Mostrar mensagens com a etiqueta Desafio XII. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Desafio XII. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Desafio XXII - Resposta

Num ápice, a caixa de madeira afundou-se no buraco, assim como ela se afundava nos seus pensamentos. Qual seria o conteúdo?, perguntava a si mesma. A madeira selada, composta e envernizada não o deixava adivinhar. Que partes teriam sobrevivido ao impacto? Que peças estariam inteiras? Haveria alguma coisa ali dentro, ou seria apenas um enterro simbólico de uma vida cujas provas materiais haviam sido pulverizadas entre o ar e a água? Que moléculas outrora constituintes de um corpo se manteriam ainda unidas, gravitando estanques dentro de uma pele única, barreira elástica que serve de fronteira da entidade humana? Senhora de uma imaginação intensamente visual, espreitava para dentro do buraco, para dentro da caixa, e via respostas. Via-o, via partes de um corpo dilacerado, não muito maior que um feto. Para ela, aquele não era um enterro. Era um parto ao contrário, um retorno a um estado primitivo, uma lacuna no espaço-tempo que permitiu a reversibilidade de uma vida. Sentia-se simultaneamente privilegiada, como mãe, ao poder assistir ao anti-nascimento do filho, e também horrivelmente amaldiçoada. Porque não é suposto uma mãe estar presente naquele momento.

As perguntas, essas, mais do que nascerem, jorravam como de uma fonte inesgotável na sua sua cabeça durante todo o caminho até casa. O marido, cansado, envelhecido dez anos em dez dias de incerteza, requisitou-lhe com um olhar doce e uma mão no ombro a permissão para a deixar sozinha. “Vou-me deitar um pouco, está bem?” era daquelas perguntas que claramente significam outra coisa, significava “se eu me for deitar tu ficas bem e não cometes nenhuma loucura?”. Mesmo tendo-lhe respondido que sim, que podia ir descansar, ou descansado, deu por si numa tremenda angústia ao ver-se sozinha, sentada no sofá inclinada para a frente pelo peso das questões, sem conseguir recostar-se. Parecia-lhe ingrato estar ali confortável e o seu menino numa caixa fria, envernizada, dura. Acordou de um certo semi-transe em que se entra quando os pensamentos, de tão profundos, sugam a atenção para dentro. Da sala, necessitava apenas de um curto rodar de cabeça para que o seu olhar entrasse em choque com a porta do quarto dele, entreaberta, deixando adivinhar que ele não estava. Porque quando ele estava fechava-se a porta. Era como se nenhuma divisão existisse, como se se tratasse de um anexo secreto. Era assim que ele queria.

Caminhando aos soluços, lentamente, atemorizada, até ao quarto, podia ver, do lado de lá, o fantasma do seu filho, esperando-a. Só não saberia o que fazer se ele efectivamente lá estivesse. A cada passo, detinha-se a decidir se corria a abraçá-lo, ou se fugia de medo. Começando por meter os dedos por entre a fresta de onde saía a luz da grande janela que dava para o mar, demorou a ganhar coragem para puxar o monte de madeira que, naquela casa, sempre foi como que uma fronteira entre dois países. Como pode alguém viver dezanove anos, dia após dia, com um desconhecido em casa? Em casa, mas naquela outra caixa, tão fria e dura quanto acabara de imaginar o caixão. O olhar demorou-se em cada detalhe, como se estivesse num sítio estranho que contemplava pela primeira vez. As paredes, brancas, nuas, a cama curta, estreita, de lençois brancos e cobertor azul, a secretária de contraplacado envernizado, claro, semelhante ao roupeiro, uma cadeira preta, e um enorme tapete castanho – tudo criava a ambiência de um mosteiro laico. Em reclusão, sem gavetas, objectos ou acessórios, era assim que o seu filho vivia, era aqui que se espalmava e lançava as raízes da sua vida. E todo aquele tempo ela estava a dez centímetros de tijolo de distância, na sala, sentada no sofá. E nunca, por um momento só, uma dessas raízes a tocou. Nunca se perguntou no que se passaria deste lado. Pensou por breves instantes se teria sido uma boa mãe. Mais importante, se teria sido uma boa amiga. Se sequer teria sido uma compania agradável. E não há imagem que lhe pudesse responder a essa pergunta.

Para alguém que não tem nada, o computador em cima da secretária é talvez o último esconderijo de memórias, onde se escondem fotografias e segredos. Chamou-lhe a atenção que do lado direito do monitor um post-it esvoaçasse. Mesmo com a janela fechada. Continha uma longa lista de sítios e respectivas palavras-passe, todas diferentes de local para local. Messenger, Facebook, Hi5, Blogger, e-mails pessoais Yahoo, Gmail, e em outros locais que lhe eram desconhecidos. Ali estava ele, o fantasma virtual do seu filho sorrindo para si. Ela agarrou-o com força, e ligou o computador. Queria abraçá-lo. E logo quando tinha prometido ao seu marido que não cometeria loucuras.

Por instantes, perguntou-se se seria ético violar a privacidade do seu filho. Mas, como sempre acontece, a curiosidade venceu o instinto moral, e acedeu ao Facebook. Ele lá estava. Não no cemitério. Era um local virtual sem dor, sem mágoa de perda, sem lamentos. Ali, ele estava tão vivo como ela. Estava rodeado de amigos, de dezenas de mensagens publicadas no mural.

“Hey! Onde andas?”

“Então pá, tavas no Rio e depois o pessoal ouviu a cena do avião... Ficámos preocupados! Diz qualquer cena!”

“E aí, brasileiro! Espero que estejas bem...”

“Por favor diz-me que aquele não era o teu voo!”

“Responde, pá! Tá tudo preocupado contigo!”

“Epá, q cena... DIZ-ME q tás bom!”

E só aí, pela primeira vez, se lembrou que não tinha avisado os amigos. Para além dela, do marido e de meia dúzia de familiares, ainda ninguém sabia. Caiu-lhe uma certa agonia ao ver a campa, solitária, fria, ao imaginar dia após noite a sucederem-se sem visitas. E se é verdade que ali, naquele espaço, seria o momento e o sítio adequado para publicar a notícia, olhar aquela foto, tirada no Quénia no ano anterior, onde, por detrás de óculos de sol, protegiam-se dois olhos tão felizes, era senti-lo num espaço onde estava tão vivo... que não se conseguiu forçar a fazê-lo. Para que uma campa seja visitada, matar um ser virtual que nunca está sozinho? Não. Naquela outra caixa não há senão morte. Se aqui ainda há vida, pois que assim fique. Desligou o computador, pegou no post-it e levou-o consigo.

Passaram-se dias até ter ligado o seu próprio computador. Recebera um e-mail de uma colega.

“Um colega do teu filho ligou para cá, acho que queria falar contigo para saber dele... Não sabia que lhe dizer, pedi para deixar o contacto. Está aqui o número dele.”

A situação era insustentável. Pegou no post-it e acedeu de novo ao Facebook do seu filho. Tinha uma nova mensagem privada. Não resistiu a abrir.

“Olá. :) É só para te dizer que o contacto que me arranjaste para o trabalho foi excelente. Eles aceitaram-me. Vou conseguir pagar o quarto! Adoro-te.”

Recuou mais longe. Não havia mais mensagens desta pessoa. Utilizou as outras palavras-passe. Leu vorazmente a sua correspondência. Descobriu um filho que nunca teve, ou nunca soube que teve. Interessado, carinhoso, dinâmico, daquele computador o seu filho movia tudo aquilo que canalizara para uma existência virtual. O afecto que não dava em casa, à família, transferia inteiramente para aquela rede de amizades. Todas as memórias que não tinha guardado nas paredes do quarto estavam nas paredes das redes sociais e nas caixas de correio electrónico. Para aquela rapariga, que vivia um momento difícil, tinha encontrado um emprego e um quarto para sair de casa e mesmo assim continuar a pagar a universidade. Com outro, tinha organizado uma viagem a Espanha, porque nunca havia saído do país. E ainda que estes pequenos gestos, após reflexão ponderada, não lhe parecessem sequer extraordinários, fizeram-na como que descobrir um desconhecido. Fizeram-na entender que, quando caiu, o avião levou uma pessoa importante. Porque é sempre isso o mais difícil na morte, a quebra abrupta com um caminho partilhado. É uma linha de caminho de ferro que se quebra, é uma estrada que culmina num precipício. É um avião que cai a pique no Atlântico.

Nessa altura, decidiu que aquela pessoa, aquele filho que ela nunca conheceu, não podia morrer. Trouxe o avião de volta à sua rota, abriu o mural e escreveu:

“Pessoal, tive problemas para voltar a Portugal, fiquei retido no Rio de Janeiro por causa daquele avião que caiu. Mas está tudo bem! Desculpem ter-vos assustado, e obrigado pelas vossas mensagens. Tenho GRANDES novidades! :D”

Não foi sem dúvidas que carregou no botão para publicar. “Para tudo há solução menos para a morte”, diz-se. Mas neste caso, de certa forma, acabara de substituir a irreversibilidade da morte pela irreversibilidade desta existência virtual, desta manutenção artificial de consciência da qual seria muito difícil algum dia escapar. Como algum dia vir a revelar a verdade a alguém? Não; a vida, que é sempre frágil e provisória, seria agora qualquer coisa de permanente.

Após ler toda a sua correspondência, conhecia com precisão a vida do seu filho. Sabia-lhe os gostos mais viciantes, os vícios mais embaraçosos, e os embaraços mais frequentes. Sabia-lhe as palavras que usava, as expressões preferidas, as abreviaturas, os códigos e a maneira como alterava o discurso consoante a pessoa com quem falava. A vida dela tornou-se na descodificação de uma outra existência. E, em semanas, já enviava e-mails frequentes, espontâneos, para amigos, já actualizava diariamente o Facebook, já tinha resposta para quem lhe dizia que não aparecia nas aulas (“vou mudar de curso!”), para quem se queixava de não aparecer para cafés (“tenho andado engripado... devo ter apanhado alguma coisa no Brasil!”), para quem simplesmente lhe dizia que tinha saudades suas (“eu também... vamos marcar uma viagem, vamos a algum lado juntos :)”). Cada sorriso virtual era sentido. Cada esperança gerada em outros olhos era um gosto tremendo nos seus. Aquela segunda pele do seu filho tinha que ser mantida. Como mãe, tinha-lhe dado vida por uma segunda vez. E, desta vez, ela sentia-se presente na vida do seu filho. E isso dava-lhe uma felicidade que, até então, desconhecia. Naquela altura, ele era demasiado importante para ser perdido. E ela não o poderia perder outra vez. Não desta vez.

Até que chegou aquele e-mail. As semanas já se tinham tornado em meses, e a presença daquele ente virtual já era parte da família. Cada noite, o marido pedia-lhe licença para descansar, e o seu filho colocava mais uma mensagem no Facebook. Por vezes, conseguia até imaginá-lo a fazê-lo por si mesmo. Até que aquele e-mail veio estragar tudo.

“Agradeço a sua deslocação ao Rio, e quero lhe dizer que a nossa reunião correu bem. Ficámos todos muito impressionados com sua vontade de deixar Portugal e se mudar para cá, para trabalhar com a nossa empresa. Infelizmente, não poderemos recrutá-lo ainda. Recomendamos que termine seu grau primeiro, e no final nos contacte, pois teremos todo o gosto em o receber.”

Senhora de uma imaginação intensamente visual, nunca imaginara isto. O Rio era mais uma das suas frequentes viagens, e nunca pensou que fosse mais que isso. Desde que completara dezoito anos que não fazia outra coisa. Era viagem para aqui e para ali, quanto mais longe melhor. E até ao Quénia já tinha ido. E se é verdade que pela cabeça tudo lhe passa, e se é verdade que até o tinha já imaginado, em noites sem dormir, vivendo uma vida aventureira como correio de droga ou traficante de marfim, correndo selvas e conhecendo gente perigosa, a última coisa que poderia visualizar era o seu filho, de fato e gravata, procurando emprego numa empresa reputada que lhe permitisse sair de Portugal. Para sair daquela casa, ou pelo menos daquele quarto-anexo cuja porta nunca se abria. Para a deixar, para a abandonar. Antes de morrer, já o seu filho planeava a morte para ela.

E sentiu raiva, muita raiva, demasiada raiva, por aquele miúdo egoísta que não pensou nela, que procurava fugir para o outro lado do Mundo quando do outro lado da parede estava ela, que ele nem conhecia. Como mãe talvez sim, mas não como pessoa. Ela, ela, ela. Que sempre fez tudo por ele, que ainda agora o mantinha artificialmente vivo. Ela, que mantinha só para ele o que pensava que ele mais queria: os seus amigos! E ele, egoísta até para com eles. Ele, tão interessado pela amizade, tão desinteressado da família, e tão infiel a ambos com os seus planos de fuga. Pois se ele queria viver longe, que se fosse embora para sempre. Impulsivamente, escreveu no Facebook uma última mensagem.

“Pessoal, foi bom todo o tempo que passámos juntos, mas sinto que a minha vida precisa de mais. Preciso de ver outras coisas. No Rio encontrei um emprego, e vou mudar-me para lá. Espero que não me levem a mal por querer começar uma vida nova. Um dia, sei que nos vamos reencontrar. E nesse momento, pessoalmente, explicarei a cada um de vós, pessoalmente, porque tinha que vos deixar. Adoro-vos a todos. Até sempre.”

“O utilizador foi removido.” Fechou o computador. E, mais do que em algum momento antes, chorou agoniada e destroçada pela culpa. O seu filho estava morto. E, de alguma forma estranha, ela sentia-se uma assassina. Sentia que o tinha enviado para uma morte solitária, por nenhuma razão outra do que egoísmo seu, e raiva, raiva porque aquilo que ele queria da vida ela não lhe podia dar nem quando ele estava vivo, nem já depois de morto. A sua campa, desconhecida e sem visitas, guardaria para sempre o segredo do seu nome. E, assim, perduraria apenas o mito do rapaz que apagou a vida antiga e foi viver para o Brasil. Os mitos não são mais do que a extensão que aqueles que ficam criam daqueles que recusam ver partir. Porque afinal a morte é injusta quando abruptamente interrompe os planos de alguém destinado a algo maior. Porque afinal a morte daqueles a quem queremos bem é sempre mais inconcebível do que a nossa própria morte.

terça-feira, 23 de março de 2010

Desafio XII - Resposta

- Terei de recusar. Não desejo pertencer a nenhum clube que me aceite como membro.

- Desculpe perguntar, mas qual é a razão?

- Eu sei quem e o que sou. Sei que aos olhos da sociedade não sou uma boa pessoa, não segundo os seus padrões. Não sigo as regras se não concordar com elas, digo a verdade quer queiram quer não. Critico qualquer pormenor que sinta que não está bem, e mesmo assim nem sempre me sinto satisfeito. Se não for feito à minha exclusiva maneira há-de estar incompleto, ou pelo menos poderia ter ficado melhor. Não tenho nenhum senso de solidariedade, nem sequer de companheirismo. Para mim o mundo gira à minha volta, e este meu mundo vai contra a corrente de todos os outros. Agora imagine se fossemos todos assim. Não posso aceitar juntar-me a um clube que aceite este comportamento porque seria insustentável.

quarta-feira, 17 de março de 2010

Desafio XII - Resposta

Eu não sabia o que me esperava quando pousei o pé no embarque. Só aí começou o entusiasmo do meu companheiro de viagem, que me lembrou o êxtase de uma criança a quem inocentemente será dado um prazer de adultos. O aeroporto transformou um jovem adulto, responsável, recatado, beato e tímido, num excesso de agitação, no "vai ser lindo!", no "mal posso esperar", no "vai ser tudo o que as portuguesas não fazem", no "vai ser logo na primeira noite". Algures a meio do voo, pegou na cruz que exibia pendente do pescoço, e que tanto escárnio da minha parte havia já merecido ao longo dos anos, beijou-a, e disse "lamento, mas o que vai acontecer nesta cidade não é para os teus olhos verem". Quando pus o pé no desembarque, já sabia muito bem o que me esperava.

"São cinquenta Euros por vinte minutos. É caro! Mas vou tentar negociar." E regressou à janela. Andámos mais de meia hora, olhando de janela em janela, despindo com o olhar a roupa que restava aos corpos plásticos humanos que tentavam provocar-nos. A princípio, fiquei fascinado. Era isto que eu procurava nesta cidade: a liberdade, o à-vontade com o corpo, com o mundano, a recusa da moral obsoleta e de tradicionalismos com cheiro a mofo. Tudo isso pareceu-me colado ao vidro das inúmeras janelas.

O menu estava todo ali à escolha. Mas um único prato lhe agradava. Loura, olhos azuis, face demasiado redonda, e roupa interior azul e preta. Dois homens tinham acabado de sair juntos. Mais três esperavam a sua vez. E ali, sorrindo enquanto se tentava expressar num inglês ordinário, o meu companheiro esqueceu-me. Ia entrando, a passos minúsculos, como que vertendo o seu corpo para o interior, até que a cortina roxa se fechou e nada escapava pelos lados senão alguma luz enferma.

Olhei para o relógio. Cinco minutos.

Esperei cinco minutos junto à janela, empurrado acima e abaixo da margem do canal pela multidão oscilante, em correntes intermitentes. Depois, preso pelo deboche mercantil, saturado pelos perfumes ostensivos, perdi-me pelas ruas perpendiculares ao canal, e encontrei assento na porta de uma Igreja antiga e redonda. Rodando o olhar em torno da minha posição, luzes vermelhas escapavam-se por detrás de figuras negras corpulentas em montras improvisadas de jaulas-janelas, insinuando-se e tocando-se da mesma forma mecânica e plástica com que os apetrechos e adereços sexuais se mostram nas lojas de recordações, desavergonhadamente exibidos mas timidamente descontextualizados.

Dez minutos.

Ali, preso no degrau que rejeito, portas meias com o prazer, senti-me rodeado por aquela que deveria ser a minha gente: as prostitutas, os boémios, os devassos, os drogados, os bêbados, e toda a demais escória do Mundo. E, no entanto, olhando-os nos olhos, senti-os tão mercantis como marinheiros em terra pilhada. Os olhos do lado de cá e do lado de lá da montra, quando se encontram, tornam difícil entender quem compra a quem, e se é o corpo ou a ilusão que se transacciona. E eu, traído pelo meu romantismo de vão de escada, vim procurar liberdade e encontrei uma outra espécie de prisão voluntária.

Quinze minutos.

Portas meias com uma catedral do etéreo, a catedral do mundano. De mãos dadas na paisagem, quase se diria que é aqui onde o céu e o inferno se tocam. Amsterdão é onde Deus vem divertir-se e o Diabo arrepender-se. Amsterdão é o sítio de onde tudo o que é humano emana. E longe, na terra onde nasci, febril por fervores ateus, maldigo esta união, bendigo o que é ordinário e renego todos os dias a Deus e à virtude. E lá, acho-me irmão desta multidão recorrendo ao carnal que corre em fileiras paralelas ao canal. Mas aqui olho a multidão e não me reconheço em ninguém. Poderia correr pelas ruas, olhando nos olhos e beijando na boca cada um deles. Não importaria. Não haveria alma onde me reconhecesse nem saliva que me saciasse. Eu estou no meio, e sentirei sempre esta revolta contra o local que cale metade do que sou, seja essa metade sagrada ou profana. Eu não sou irmão do Homem. Mas também não sou filho de Deus. Eu sou pai de mim mesmo. Eu sou um produto da minha própria imaginação.

Subitamente, sem grande capacidade de me deter, o degrau onde me sentava rodou e tornou-se num oratório. Vi-me ajoelhado, de olhar elevado para a figura numa cruz pendurada no topo da porta, para sempre tendo prazer no seu calvário. Cristo sado-masoquista, exibido numa igreja de rua de sexo. E, pela primeira vez desde que eu próprio era criança e ficava em êxtase quando era levado ao Mundo dos adultos, rezei. Traí tudo aquilo em que acredito, rezando.

Vinte minutos. Hora de voltar.

Encontrei-me com ele junto à mesma janela que se tinha coberto por uma cortina suspeita, reveladora na sua opacidade. "E pronto, já está", disse-me, mesmo perante a minha total indiferença e desinteresse. "Mas isto... só vinte minutos não dá para nada", insistiu, interessado em puxar-me para dentro da sua experiência. "E o pior é que ela nem quis fazer o que eu lhe pedi", acrescentava enquanto retomávamos o caminho. "E depois perde-se imenso tempo com conversa... e nem dá para chegar ao fim." Acelerei o passo. "Vinte minutos não dá para nada." Silêncio. "Mas tens que experimentar!" Silêncio.

"E tu, que fizeste entretanto?" Surpreendeu-me a minha incapacidade para lhe dizer a verdade. "Estive só ali à tua espera." Afinal, vinte minutos, para mim, deram para muito. Deram para descobrir um Mundo quase obsceno, de tão nú e pessoal, que me envergonha e do qual não quero falar. What happens in Amsterdam, stays in Amsterdam. E sempre pensei que ao dizer isto me estivesse a referir a sexo. Mas Amsterdão ensinou-me que há coisas bem mais vergonhosas do que foder.

segunda-feira, 15 de março de 2010

Desafio XII - Resposta

"A bondade consiste em estimar e amar os outros para além do que eles merecem."
Joseph Joubert


Ele brincava nervoso com a aliança que trazia no dedo anelar esquerdo. Não era raro mexer-lhe, embora nos últimos tempos o fizesse de mais em mais frequentemente. Tinha à sua frente, naquele velho restaurante escondido da cidade de Lisboa, um copo de um qualquer aperitivo esbranquiçado que ia sorvendo de quando em vez. Na mesa estavam postos dois couverts; era evidente que esperava alguém.

Enquanto o fazia, olhou em volta. O restaurante estava quase igual à última vez em que lá tinha estado, havia mais de vinte anos. “Vinte anos”, pensou carregadamente, suspirando. “Uma vida inteira”. A decoração tinha mudado bastante, assim como os empregados. Reconheceu, mal entrou no restaurante, o patriarca daquela casa, que se movia lentamente pela sala, garantindo que tudo estava bem com os seus clientes. Os seus provavelmente oitenta anos pesavam-lhe muito mais que da última vez, quando corria por todos os lados, fazendo voar pratos pelas mesas de forma que nenhum cliente ficasse atrasado da sua curta hora de almoço, no entanto apreciando sempre boa comida.

Foi lá, enfim, que pediu a sua namorada em casamento, depois de mais de dez anos de namoro. Ela tinha sido o seu primeiro amor; a sua namoradinha de infância; a sua miúda da adolescência; a sua companhia de universidade; a sua namorada, a sua mulher. E não podia deixar de admirar o seu pequeno toque de ironia ao convidá-la naquele dia, de entre todos, para almoçar ali.

Quando ela entrou no restaurante, vinha despenteada e um pouco perdida. Trazia na mão alguns papéis, e o casaco mal arranjado.

- “Desculpa o atraso, mas tive de fazer uns telefonemas importantes antes de sair.”

- “Não… não faz mal…” – Foi naquele momento que ele percebeu que ia custar mais que todos os planos que tinha feito à noite para si próprio. Era um facto que o casamento não corria bem, e que a culpa era muito dela, que sempre quis mais para si que para eles os dois. Foi ela que não quis ter filhos para não perturbar a sua ascensão galopante na empresa, para que ele não se visse obrigado a ter de os educar sozinho. E ele tinha estado sempre ao lado dela, tinha-a sempre motivado e apoiado, tinha-a levantado nos momentos difíceis e tinha festejado à sua sombra as vitórias dela. Ele tinha estado sempre lá. Sempre.

Mas hoje acabava. Tinha sido demais. As desconfianças de algumas histórias mal contadas, com o acumular de tantos anos de frustrações tinham atingido o limite. Não podia mais. Queria poder passar o resto da sua vida a pensar em si, em aproveitar a quão magnífica era a sua própria vida. Queria conhecer mais pessoas, queria usar e abusar do seu tempo, queria ir onde nunca tinha ido e ver o que nunca tinha visto. Acabava ali.

- “Tenho uma coisa para te dizer.” – começou, ganhando fôlego.

Ela olhou-o, notando uma reverência pouco habitual nele. E quando se tentou concentrar no que ele lhe queria dizer, vieram-lhe de repente todas as memórias dos últimos dias: a clínica, os exames, a biopsia, os resultados. Ele não podia saber. Ela não queria saber. Não era justo, não agora que ela tinha todo o seu tempo planeado para atingir o posto mais elevado da sua empresa. Agora que os apoios apareciam à esquerda e à direita. Não, não podia ser. E até àquele momento tinha vivido tudo de uma forma racional. De alguma forma aquele espaço, aquele homem à sua frente, e a reverência com que a olhava devolveram-lhe a fragilidade. Por um momento. Por um pequeno momento. O bastante.

Poucos segundos depois de começar a olhar para ele, começou a chorar. Grossas lágrimas caíam da sua face em direcção à mesa, e ela soluçava descontroladamente num restaurante onde toda a calma tinha desaparecido.

“Mas eu ainda não disse nada! Será que ela já sabia?”, pensou para si. Ele não tinha falado com ninguém de nada. Era impossível era saber. Perguntou o que se passava, e ela simplesmente passou-lhe os papéis que trazia na mão para as suas mãos. Um tumor maligno em fase avançada. Foi descoberto muito tarde. Tarde demais. Em resumo, não havia nada a fazer. O papel assinava gravemente a sua sentença de morte: 1 ano, não mais.

E num só momento tudo se desvaneceu. O mundo parou e rodou ao contrário por um pequeno instante. Desapareceram as frustrações, as semanas a pensar e a decidir dar finalmente o grande passo. As casas que procurou para alugar. Tudo. À sua frente estava, simples e frágil como há vinte anos, a sua mulher, o amor da sua vida, a única pessoa que tinha despertado nele tudo o que havia de melhor. A única pessoa que realmente amara, e que agora estava a morrer. Que agora via a vida a passar-lhe por entre os dedos como finos grãos de areia.

Tentou dizer-lhe nesse ano o quanto a amava como se de dez anos se tratassem. A sua saúde piorou rapidamente, e passado pouco tempo ele passou a viver para ela, e ela largou finalmente o seu trabalho. Os tratamentos mantinham-na um pouco melhor, mas a sua própria desmotivação não ajudava. Um ano depois daquele almoço, ela repousava na cama do hospital, num coma induzido para minimizar as dores, enquanto lentamente morria por dentro. Enquanto o tempo amargamente e cruelmente fazia o seu trabalho, como sempre fazia. E ele dormia ao seu lado, num sofá improvisado, onde os médicos simplesmente não conseguiram recusar a sua estada prolongada.

Dez anos depois daquele almoço, ele voltou ao restaurante. O patriarca tinha já morrido, assim como a sua mulher. Ele vivia agora num pequeno apartamento, e refizera a sua vida, a pouco e pouco. Não teve mais ninguém, e arrependia-se do dia em que chegou a pôr essa hipótese. Um dia pediria desculpa à sua mulher. Naquele dia, pediu o mesmo aperitivo que tinha pedido dez anos antes. Depois deixou-se ali ficar, em silêncio, olhando o mundo indiferente à sua dor. Queria apenas silêncio, queria apenas um sítio acolhedor onde as memórias boas pudessem aquecê-lo um pouco de novo. Olhando à volta, bebendo da vida das outras pessoas que iam entrando e saindo, foi-se deixando ficar. Estavam dois couverts na mesa. E ele brincava ainda nervoso com a aliança.

quinta-feira, 11 de março de 2010

Desafio XII - Resposta

Procuraste-me com esse medo descontraido nos olhos. Mas procuraste-me para, discretamente, me pedires essa protecçao peculiar de quem tem como amigo um louco que é mais lucido que todos os conscientes deste universo.
Com um sorriso confessaste-me o terror que te ia profudnamente na alma. O ponto de crueldade a que eles chegam. A facilidade com que rasgam uma vida inocente como se fosse um papel já gasto e antigo. A frieza suja que ves quando os olhas nos olhos. A certeza de que poderás ser um alvo fragil, a certeza de que qualquer um é. Porque eles nao tem qualquer amor-proprio, nenhum tipo de auto-valorizaçao . La no fundo, eles odeiam-se estridentemente. E isso é deveras perigoso.
Mas só para eles. Tens medo do que? Esta ideia de que devemos temer quem não tem sentimentos enerva muiito para alem de ser um lugar-comum. É uma falacia. Nunca podes ter medo deles porque tu tens o que eles matam para ter. A tua pessoa, um reflexo suave e bonito no espelho. A tua dignidade, intacta. O teu amor-proprio a garantir uma boa tarde de Verao a brilhar no espelho dos teus olhos. Não tenhas medo, toda a crueldade de que poderás ser alvo é uma ilusao.
Procuraste-me. Por saberes que eles temem alguem meio louco. Por teres visto a sua fragilidade ridicula e patetica perante alguem como eu. Alguem como eu, compreende, deverá receber toda a tua atenção receosa por estar em perfeito estado interior. Por vence-los através do calcanhar que se esquceram de proteger. Esquecem-se sempre, veem-se sempre melhor e maior do que são. Olha para ti e cobre as tuas fragilidades.
E abandonas esse medo lógico da tua mente. Quando proteges o calcanhar alcanças uma certa loucura, sim. A de te teres a ti como companhia.

Desafio XII - Resposta

"Youth is a wonderful thing. What a crime to waste it on children."

Devagar muito devagar, primeiro na mente, depois nas mãos, executou a tarefa meticulosa de identificar e isolar aquele perfume. Procurava-o há anos, tornou-se ele na própria obsessão daquele cheiro, como se fosse perseguido a toda a hora por memórias tão duras que lhe construíam o presente.
Aquele cheiro de liberdade, onde as manhãs eram iguais às tardes, o riso desenfreado quando perseguia borboletas livres. Era o cheiro do não-futuro, da eternidade do segundo, renovada em cada golfada de ar respirada.
E esse era um cheio de morangos silvestres desenhados nas janelas, de castanhas quentes comidas com cascas. Era um cheiro da chuva de manhã, quando saltava por cima das poças de água nos caminhos enlameados. Ou um cheiro do calor de Junho, da cola e do papel de lustro. Um cheiro longo dos vestidos que usava nas peças de teatro (e esse era o único passado permitido).
Sabe também que cheirava à madeira do cesto de vime onde estava a comida. Ao chocolate misturado com nozes que partilhava. Às aventuras dos seus sonhos quando era um explorador.
Quando conseguia cheirar tudo isto. E não ter consciência de nada.
Mas agora, finalmente conseguira recolher meticulosamente todos estes pequenos cheiros. Demorara anos a reuni-los, a conseguir a proporção correcta. Aquela essência era agora sua. Outra vez.
Que desperdício gastar toda aquela pureza nas crianças.
E foi por isso que quando, na sua pequena sala, abriu finalmente o frasco para libertar uma gota daquela essência, o cheiro libertado foi o de umas flores banais. Afinal, era a essência dele que devia ter permanecido.

quarta-feira, 10 de março de 2010

Desafio XII

Tiago para Alice in Wonderland:

"Youth is a wonderful thing. What a crime to waste it on children."

George Bernard Shaw

Alice in Wonderland para Ricardo:

"Have you ever been at someplace
Recognizing everybody's face
Until you realized that there was no one there you knew"

Have you ever - Offspring



Ricardo para Blue Storm:

Não desejo pertencer a nenhum clube que me aceite como membro.
Groucho Marx


Blue Storm para Wings

" (...)
Realize we spend our lives living in a culture of fear
Stand to salute, say thanks to the man of the year
(...)"



Sum 41, We're All to Blame



Wings para Tiago:


"A bondade consiste em estimar e amar os outros para além do que eles merecem."


Joseph Joubert