quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Desafio XLVII - Resposta

"An artist has no home in Europe except in Paris."
Friedrich Nietzsche


Se uma partícula encontrar a sua anti-partícula, é certo que ambas se destroem.

E esta história, era uma história igual a tantas outras, exceptuando que durante o tempo em que foi contada parecia diferente.
Ela era muito nova quando começou a fugir de casa e a encontrar o amor em camas vazias ou caixotes do lixo. Perdeu a virgindade antes de ter perdido a cabeça, pensava ela que era assim que se debatia dos males do mundo e deixava a loucura consumir-lhe o cérebro.
Soube argutamente, escolher os homens da sua vida, era neles que confeccionava a sua estranheza detalhada e era neles que encontrava a sua inspiração. Dizia ela que escrever assim, era melhor, primeiro sentia o horror da vida e depois, quando se fartava de vaguear voltava para a secretária e escrevia sobre a sua vida. Por isso, tentava albergar dentro do seu tenro corpo todos os amores e ódios e mudava de tema e de coração como quem muda de roupa para ver qual lhe assenta melhor.
E na verdade, foi assim que foi tendo sucesso, na sombra das pessoas que escutavam a sua história e a achavam diferente e ousada, sem consultarem no livro o tamanho da aldrabice dela ou o tamanho da sua própria mediocridade.
Um dia, convenceu o seu amante a levá-la a Paris, pois sabia desde criança que era lá que os artistas se fixavam e ela queria agora escrever na capital francesa, pisar todos os pontos obrigatórios para se ser artista – e julgava ela que aquela vida pensada ao pormenor de originalidade era tudo o que o era preciso.


Como eu fui parar a Paris, foi um acaso da sorte. Em nova, perdi lá um amor e nunca pensei lá voltar. Paris ecoava-me a solidão nas ruas, como se eu estivesse permanentemente a percorrer aqueles corredores de escola vazios em fim de tarde em que todas as crianças já tinham ido para casa menos eu, caída no esquecimento.
Por isso, ao contrário dos artistas, concentrei-me em curar as minhas feridas com álcool que me anestesiasse e que afastasse aquela dor física que eu sentia. E por isso, ao contrário dos artistas afastei-me de Paris.
Em ambientes hostis de aborrecimento, estendi as garras da minha existência, exigindo um direito às lágrimas e à minha tristeza tão ácida que me corroía mais o fígado do que o álcool.
E bebia e fumava sozinha, na escuridão dum quarto. Permanecia por descobrir, atrás de uma cortina negra que me separava da rua - enquanto esperava que aquela dor passasse.
E como nunca engoli os comprimidos de resignação que me deixavam todas as noites em cima da mesa-de-cabeceira com o copo de água para a minha ressaca permanente, fui-me rebelando contra os relógios de parede, contra as portas abertas e os exames obrigatórios. Cheguei a um ponto em que já nem suportava os horários dos autocarros e nesse dia, dei por oficial a minha doença.
Como para me curar dum mal que ninguém sabia qual era, sugeriram-me que viajasse, que apanhasse outros ares. E lá me levantei dum sofá como se o tempo, ele próprio me, tivesse criado artrite nos pensamentos.
Arranjaram-me um emprego em Paris, por ironia. E de malas pouco cheias, voltei àquela cidade de solidão, onde o meu amor ainda andava perdido. E a primeira coisa que fiz, foi percorrer os túneis do metro, à procura dele. Encontrei pedaços dele nas frestas das paredes e nos lugares vazios. Mas voltei para casa, nesse dia, sem o ter encontrado. Nos dias seguintes, fugir à ausência dele tornou-se no meu vício, a única heroína que acalmava o meu espírito.
Até um dia. Era Inverno e chovia muito e eu estava cansada daquela viagem e de todas as outras que nunca fizera. Percorria o metro uma vez mais, e na multidão desenfreada não havia qualquer sinal dele, como sempre. As cabeças mexiam-se como numa dança ondulante e eu imaginei os campos de searas frescos a ondularem ao sabor daquele vento. Quem me dera o céu azul, o vento na minha cara, o chão fresco da terra. Mas só havia a chuva violenta de Paris, os semáforos a gritar com os carros, e a multidão apressada em esconder-me o meu amor. Então, devagar deixei-me escorregar pela parede, enquanto de olhos fechados comecei a cantar. Era uma canção antiga, que me veio à cabeça, falava da multidão e dum amor de braços abertos que se perde. E eu não encontrava o meu. Fui cantando enquanto o frio me consumia: minha voz aquecia-me. Quando abri os olhos, as minhas mãos estavam como congeladas e à minha frente, havia um generoso balde de moedas. Alguém passou e disse de forma comovida, que eu cantava aquela música como a Edith.
E lá do fundo, uma rapariga que me fitava enregelou-se com este comentário. Parecia-se estranhamente comigo, tinha o mesmo cabelo apesar de parecer ser muito mais nova e na sua mão estava pousado um livro e uma agenda como se estivesse estado a escrever.
Olhei para ela de baixo para cima e vi quem eu poderia ter sido. Vi de forma clara a razão pela qual eu nunca encontraria o meu amor perdido. E fechei novamente os olhos.

Mas a rapariga não prosseguiu mais, porque chegou a casa e deixou de escrever.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Desafio XLVIII - Resposta



É belo, seja qual for o ângulo por que se olhe. O olhar mais distraído é imediatamente captado pela profusão de cores nos pés dele. Cores que se articulam sem se misturar, que são florais sendo sóbrias. Cores que parecem solidificar uma base de apoio flutuante, um caminhar nas núvens seguro, um voo em terra. E depressa o olhar é conduzido pelo caminho ascendente de um manto hirto, no topo do qual nasce um pescoço e um rosto. O rosto adivinha-se masculino, mas está voltado, misterioso. Como se o homem que ama necessitasse de largar o Mundo e focar-se na mulher de tez pálida e olhos fechados que se entrega a um abraço e a um beijo ténue. O cabelo dele é crespo, e adivinham-se algumas folhas pontuando os caracóis. Destoa, individualizado, do cabelo escorrido e claro dela, onde as flores formam uma coroa. Pelo cuidado dele, ela é uma rainha. Uma rainha abandonada, ajoelhada, num acto quase sagrado de amor. Enquanto todo ele são rectângulos, nela tudo é circular e floral. E, ao seu redor, há uma atmosfera dourada, solene. Uma atmosfera que os separa do Mundo. Os dourados resplandescentes dão-lhe perspectiva, vagueiam na luz incidente e tornam-no diferente consoante o ângulo por que olha. Mas sempre belo.

“Gostas desse?”, perguntou-me ela ao entrar na sala. “Naturalmente”, porque afinal foi pelo Klimt que vim a Viena. “Eu não”, foi a confissão orgulhosa que ela me fez. Inaceitável para mim. E por isso fiz-lhe o roteiro do quadro, de baixo para cima. Expliquei-lhe as figuras, as ambiências, e até a técnica. Ela mantinha um olhar estupidamente fixo enquanto eu falava. Não parecia seguir com os olhos as minhas indicações, não parecia muito interessada nas ténues variações de cor e material. Ela já se tinha decidido.

“Pois, tudo isso pode ser verdade. Mas isto é muito pretencioso. Isto está pintado com ouro verdadeiro? Já viste bem o tamanho disto? Quanto ouro é que ele para aqui meteu? Não suporto estas coisas tão burguesas. E como se não bastasse, está aqui enfiado numa caixa de vidro, como se fosse superior aos outros quadros. E afinal, são só duas pessoas a beijar-se.” Ela terminou o seu discurso, e afastou-se calmamente, convencida de ter rematado a conversa e ficado com a última palavra. Porque afinal, palavras e argumentos seriam curtos para lhe responder. E então caminhou lentamente à volta da sala, fixando outras obras expostas.

Desviei o olhar do quadro e mantive-o fechado nela. Até então, a nossa viagem tinha sido perfeita. Até então, a nossa vida tinha sido boa. Mas tudo em nós gritava diferença. Eu, encerrado num monocromatismo de camisa, calças de bombazine e sapatos, parecia dez anos mais velho. Ela, expelia luz pelo arraial colorido da sua camisola de alças vermelha, calças largas com riscas verticais castanhas e laranja e sandálias. Juntos, eramos imiscíveis. Dir-se-ia que eu era feito de quadrados e ela de círculos.

Mas foi também naquele museu de Viena que a compreendi o velho Klimt. Aprendi que o belo chavão de extremos que se complementam não passa de uma frase feita. Não há complementariedade nenhuma. A beleza é feita da tensão e do choque. Os quadrados e os círculos juntam-se, tocam-se, mas nunca se misturam.

E aquela mulher, que agora se preparava para voltar as costas ao Klimt e deixar a sala, é bela, seja qual for o ângulo por que se olhe. Naquele instante, desejei-a muito. E a luxúria é o ouro do amor. Eu e ela, nós somos belos, seja qual for o ângulo por que se olhe.

Por isso, movi-me rapidamente na sua direcção, antes que o seu pé esquerdo tocasse o chão semelhante da sala seguinte. Os olhares voltaram-se para mim, como se eu fosse a nova atracção, a obra viva. Aproximei-me dela lateralmente, e, num gesto seco, coloquei-lhe o braço esquerdo por cima dos ombros. Apoiei ambas as mãos no seu rosto e voltei-me para, com a subtileza prolongada que apenas a intimidade traz, lhe beijar o rosto, junto ao canto do lábio que ela voltara para mim. Naquele beijo, eu coloquei toda a electricidade que a presença dela me provoca e que a ausência dela me faz doer. E prolonguei aquele contacto suave dos meus lábios com a pele dela. E por entre a luz amarelada de dois ou três flashes das máquinas fotográficas de turistas japoneses, ela abandonou a sua mão esquerda no meu peito, e envolveu o meu pescoço com o seu braço direito magro.

E a última coisa que vi antes de cerrar os olhos e sentir a tontura do momento cair sobre mim, foi também os olhos dela a fecharem-se, e o canto da boca dela a ser trazido mais para junto da minha por um sorriso. E eu juro que, naquele momento, os joelhos dela enfraqueceram e dobraram-se um pouco. O nosso amor, assim posto, valia todo o ouro do Mundo. Era belo, seja qual for o ângulo por que se olhe.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Desafio XLIV -Resposta

http://www.youtube.com/watch?v=Ek4D7Rrq144

Ela disse-te, o amor por si só vale menos do que se convencionou que valeria. E não importa que a tivesses amado (ou que a ames ainda) se nunca compreendeste a genialidade da essencia do ser dela. Que importa que lhe tenhas oferecido a conquista do mundo como presente se tudo o que ela desejava era a excentricidade de uma liberdade aberta nos pequenos pormenores do quotidiano? Tudo o que ela desejava era ser livre, ser livre aqui onde ninguem é. Tudo o que ela desejava era ser ela, exponencialmente ela. Tudo o que lhe ofereceste consistiu naquilo que gostavas que ela desejasse mas o amor não se sustenta com isso.
Aínda hoje lamentas a ida sem volta dela, para longe de ti, para longe dessa realidade onde viviam os dois. E ainda hoje lamentas a felicidade dela , o alivio dela. Porque, de facto, a amaste e ela amou-te mas o amor não aguenta isso. Que importa que a amasses mais do que alguma vez amaste a realidade onde estavas preso, que importa que a amasses mais do que amaste a tua vida seria e adulta? Nada. Porque ela era discretamente genial, a forma como se ria e do que se ria era genial, era peculiar.Nunca percebeste porque é que se ria das desgraças, nunca viste que não se ria de uma qualquer desgraça. Oh não, nada disso. Ela ria daqueles momentos em que alguem anulava o pessimismo , que o tornava em pouco. Isso garantia-lhe toda a força bélica e resistente que tinha no peito e pela qual sempre a admiraste. Era porque se ria das desgraças, ela. Tornava-as pouco, explorava-as e dissecavas ate se tornarem um pormenor quotidiano como outro qualquer. Por isso é que era tao resistente, tao forte. A vida era uma aventura e se tudo for bom é um caminho vazio. A arte reside no que fazes com as adversidades que te aparecem. E ela ria-se, criticava , ironizava e ria-se. Por isso é que conseguiu deixar-te deixa-la quando a tornaste infeliz por a não deixares rir-se.
Mas tu nunca entendeste e ela sempre te disse que o amor, por maior que seja, não aguenta girar no sentido contrario do mundo. Sempre te disse que a tua vida não tinha desgraças, era perfeita, e por isso mesmo, vazia. Sempre te disse que te não sabias rir porque a vida, a tua vida, era demasiado seria e adulta e economica. Sempre te disse que “A vida é demasiado curta para ser levada a serio” e tu nunca esboçaste um sorriso pela ironia veridica nesta frase. Não, tu nunca entendeste porque é que ela idolatrava o Oscar Wilde.
E, naquele dia cheio de Sol, em que ela correu para ficar quieta a olhar fixamente para o tumulo dele, tu nunca entendeste a protecçao que ela sentia. So por estar la, no tumulo dele, sob o olhar dele. Nunca entendeste Oscar Wilde, nunca compreendeste o que a maravilhava nele.Nunca entendeste nada.
E, nesse dia, ela deixou-te , perspicazmente, deixa-la. Porque sempre foi mais estratega do que tu alguma vez foste. A vida dela não era seria, a imaginaçao que lhe escorria e cada pensamento tornou-a resistente e forte. A tua vida era demasiado seria para não ser insignificante.
Hoje, passas por ela, e magoa-te tanto como te magoou naquele dia. A felicidade dela, a iluminaçao do ser dela e o teu, cinzento baço, distorcido e tenue. Moribundo. Porque nunca entendeste que o riso é um dos teus bens mais preciosos. O optimismo verdadeiro consiste em ver a alternativa, nem que seja a mais ridicula. Não, nunca entendeste que “estamos todos na lama, mas alguns conseguem ver as estrelas.” E ela nasceu a saber isto, o Oscar Wilde resumiu um pensamento confuso dela numa frase simples.

Desafio XLV- Resposta

“Face the facts of being what you are, for that is what changes what you are.”

É filosofia pura, meu amigo. É um exercicio de filosofia que te salva a essencia. Todas as pessoas compadecem dessa tua vergonha, desse teu medo. Ate eu. Mas não deixa de ser filosofia, meu amigo, se aguentares a dúbia existencia de Deus, o existencialismo ou o quanto es ainda igual aos animais, aguentas isto.
Porque, no final, és apenas o que és e nada mais do que isso. No final , chegas a casa relaxas a cabeça na almofada e tudo o que tens és tu. Nada mais do que isso. É o que todos nos temos, so temos o que somos. Ser é ter, não invertas, não te favorece. É por isso que és infeliz e eternamente insatisfeito, para ti ter é ser. Alimentas uma ambiçao em ti que nunca vais satisfazer .
Por isso, meu amigo, faz o que te digo. Experimenta ser em vez de ter. Senta-te em frente ao espelho e repara em todos os pormenores do teu rosto. Conhece quem és porque, de todas as pessoas que te rodeiam, é a tua propria essencia que desconheces mais. Descobre quem te olha do outro lado do espelho, desenha essa realidade alternativa onde os ses moram para saber que mundo paralelo é que tornaste verdade. Descobre o que te fez escolher o que escolheste. Investiga as subtilezas do teu ser, procura os teus pequenos segredos recalcados pela tua ignorancia. Nosce te ipsum, é a tua única forma de seres feliz. Se não sabes quem és, se não aguentas ser o que és , desconheces o que verdadeiramente alimenta o teu espirito e te torna mais tu.
Tens de saber porque é que escolheste ser o que és porque o escolheste inconsciente mas intencionalmente. E tens de querer ser melhor do que isso, do que tudo o que és. Tens de ter uma utopia a viver em ti, a encher-te o peito de novas ideias. Tens de querer ser mais e melhor ( do que tu) para conquistares o direito de viver em vez de existir.
Tens de acreditar que tu és tu para te tornares num argumento válido desta realidade. E, só assim, vais conseguir introduzir alguma mudança em ti. Se não sabes o que és, como é que podes modificar alguma coisa em ti? Vais-te dedicar a fazer promessas vazias cheias de uma honesta bom intençao. Vais-te tornar em mais um parasita ignorante deste mundo, meu amigo.
Compreendo o teu medo e a tua vergonha. Saber o que és é um caminho solitário e ,por vezes, inglorio. Mas a recompensa é muito maior do que alguma vez imaginaste. Podes mudar quem és mantendo o que és.E isto é uma utopia que podes tornar realidade.
Por isso, meu amigo, Nosce te ipsum”. Conhece-te a ti mesmo.

Desafio XLVI - Resposta

"Love never dies a natural death. It dies because we don't know how to replenish it's source. It dies of blindness and errors and betrayals. It dies of illness and wounds; it dies of weariness, of witherings, of tarnishings."

Sentou-se naquela esplanada com vista para o mar onde o fazias sentir-se mais humano. Quando deixaste de o tornar mais efemero ele sentiu-se mais fragil e o amor perdeu o sentido. Houve um momento em que escolheste a realidade que o descredibilizava, anulava e aniquilava. E ele é um brilhante estratego de guerra, mesmo que tivesse escolhido uma morte cheia de romance e amor com o sentido de permancer contigo, não seria possivel. Escolheu não morrer facilmente há muito, mas muito mais tempo.
Olhou o mar de Inverno. O cenário tenebroso fazia-o sentir-se mais em casa. O cabelo negro oscilou ao sabor do vento , o beijo que recebeu foi frio. O amor que te tinha congelou, congelou o amor que lhe entregavas pelo vento. E é tao logico não estares lá com ele, como uma vez foi estares, o amor nunca morre de uma acidental causa natural. Nunca é infundamentado, nem no inicio nem no fim e tudo é sustentado por uma explicaçao quer a conheças ou não. Foste perdendo-o aos poucos, no arrastar de um quotidiano fixo. A estática que lhe ofereceste deixou que as diferenças se instalassem e ele lembrou-se que desejava ser livre e ser o ícaro. E cair como ele. Inumeras vezes. Quando o prendeste a ti para evitares que ele fizesse essa viagem louca em busca da concretizaçao da utopia foi uma traiçao para ele. Não podia escolher entre o amor que te tinha e o amor que tinha por ele proprio, pelas suas utopias, pelos seus sonhos. Foi uma traiçao. Deixaste que a duvida que sempre existiu nele lhe conquistasse o coraçao e ele foi-se afastando. Sentiu a necessidade de explorar outros mundos inconscientemente. Porque é um sobrevivente, instintivamente, procura salvar-se sempre. E, à medida que ia vendo o amor morrer em pequenos suspiros, em pequenos acidentes quotidianos tao naturais e lógicos, o seu espirito nómada iniciava o estalar do esquecimento.
Porque o amor nunca morre de causas naturais. Apesar de tudo ser fundamentado o amor morre quando o aborrecimento se instala e os espelhos revelam a verdadeira essêencia de cada um. E ele era um monstro que tu nunca conseguiste saber como amar, apenas se foi embora antes que percebesses isso. O amor morre em pequenos erros que nunca viste que cometias.

domingo, 19 de dezembro de 2010

Desafio XLVI - Resposta




“Custa acreditar que não lutas pelo homem que amas”


Que frase tão banal, pensara. Era tão má, que de facto, custava a acreditar. Não saberia ela que também o amor está condenado à morte?
E fora o amor que morrera.
Fora o seu amor que morrera, e jazia agora enterrado em dois corações desconhecidos. E ela nem respeitava a sua dor imensa.
“Não se ama um monstro. E agora, eu sou um monstro” - Ocorreu-lhe dizer.
Mas para ela era como se tivesse desistido, como se tivesse deixado de correr e não desejasse suficientemente a meta. Era como se a culpa fosse sua, como se metade da morte tivesse saído da sua espingarda.
E os seus olhos olhavam-na como culpada – e era-o: culpada de não perpetuar uma mentira.
Por fim, suspirou-lhe para cima:

“Nunca viste o filme? Até a Bela se apaixonou pelo Monstro…”

Que forma tão oca de se estropiar o Amor. Aquilo era uma violação. E como uma vítima sufocada pelo desejo frenético e egoísta, afastou-a com um levantar de boca: o mais parecido com um sorriso que o seu corpo conseguia simular.
Chegou a casa e tomou um banho para secar o esperma do seu corpo. Doía-lhe ainda mais a perda do seu Amor e custou-lhe ainda mais olhar-se ao espelho: um monstro consumido e usado.
Antes de se deitar, porém manteve-se ciente da Morte.
A Bela nunca viu Monstro algum.

Desafio XLIV - Resposta

Wait until the war is over
And we're both a little older
The unknown soldier

Breakfast where the news is read
Television children fed
Unborn living, living, dead
Bullet strikes the helmet's head

And it's all over
For the unknown soldier
It's all over
For the unknown soldier
(...)

Make a grave for the unknown soldier
Nestled in your hollow shoulder
The unknown soldier

Breakfast where the news is read
Television children fed
Bullet strikes the helmet's head

The Unknown Soldier, The Doors



Breve Carta de Suicídio

O meu nome é essa pessoa anónima. Não sabem o meu nome, vocês. E há força de não o saberem, também eu o esqueci.
Vivemos intermitentemente neste jogo de convenções: vocês convencionaram que eu não era importante, eu desconvenci-me disso e estabeleci-me no limite da vida, na borda consciente das não-etiquetas.
Porém, é a mim que me dói a sombra por estar permanentemente nesta guerra oculta. E é a mim que os cabelos embranquecem por estar fora de tempo.
Porém, neste leilão, sou eu que perco.
E nunca achei que a minha vida fosse um pedaço de carne. Por isso, despeço-me com a arrogância de um soldado anónimo que estoirou os miolos, na derradeira tentativa de combater por si - e é essa a única guerra válida.
E é natural que não compreendam esta carta. E que não reconheçam o rosto da guerra: é exactamente por isso que ela nunca se vence.