terça-feira, 27 de abril de 2010

Desafio XIX

Tiago para Ricardo:

Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...

Fernando Pessoa - Aniversário

Ricardo para Wings:

Homosexuality is god's way of insuring that the truly gifted aren't burdened with children.
Sam Austin



Wings para Alice in Wonderland:


"Love cannot save you from your own fate"


Jim Morrison











"Life is ours, we live it our way"








Metallica (Nothing else matters)


Blue Storm para Tiago:


"Art is a lie that makes us realize truth. "




Pablo Picasso

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Desafio XVIII - Resposta

“A melhor coisa que há ao fumar é o próprio acto em si. O sentir o fumo quando inspiramos e ele chega bem aos pulmões, e como que queima por dentro. E depois ficar levemente tonto e ao mesmo tempo alerta para as mais pequenas coisas. Parece que sentimos o sangue a fluir nas veias, não acham? E depois olhar para os padrões que o fumo faz enquanto sobre. É lindo. Pelo menos para mim é assim.”

“Isso é para ti que não estás habituado a fumar. Vais ver que isso passa depressa. Eh pá, és mesmo um menino!”

E à volta da mesa todos se riram. De repente fiquei foi sem vontade de acabar o cigarro. Mesmo estando só a meio, apaguei-o de repente. Foi um gesto algo ridículo, um quanto exagerado ou melodramático. Mas não faz mal, não tem problema. Ninguém nem sequer reparou. Porque quando ele está presente, é como se eu fosse transparente. Sou o melhor amigo transparente.

“Pessoal, tenho uma sugestão. Há ali na zona de Arroios um hospital, ou lá o que é aquilo, que está abandonado. Era fixe levarmos uns sacos-cama, eu levo a guitarra, mais umas velas, e passávamos lá uma noite. Que acham?”

“Mas esse sítio não está cheio de drogados? Isso não é perigoso?”

Não vale a pena. Nem sequer me escutam.

“Que fixe! Boa ideia.”

Conheço-o desde que éramos ambos miúdos, e ele sempre foi assim. Tínhamos seis anos e ele já tinha os melhores brinquedos. Depois crescemos, e dos melhores brinquedos ele passou para as melhores consolas de jogos. Foi o primeiro a ter computador. Isso, e todas aquelas coisas que importam quando se é novo e não se tem responsabilidades. Todas aquelas coisas que fazem de um rapaz melhor que os outros. Foi o primeiro a descobrir as mulheres, o primeiro a conseguir uma mulher, o primeiro a partir o coração a uma rapariga da turma. Exactamente aquela de quem eu gostava. Olhava-me nos olhos e beijava-a à minha frente. Mas não faz mal, não tem problema. Ela nem era assim tão importante.

Um dia decidiu que devíamos ir a um café pedir uma cerveja, beber e fugir a correr. Tínhamos doze anos. Fomos, pedimos, e serviram-nos a bebida, porque ele é assim, quando ele quer alguma coisa parece que os outros ficam encantados. Ele toca a sua música, as serpentes dançam, e ele consegue sempre o que quer. Mas depois, na hora do fugir, nem me avisou, nem me tocou no ombro, nem me gritou “corre”. Esquivo como o fumo de um cigarro, simplesmente correu. Então eu fiquei e paguei. Mas não faz mal, não tem problema. Por algum motivo ele engraçou comigo. E eu acompanhei-o em todas as aventuras parvas. E apesar de eu ser a rede enquanto ele brilhava no trapézio lá em cima, sentia-me um bocadinho maior por causa disso. Pelo menos, não era eu o público que aplaudia.

Depois veio a universidade, e era como se fosse um universo criado à medida dele. Estava a léguas de toda a gente. Exibia-se e pavoneava-se, passeava-se de mota, no seu blusão impecavelmente podre, gasto, um manto onde projectava a imagem de gente grande e vivida. E nunca, em nenhum momento, eu deixei de o acompanhar quando faltava às aulas para ficar no bar a fazer planos loucos e irrealizáveis, a contar histórias com um nível demasiado elevado de distorção. E o que mais me confundia era que aquele tipo, ao mesmo tempo, era o melhor aluno da turma. Mas não faz mal, não tem problema. Eu também não me saía nada mal. Enquanto ele vivia à grande, eu ia crescendo aos bocados.

Naquela noite, eu recordava tudo isto enquanto as cervejas continuavam a vir para a mesa. Periodicamente buscava no relógio a esperança numa desculpa para sair daquele lugar. Finalmente, chegou a uma da manhã, hora de fecho do café. A música de fundo parou, convidando-nos a pagar e a sair. Mas não faz mal, não tem problema. A hora não poderia ter chegado mais cedo para mim.

“Aguenta aí um pouco, preciso de falar contigo. Podes vir a minha casa?”

Conseguia cheirar o álcool na voz arrastada. Dificilmente me escaparia a uma das conversas sonsas, das declarações ocas de amizade, arrastadas pela bebedeira, que periodicamente me fazia. E dizia-me como eu era o único amigo verdadeiro que ele tinha, e dizia-me que as pessoas são todas podres, que odeia como lhe prestam vassalagem, que ele não quer ser nenhum James Dean. E eu digo-lhe que é na boa, que não faz mal, não tem problema. Digo-lhe para ser apenas honesto, para deixar a sinceridade falar mais alto, para recriar a imagem que têm dele e ser livre dessa forma. E ele diz-me que eu não entendo, mas que talvez um dia tenha coragem para ser sincero. E esse dia acabou por ser aquela noite.

“Escuta, eu sei que te trato um bocado mal. Hoje na história do tabaco excedi-me. Desculpa. Tu és a única pessoa com quem eu consigo ser eu mesmo. Desculpa se abuso de ti.”

“Não faz mal, não tem problema.”

“Tem problema sim. Tu não sabes como é a minha vida. Eu não sou o que ninguém pensa. E sinto-me cada vez pior.”

Tirou a t-shirt preta que vestia à minha frente, ali, no quarto dele. Depois, tirou as calças. E por algum motivo, veio-me à cabeça a imagem de S. Sebastião, tão louro como aquele rapaz na minha frente, tão despido, tão desprotegido, tão mutilado. No lugar onde as flechas atravessavam o corpo do santo, este santo à minha frente tinha cortes profundos na pele, cobertos por pensos minúsculos, ensanguentados. As flechas que o atingiram foram atiradas por si mesmo.

“Ridículo, não é? Pareço uma miúda adolescente. Mas eu... Eu tento, eu tento levar uma vida normal. E até consigo. Mas depois à noite, sozinho neste quarto, com a pressão dos meus pais, com os outros lá fora sempre à espera que eu seja uma espécie de guru... Eu não aguento.”

“Não faz mal, não tem problema.”

Mas a minha voz e o meu engolir em seco não conseguiam esconder o meu julgamento.

“Eh pá... eu amo-te.”

E depois de o dizer baixou a cabeça, e eu imaginei tão forte como o real, que aquele era S. Sebastião que finalmente caía morto. Afinal a flecha fatal tinha sido minha.

E, desta vez, fui eu a fugir. Tão esquivo como ele quando corríamos juntos pela cidade, quando fugíamos das cabinas onde telefonavamos para casa das pessoas a dizer que o marido ou a mulher de quem atendia estava preso, quando fugíamos da escola por entre as grades para ir experimentar alguma bebida alcoólica em casa dos meus pais, quando jogavamos à bola. Nessas alturas ele era sempre mais rápido, chegava sempre mais longe mais depressa. Só naquela noite, cheguei mais depressa à porta do que ele conseguiu levantar o olhar. O click da fechadura atrás de mim não conseguiu esconder um soluço. E o choro. Amigo, lamento ter deixado de ser a tua rede.

Mas não faz mal, não tem problema. No fundo, era disso que ele andava à procura. Ele era um deus maltratando-se a si mesmo, à espera de ser expulso do Olimpo. Aquela noite, da minha humilhação e fuga transformada em vitória, foi a noite em que entendi que aquilo que nos faz mal, mais do que os problemas, é o excesso de vitórias. Os problemas são como barreiras que se saltam, cervejas roubadas que se pagam, são precalços com os quais crescemos. O que nos faz mal é o demónio do triunfo constante, é olhar para cima e só ver céu. Esta foi a noite em que aprendi que não se pode ser um ídolo sem se ter um ídolo. Enquanto vivi na sombra, fui aprendendo a crescer sustentando-me em quem sou. E ele, de tão à frente que estava do Mundo, era como um astronauta solitário em órbita durante anos, criando personagens para não se sentir sozinho, enlouquecendo por só conseguir dialogar consigo mesmo. E mesmo que na próxima segunda-feira ele lá estaria na universidade, chegando de mota com o mesmo sorriso confiante e o mesmo casaco poeirento, agora sabia que a vida iria um dia engoli-lo. E quando o engolisse, eu já não estaria lá mais para o amparar. A partir daquele dia, seria eu a engolir a vida.

domingo, 25 de abril de 2010

Desafio XV - Resposta

"Eu agora tinha a morte dentro de mim. E é horrível estar grávido da morte."
António Lobo Antunes

“Seis meses”.
Há sete meses que este espaço temporal o perseguia, todos os dias. A toda a hora, a todos os momentos. Há sete meses que fecundava dentro de si uma morte lenta, excruciante, apenas tratada, e a custo, com muitos comprimidos e analgésicos.

“Seis meses”.
Hoje, exactamente sete meses e sete dias depois desse fatídico dia, ele estava na sala de professores pela última vez. Vestia o seu melhor fato, como se do seu enterro se tratasse. Tinha tudo preparado. Tremiam-lhe os papéis nas mãos, as suas cábulas, como se da primeira aula da sua vida se tratasse. Sentia um nervoso miudinho, misturado com adrenalina, alegria, tristeza, e todos os outros sentimentos que tinha sentido nos últimos meses.

De alguma forma, sentia-se abençoado. Sabia quanto tempo tinha. Durante todo aquele tempo conseguiu organizar a sua vida. Toda. Conseguiu trazer para junto de si as pessoas junto a quem quereria morrer. Conseguiu tratar de papelada, conseguiu organizar os melhores momentos em família. Conseguiu, como se possível fosse, quase esquecer o que o levou ao sítio onde estava agora. Racionalizou tudo na sua vida, e aceitou, quase, a sua morte.

Naquele momento sabia que não queria estar noutro sítio. Faltava terminar mais um capítulo da sua vida. Faltava fechar, se possível com chave de ouro, vinte anos de ensino na “sua” faculdade.

Quando o vieram finalmente chamar à sala de professores, levantou-se de um ápice, perdendo momentaneamente o equilíbrio. Culpa dos medicamentos. “Estou bem”, assegurou aos seus pares. Depois caminhou, qual corredor da morte, lentamente, excruciantemente, os poucos passos que o separavam do Grande Auditório. Quando entrou, o silêncio apoderou-se instantaneamente da sala. Por um momento, no mais impressionante silêncio que viveu nos últimos sete meses e sete dias, sentiu a morte dentro de si. Sentiu-a mexer-se, como se de um bicho se tratasse. Sentiu que se apoderava dele, pouco a pouco, mas sem perdão. A morte não falharia. E iria, mais depressa ou mais devagar, tomar completamente conta dele.

Olhou em volta. Quase um milhar de alunos olhava-o, com o ar de pena que habitualmente caracterizava as pessoas que encontrava. Dirigiu-se lentamente para o palanque. Confiante. Com tão pouco tempo que tinha, nada podia correr mal. Tinha de ser tudo maravilhoso. Inesquecível. Não venceria a morte agora, mas nutria o ardente desejo de se libertar dela o mais depressa possível.

Desafio XVIII- Resposta

Não etendes? Acabou. Deixa-o, deixa-o só. Acabou não etendes? Já não te ama, já não te não ama. Sim, ele lamenta. Mas já te esqueceu. Por isso, não é uma questao de te não amar. Já acabou, nada existe. Ele morreu, o eu dele que te amava, morreu. A tua insistencia patética em algo lógico como a morte exasperou-o ao ponto de perder o eufemismo. Não lamenta, e-lhe inteiramente indiferente. Queres insistir, queres chorar? Ele já te esqueceu, já não existes. Acabou.
Não te humilhes é desnecessário. Quando o amor cessou abriu-se uma enorme cova no coraçao dele. Que cobriu todos os dias com escassos pedaços prateados da tua doce memória. Vês, o passado é inutil. Este passado é inutil. De que lhe vale ter-te amado se já não te ama? Nem sequer te não ama, sente –se absolutamente indiferente. De que lhe serviu?
É-te util, a ti? Essas lágrimas doces e àcidas que te escorrem dos olhos até aos espirito, quando se esgotarem, vão deixar uma funda cicatriz no peito. Vai-te ser indiferente , ele, um dia. Vais lamentar duramente essa humilhação ridicula para teres de volta algo que já não existe.
“Não etendes?!”. A voz dele , grave. Funda. Mas o que te doi é o desinteresse melódico com que fala. Ah, agora a consciencia alcançou a tua mente. Etendeste. As palavras estão gastas, o passado é completamente inutil. Conseguiste até esgotar-lhe o silencio.
Esgotaste-o, a ele. E à sua voz, grave funda e melódica. Ele morreu , agora simplesmente existe sem ti. Preencheu a cova do coraçao com a tua ausencia. Já não existes. Esqueceu-te inteiramente, largou o estado paradoxal de te não amar amando-te.
Antigamente, costumava lamentar a tua ausencia. Ou a ausencia de si proprio. Ou o conceito de fim que estrangulava o coraçao .
Mas “o passado é inutil como um trapo”.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Desafio XVIII - Resposta

"Anger is an acid that can do more harm to the vessel in which it is stored than to anything on which it is poured."

She told me this when she left me.
And there I was, alone with my vessel. Full.


When she returned, three years later,
I was standing in the same place, in the same street where she told me I was not the one I was supposed to be.
I was dressing the same heart, the same not supposed heart. And the vessel was standing by me. It remained full.

She crossed the road and kissed me as if I always had been the one that I was not supposed to be since ever.

I was just a transfer station of her trip. That was all I could ever dream to be.

I kissed her too.
In that night we became the old ones. And when I fucked her, I left the full vessel with her.

“You were so right baby,
and I never want to harm me.”

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Desafio XVIII

Tiago para Blue Storm:

"All the world's a stage,
And all the men and women merely players;
They have their exits and their entrances;
And one man in his time plays many parts"

William Shakespeare

Wings para Ricardo:

When I was young I was the nicest guy I knew
I thought I was the chosen one
But time went by and I found out a thing or two
My shine wore off as time wore on
I thought that I was living out the perfect life
But in the lonely hours when the truth begins to bite
I thought about the times when I turned my back & stalled
I ain't no nice guy after all

When I was young I was the only game in town
I thought I had it down for sure,
But time went by and I was lost in what I found
The reasons blurred, the way unsure
I thought that I was living life the only way
But as I saw that life was more than day to day
I turned around, I read the writing on the wall

I ain't no nice guy after all


Motorhead, I ain't no nice guy


Blue Storm para Alice in Wonderland:

"Anger is an acid that can do more harm to the vessel in which it is stored than to anything on which it is poured. "


Mark Twain

Alice in Wonderland para Wings:

"O passado é inútil como um trapo. E já te disse: as palavras estão gastas. Adeus."

Eugénio de Andrade



Ricardo para Tiago:

"Imperious, choleric, irascible, extreme in everything,
With a dissolute imagination of the like which has never been seen,
Atheistic to the point of fanaticism,
There you have me in a nutshell.
And kill me again or take me as I am,
For I shall not change. Never."

Marquis de Sade, conforme citado em "An Erotic Alchemy" dos Moonspell

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Desafio XVII - Resposta

Ofereceram-me algumas folhas e uma alguns lápis de cor, e pediram-me que desenhasse o Mundo como ele deveria ser. E fiz como toda a gente faria. Usei o lápis verde até o gastar. Pintei árvores e plantas, ao longe e ao perto, em planaltos suaves e em escarpas de montanhas inacessíveis. Plantei no desenho fileiras de choupos e salgueiros, tanto quanto alguma espécie específica se deixa desenhar com os meus rabiscos, e por entre elas pintei riachos correndo calmos, da mesma cor azul que usei no céu. Nem por um momento a minha imaginação se lembrou que riachos tingidos de azul é coisa que nunca se viu. Só que este não é o Mundo como ele é. É o Mundo como ele deveria ser.

Àquele ideal de Natureza intocada faltava ainda vida animal. Então, dei-lhe todos os animais que consegui representar. Os cães, as ovelhas, e as cobras – que são as mais fáceis de todas. E depois achei-me infantil. Então isto era para ser o Mundo como ele deveria ser, e não há pessoas? Rasguei a folha e comecei de novo.

Deixei-me de parvoíces naturalistas. Não vale a pena desenhar paraísos sem o Homem. E portanto, desenhei o paraíso do Homem. Uma longa extensão amarela ponteada e um azul sem fim, com uma escarpa acastanhada de rocha nua ao fundo, sem vegetação, porque já tinha gasto o verde, uma cadeira e um chapéu de praia, et voilá!, o paraíso. E depois achei-me fútil. Então para mim a perfeição é não fazer nada, e o Mundo devia ser só ócio? Apertei a folha entre as mãos até fazer uma bola e projectei-a para longe.

Comecei de novo. Pensei bem – o que se pode querer de um Mundo como ele deveria ser? Talvez paz, amor, harmonia, solidariedade, caridade, e todas as outras coisas com que se alimentam as candidatas em concursos de beleza. Sem divisões e querelas mesquinhas. Sem lutas, sem desentendimentos, sem paixões por deuses, nações ou outras crenças menores. Mas como se desenha isso? Cheguei à conclusão que desenhar isso é o mesmo que não desenhar coisa nenhuma. E risquei, risquei o papel com todas as cores, ou restos de lápis quase gastos, tornei-o tão complexo quanto possível. O Mundo é assim, um encontro de rumos distintos, contrários, tocando-se e logo se desligando. Este é o Mundo dos humanos. No verso da folha está o contrário disso, está o Mundo como ele deveria ser: uma folha em branco. E aí achei-me demasiado radical. Então um Mundo sem conflito é um Mundo vazio? Bom, mesmo assim vou guardar esta folha para o futuro.

Não pode haver Mundo sem vida, e vida é também humana. E quando metemos o factor humano na grande máquina de fabricar Mundos, metemos os seus gostos, os seus medos, as suas aspirações, as suas fábulas. Sejam essas fábulas coisas menores como os deuses e os países, ou maiores, como a arte e o amor. E achamos realmente que podemos apartar o que é mau e ficar com o que é bom, sem entender que a vida bem vivida é aquela que tira partido de todas as faces, negras e claras, dos nossos dias. E aí achei-me finalmente inspirado. Então o Mundo melhor tem que ser aborrecido? Peguei na última folha, e desenhei a vermelho. Era o lápis que me restava.

Representei um carro transparente numa estrada que se bifurcava mais à frente em duas estradas concorrentes – uma à esquerda, outra à direita. No meio da bifurcação, coloquei uma parede de tijolo. O carro deslocava-se a grande velocidade, como mostravam os tracinhos concêntricos que coloquei na zona atrás da retaguarda do carro. Dentro, iam cinco pessoas também genéricas, que desenhei com simples figuras de cinco linhas, um tronco, duas pernas e dois braços, e uma bola como cabeça. Quebrando a sua aparente igualdade, cada uma das pessoas era dona de balões de diálogo, como na banda desenhada.

O condutor, identificado pelos braços no volante, dizia “E agora, para onde viro?”
O passageiro ao lado, com os braços para o ar e sem cinto de segurança, dizia “Dá-me o volante, eu é que devia estar a conduzir!”
O passageiro da esquerda do banco de trás olhava pela janela e dizia “Estes campos aqui à esquerda são tão bonitos, como é perfeito este lugar.”
O passageiro do centro do banco de trás olhava em frente com os braços na cabeça e dizia “Estamos perdidos, vamos todos morrer.”
O passageiro da direita do banco de trás dizia “Direita, vira à direita.”

Nesta vida haverá sempre aqueles que conduzem, aqueles que querem conduzir, e aqueles que viajam no banco de trás. Mas já que o que me pediram foi para desenhar o Mundo como ele deveria ser, coloquei riscos por cima dos balões de toda a gente. E usando o bocadinho de lápis que me restava, coloquei um grande balão que os quatro ocupantes gritavam, em maiúsculas, ao condutor do carro que seguia em frente, como que recusando qualquer um dos dois caminhos fáceis e tão trilhados já:

“Mais depressa!”