não os denunciava. Mantinha-se em suspense, como eles.
Frente a frente, com a areia fria da manhã entre os pés, os olhos azuis fitaram-se. Ele disse: “ vou combater. Vou lutar pela minha liberdade”.
O homem da camisola fina respondeu-lhe de imediato, como se tivesse passado a noite em claro a pensar na resposta: “ Não és livre aqui?” E rapidamente acrescentou “Não és feliz aqui?”
Calmamente e sem qualquer ponta de desafio na sua voz tão grossa como a camisola, respondeu “Não. Não sou feliz. Porque não sou livre”.
O outro enterrou os pés na areia com força e virou-se no sentido das ondas, denunciando uma impotência que desejava aniquilar. Como se quisesse salvá-lo da fogueira. Como se ele fosse cego.
Deu uma pequena volta, uma pequena volta no seu pequeno mundo e garantiu-lhe: “Mas tu és livre. Nós somos livres. Eu não te compreendo...”
Ele abriu um sorriso franco, “Vês, tu não és como eu. Eu quero deitar-me de noite e sentir a consciência com o mesmo peso do coração”.
Mas no seu pequeno mundo, o coração tinha o mesmo peso da fome, do frio e dos pequenos prazeres. Nunca compreenderia. E portanto, em tom de desprezo, voltou-lhe costas: “Vai. Vai combater pela tua liberdade. Vais morrer.”
Mas ele já tinha voltado costas há mais tempo. Com um pé no barco disse: “Sim, tal como tu. Mas pelo menos eu sei que tentei viver”.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Desafio VII - Resposta

Era a noite de 6 de Dezembro, e ainda haveria tempo.

Sentado na cadeira, inclinado para trás, mordendo e corroendo de saliva uma caneta, sentia-se como um suicida que saltara de um prédio demasiado alto. Faltava muito tempo para o impacto, e todos os instantes de vertigem foram dados à consciência, para ela se pronunciar. Tinha já feito as contas às vidas que se perderiam no dia seguinte. Vidas de americanos, que jurara proteger. Tinha também já feito as contas a quantas vidas de americanos se perderiam nos anos seguintes. E depois contrabalançara esse número com o peso da liberdade de uma Europa esmagada à vontade de um homem. Não, não podia ser. Aquele homem não podia triunfar. Desdobrou mais uma vez o pequeno pedaço de papel, aquele onde reproduzira o seu genial discurso em Paris, defendendo a coragem e a força dos homens de acção sobre os que se limitam a ficar sentados para trás em cadeiras a criticar quem faz. As suas próprias palavras relembravam-lhe quem era, e o que ele representava. Que viessem os japoneses, que destruíssem tudo. Dar-lhes-ia Pearl Harbor, e seria capaz até de lhes dar Nova Iorque. Não importava. Das cinzas surgiria um bem maior. E seria pelas suas mãos que a História seria escrita. Não importa com o sangue de quem. Deitou fora as hesitações e guardou o papel no bolso. Era hora de dormir. Deitou-se, e nessa noite não sonhou. Dormiu como um bebé.

Era a madrugada de 7 de Dezembro, do outro lado da linha da frente.

Em pé, caminhando de um lado para o outro, parava ocasionalmente para esmagar entre as mãos as costas da cadeira. A dúvida assaltava-o. Não conseguia entender se o que se estava a passar seria bom ou mau. Do outro lado do Atlântico, em Pearl Harbor, os japoneses puxavam os americanos para a guerra. Havia horas em que a última coisa que queria era ter que lidar com americanos, quando ainda tinha que tratar dos russos e dos ingleses. Havia outras horas em que não conseguia ver perigo naquele batido de nacionalidades. Tinha feito as contas ao valor do exército americano, tinha-lhe somado o peso simbólico da entrada de uma nova nação na Guerra. E depois contrabalançara esse valor com o seu novo aliado japonês. Ora, americanos e japoneses, não são mais que a grande nação germânica. Releu de novo o discurso do presidente americano, que há dias jazia no topo de folhas espalhadas em cima da secretária. Homens de acção? Ele mostrar-lhes-ia um homem de acção. O americano tinha toda a razão - é preciso é haver quem faça, acerte-se ou erre-se. O Mundo gira nas mãos dos homens de acção, não nas mãos dos filósofos, dos escritores ou dos artistas. O americano tinha mesmo razão. O problema do americano é que ele próprio não passava de um crítico do nacional-socialismo. Ele sim, ele desbravava o rumo da História. E era hora de redesenhar planos. E nessa manhã, deu instruções para que nenhum judeu escapasse. E em nenhum momento se sentiu tentado a desistir.

Era a tarde de 7 de Dezembro, uma tarde fria, igual às outras na Lisboa monótona e enfadonha de sempre.

Caminhando livre pelas ruas, Ricardo Reis sentia-se sem casa. Sem corpo para habitar e sem mãos que dessem voz aos seus pensamentos, vogava pelos cafés escondidos nas ruelas de Alfama, atirava-se em longas deambulações pela Mouraria, e passava noites inteiras preso num sobe e desde do Chiado. Talvez encontrasse alguém que pudesse habitar. Alguém que por uma última vez o escutasse. Desde que o Fernando partira, a sua vida resumia-se a isto. Até que naquela manhã aborrecida se cruzou com uma voz que disse o seu nome. "Ricardo Reis? Sim, tu! Eu conheço-te muito bem. És o Ricardo Reis. Usaste o Pessoa para dizeres que devemos ser como os homens que jogam xadrez enquanto uma cidade arde. Para dizeres que 'sábio é aquele que se contenta com o espectáculo do mundo'. Sei muito bem quem és. O Pessoa era um banana. Deixava-te para aí a falar e ainda te dava corda. E ainda sentia orgulho nisso."

Ricardo ficara gelado como um espírito, mas corado como o Fernando costumava ficar. Demorou a recompôr-se. Era um rapaz quem o afrontava assim. Apenas um rapaz. Ponderou, como os jogadores de xadrez, deixá-lo a arder na sua fúria. Ousou apenas uma resposta ténue. "Preferias que fosse como o alemão que ameaça matar meio Mundo? Ou como os japoneses? Preferias que escolhesse importunar-me com o mesquinho e o mundano, quando tudo isso é tão vão, e só causa mais sofrimento?" O rapaz fez um gesto violento e aproximou-se num safanão. "Não! Esses políticos usam como argumento o serem homens de acção só para se justificarem, para se defenderem dos críticos. Como se os críticos fossem o inimigo. A crítica, a revolta, e a insatisfação contra tudo, inclusive contra nós próprios, estão na génese de todos os movimentos criadores. O crítico é o verdadeiro líder. Por isso não, não queria que fosses como eles, não queria que tivesses as mãos sujas de sangue como eles têm. O teu problema é que a acção irreflectida é só metade do veneno do Mundo. A outra metade é a indiferença. Tu não entendes que o sábio não se contenta com o espectáculo do Mundo porque faz parte da sua natureza de sábio a revolta constante contra o que está errado. Os verdadeiros inimigos de uma nação são os nacionalistas, que defendem a sua pátria só por ser a pátria, sem qualquer sentido crítico, e por isso são o público ideal para demagogos como o alemão moldarem. Os verdadeiros inertes são os beatos, que vêem no primeiro atalho religioso o caminho para salvar o que resta dos seus egos estilhaçados. Os verdadeiros cobardes sem espinha são como tu. Lesmas deixando escoar-se a vida em cafés e copos bebidos no Chiado ou em esplanadas a olhar para o mar. Como se na espuma das ondas se encontrasse calmamente o sentido da vida. Como se as coisas fossem assim tão simples. Como se não houvesse mais vida do que o contemplar da vida que há."

E, como num exorcismo, o espírito de Ricardo Reis esfumou-se da mesma maneira que as almas dos americanos incautos que tinham sido abatidos naquele mesmo dia por aviões japoneses e pela precipitação de um líder duvidoso. Antes que a última partícula etérea de Ricardo atravessasse as dimensões e se juntasse ao local literário para onde as personagens de ficção ascendem, teve só tempo de perguntar. "Rapaz, como te chamas?" Recebeu um nome que não perderia de vista. "José. José Saramago."

Desafio VII

Tiago para Ricardo:

It is not the critic who counts; not the man who points out how the strong man stumbles, or where the doer of deeds could have done them better. The credit belongs to the man who is actually in the arena, whose face is marred by dust and sweat and blood; who strives valiantly; who errs, who comes short again and again, because there is no effort without error and shortcoming; but who does actually strive to do the deeds; who knows great enthusiasms, the great devotions; who spends himself in a worthy cause; who at the best knows in the end the triumph of high achievement, and who at the worst, if he fails, at least fails while daring greatly, so that his place shall never be with those cold and timid souls who neither know victory nor defeat.



Theodore Roosevelt (Sorbonne, France - April 23, 1910)


Ricardo para Wings:


"Choose life. Choose a job. Choose a career. Choose a family. Choose a fucking big television. hoose washing machines, cars, compact disc players, and electrical tin openers. Choose good health, low cholesterol and dental insurance. Choose fixed-interest mortgage repayments. Choose a starter home. Choose your friends. Choose leisure wear and matching luggage. Choose a three piece suite on hire purchase in a range of fucking fabrics. Choose DIY and wondering who you are on a Sunday morning. Choose sitting on that couch watching mind-numbing sprit- crushing game shows, stuffing fucking junk food into your mouth. Choose rotting away at the end of it all, pishing you last in a miserable home, nothing more than an embarrassment to the selfish, fucked-up brats you have spawned to replace yourself. Choose your future. Choose life... But why would I want to do a thing like that?"

(Transpotting, versão filme, escrito por John Hodge a partir do livro de Irvine Welsh)



Wings para Alice in Wonderland:


Todos os homens morrem, mas nem todos vivem de facto.




(Braveheart)





Alice in Wonderland para Blue Storm:



"Se não queres que se saiba, não o faças"
(Provérbio chinês)


Blue Storm para Tiago:

"O Homem põe e Deus dispõe"
(provérbio)