terça-feira, 13 de abril de 2010

Desafio XV - Resposta

Fale-me dessa pessoa.

É um tipo engraçado. A sério que é. Sabias que quando era novo deram com ele a afogar-se na Arrábida, a dizer que estava a tentar chegar a Tróia? É que ele faz-me rir só de pensar naquela figura escanzelada, aquele cabelo seboso, sempre tão porco. É cómico a andar, a falar, a mexer-se, naquele tique nervoso que apanhou na vista quando troca os olhos enquanto fala. Sabias que quando era miúdo apanharam-no a comer cimento? Dizia que era para ficar forte como as casas. Se calhar por isso é que não conseguiu nadar até Tróia. É um fartote, digo-te.

Quando o conheceu?

Conheço-o desde pequenino. Conheço-lhe a família toda. A mãe era uma professora solteirona, tinha um cabelo muito curtinho, uns óculos de velhota presos por um fio ao pescoço, e andava sempre de camisolas de rapaz com padrão de losangos. Os miúdos chamavam-lhe Maria-Homem. Era professora do secundário. Falava como se soubesse tudo, e estava sempre com dores. Dizia com ar grave “meninos, por favor falai baixo que me dói a cabeça”, mas sempre no mesmo tom e sem se mexer. Um dia, a Maria-Homem arranjou um homem, um velhote que tinha um café lá na rua e que foi morar com ela. Ela já tinha uns quarenta anos. Quase não criou barriga, mas nove meses depois de irem morar juntos, o miúdo cá apareceu. As más línguas diziam que era adoptado. Bom, se me perguntares, eu acho que o que aconteceu foi que os espermatozóides do velho lá deram com um último óvulo esquecido que ainda funcionava naquela mulher.

Como era a relação dele com os pais?

Ui, aquilo foi um inferno. A Maria-Homem vestia-o com as mesmas camisolas dela. Andava de calções, até no Inverno, e com uns sapatinhos pretos envernizados que já naquela altura eram maricas. E estava sempre a tentar ensinar-lhe tudo, em todo o lado. Chamava-lhe a atenção para coisas que ele não queria saber. E arranjava uma dor num sítio diferente do corpo, que metia pelo meio de duas frases mal construídas no jornal. “Querido, veja esta, e nunca se esqueça que o ‘a’ de haver é com ‘h’. Agora vá ali buscar aquela almofada que a mãe está com picadas nos pés.” Ele lá dentro daquela cabeça não conseguia perceber se ela sabia tudo ou se não sabia nada. Não conseguia varrer aquele lixo todo da cabeça. Para ele, errar começou a ser como estar doente. E, como errava muito, achava-se uma criatura muito fraca. Se calhar é por isso que comeu cimento.

Errava? Como assim?

Errava, fazia coisas mal, não conseguia resolver exercícios na escola, nem escrever direito como os outros meninos. Não entendia as brincadeiras. Estava muito atrasado no desenvolvimento.

E como foi a adolescência dele?

A adolescência foi uma luta com a mãe. Sabias que a mãe queria que ele fosse médico? E ele até tinha jeito, gostava de ciências e tal. Mas aquilo de crescer foi complicado para ele. Fartou-se da mãe e começou a dar erros de português de propósito. Tirava negativas porque os professores nem conseguiam ler o que ele escrevia. E como ela dava aulas na escola onde ele andava, e ainda por cima foi professora dele, imagina. Sabias que ela mesma teve que o chumbar a Português? Aquilo custou-lhe que se fartou. Até meteu dó aos outros miúdos ver a cara dela na última aula a dizer-lhe a nota. Sete valores, redondos. E ele, nas suas sete quintas. Até sorriu e tudo. Era danado, aquele tipo.

E o pai? O que pensava o pai de tudo isso?

O pai mal falava. Estava lá, ouvia a mãe e nem reagia. Ia buscar-lhes os medicamentos e as almofadas e abanava a cabeça quando ela lhe mostrava o jornal e dizia “já viste isto?, francamente, é de revoltar qualquer um”. Fazia-lhe festas na cabeça quando era criança, e depois nem isso. Mas ele não se importava. Ele sempre viu o pai como uma espécie de avô. Bisavô, talvez. Distante, mas dali também não vinha mal nenhum. E a Maria-Homem fazia na boa de mãe e de pai. É engraçado, porque anos depois de sair de casa, o pai tornou-se o melhor amigo e companheiro dele.

Disse antes que ele começou a dar erros, e a achar-se fraco por isso. E então dava erros de propósito. Mas quando é que ele começou a partir para a delinquência?

Quando não conseguiu entrar na universidade. Nem depois de três anos a tentar. Quer dizer, ele dizia que tentava, mas nem ia aos exames. Aquilo era um desgosto desgraçado para a Maria-Homem. Só lhe perguntava, “e agora, o que vais fazer da vida?”, e ele só sorria. Deve ter sido um desgosto maior ainda quando ele fugiu de casa. Quer dizer, ele era adulto, aquilo foi só sair de casa. Só que não avisou. E na cabeça dele, foi fugir. Aquilo era um sujeito engraçado. Sabias que ele um dia foi a Tires com uma arma e roubou um avião com um piloto? Obrigou-o a levantar. E depois lá em cima atirou-se de pára-quedas. O sacana tinha piada. E ele achava piada a essas coisas.

E depois disso, rapidamente arranjou um belo cadastro. Assaltos à mão armada, tráfico internacional de droga, já para não falar no consumo. E talvez não tivesse sido apanhado nessa vez do pára-quedas, mas nas outras todas foi sempre. Em Tróia, tentou fugir a nado à Polícia, que, diga-se, ia numa lancha; em Tires, tentou saltar de pára-quedas com uma mochila cheia de cocaína, sendo que o piloto avisou a polícia que estava à espera dele mal tocou no solo. E isto para não falar nas aventuras em aeroportos na Colômbia.

Sim, e então? Achas mal?

A sociedade acha mal. Você não o condena?

Nem um pouco. Ele divertiu-se à grande. Para quê ser como essas pessoas que querem fazer tudo certo e são tão doentes como quem erra? Um nojo essa gente calada que chega ao fim da vida e sente que a desperdiçou. Eu acho que ele sabotou a própria vida, sim. Mas só a parte da vida que é normal, como a de toda a gente. E fez muito bem. Olha, ele viajou, ele andou por toda a parte, viu o Mundo inteiro. Teve dinheiro, teve mulheres. Teve tudo o que as outras pessoas passam a vida a querer. De vez em quando era apanhado quase de propósito, mas a vida na cadeira era bem relaxada. E as penas pequenas. Afinal, ele não matou ninguém. Se queres que te diga a verdade, até acho que ele algumas vezes foi cumprir tempo na vez de alguém. Ele gostava de relaxar lá. Tem o pai, que o vai visitar, e que conversa um pouco com ele, e que lhe diz que vai ficar tudo bem. E fica.

Mas deve ser difícil para ele viver com a culpa. A culpa de estar a cometer crimes, a culpa de errar e ser apanhado. Às vezes, ele ainda deve querer... comer cimento, para ficar mais forte. Não acha?

Ora, isso de momentos de dúvida todos temos. O pai está lá para isso mesmo. Para lhe mostrar que se tivesse seguido uma vida normal, casado com uma Maria-Homem qualquer, estaria bem pior do que preso. O pai tem muito orgulho nele.

(...)

Que aconteceu?

Oh... Desculpe, emocionei-me. O pai é o melhor.

Oh, meu querido filho. Não penses nisso. Todos os pais querem o melhor para os seus filhos. E eu só quero que tu tenhas tudo de bom. Tudo o que eu não tive.

Desafio XVI - resposta

“Nós somos aquilo que fazemos, e deixamos de ser aquilo que deixamos de fazer."

Está no vento. Num bosque com sabor a framboesas doces. Ou numa noite delicada que puxa a aventura de dentro da pele. Com aquela dor sedutora da respiração agarrada num último fôlego.
E és tu que a seguras. Como uma bola de sabão que não rebenta ao teu toque.
Que sobe, sobe, sobe até ao céu azul, estrelado. Até ao limite. E a bola de sabão é o teu céu azul, as estrelas que vias através da superfície translúcida dum pedaço de vidro esférico que transformaste.
E esse limite é toda a beleza que existe. Que contem uma bola de sabão que não rebenta nas tuas mãos.

És só tu nesta melodia.

E só morreste nesse segundo, em que o ar sustentado estava à tua espera e o baixo relaxava. Quando tu tinhas morrido e já não voltarias para compor.

(em memória de Cliff Burton que compôs Orion)

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Desafio XVI- Resposta

No final perdemo-nos, não ves que no final nos perdemos? O mundo é o que é porque não podia ter sido outra qualquer coisa. Não ves que nos perdemos na imortalidade? Perdes o teu rosto, a tua memoria. O teu aroma. Não é uma filosofia em prol do conforto interior barata. Não, etende.É a morte que orienta a vida. Mesmo que seja a morte espiritual, mesmo que seja o fim que vem antes do fim. Sabes que vais findar como uma folha leve a cair no Outono. Se não tivesses consciencia da tua efemeridade não eras tao resistente.
Porque a tua diferença para os outros é esse horizonte gigantesco, é esse horizonte muito maior que o teu ser. Vês uma parte do futuro , ves uma fracçao da tua propria morte. Mas etende, a tua maldiçao é o teu dom. Podes escolher onde e como morrer.Aliás, morrerás como vives daí a importancia da filosofia existencial que inventaste para ti- mesmo que seja uma não-filosofia.
No final perdemo-nos na infinidade do infinito. Porque somos só Homens, tornamos o infinito limitado porque o não concebemos de uma outra forma. O tudo e o nada são uma mesma coisa. Sei que queres perdurar, queres que o teu aroma permaneça no Mar Queres que, alguem longiquo, se relaxe ao sabor do vento que tem a melodia suave da tua voz.
Mas a tua existencia vai-se gastar como uma pétala de uma rosa.Mesmo que seja uma rosa azul, etende, vai se desfazer em pequenos nadas.
É o fim que te faz querer viver.
E é viver tudo o que necessitas de fazer para seres feliz na tua presença. Constroi a tua filosofia, mesmo que seja uma anti-filosofia, e senta-te a beira-mar.Admira a esplendorosidade da Natureza que te supera temporalmente, a simplicidade e beleza conjugadas numa filosofia funda e sensorial.Se não fosse breve não darias tanta importante a cada respiraçao profunda.
Who wants to live forever?

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Desafio XVI

Tiago para Alice in Wonderland:

"Nós somos aquilo que fazemos, e deixamos de ser aquilo que deixamos de fazer."

Kielhofner (tradução livre)


Alice in Wonderland para Ricardo:

Ela diz que é ao contrário, que ela não pode esquecê-lo. Que a partir do momento que não se passa nada entre eles, fica a memória infernal daquilo que não acontece."

Olhos Azuis, Cabelo Preto - Marguerite Duras



Ricardo para Blue Storm:

Dentífona apriuna a veste iguana
de que se escalca auroma e tentavela.
Como superta e buritânea amela
se palquitonará transcêndia inana!

Que vúlcios defuratos, que inumana
sussúrica donstália penicela
às trícotas relesta demiquela,
fissivirão boíneos, ó primana!

Dentívolos palpículos, baissai!
Lingâmicos dolins, refucarai!
Por manivornas contumai a veste!

E, quando prolifarem as sangrárias,
lambidonai tutílicos anárias,
tão placitantos como o pedipeste.

Jorge de Sena, Quatro Sonetos a Afrodite Anadiómena, I - Pandemos


Blue Storm para Wings

"Who wants to live forever?"

Freddie Mercury



Wings para Tiago:

I see trees of green, red roses too
I see them bloom, for me and you
And I think to myself, what a wonderful world

I see skies of blue, and clouds of white
The bright blessed day, the dark sacred night
And I think to myself, what a wonderful world

The colors of the rainbow, so pretty in the sky
Are also on the faces, of people going by
I see friends shaking hands, sayin' "how do you do?"
They're really sayin' "I love you"

I hear babies cryin', I watch them grow
They'll learn much more, than I'll ever know
And I think to myself, what a wonderful world

Yes I think to myself, what a wonderful world
Oh yeah




What a Wonderful world, Louis Armstrong

terça-feira, 6 de abril de 2010

Desafio XIV - Resposta

"Oh! Se eu soubesse que o Inferno
não era como os padres mo diziam:
uma fornalha de nunca se morrer...
mas sim um Jardim da Europa
à beira-mar plantado...
Eu teria tido certamente mais juízo,
teria sido até o mártir São Sebastião!
E inda há quem faça propaganda disto:
a pátria onde Camões morreu de fome
e onde todos enchem a barriga de Camões!
Se ao menos isto tudo se passasse
numa Terra de mulheres bonitas!
Mas as mulheres portuguesas
são a minha impotência!"

Almada Negreiros, Cena do Ódio

- “Zé, já viste? É tudo tão barato!”

Foi a chapada mais forte dos últimos 5 dias. Foi basicamente a chapada que me trouxe de volta à realidade. Mas eu devia ter imaginado. Já não era a primeira vez que acontecia, e eu sabia que acontecia de cada vez que voltava para casa: quanto mais se aproximava a hora do voo para casa, mais eu começava a ouvir a minha língua.

Sejamos sinceros, não foi a minha língua que provocou a enorme chapada que levei. Essa guardo-a com a maior das estimas, aquela com que se guarda o único verdadeiro meio de nos comunicarmos em total completude. Não. O que me trouxe de volta à realidade foi a inabalável força com que somos sugados de volta a casa. Casa?

“Home is where the heart is.”

Gostava que um dia “casa” fosse todo o meu mundo. Todo o mundo que eu conheci e que valeu a pena. E também aquele que não valeu a pena, mas que me ensinou que somos todos diferentes, e que a bondade toma muitas formas, mas que é sempre bondade.

- “João!!!” – gritos pelo terminal – “Vou levar as revistas de futebol dos ingleses!”

Típico.

Todas as viagens acabam como começaram. Pelo menos é isso que vê quem olha de fora. Quem disse “Adeus” no dia da partida e agora os espera nas Chegadas. Mas é de tal forma um engano que muitas vezes os próprios viajantes negam, ou refutam, as mudanças que trouxe a viagem à sua vida (umas férias de 2 semanas num resort na República Dominicana mudará a nossa vida?... talvez, mas menos que as 4 horas passadas neste terminal frenético desta cidade frenética). Para quem vê de fora, todas as viagens acabam como começaram. Para quem viajou, tudo mudou. Tudo muda. E a experiência é sempre à medida do viajante, obviamente (nem todos experienciam Amesterdão da mesma maneira). Mas todas as pessoas, à sua maneira, mudam.

E é essa mudança constante, cumulativa, que me atira de novo para o terminal. Dez minutos antes do início do embarque, já nem me sinto no estrangeiro. Estou sentado numa sala de espera rodeado de conterrâneos. Sinto vergonha. E eu não sou diferente deles. Ou pelo menos não sou totalmente diferente deles. Na verdade sou igual a eles. Sou igual porque me fiz igual, porque quero ser igual. Porque na minha simplicidade sinto-me bem, confortável, sendo igual a eles.

Quatro horas rodeado de pessoas que não conheço, de culturas que se cruzam aos encontrões nos corredores, dão que pensar.

Sinto-me sozinho naquela sala de espera. Sinto o peso dos meus sentimentos nos ombros. Sinto um vómito anti-patriótico. Neste preciso momento, sinto um profundo nojo pelas pessoas que me rodeiam. As mesmas que com a mesma facilidade fazem tudo para sair por cima. Tudo. Sinto que na cabeça deles apenas pensam no pastel de bacalhau e no copo de três que os espera em casa. N’A Bola em cima da mesa. Sinto outro vómito.

Fiz-me igual a eles. Na verdade eu sou igual a eles. A diferença é que, nesta enorme sala de espera cheia de gente barulhenta e tão igual a mim, eu sou o único que não quer voltar.

Desafio XV-Resposta

O rapaz alto e louro parou em frente ao quadro. Estava entre nomes famosos e pesados, Monets e Van Goghs, apesar de ser um pedaço de arte anonima. Prendeu-o. Ficou imovel , em frente ao quadro, sem pestanejar. Era assustador com o seu casaco comprido e negro, o cabelo muito claro, a cor de olhos estrangeira . Correu o mundo a procura das exposições de arte , correu o mundo em busca de todos os Monets, Van Goghs e Renoirs perdidos em pequenos museus. E, aquele quadro anonimo, foi o que o cativou.
Continuou imovel. A observar. A memorizar. O quadro não tinha som, era uma imagem muda. No longe, um homem num cavalo afundado numa flroesta negra e maciça. Talvez esteja perdido, talvez viva perto daquela zona. Ou talvez ande a procura de se perder. Talvez esteja perdido sem estar, um estado interior captadoe metaforizado pela arte do pintor. Sim, talvez esteja a vaguear, não ha nenhuma casa nos arredores do quadro. Talvez por isso seja tao estranho. Uma floresta densa e obscura, um enorme lago congelado e frio. E um homem a cavalo algures lá. No meio. A natureza no seu ponto mais natural e instintivo. No seu ponto mais agreste. E um homem lá, sem a civilização a suporta-lo. A solidão é o nome que o rapaz louro,imovel, tao quieto como a Morte (embora tudo na postura firme e tranquila dele evidencie uma forma de vida intensa) vê no quadro. Porque o homem a cavalo está so, perdido de si proprio na floresta. Alheio de si. Apesar do horror do quadro há algo de tranquilo , de belo, de transcedente na pintura. É a solidao do homem, sozinho ,calmo. Ah, sim, o homem sabe exactamente todo o tempo. Que ainda brinca sobre a pele.
A imobilidade do rapaz e o seu compasso de respiração , tipico de uma outra terra , levaram a que uma rapariga pousasse a mao no seu longo braço e perguntasse numa lingua comum algo semelhante a uma oferta de ajuda. O rapaz sorriu, com o sorriso atencioso e sincero, mas sem qualquer traço de exuberância. E disse, ainda com o riso na voz, palavras que a acompanharam até ao seu proprio fim. Nunca as compreeendeu.
- Estas arvores, este lago, esta imagem. É uma fotografia. Que eu tirei à janela da minha casa com telas e tintas de óleo. Este quadro é meu. Esta é a minha casa.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Desaio XV - Resposta

Sabia que era assim.
Que ele queria muito. Queria voar como os pássaros. Conhecer as nuvens à luz transparente das manhãs verdadeiras. Poder respirar de forma honesta.
Ela tinha-o assim, entre pedaços. Entre fragmentos disformes de um espelho que nascera partido. Ele era belo através daqueles fragmentos tortos que lhe cortavam as mãos. Mas tocar-lhe era bom demais para se permitir a parar.
Conhecera-o ao pé do Mar. O olhar sedento da gaivota que tem asas curtas enregelava.
Seduzira-o com um olhar de maresia. Fora fácil de mais mantê-lo consigo. Ele tinha tão pouco, que o pequeno calor de imensidão que ela lhe dera fora o suficiente para o tirar da praia. E por isso mantinha-o assim, num estado de sobrevivência morna. Deixava-o sonhar, mas não o deixava sofrer pelos sonhos que morriam todos os dias.
Amava-o numa melancolia constante. Como se as ondas da sua vida nunca rebentassem. Como se toda a essência do seu amor estivesse presa num frasco demasiado bonito, demasiado pequeno.
Porque ele queria ser como os pássaros.
E lá no fundo, ela era como ele. Tivera tão pouco que o Nada fragmentado dele fora tudo.
Por isso um dia, levou-o até à praia. Deixou-o sentir o mar e as ondas uma vez mais. E quando a saudade o atacou, ele percebeu que todo aquele encanto era um calor roubado, à força de se acreditar nele.

E quando ele partiu, também ela entendeu que a sua vida vivida fora um mar de encantos breves.
E que alguém um dia, lhe roubara as suas rosas. E que agora, irreversivelmente, já não tinha lembranças e nada lhe provocava saudade.