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segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Desafio VI - Resposta

Conhecia a Maria há mais tempo do que conseguia contar. Talvez a conhecesse há mais tempo do que a mim mesma. Sabia que acima de tudo, escondia o que sentia, construindo muralhas à volta do sentimento, enquanto esperava que este a corroesse por dentro.

E eu sempre fora uma das duas pessoas que conseguia destruir essas muralhas. E estava a ouvir, naquele tom monocórdico que a Maria tem quando está partida (apenas) por dentro, como a outra morrera num terrível acidente. O amor da vida dela, e ela contava-mo como se falássemos do tempo. E isso indicava sempre o pior.

Pousei o telefone com a promessa que a ia visitar. Que mais podia fazer? Eu era a sua melhora miga e agora único porto de conforto no mundo.

Saí de casa com uma ideia fixa. Quando éramos mais novas, antes desta vida de responsabilidades, tínhamos um ritual. Quando precisávamos de falar, comprávamos uma caixa de bombons, sempre os mesmos, sempre da mesma chocolateira. Por nenhuma razão em especial, apenas pela simples mística do chocolate.

Toquei à campainha e ela convidou-me a entrar. A casa era a mesma, nada mudara. A não ser o olhar de Maria, perdido algures.

Obriguei-a a sentar-se. E quando estava à sua frente, olhos nos olhos, entreguei-lhe a caixa. Uma coisa simples, com um pequeno laço. Mas com tantas, tantas recordações.

- Come chocolate, pequena. - costumávamos dizer, tal como agora lhe disse. - Come chocolate.

Bastaram alguns segundos para ela pegar na caixa e comer o primeiro bombom, enquanto as lágrimas lhe caíam pelas faces.

Porque o chocolate é assim. Cada um o interpreta como uma metáfora diferente. Mas todos sabem que num pequeno doce, estão contido todos os tipos de sentimentos. O chocolate é uma droga, uma dádiva, um vício das sensações.

Talvez seja apenas uma comida. Se o é, digam-me outra que construa e destrua muralhas, que nos ponha felizes e nostálgicos ao mesmo tempo, que é referida como a comida dos deuses.

Eu poupo-vos trabalho: não há.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Desafio VI - Resposta

“When I came out into society I was 15. I already knew that the role I was condemned to, namely to keep quiet and do what I was told, gave me the perfect opportunity to listen and observe. Not to what people told me, which naturally was of no interest, but to whatever it was they were trying to hide. I practiced detachment. I learned how to look cheerful while under the table I stuck a fork into the back of my hand. I became a virtuoso of deceit. It wasn't pleasure I was after, it was knowledge. I consulted the strictest moralists to learn how to appear, philosophers to find out what to think, and novelists to see what I could get away with, and in the end, I distilled everything to one wonderfully simple principle: win or die.”
Choderlos de Laclos, "Dangerous Liaisons" (adaptação para o filme)

Quando entrei naquele comboio, eu sabia que era exactamente o que queria. Era tudo o que queria. Não havia nada que me fizesse mudar de opinião. Na verdade, eu não poderia querer superar-me a mim próprio, ou levantar uma voz assertiva numa discussão, se eu não tivesse a moral e o conhecimento para tal. Eu sou, no fundo, um tímido.

Mas um tímido daqueles que não faz mal a ninguém. Não sou um tímido que esconde um grande segredo, ou que analisa e avalia os outros no silêncio e no recôndito da minha mente. Não, sou apenas tímido. Evito conversas de ocasião. Evito falar sobre o que não sei. Evito discutir gostos ou opiniões estritamente pessoais. E espremendo tudo, no final, fico com muito pouco assunto.

E tanto que isso me frustra. Frustra-me querer mais, mas não conseguir nunca dizer as coisas certas, ou fazer as coisas certas, nos momentos certos e nos sítios correctos.

Era por isso que estava ali. Eu só poderia ser mais do que eu se tivesse a superioridade de poder falar. Se tivesse a experiência que me permitisse subir um nível acima dos meus pares, e desse alto anunciar enfim a mais profunda verdade, ou definir a mais importante lei moral, ou social, ou cultural. E não havia sido há muito tempo que eu descobrira isso. Não foi algo pensado durante anos, ou longamente planeado. Não. Foi uma conclusão muito bem tirada de um conjunto de situações. De um conjunto de discussões, de uma mão cheia de tentativas de ter razão. Mas não tinha. E agora eu sabia porquê.

Eu não vira tudo.

Claro, era isso. Eu não tinha visto tudo. Eu não conhecia tudo, e portanto não podia saber tudo. Era normal, fazia sentido. E foi aí que eu decidi que faria isso antes de dar continuidade à minha vida e aos meus planos. A minha viagem seria, a partir daquele momento, a minha vida, os meus planos.

O comboio estava prestes a partir. Na plataforma, as poucas pessoas que se vieram despedir tinham um ar triste, embora estivessem felizes por mim. Elas sabiam, tão bem quanto eu. A minha sede era muito maior que o tamanho do país que daqui a poucas horas abandonaria. A minha sede de conhecimento não tinha, neste momento, limites. Eu sentia-me hiper-activo. Hiper-atento. Beberei tudo o que puder nos próximos… meses, anos… ? Depois voltarei. Mais forte. Mais sábio. Mais culto.

Melhor.

Melhor que tudo, e melhor que todos. Porque a História só reza dos que vencem, e nesta História eu não aceitarei o segundo lugar.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Desafio VI - Resposta

Expira. Sustém a respiração.

Sempre tive dificuldades em entender exactamente a mecânica dos gestos mecânicos. Quanto mais penso neles, menos jeito tenho em fazê-los. É como as pedras. Dizem que as palavras são pedras, que se as repetimos muitas vezes elas tornam-se entidades amorfas e sem sentido. Quando penso em controlar a respiração deixo de conseguir fazê-lo. Quando penso que andar é meter uma perna à frente da outra, deixo de ser capaz de andar. Quando me fixo numa pessoa, parece que já nem a conheço. E quando procuro muito um objectivo muito específico na vida, parece que já nem sei porque o queria.

Expira. Sustém a respiração.

E isso deixa-me paralisado. Sempre necessitei de andar pela vida como um zombie. Sempre me foi completamente essencial ter mil coisas na cabeça, olhar para todo o lado, abstrair-me da vida e do Mundo e até de mim. Se por momentos me engano, e penso muito numa coisa só, os membros tolhem-se-me, as ideias fogem-me, e cai-me o chão que piso em cima da cabeça.

Expira. Sustém a respiração.

E é assim com tudo. Ter só um trabalho, ter só um ponto de vista, ter só um plano de vida, tudo isso me congela. É como se me afundasse. É como se ao olhar só para um bocadinho de céu em vez de ver o globo terrestre todo caísse dentro de um poço, do qual não consigo sair. É como se caísse no fundo de uma piscina porque me fixo nos gestos de nadar. E páro. Quando se pára de nadar vai-se ao fundo.

Expira. Sustém a respiração.

E quando estou no fundo do poço, não há nada a fazer. Preciso sempre que me vão buscar. Preciso sempre de um estímulo exterior que me acorde do transe e me mostre tudo o que há no Mundo.

Expira. Sustém a respiração.

Expira. Sustém a respiração.

Até hoje, encontrei sempre alguém que me lançou uma bóia e puxou de dentro da piscina.

Inspira.

"Você está bem? Você parou de nadar e foi ao fundo, homem!"

domingo, 31 de janeiro de 2010

Desafio VI - Resposta

Apanhou o autocarro em fúria. O Inverno estava no fim, mas ela nem reparou na luminosidade brilhante de Lisboa naquela hora quente. Ignorava o cenário, como sempre ignorou as pessoas.
Tinha menos de cinco minutos para chegar ao aeroporto. Apertou as mãos com força e respirou fundo: nunca tinha sentido tanta adrenalina. Até porque nunca tinha sentido tanto medo.
Ele ia partir. Partir.
O autocarro parou à frente do aeroporto e ela atirou-se para a frente, sem se importar com as pessoas que empurrou e correu para a entrada. Sentiu que a olhavam como se ela fosse louca. Finalmente, no meio de Lisboa um filme entrara na sua vida.
Quando entrou no aeroporto aquele cheiro de viagens entorpeceu-lhe os músculos. Alimentou-lhe o coração. Ele ia partir. Ele ia partir. Ele ia partir.
E ela não.
Quando finalmente o encontrou, ele estava já perto da passagem à zona interdita. Viu-o com as suas malas de sempre. E adrenalina abandonou-a. Era um filme onde ela já não entrava.
Ele olhou-a sem agravo na voz. Disse-lhe “Adeus”. E automaticamente ela pensou “O passado é inútil como um trapo”. Não lhe chegou sequer a pedir para ficar.
Era um filme onde ela nunca entrara.
"Do it, or do not. The is no try."

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Desafio VI- Resposta

O silêncio é a expressao máxima da tua consciência. Se tens essa previsão de falhanço é porque o vais sentir na pele. É porque sabes que não vais ser duro o suficiente, resistente o suficiente. Humano o suficiente. Tu próprio o suficiente.
Lá no fundo sabes bem que a evolução respira em todas as casas, esconde-se em todas as calçadas. As noites de sono profundo gastas em insónias frívolas vêm dessa percepção aguda nocturna. Não serás o escolhido, não és suficientemente bom. Demasiado fraco para defenderes o teu ponto de vista único ou para conquistar coragem para criar um. Demasiado frágil para descodificares uma metáfora e viveres com o ideal que descobriste na forma como interpretas o que sentes. O que vês. O que ouves. É tão mais fácil deixares que o sonho de um alguém comande a forma como existes! Mas é por isso que o silencio te conta, pormenorizadamente, como e quando vais falhar. Fechas os olhos e desenha-se na tua mente o teu ser despedaçado pela tua mediocridade.
Podias ter-me ouvido. Podias ter escolhido não me crucificares por impor a minha presença inigualável no mundo sensível. Por resistir a essas correntes invisíveis que estrangulam a imaginação. Por ter persistido na dignidade de ser eu. Inteiramente eu. Inovadoramente eu.
Lamento. O silêncio diz-me que sobrevivo. Sobreviverei até ao fim. Porque a selecção crua existe em todos nós, em cada pedaço de palavra proferida. Mas ela escolheu-me.
E eu sempre soube. Porque a verdade funda é que fui eu que a escolhi. Enquanto tu te limitaste a deduzir que serias escolhido ( daí a tua banal fraqueza, daí o teu rosto ser o rosto da multidão ).
Morrerás tristemente. Ingloriamente. Porque sentiste-te a morrer enquanto ainda estavas vivo. Eu sei que vou continuar vivo .Até ao fim.

" Don't think you are. Know you are."

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Desafio VI

Tiago para Blue Storm:

"Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates."

Fernando Pessoa, in Tabacaria

Wings para Ricardo:

"Quem se senta no fundo do poço para contemplar o céu há de achá-lo pequeno"

Han Yu


Blue Storm para Alice in Wonderland:

"Do or do not, there is no try." Yoda, Star Wars



Alice in Wonderland para Wings:

"Dont't think you are. Know you are"

(Matrix)



Ricardo para Tiago:

"When I came out into society I was 15. I already knew that the role I was condemned to, namely to keep quiet and do what I was told, gave me the perfect opportunity to listen and observe. Not to what people told me, which naturally was of no interest, but to whatever it was they were trying to hide. I practiced detachment. I learned how to look cheerful while under the table I stuck a fork into the back of my hand. I became a virtuoso of deceit. It wasn't pleasure I was after, it was knowledge. I consulted the strictest moralists to learn how to appear, philosophers to find out what to think, and novelists to see what I could get away with, and in the end, I distilled everything to one wonderfully simple principle: win or die."
Choderlos de Laclos, "Dangerous Liaisons" (adaptação para o filme)