domingo, 28 de fevereiro de 2010
Desafio X - Resposta
- Passa-me o telefone, por favor.
- Não tens saudades de quando escrevíamos cartas? De quando esperávamos ansiosos por uma resposta, de ponderar no que escrevíamos naquela letra tão cuidada?
- Não. Perdíamos imenso tempo. Liga-me isto à tomada, que preciso de pôr o computador a carregar.
- E não sentes falta de teres de ler e pesquisar em livros, em vez de automaticamente copiares a informação que procuras? Agora a internet tem tudo, as pessoas nem precisam de sair de casa para terem o que procuram.
- Como te disse, isso veio-nos poupar imenso tempo e trabalho.
- Como é que pode ser cansativo ir a uma biblioteca folhear livros e estar rodeado daquele cheiro hipnotizante? Agora há cada vez menos pessoas a ler, a ter livros na mão. Arranjam documentos no computador e acham que é igual. Até os jornais ficam abandonados nas bancas, porque se tem tudo no computador ou telemóvel.
- Se o que temos agora é muito mais prático, porquê voltar atrás? Diz-me algo de mau que a tecnologia tenha trazido.
- Está a destruir o planeta e a deixar-nos doentes.
- Para isso temos a medicina que cada vez está mais evoluída, Temos tudo ao nosso alcance.
- E com isso as pessoas vivem cada vez mais fechadas em si. Cada um quer mais posses, consumidores que nunca estão satisfeitos. Um por si, e todos por eles próprios. Temos tudo ao nosso alcance, e no entanto, vivemos mais infelizes que nunca.
quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010
Desafio X- Resposta
Amou-a tanto. Não se consegue imaginar sem ela, enquanto o passado é cheio e quente não germina a urgencia de um futuro . Solitáriamente diferente. Mas não consegue mantê-la, não é esse ser. Não consegue mante-la. Sabe que a não ama porque já a amou, ama-a ainda para saber que o que sente é um gasto pedaço do amor que ainda lhe bate no peito. Não a ama , tem o coraçao preenchido com o vazio dela. Porém, o nada que lhe preenche o coraçao tem o seu perfume . Ama-a ainda. Embora a já não ame, todas as estrelas morrem.
Mas não estavam mortas quando ambos contemplavam o céu numa noite qualquer. Talvez fria, talvez quente .Mas ele agora sabe que essas mesmas estrelas eram a reflexao luminosa perfeita da sua propria morte. Não a ama já porque sabe que ainda a ama. Tem de amar, as estrelas ainda dançam no céu uma dança quieta e silenciosa. Uma dança morta. Porque todas as estrelas morreram, a luz simplesmente ainda não fulminou o coraçao dele.
Ele sabe que a não ama mas que ainda a ama. O suficiente para lhe doer saber que será de outro. Ou que ele amará outra. Não sabe ser esse ser, que a não ama. Mas não aguenta continuar a ser esse, que a ama ainda. E doi-lhe, outro no lugar que ele ocupava nos olhos dela. Ou ele substitui-la, porque ele ainda a ama. O suficiente para que o coraçao dele já não tenha a cor dos olhos dela.
Porque ele a ama ( embora saiba perfeitamente que já não ama) para reconhecer que é o fim. Triste e suavemente duro. É apenas o fim, um corte rapido e radical que arrasta consigo no tempo todo o enterrar de memorias que . Ele se quer esquecer para não sofrer com a felicidade melodica que carrega na sua unicidade estéril.
Desafio IX - Resposta
“Só criam problemas, aqueles rebeldes. Sofrem de falta de atenção. Ocupam-nos as ruas com os seus cartazes e hinos, e param a cidade para nos impor as suas loucuras.” É o que os ouço dizer.
O que eles não sabem (ou não querem saber) é que há um propósito para a nossa “rebeldia”. Se criamos confusão é para chamar a atenção, não para nós, mas para um fim, um objectivo. Somos diferentes porque a normalidade está a matar o planeta. Criticamos e acusamos para os tentar acordar para a realidade. Não queremos atenção para a nossa pessoa, mas sim para aquilo que temos a dizer.
Mas eles não querem saber. Olham para o comportamento e não para o que ele quer dizer. Nós tentamos. Quando for tarde demais, arrependimento não vos irá servir de nada.
terça-feira, 23 de fevereiro de 2010
Desafio X
"Num mundo cada vez mais digital, uma pessoa dá por si a ter uma certa vontade de ser mais analógica."
Nuno Markl
Wings para Ricardo:
Legenda
para aquela estrela
azul
e fria
que me apontaste
de madrugada:
amar é entristecer
sem corrompermos
nada.
Carlos Oliveira
Blue Storm para Alice in Wonderland:
"If I had a world of my own, everything would be nonsense. Nothing would be what it is, because everything would be what it isn't. And contrary wise, what is, it wouldn't be. And what it wouldn't be, it would. You see?"
Mad Hatter
Alice in Wonderland, Lewis Carrol
Alice in Wonderland para Wings:
(...) "De outro. Será de outro. Como antes dos meus beijos.
A voz, o corpo claro. Os seus olhos infinitos.
Já não a amo, é verdade, mas talvez a ame ainda.
É tão curto o amor, tão longo o esquecimento. " (...)
Pablo Neruda - Posso escrever os versos mais tristes esta noite
Ricardo para Tiago:
“I don't believe in an afterlife, so I don't have to spend my whole life fearing hell, or fearing heaven even more. For whatever the tortures of hell, I think the boredom of heaven would be even worse.”
Isaac Asimov
segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010
Desafio IX - Resposta
Eu vivia desenfreadamente na crista da onda mais azul. Um brilho azul-escuro descansava na profundidade infinita do Mar, onde sempre estiveram guardadas as minhas asas. E eu sempre quis isso, as inúmeras viagens que o Mar contém.
Quando me prendias a terra eu ficava na berma da onda, a sentir o cheiro do sal que já tinha dado a volta ao Mundo. Era ali na praia, que tudo começava, que tudo acabava e que tudo estava no meio.
Eu vivia na praia mais do que vivia na vida. Quando chegava a tempestade, ficava eléctrica. Quando era Verão tornava-me nostálgica.
No resto do tempo habitava-me um sonambulismo teimoso que me afastava dos teus olhos inquisidores.
Até que um dia, finalmente as asas começaram a desabrochar-me. Sob os teus olhos impacientes gritei de dor, enquanto as duas asas me rasgaram as omoplatas. E finalmente, naquele dia o monstro que prendeste durante tanto tempo mostrou-se mais aberrante e luminoso do que nunca.
E descobriste uma beleza tão infinita nos milhões de cristais azuis das minha asas que a tua respiração congelou. Um grito seco morreu na tua boca aberta.
Levaste as mãos às costas e sentiste a memória profunda da cicatriz, quando te cortaram as asas à nascença.
Desafio IX - Resposta
O último, esse foi mais difícil de dobrar. Uma empresa pequenina de um tipo novo, mas um brilhante fabricante de aparelhos para imagiologia, com 70% do mercado. E nenhum império da electrónica está completo se não dominar nas máquinas de ressonância magnética, de tomologia de emissão de positrões, de radiografia por raios x. "É o domínio absoluto no negócio da saúde", disse ele, triunfante, enquanto presidente do conselho de administração, durante a reunião de accionistas. "É o sector onde nos falta dominar." Mas o outro tipo não queria vender. Dizia que aquele era o negócio da vida do pai, falecido de ataque cardíaco no ano anterior. Uma doença não diagnosticada. Mas ele não tinha chegado ao topo da empresa se não tivesse astúcia suficiente para vencer um miúdo. E, como sempre nestas alturas, ignorou a sua esposa para se fechar durante noites ininterruptas no escritório a investigar. Remexeu no passado; falou com amigos, com colegas, com ex-namoradas. "É assim que nos mantemos acima da concorrência", dizia sempre, "conhecendo os seus defeitos, e destruíndo-os onde pudermos." Os competidores mais vaidosos, destróem-se com notícias de jornal; os mulherengos, com chantagem; os viciados no jogo, com batota; e os invencíveis, os poucos que não têm podres, nunca se chegam a desafiar. Quando não se pode ganhar, não se luta. Naquele caso, a estratégia tinha que ser diferente. O miúdo era um sonhador. Esse era o seu podre. Então, uma noite, convidou-o para jantar.
Depois do jantar, animado pela fluência de um conhaque caro, o miúdo contou, envergonhado as suas ideias loucas sobre máquinas espantosas. "Imagine só o senhor! No nosso sangue há tanto ferro que nós acabamos por morrer de ferrugem. Só que está muito espalhado. Agora imagine se conseguíssemos inventar um íman gigante que apanhasse o ferro todo do nosso corpo... Já estou a ver, pessoas coladas magneticamente em placas verticais que andavam pela cidade a toda a velocidade! Acabavam-se os carros, acabavam-se os acidentes de automóvel." A sua esposa estava encantada, ria como se fosse alguma coisa de especial. O idiota, herdou um negócio de milhões que mantinha para poder esbanjar o lucro a investigar um autocarro de velcro.
E no dia em que lhe fez a proposta para a aquisição, a partir do 20º andar do seu escritório envidraçado com vista para a Praça de Espanha, acrescentou uma pequena variação que fez o miúdo aceitar tudo o que até então recusara. Ofereceu-lhe um financiamento de milhões e um contrato a cinco anos como investigador numa universidade de Londres. Poderia trabalhar no seu íman de autocarros, ou lá o que era. "Mas assino já o contrato e transferem o dinheiro já hoje?" Deus, quanta pressa por ver lá o dinheiro e ter a situação dele segura. "Sim, agora mesmo antes até da venda." E o miúdo portou-se como um miúdo. Aceitou a proposta, assinou na linha infame que dizia "all things taken into account, I would have done the same thing to you", e ainda o abraçou emocionado. "Obrigado, obrigado por esta oportunidade magnífica." O idiota.
Passara-se uma semana, e ainda em regozijo pelo triunfo e pelo louvor na reunião de acionistas que entretanto decorrera, passava horas de mãos nos bolsos das calças olhando pela janela envidraçada do 20º andar. Olhava o trânsito, e as pessoas que cá em baixo se movimentavam a espaços entre semáforos pareciam-lhe não ter segredos. Ele era o derradeiro equipamento de imagiologia. Ele era capaz de descobrir em toda a gente os interruptores certos. Sentia-se na proa de um navio. Sentia-se invencível. E recebeu uma mensagem escrita. Abriu o telemóvel num gesto só, e depois de ler deixou-o cair. "Se tivesses desconfiado que tinhas um rival, tinhas-lhe dado a volta, a ele e a mim. E eu nunca me escaparia desta jaula de casamento onde me prendeste. Mas como não pressentiste um inimigo, desleixaste-te. Por isso adeus. Vou para Londres. E não aches que eu sou má pessoa. All things taken into account, you would have done the same thing to me."
O idiota. Afinal ele não stava a competir nos negócios. Afinal ele estava a competir... pela mulher.
Desafio VIII - Resposta
"Incompetence - When you earnestly believe you can compensate for a lack of skill by doubling your efforts, there's no end to what you can't do.”
Chegamos a certas alturas da vida e sentimos que falhamos. Parece que tudo foi em vão, que por mais que tentemos tudo corre mal.
- Há-de melhorar.
Mas não. Incentivos parecem parvos, porque ninguém nos percebe. Que raio de incompetentes que somos, para falhar sempre em tudo. (Não que assim seja, mas ficamos cegos, muito cegos).
- Não te faças de vítima.
Mas não somos todos? Fomos feitos para falhar e ser miseráveis e tentar tirar partido disso. Trepar as paredes do poço, aprender e evoluir. Acho que até isso não sei fazer.
- Tens de acreditar. Acredita naquilo que fazes.
Ah! Ora aí está um bom conselho! Pelos vistos não se faz nada de jeito se não acreditarmos que conseguimos. Um simples mecanismo psicológico ajuda-nos a ultrapassar barreiras feitas de tijolos de incompetência.
- Agora que acreditas, tenta outra vez...
... e outra, outra, outra... Vê o castelo a ganhar forma, o quadro a ganhar cor, o puzzle a completar-se. Ou seja, vê os teus sucessos a acumularem-se.
Quem diria. Afinal não falhei assim tanto.