quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Desafio XXXIX

Alice in Wonderland para Wings:

"aqueles que têm nome e nos telefonam

um dia emagrecem - partem
deixam-nos dobrados ao abandono
no interior duma dor inútil muda
e voraz

arquivámos o amor no abismo do tempo
e para lá da pele negra do desgosto
pressentimos vivo
o passageiro ardente das areias - o viajante
que irradia um cheiro a violetas nocturnas

acendemos então uma labareda nos dedos
acordamos trémulos confusos - a mão queimada
junto ao coração

e mais nada se move na centrifugação
dos segundos - tudo nos falta

nem a vida nem o que dela resta nos consola
e a ausência fulgura na aurora das manhãs
e com o rosto ainda sujo de sono ouvimos
o rumor do corpo a encher-se de mágoa

assim guardamos as nuvens breves os gestos
os invernos o repouso a sonolência
o vento
arrastando para longe as imagens difusas
daqueles que amámos mas não voltaram
a telefonar"

Sida, Al Berto


Ricardo para Alice in Wonderland:

(Gustave Courbet, L'Origine du monde, 1866)

Wings para Ricardo:



Sob a leve tutela
De deuses descuidosos,
Quero gastar as concedidas horas
Desta fadada vida.
Nada podendo contra
O ser que me fizeram,
Desejo ao menos que me haja o Fado
Dado a paz por destino.
Da verdade não quero
Mais que a vida; que os deuses
Dão vida e não verdade, nem talvez
Saibam qual a verdade.

Ricardo Reis, in "Odes"
Heterónimo de Fernando Pessoa

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Desafio XXXVIII - Resposta

Algum desgosto prova muito amor mas muito desgosto revela demasiada falta de espírito



Lembro-me perfeitamente do dia em que ouvi contar a história dela. Era um dia de Primavera, apetecível como algodão doce. Sentei-me no banco do jardim a observar aquele pequeno Mundo tão feio ao lado da minha esperança de que em algum lugar ele fosse bonito.

E conheci-a há muito tempo. Era uma velhota simples, com um andar arrastado, umas gargalhadas bem-dispostas de mais para quem é velho antes do tempo. E quando ela passou, naquele dia, voltei a fixar-me nela, talvez porque ela fosse um Mundo feio que já albergou em tempos uma esperança de beleza.

E talvez porque fixei de mais os meus olhos no traço de caminho que ela fazia ao atravessar a rua suja, surgiu uma voz no fundo da minha cabeça, que recordei mais tarde. “Sabe, ela nunca se recompôs, foi um choque para todos nós, mas ela, ela nunca se recompôs verdadeiramente. Sabe que ela é muito mais nova do que parece?” Rodei alguns graus, e subitamente uma cabeça tapou o meu sol de Primavera. “Conhece-a?”, perguntei. “Toda a gente a conhece aqui”, disse a voz impaciente, destapando o sol e sentando-se ao meu lado no banco. “Sabe aquelas histórias de filmes, que parecem impossíveis? Não são. Aquela senhora que viu passar foi abandonada pelo noivo no dia do casamento, quando tinha dezoito anos. Foi aqui mesmo, na igreja lá de cima” e olhou para mim. Mas eu fitava o rasto do caminho que ela tinha deixado, um rasto triste e sujo como o sítio. E a verdade desceu sobre mim, porque a realidade era essa e é isso que os filmes não contam: as histórias tristes acontecem em sítios feios e sujos e cheiram mal.

O meu coração contraiu-se pela vida desgastada e desperdiçada que atravessara aquela rua. E antes de arquivar este caso na minha cabeça, perguntei-lhe “Ela nunca se voltou a casar? Nunca se voltou a apaixonar? Nunca?” E a voz encolheu os ombros e de novo, respondeu aquilo que já tinha dito, que ela nunca se recompôs. Que o noivo a deixou, à porta da igreja.



E foi assim que me esqueci dela. Ironicamente, não demorou muito até que eu encontrasse a beleza pela qual tantas vezes suspirara. O amor e as vertigens vieram nas asas do vento, sopravam do estrangeiro e bateram na minha janela com estrondo. Agarrei na mochila que já tinha feito anos antes e saltei pronta para recolher a essência destilada da flor mais perfeita. E o Mundo revelou-se perfeito, com todas as pétalas abertas, vigorosas, coloridas. O Mundo era sonoro e vibrante, longe daquele lugar sujo e decrépito onde se morria em bancos ou à procura de uma brisa que sabia a algodão doce.

E fugi. Fugi com o meu amor para um lugar onde a electricidade se bebia ao pequeno-almoço. E onde à noite, trincávamos a Lua, trocando de lugares no grande labirinto de espelhos. Dávamos as mãos e separávamo-nos em seguida, respirando intensamente para imagens desfocadas, vários “nós” difusos que por ali vagueavam. E fizemos amor ali, deixando de saber quem éramos. Foi quando nos perdemos que encontramos a essência única e irrepetível. O sabor primeiro, doce e amargo de tão efémero. E nesse momento, sentimo-nos na ponta do Mundo. Como se tivéssemos nos nossos corpos a chave para aquele sítio misterioso do Mundo que só existe por segundos breves, uma vez na vida.

E por isso, quando um dia a porta do labirinto se fechou e não mais senti electricidade no meu corpo, que voltei para trás, coberta de uma vergonha pegajosa. A minha mochila pesava-me como pedras e sentia a boca seca, como se tivesse atravessado um deserto cheio de miragens. Olhei para a minha janela, e fechei as portadas. Deixei a escuridão entrar no meu quarto e deitei-me na cama.

Nos meses seguintes, por várias vezes sonhei com aquele labirinto. Mas quando acordava, os móveis toscos e uma realidade com cheiro a mofo envolviam-me. Sentia os olhos molhados e voltava a deitar-me, agarrava-me com força à almofada e esperava que o sonho chegasse de novo. Ainda que não fosse verdade, era melhor do que a verdade.

E só os sonhos, só uma realidade que já não existia, me fez correr sangue nas veias. De resto, perdi a capacidade de ter esperança e com isso, o mundo feio onde vivi relevou-se em toda a sua tímida e crua realidade, onde o algodão doce é demasiado doce para não ser enjoativo. E quando me obrigavam a levantar da cama, levantava-se um nevoeiro em mim. Porque tudo aquilo era demasiado pouco, demasiado repetível, para quem já tinha tido no corpo a primeira chave. A única, a irrepetível. A que se perdera e para qual não haveria volta. Porque quando me obrigavam a levantar da cama, eu sabia em todos os meus poros o que era a morte.

E um dia desistiram de mim. Deixaram-me, como se deixa um corpo em coma, ligado á máquina. Com o passar do tempo, fui comendo e bebendo para não deixar a minha carcaça apodrecer. Com o tempo, fui-me levantando e habituando àquele nevoeiro constante e à morte que vinha com ele.

E assim, um dia fui capaz de me arrastar da cama até ao banco do jardim. Deixei um rasto triste e sujo atrás de mim. Quando me sentei, ela voltou a passar à minha frente, no passo arrastado que eu agora tão bem conhecia. Agora também eu era uma história de filme, horrorosa e decrépita, feia e triste. Agora também eu definhava sem qualquer propósito, engolida por uma tristeza solitária que desaparecia da minha lápide mal chegasse a primeira chuva. Porque ela era eu.

Só nunca contei que me amasse tanto a mim mesma. Por isso, quando ela desapareceu eu resolvi fazer a minha história, realizar o meu filme, fabricar uma nova chave, decidir quantas vezes é que se atinge o inatingível do Mundo. Decidi mudar as regras, já que não conseguia cumprir as que existiam. E por isso, esvaziei as pedras da mochila e saltei da janela. Desta vez, sem ilusão nenhuma, levava comigo a determinação de fabricar o mundo à minha maneira. E nenhum amor conhece esse poder.

Desafio XXXVIII - Resposta

A vida é escorregadia. Se pisamos num chão incerto, enregelado pela frieza das lágrimas e da solidão, deslizamos sem fim. O gelo resfria-nos os ossos e enrija-nos a ternura.

Estávamos ambos resignados em deslizes sucessivos quando os nossos corpos chocaram e se colaram. O fogo que ateámos foi tanto que, brincando, até a nós queimou. Olhámos em volta, e não havia mais nada senão a nossa luz a iluminar o Mundo, de repente mais colorido. A calçada portuguesa por onde dançámos ficou chão em brasas, e cada memória era uma pedra incandescente.

A vida tinha tons de rosa.

O problema é que neste Mundo nenhum movimento é perpétuo, nenhuma luz se conserva, nenhuma energia se auto-alimenta, nenhum perfume se concentra. Não poderia durar.

Muitos anos passaram. O anjo da morte do amor, tão negro e opressivamente omnipresente como aquele que rouba o sopro aos vivos, corria atrás de nós. Ele veio pelos nossos suspiros. Era urgente correr. Se ficássemos parados ele apanhava-nos, deixava-nos cicatrizes, cortes nos braços feitos de queimaduras de cigarro.

Por isso, peguei-te na mão e apressei-me para o aeroporto.

Levámos na bagagem o nosso amor de bem-querer e a nossa saudade deslocalizada. Sentados no avião, parecíamos caminhar pelo ar, desejosos do futuro e sedentos por sonhos.

E estivemos tão perto de o conseguir. Se pelo menos não tivéssemos desenhado a imprevisibiliade a régua e esquadro, talvez tivéssemos ido a Paris mudar de pele. Mas não. Fomos sempre nós. O monstro dormia cá dentro.

Nós sabíamos ao mais pequeno detalhe de que forma Paris nos surpreenderia. Fomos em busca de acordeões nas janelas e cheio a croissants entre as árvores. Mas quando saímos em Orly o chão queimou-nos os pés. Afinal, a música ainda soava a elevador e o ar ainda tresandava a esturricado. O teu peito colapsou perante tamanha expectativa. A realidade era um pequeno comprimido que trouxéramos de Lisboa na mala e nos obrigavam agora a tomar à chegada. A realidade começou logo a fazer efeito.

Cozinhámos os dias em lume brando. Convertemos os acordeões em música de bar, e aceitámos pão com chocolate no lugar de croissants. Caminhámos de mãos dadas por ruas estranhas repletas de nostalgia. Visitávamos todos os museus dos nossos primeiros dias, quando semeámos a semente de Paris nos nossos desejos. Neles estão expostas as nossas obras-primas, recolhendo pó. Porque em tempos fomos grandes artistas, pintando nos corpos um do outro traços auspiciosos. Os nossos sonhos e os nossos instantes de perfeição estavam tão cristalizados na nossa História, que naquela altura pensei que talvez tivéssemos sido os primeiros a pisar o Sol. Um pequeno passo para um homem como eu, um passo gigante para uma mulher como tu.

Mas a memória é velha, e pouco se mexe. Nessa altura, até a palavra amor começou a cansar. Esse foi o momento em que nos amparámos na lealdade para não cair no esquecimento. Paris tinha que se esgotar antes de nós.

Paris.

O lugar onde guardámos a inocência de julgar que algum dia faríamos daqueles primeiros momentos de Arte o nosso pleno quotidiano. Agora, finalmente lá, manchávamos o sonho com lágrimas. Já nenhum de nós sabia sequer porque chorava. Parece ridículo lavar-se assim medos e mágoas quando devíamos estar a espremer a vida, exigindo-lhe mais algumas gotas de gosto de viver. Como um perfume requintado obriga a torturar nas flores tanta beleza, assim também nos vemos obrigados a triturar pessoas e cidades em troca de uma simples amostra do rosa da vida. E também como qualquer fragrância, também em pouco tempo se dissipa a felicidade aguda. E depois estamos de volta ao nosso inferno gelado. E depois acordamos num quarto de hotel e com um anjo negro dormindo enroscado ao fundo da cama.

Na última noite, torcemos o ar de Paris, sôfregos por algumas gotas de esperança. Caminhando, unimos pontos do mapa da cidade como uma criança desenhando bairros e colorindo telhados laranja, desdobrámos os interesses e gostos de ocasião, levantámos e sentámos em bancos e passeios públicos. Cada novo sítio, cada nova face, era uma última oportunidade de bater a uma porta e perguntar onde está o amor que nos tocou à campainha e fugiu.

Demos por nós numa pequena loja de recordações em Montmartre. Perfilavam-se pequenos pedaços de lixo com um preço agarrado. Submergi no seu colorido disforme e perdi-te o rasto.

Por um instante, esqueci-me efectivamente que também te encontravas no Mundo. E, como uma corda, lançaste-me uma melodia que me içou de volta até ti. Com os teus dedos pequenos, mexias uma alavanca curta que, com a mesma cadência, fazia soltar-se notas soltas de uma pequena caixa metálica. E foi como se tivesses movido alguma alavanca curta no meu coração. Fizeste com que belas notas se soltassem dele também. Podia escutar, ao longe mas cá dentro, em alguma janela aberta da memória, Edith Piaf a cantar que, pelo amor, a vida se transforma numa flor. Nos teus braços a vida é rosa, uma rosa, ou cor-de-rosa.

Afastei-me, quis ver-te ao longe sem que te desses conta. E tu, olhando atenta para a caixa, com um certo fascínio inocente, repetias o gesto ininterruptamente. Quase te incentivava a fazê-lo, a que mantivesses suspenso aquele instante de beleza extrema. “Finalmente encontrámos Paris”, apetecia-me dizer-te. Eu era a tua serpente. Encantavas-me deliciosamente. Nunca te amei tanto como naquele momento.

Chorei nesse momento. Fez-me confusão como algo tão simples podia criar um canal de comunicação entre duas pessoas. É o poder da música. Éramos os dois bonitos, grandiosos, poéticos, dentro daquela loja feia, pequena, prosaica, que estava numa cidade bonita, grandiosa, poética, que está num Mundo feio, pequeno, prosaico.

O Mundo. O sítio onde nada dura. Uma imensidão de desilusão.

Naturalmente, paraste. O silêncio cortou a magia, e quando te moveste para pousar a caixinha de música eu vi-o atrás de ti. O anjo da morte do nosso amor não desistia de nós.

Abracei-te com força quando saímos da loja.
Não para te fazer sentir a força com que o teu cheiro aperta o meu coração, mas antes para me despedir. Assim como te despediste de mim tão poucas semanas depois de, caminhando pelo ar num banco de avião, termos regressado à calçada portuguesa, então amorfa e morna.

Um ano passou. Fui capaz de regressar a Paris sozinho. Fui capaz de regressar à mesma loja de recordações. Fui capaz de pegar na mesma caixa de música, com a mesma melodia. Não a comprei. Mesmo sendo barata, senti que devia roubá-la. Fui capaz de a colocar no bolso. Fui capaz de a trazer. Fui capaz de te oferecer. Fui capaz de te surpreender. Não contavas que eu tivesse partilhado aquele momento de perfeição contigo. Nunca me viste lá nesses momentos, porque eu vivi-os contigo na sombra.

E assim para a sombra me retirei, e não mais te vi. Tornaste-me incapaz de chorar e fizeste muito difícil rir. Gastei todas as lágrimas contigo, assim como gastei as poucas gotas de felicidade que resgatei. Mas ainda não gastei o perfume de rosa que o teu amor me deixou. Ele é tão abundante que eu penso que me chegará para a minha vida toda. E tenho a Edith a cantar para mim de novo, uma vez mais, sempre uma última vez, que um dia, nos teus braços, a vida foi cor de rosa.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Desafio XXXVII - Resposta

Nas suas cartas de amor, ele era desmedidamente apaixonado. Apaixonado até ao extremo, até à mentira, como só pode ser mentiroso quem exacerba o sentimento ornamentando-o com palavras dóceis e frases requintadas e longas, mas fundamentalmente vazias. Nos seus desenhos de mulheres, ele era irrepreensivelmente cuidadoso. Cuidadoso até ao extremo, até ao irrealismo, como só pode ser irrealista quem ornamenta o traço com detalhes desprovidos de qualquer simétrico na realidade. E nos seus planos, ele era simplesmente mau. Mau até ao extremo do gratuito, como só pode ser gratuito ornamentar acções malévolas com um requintado sorriso perante o sofrimento desnecessário.

Ele era tudo isto num só. Usava cartas de amor para conquistar mulheres. Mulheres que desenhava. Desenhos que enviava aos maridos traídos. Na mesma carta, assinada com nome próprio, colocava uma foto sua a sorrir.

E todos os dias eu via-o. Saíamos os dois ao mesmo tempo de casa, entrávamos os dois ao mesmo tempo no metro e depois no autocarro. Reparávamos os dois nas mesmas mulheres. E desde um primeiro olhar trocado cúmplice eu entendi-lhe o jogo. Entendia muito bem quando o via a sacar do seu bloco de notas, a escrevinhar em letra impecavelmente arcaica e a esboçar em figuras geométricas irregulares os contornos do corpo de alguma vítima de aliança no dedo. Eu entendia tudo muito bem, sobretudo quando via a mesma aliança reluzir pela calada da noite, dias depois, em passo apressado escapando-se de casa dele.

“A aliança é o maior afrodisíaco”, foi a primeira frase que trocámos, apesar de ele a ter colocado numa forma bem mais vulgar. “Olha para qualquer mulher à tua volta. O anel transforma qualquer camafeu num drama potencial. E que te excita mais do que um bom drama?” Ele tinha a sua razão. “A culpa torna qualquer dona de casa num leão na cama. Acredita.” Ele não tinha que me convencer. Ele estava a pregar a um crente.

E por isso recebi as notícias com a maior tranquilidade e nem resquícios de surpresa. Com o tempo, passámos de vizinhos a companhias habituais, depois a amigos, depois a profundos confidentes. Ele mostrava-me as cartas e os desenhos, as fotos e os envelopes. Ele mostrava-me as reacções dos maridos. No final, era essa a sua grande conquista, a sua grande satisfação. Quando um marido lhe respondia com uma ameaça explícita de morte. Ele via isso como a grande validação do impacto que tinha na vida dos outros. Só que, um dia, a morte teria inevitavelmente que deixar de o ameaçar e vir mesmo enrolar-se-lhe como uma aliança num dedo.

“Sabes, eu não faço isto pelas mulheres”, foi o início da última conversa que tivémos, apesar de ele na altura não o saber. “Eu já tentei, mas não consigo sentir mulher nenhuma. E por isso a minha cruz é essa, andar a penar de mulher em mulher. Até um dia.” Eu só não entendia porquê mulheres casadas. “Ora, o ciúme torna qualquer homem num assassino.”

E agora, depois do funeral, consegui pela primeira vez entender que nada disto tinha a ver com as mulheres que ele conquistava como um general que acrescenta países às suas conquistas. As cartas, os desenhos, a maldade, eram a sua bandeira branca para a morte. Porque a morte é a única noiva de quem não consegue namorar a vida. E para ele, ser deposto no túmulo foi como um casamento.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Desafio XXXVII- Resposta

"If you can get nothing better out of the world, get a good dinner out of it, at least."


A corda rente balançava – lhe nos olhos. Era quase irónico que da janela listada onde se encontrava visse tão perfeitamente a corda rasteira que lhe arrastaria a vida para a morte.

Na sua pequena cela limpa e arrumada havia um silêncio incómodo, politicamente correcto. Sentou-se na borda da sua cama, mentalizando-se de que aquela seria a última noite. Nunca mais existiria um fim de tarde, um jantar, um “boa noite”. Cada segundo que passava era já o último, cada pequeno ritual irrepetível esvaia-se com o movimento do ponteiro do seu relógio fiel colado na parede. Aquele momento em que costumava pensar na borda da cama terminou quando ele se levantou e morreu. Porque nunca se repetiria. E assim, de mansinho percebeu que já estava a deixar de existir. Foi mais isso que o comoveu, do que propriamente a ideia do seu pescoço naquela corda que o fitava lá de fora.

De pé, lentamente para não gastar o espaço, foi andando em círculos na sua cela. De manhã tinha tido visitantes que lhe perguntaram se estava arrependido. Não abrira excepção e permanecera em silêncio. Há muito tempo que perdera a paciência para a comunicação. Há muito tempo que se recusara a usar palavras e a ler livros. Um sorriso tímido e honesto espreitou dos seus lábios quando pensou nas pessoas, sempre à procura de razões e propósitos. Sempre à procura de uma utilidade para as acções. Tantas vezes lhe perguntaram qual era o propósito dele, o que esperava ele. “Queres destruir as Pessoas? Tens outros propósitos na vida que não a felicidade?” E muitas vezes ele negou todas as respostas. Outras permaneceu em silêncio. Um dia disse-lhes “Deus não existe”, mas ninguém o ouviu. Ele voltou para a sua cela solitária e escrevinhou na parede: “Não existe propósito na vida, a não ser vivê-la”. E quando veio a sua condenação, pediu que lhe escrevessem isso na campa.

Quando o relógio cansado chegou às nove, os dois guardas pediram-lhe que saísse da cela e os acompanhasse. O seu último jantar esperava-o, com o sabor venenoso de ser o último. E esquecendo-se disso, saboreou-o como se tivesse acabado de nascer.

Quando terminou, um dos guardas olhou para ele com desdém e disse-lhe “Ao menos tiraste um bom jantar da tua vida”. Ao que ele respondeu laconicamente pela última vez “ Nunca houve muito mais a tirar”.

Desafio XXXVIII

Wings para Alice in Wonderland:
Algum desgoto prova muito amor mas muito desgoto revela demasiado falta de espirito

William Shakespeare


Alice in Wonderland para Ricardo:


Des yeux qui font baiser les miens,

Un rire qui se perd sur sa bouche,
Voila le portrait sans retouche
De l'homme auquel j'appartiens

Quand il me prend dans ses bras
Il me parle tout bas,
Je vois la vie en rose.

Il me dit des mots d'amour,
Des mots de tous les jours,
Et ca me fait quelque chose.

Il est entre dans mon coeur
Une part de bonheur
Dont je connais la cause.

C'est lui pour moi. Moi pour lui
Dans la vie,
Il me l'a dit, l'a jure pour la vie.

Et des que je l'apercois
Alors je sens en moi
Mon coeur qui bat

Des nuits d'amour a ne plus en finir
Un grand bonheur qui prend sa place
Des enuis des chagrins, des phases
Heureux, heureux a en mourir.

La vie en rose - Edith Piaf

Ricardo para Wings:


sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Desafio XXXVI- Resposta

É incrivel como no quotidiano arrastado as pequenas coisas tao cheias de uma beleza suave se tornam aborrecidas e uma luxuria bem fundamentada e legitima conquista um espaço fixo num coraçao que se sente a sufocar nessa monotonia escorregadia.
Mas agora, com o seu amor morto, ela nem sequer consegue verdadeiramente lembrar-se desses tempos. Sentada ao lado da lápide dele, tudo o que sente é um amor cheio de uma saudade avassaladora.
Mas a verdade é que o conceito de rotina sempre foi independente do conceito de Amor. E ele era só isso, um pedaço de passado que, no agora dela, so prometia um futuro infertil por não a preencher com ilusoes que um dia serão verdades. Dizer que o não amava era uma meia verdade. Não o amava, ate certo ponto e por outro lado, ama-lo-ia sempre. Há coisas pequenas cheias de beleza que nunca se repetem. Mas a rotina monotona dele impos-se sobre qualquer amor que ela lhe tivesse, o sorriso dele tinha sempre o mesmo angulo caloroso. Não havia espaço para algo novo , tinham envelhecido . Não, ela tinha envelhecido, ele estava simplesmente igual. As aborrecidas actividades dele tao regulares mantinham-no jovem.
Foi para se libertar desse sufoco que se impunha no ser dela que decidiu perder-se num lugar qualquer e o encontrou, ao outro. Nada tinha que ver com o seu amor ( tao sem vida, agora). Era fugaz, fazia-a sentir-se viva. Dava-lhe o que ela julgava que lhe faltava, uma qualquer mudança. Não que o amasse, mas nem sempre o amor so por si é suficiente.
Sentada tao lealmente ao lado da lapide dele, recorda-se sem falhas de memoria do dia que mudou todo o rumo da vida que tinha. Combinaram encontrar-se no restaurante e ela decidiu terminar o que já não existia e contar-lhe que era o fim e que tinha outro. Outro que tinha para lhe dar o que ele não dava. Tencionava ser breve , havia uma enorme mudança que sentia a crescer no peito.
Mas nunca lhe disse isso. Passou a mao pela pedra fria, nunca lhe disse nada disto. Porque nesse dia o rosto dele tao belo e tao suave tinha uma sombra negra a ilumina-lo. Foi quando lhe disse da sua morte que estava para breve. Foi quando lhe disse que tinha uma doença terminal. E ela amava-o apesar de o não amar, uma verdadeira compaixao instalou-se e deu-lhe os melhores meses da vida dele. Seriam os ultimos, que importava que fosse ilusao? Que importava que fosse um papel que ela cumpriria?
Passava longos tempos no cemitério ao pe dele. A rotina parecia acalma-la, suavizar a falta que ele fazia. Na verdade, era o que mais a magoava. A falta que as rotinas aborrecidas dele lhe faziam. Porque, quando ela fez tao perfeitamente o papel de o amar, de partilhar e de sorrir as rotinas quotidianas dele, tornou-se nesse ser. Que o ama, que ama as rotinas. Que se enche de alegria so de ver o sorriso dele, sempre tao igualmente caloroso . Ao representar uma personagem , do interior para o exterior, tornou-se na personagem que representava. E por agir como se o amasse acabou por ama-lo de novo, apesar de nunca o ter deixado de amar.
É incrivel como as pequenas coisas cheias de uma beleza suave se perdem no quotidiano arrastado. Ela desejou a mudança e teve-a. A mudança foi a rotina, passou a cumpri-la em vez de a descartar. E vai todos os dias ao cemiterio, sentar-se ao lado da lapide dele. Fica quieta e em silencio e quando algum homem com um sobretudo preto igual ao que ele usava sempre, igual aquele que ele prometeu que se desfazia por estar demasiado gasto mas que mantinha sempre. Os olhos dela enchiam-se de esperança de que fosse ele.
Por agir como uma mulher apaixonada tornou-se numa. E por representar um papel com amor , tornou-se no papel que representava. A mudança alcançou-a e ela nunca mais foi a mesma.