domingo, 19 de dezembro de 2010

Desafio XLIV - Resposta

Wait until the war is over
And we're both a little older
The unknown soldier

Breakfast where the news is read
Television children fed
Unborn living, living, dead
Bullet strikes the helmet's head

And it's all over
For the unknown soldier
It's all over
For the unknown soldier
(...)

Make a grave for the unknown soldier
Nestled in your hollow shoulder
The unknown soldier

Breakfast where the news is read
Television children fed
Bullet strikes the helmet's head

The Unknown Soldier, The Doors



Breve Carta de Suicídio

O meu nome é essa pessoa anónima. Não sabem o meu nome, vocês. E há força de não o saberem, também eu o esqueci.
Vivemos intermitentemente neste jogo de convenções: vocês convencionaram que eu não era importante, eu desconvenci-me disso e estabeleci-me no limite da vida, na borda consciente das não-etiquetas.
Porém, é a mim que me dói a sombra por estar permanentemente nesta guerra oculta. E é a mim que os cabelos embranquecem por estar fora de tempo.
Porém, neste leilão, sou eu que perco.
E nunca achei que a minha vida fosse um pedaço de carne. Por isso, despeço-me com a arrogância de um soldado anónimo que estoirou os miolos, na derradeira tentativa de combater por si - e é essa a única guerra válida.
E é natural que não compreendam esta carta. E que não reconheçam o rosto da guerra: é exactamente por isso que ela nunca se vence.

sábado, 13 de novembro de 2010

Desafio XLIII- Resposta

Sometimes I feel
Like I don't have a partner
Sometimes I feel
Like mt only friend
Is the city I live in
The city of Angels
Lonely as I am
Together we cry


Under the Bridge- Red Hot Chili Peppers


Caminhava com o seu sobretudo negro devagar e compassado. Para que ter pressa se não tinha destino algum que desejasse alcançar? Estava triste, estava melancolico . O seu ser arrastastava-se melodicamente por Lisboa. O seu ser arrastava-se melodicamente pelos predios e pela calçada e pelas fontes que já viram a História mudar a mentalidade de uma sociedade e essa sociedade arruinar-se em pequenas luxurias infundamentadas e inuteis.
Caminhava lentamente como se Lisboa fosse algo que nunca tivesse visto , procurava curiosidades em todas as ruas estreitas e calorosas. Deixava-se encantar pelos pormenores simples que tornavam Lisboa bela . O castelo lá no alto dava-lhe uma sensação medieval de protecçao. Estava em casa e Lisboa nunca fora casa alguma. Não que não gostasse simplesmente nunca fora a sua cidade, o seu lugar do mundo. Limitava-se a ser apenas o sitio que o tinha visto nascer.
Mas não hoje, hoje só Lisboa lhe fazia companhia. Encontrava o seu estado de espirito miseravel e diluido num negro de veludo em cada ruela. Cada estatua parecia tenebrosa e sombria. A pequenez de Lisboa era tao claustrofobica como o aperto mudo que tinha no peito. Perdia-se nos cruzamentos de ruas sombrias que nunca vira mas encontrava-se depois, procurava algo familiar e chegava a uma rua maior e conhecida. Lisboa era demasiado pequena ate para alguem se perder. Como o coraçao dele, como o espirito dele. As vezes so desejava perder-se e deixar-se lá estar , nesse bosque denso e escuro muito maior que ele . Nesse bosque nordico que nunca existiu em Lisboa e que era a casa dele. Não a que o tinha visto crescer ou tornar-se num homem adulto e integro mas a casa que ele tinha escolhido porque reflectia o que desejava ser.
Caminhava com o seu sobretudo negro a contrastar com o cabelo loiro e a pele demasiado branca. Mesmo fisicamente, nunca se enquadrou em Lisboa. Demasiado alto, demasiado magro, demasiado branco, demasiado estrangeiro na sua cidade natal. Mas não hoje, hoje Lisboa era a única a fazer-lhe companhia. Ouvia em certas esquinas o seu lamento, o choro pelas mortes a que assistiu ou o riso emocionado e orgulhoso pelas vitorias heroicas que presenciou. Hoje só Lisboa lhe fazia companhia, so Lisboa o confortava tristemente. Chegou ao Cais das Colunas e sentou-se a ver o Tejo azul profundo . Ouviu a cançao surda que encantava aquele lugar, viu os barcos fantasmas que se afundaram anonimamente e viu os que inovaram o mundo. Viu corpos de homens inocentes que procuraram no Rio um abrigo e foram mortos por isso mesmo; viu a revolta que o tornou num homem livre, anos depois. Viu isso tudo, ouviu isso tudo. Lisboa, so Lisboa lhe fez companhia. E era tao triste, continuava a não ser a sua casa, o lugar quente e aconchegador depois do frio Invernal.
Amava Lisboa, Lisboa fazia-lhe companhia. Mas ele era triste, era desfasado.Estava condenado a isso. Lisboa era a única que lhe fazia companhia e era o único sitio onde não podia ficar.Amava Lisboa mas amava ainda mais a casa que tinha escolhido como sua.

Os estrangeiros, vindos do norte da Europa ,que passavam encontraram um cenario digno de um quadro impressionista. Um homem muito loiro, muito alto sentado naquela uniao perfeita entre o mar e a terra, o passado e o futuro , com o cabelo loiro a ondular ao sabor do vento em conjunto com o negro do seu casaco. Uma uniao estranha e logica. Mas o mais impressionante era a postura dele, a tristeza impenetravel do rosto dele. Distante e proximo, triste e resistente. Tao intimo com Lisboa e, ao mesmo tempo, tao diferente fisicamente , tao igual a eles, estrangeiros vindos do Norte da Europa.
Era um condenado e naquele momento so Lisboa lhe fazia companhia.

Desafio XLII- Resposta

“Great spirits have always found violent opposition from mediocrities. The latter cannot understand it when a man does not thoughtlessly submit to hereditary prejudices but honestly and courageously uses his intelligence.”
(Albert Einstein)


A tua arte é o dom da manipulação dissumalda enbelezada com o que denominas romance. Mas não é romance, é uma forma de viver tao triste quanto qualquer outra. Não não é romance, é a mais triste forma de se viver porque, se vires bem, nem tu acreditas profundamente na tua mentira que não passa de uma ilusao faminta .
Por isso o nunca compreenderás. Para ele a vida é romance, viver é sentir o Amor brilhar-lhe nos olhos; viver é a propria definiçao do ego dele. Porque ele é estratego e é genial na forma como vive, como encara o acto de viver. Como saboreia o vento a beijar-lhe o rosto ou o mar violento no final da tarde de Inverno. Ah sim ele é inteligente, é iluminado e tu não. Enfeita as pequenas artes da vida com ornamentos simples e profundos, nada para ele é linear sem deixar de ser, implicitamente, simples.
Mas para ti o romance é o vazio que tens no teu peito, a tua mediocridade está tao colada ao coraçao num abraço de simbiose que és esse ser negro, aparentemente fragil. Aparentemente doce. Aparentemente só aparentemente. Porque a tua arte, a tua única arte, é o dom da manipulaçao dissmulada, o dom de conseguires inverter a simplicidade dele em algo banal. O teu dom é denominares os crimes existenciais que praticas romance porque são em nome de um ideal ( o teu ideal) que é fantasma, que é inocuo e infertil. Um ideal antigo e gasto, corrompido pelas crueis certezas da vida.
Mas não ele. Descodifica as pequenas intrigas da realidade segundo padroes, observa os pormenores e interpreta-os segundo as leis da matematica, da fisica e da filosofia. Procura a uniao perfeita. Vive segundo o momento tornando-o imortal ao assumir a efemeridade de tudo o que existe.
E tudo o que sabes fazer, tudo o que procuras fazer, é rompe-lo, rasga-lo. Porque o não compreendeste o nunca compreenderás. Ele é um génio, um artista, um ser iluminado pela junçao do raciocinio com a maxima sensibilidade humana e tu és esse ser antagonico ao dele. És uma fraude com um ego demasiado mediocre para conseguires aguentar viver sem te alimentares da ruína que lhe causas.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Desafio XLIII - Resposta

Em cada cem pessoas:
Sabendo tudo mais que os outros:
⁃ cinquenta e duas,
inseguras de cada passo:
⁃ quase todas as outras,
prontas a ajudar desde que isso não lhes tome muito tempo:
⁃ quarenta e nove, o que já não é mau,
sempre boas porque incapazes de ser outro modo:
⁃ quatro; enfim, talvez cinco,
prontas a admirar sem inveja:
⁃ dezoito,
induzidas em erro por uma juventude, afinal tão efémera:
⁃ mais ou menos sessenta,
com quem não se brinca:
⁃ quarenta e quatro,
vivendo sempre angustiadas em relação a alguém ou a qualquer coisa:
⁃ setenta e sete,
dotadas para serem felizes:
⁃ no máximo vinte e tal,
inofensivas quando sozinhas, mas selvagens quando em multidão:
⁃ isso, o melhor é não tentar saber mesmo aproximadamente,
prudentes depois do mal estar feito:
⁃ não mais do que antes,
não pedindo nada da vida excepto coisas:
⁃ trinta, mas preferia estar enganado,
encurvadas, sofridas, sem um lanterna que lhes ilumine as trevas:
⁃ mais tarde ou mais cedo, oitenta e três,
justas:
⁃ pelo menos trinta e cinco, o que já não é mau,
mas se a isso juntarmos o esforço de compreender:
⁃ três,
dignas de compaixão:
⁃ noventa e nove,
mortais:
⁃ cem por cento, número que, de momento, não é possível mudar.
(Wislawa Szymborska)



O meu irmão nasceu grande demais. A minha mãe deu por si na casa de banho a impedi-lo de nascer, ou pelo menos a atrasá-lo entre as dores atrozes que sentia como fios de facas nas pernas.
O resultado foi uma massa disforme e uma mulher pequena esvaída em sangue, distribuídos pelos azulejos brancos.

Como um pronuncio de tragédia atravessada pelas vidas, o meu irmão foi sempre grande demais para os sítios e carregava com ele um inevitável coro de desgraças. Tudo nele cheirava a uma tragédia eminente, como se estivesse marcado com tatuagens ancestrais, anteriores a Deus, que o condenavam a uma desgraça de vida, pior do que a morte.

E era tudo tão paradoxalmente triste, que quando ele sorria eu fixava as covinhas que lhe apareciam nas pontas das suas bochechas. Porque era de mim que ele gostava mais do que tudo.
Em pequenos, fomos estrategicamente separados e nunca andamos sequer na mesma escola. E enquanto eu era aparentemente calma, o meu irmão atravessava o seu corpo desgraçado pela vida e voltava todos os dias com problemas para os meus pais. Era demasiado influenciável e desinteressado. Era demasiado. Sempre.
Mas não comigo.
Era como se eu fosse a única coisa viva da vida dele.

Um dia os meus pais descobriram que ele se drogava, era pouco mais do que um adolescente.
Fiquei fechada no meu quarto, com a cabeça encostada à porta, enquanto eles gritavam com ele e lhe chamavam inútil apesar do tamanho que tinha, como se pelo facto de ele ser assim tão grande devesse mais à Humanidade.
As minhas mãos tremiam agarradas à porta e conseguia sentir as lágrimas invisíveis que lhe saltavam dos olhos. Conseguia ver o rosto lavado daquela tristeza tão entranhada que nenhum dos meus pais, entalados numa vida comum conseguiam descortinar.

Depois desse dia fecharam-no em casa e proibiram-no de se encontrar com os seus amigos, cientes de que eram as más influências que lhe traziam a droga. Sem nunca entenderem que a drogar estava ali em casa e que eram eles que lha davam, quando estipulavam horas para ele ler e ver televisão, acabaram por condená-lo à morte.
E não que ele se tenha resignado. Um dia quando cheguei da escola, ele tinha aberto as janelas e espalhava música para um quintal de prédios todos iguais a não perder de vista da sua prisão.
Porque o meu irmão não era deste mundo. Era grande demais.

No dia em que entrei na faculdade e me preparava para deixar a minha casa, os meus pais foram buscá-lo à rua onde passara mais uma noite, enroscado nas mantas esburacadas que o aqueciam. Ele entrou no meu quarto, afastou a mala meio desfeita e sentou-se no meio da minha cama a observar o tecto onde eu tinha colado o sistema solar fluorescente que brilhava no escuro.
Eu queria dizer-lhe que sabia exactamente o que ele sentia, mas não disse nada. Entre nós a vida sempre fora silenciosamente simples.
Então de repente, beijei-o. Os seus olhos encontraram os meus e não houve nenhum laivo de surpresa. Passamos a noite debaixo dum céu estrelado.
Afinal, a drogada era eu.

sábado, 30 de outubro de 2010

Desafio XLIII - Resposta

Não sabendo que era ímpossivel, foi la e fez.
Jean Cocteau


Nasci menino e cresci rapaz. Engordaram-me, como se gordura fosse formosura, saúde ou estatuto. Inchei com doces, crenças em deuses e expectativas de família e bondade. Tudo isso era tão balofo como eu mesmo. E, por isso, ainda dava os primeiros passos fora da meninice e já tinha rapidamente desinsuflado como um balão furado. Só que a pele estica, e molda-se, e depois para voltar ao sítio é um caso sério. E por isso, menino e rapaz, secaram-me as peles ocas que ficaram badalando-me no peito. E fiz-me homem com mamas.

Mas escondi-as sempre, evitei piscinas e balneários. Quando jogava à bola, era na equipa que jogava de camisola contra a que jogava em tronco nu. Ocultei o peito do sol, e cultivei uma pele enferma. Distraí meio Mundo com a minha cabeça porque sempre achei o meu corpo uma via-rápida para o embaraço e para o riso. O problema era que, secretamente, tive sempre o desejo de ser apenas um corpo. Sempre soube que à superficie à mais conteúdo do que em profundidade, e que a cabeça é pouco mais do que fonte de vaidades. De pé em museus, por entre estátuas de gregos perfeitos, chorei.

A multidão cercou-me, aplaudindo as minhas virtudes e inteligências e pedindo mais e mais daquele encanto que para mim era máscara e para o Mundo era alma e espírito santo. A multidão aproximou-se mais e mais, fez-me correr e saltar barreiras que não coloquei a mim mesmo, fez-me julgar mais do que entender, e fazer mais do que reflectir. Não podia durar, e um dia, já homem cansado, fui exposto como uma fraude. De olhos pesarosos e simpáticos, a multidão descobriu que debaixo da camisola havia um peito masculino com mamas. Ainda assim, espantado, vi a multidão dar-me receitas. Contra as mamas, o exercício, a cirurgia, a aceitação. A aceitação de que eu sou o que sou e não o que quero ser. E o que sou define-se com mamas. Escapar-lhes é impossível.

Tornei-me pois em mamas de homem. Esqueci o jogo de enganos que alimentava, e mostrei-me como aquilo que há de humano em mim me fez. Gritei histericamente contra a multidão e afastei os seus rostos egoístas, e para os mais resistentes quebrei todos os mandamentos. Ri-me na cara dos deus e arrastei o seu nome na lama. Fiz de todos os dias um longo sábado de desemprego, e no sábado trabalhei incansavelmente. Desonrei o meu pai e a minha mãe largando-os na beira da estrada da vida e deixando-os guiarem-se sozinhos. Desonrei o meu próprio corpo com tabaco e álcool e todos os venenos que consegui fazer correr no meu sangue. Fiz da castidade uma piada, e incentivei outros a fazerem o mesmo. Menti e acusei falsamente quem por outros motivos merecia ser acusado, e roubei-lhes as mulheres que cobiçava. Mulheres essas a quem roubei tempo e dedicação mesmo não me interessando. Só não matei, mas mesmo aí estive perto. Porque suponho que matar-me a mim mesmo também conta.

E quando a multidão me cercou de novo, desta vez pasmada perante a minha vileza, munida de paus e pedras para me quebrar com justiça, arranquei todos os botões da camisa para orgulhosamente exibir às armas e aos dedos acusatórios o meu peito com mamas.

E quem diria? As mamas desapareceram.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Desafio XLI - Resposta

“We don't read and write poetry because it's cute. We read and write poetry because we are members of the human race. And the human race is filled with passion. And medicine, law, business, engineering, these are noble pursuits and necessary to sustain life. But poetry, beauty, romance, love, these are what we stay alive for.”

 
“Bom dia, o meu nome é Lúcia e tenho 27 anos. Sou Engenheira.” Foi assim que me apresentei naquele estranho grupo. Parecíamos alcoólicos anónimos, sentados numa roda em cadeiras desconfortáveis. Quando levantei a cabeça, vi-os a olhar para mim sem muito interesse. Afinal, ninguém percebera qual era o meu problema.


Foi logo aí que eu senti que nada ia mudar.

A psicóloga olhou para mim com um ar condescendente. Fora ela que me trouxera ali. Ela sabia qual era o meu problema, depois de eu lhe ter explicado várias vezes, depois de lhe ter falado de filmes e de músicas que me inspiravam. Depois de lhe ter lido alguns dos meus poemas, ela começou a aceitar. Mas demorou muito tempo. E como toda a gente, nunca entendeu.

Quando todos tínhamos terminado, senti uma vontade incontrolável de voltar para o meu quarto e enterrar a minha cabeça na almofada mais profunda. Todas aquelas pessoas estavam cheias de cicatrizes, de horrores de infância, de maus tratos. E eu voltei a sentir que o horror era meu, que eu carregava o próprio problema, como um filho que estava permanentemente em gestação mas que nunca nascia para seguir o seu caminho.

E entendi a sua mensagem: o meu problema não existia perante o Mundo. Que audácia era a minha de sofrer perante aquela amálgama de cortes nos pulsos, de mortes nas veias e vidas estripadas por pais?

Entendi a mensagem, porque já a tinha ouvido muitas vezes.
Era sempre assim.

E dei por mim a vasculhar horrores na minha vida, vestígios e sobras de alguma coisa que me pusesse em pé de igualdade com aquela gente mutilada com razões para acabar com a vida.
Aparentemente o suicídio deve ser acompanhado de uma explicação. E dei por mim a sorrir com a ironia da situação, porque foi justamente por nunca conseguir escrever uma carta a explicar coisa alguma que a morte me seduzia tanto.

Foi quando passei a porta que uma rapariga veio ter comigo e abruptamente me disse que gostava de me falar. Tinha um ar carrancudo.
“Se alguém te mandou falar comigo, para me convencer que devia seguir a minha vida ordinária, podes ir embora”, disse-lhe eu de mau humor. “Não acho que devias viver a tua vida ordinária”. Mas eu continuei “Se alguém te disse que devia arranjar um escape, um fetiche, uma vida dupla, uma máscara, por favor poupa-me a esse discurso. Já o ouvi tantas vezes que sou capaz de vomitar aqui”. Ela pareceu surpreendida, “vamos beber alguma coisa então, não quero que fiques maldisposta”.
E assim começou a nossa amizade.

Entramos num café e eu disse-lhe de rompante que as pessoas que só pensam em pagar os seus impostos e a segurança social me deixam nervosa. Ela riu-se e pediu dois martínis.
Com o descer do álcool pela minha garganta lisa fui ficando mais lúcida e comecei a achar que tinha sido ridícula: há ainda uma altura em que suponho que dramatizo demais um problema que não existe.
"Desculpa, estou irascível hoje. Aqueles encontros de grupo arrasam-me”.
Depois olhei para ela e vi que era incrivelmente bonita. Mas havia algo de estranho na sua beleza, como se a roupa estivesse mal pendurada num cabide.
“ Eu ando naquele grupo de acompanhamento e resolvi deixá-lo hoje.”
Senti um terreno deliciosamente frágil, como uma porção de areia lisa e virgem na madrugada em que o pisamos.
Não voltamos a falar daquilo, mas também não regressamos ao grupo e eu deixei de atender a minha psicóloga a partir dessa tarde.

Não demorei muito a descobrir porque é que ela frequentava aquele grupo de anónimos. Disse-me frontalmente que queria mudar de sexo.
E eu sobretudo, sabia o que era viver num corpo errado.

Um dia contou-me que já tivera muitos namorados e que o sexo nunca a satisfazia porque ela sentia-se um homem, pensava como um há já muito tempo. E era engraçado ver que era verdade. Quando comecei a sair com ela, a ir ao cinema, a partilhar cafés apercebi-me que era um homem quem ali estava. Um homem retraído e esquisito debaixo de um corpo voluptuoso cheio de curvas.
Não me admirei, portanto, que quando fosse pequena se tivesse achado estranha ao espelho. Inatamente, a sua mente era masculina e isso transparecia nos seus gestos e expressões. E por isso tinha também deixado o mesmo acompanhamento em que eu estava, quando um dos psicólogos lhe disse que ela não era homem nenhum, se nem de futebol gostava.

Passamos muitas horas a conversar. Às vezes ela encontrava-me à saída do meu trabalho, onde me enfiava em números e jogos de bolsa que atiravam a Arte a originalidade pela janela.
Um dia ela perguntou-me como é que eu me tinha metido nesta vida. “Sei lá, disse-lhe”. Nessa altura bebia todas as noites e àquela hora a minha boca já estava pastosa. “Quando era pequena disseram-me que eu tinha jeito para os números e eu acreditei. A mentira tornou-se verdade.”
Ela sorriu-me. “E se agora acreditares no contrário, não podes construir a tua nova verdade?”
“É difícil” e foi a primeira vez em muito tempo que respondia a estas perguntas. “Já construi demasiada vida baseada em Ciência. É a minha aptidão para estas coisas que me paga a renda de casa ou me faz viajar. O meu sucesso é a falta de pressão e de paixão no que faço. Eu sou científica para com a própria Ciência. E é isso que eu odeio em mim, a Ciência está no meu cérebro em cada momento.”
“Não podes usar o teu sucesso para viver a tua criatividade? Adoro quando vais sair do trabalho e passas pelo centro comercial para trocares de roupa. Adoro quando vives essa tua pele em êxtase. És tu. Tu és a pessoa que se veste formal de manhã e se transforma à noite.”
Olhei-a longamente através da noite. Aquilo era diferente. Aquilo não era uma vida dupla para mim. Aquilo era eu, eu era uma vida dupla.

“Porque não amas uma mulher?”

“Quem te diz que não amo?”


Não voltamos a falar por uma semana. Instalou-se entre nós um silêncio desconfortável e comprometedor, que me abafava de medo e ao mesmo tempo me electrizava o corpo. Nessa semana não consegui pegar no baixo, nem tive paciência para a minha habitual mudança de roupa antes de seguir para a escola de música. A janela apanhou-me desprevenida a olhar para um computador onde os números desfocados faziam um efeito engraçado nos meus olhos. Também não consegui escrever e os dias pareceram-me ainda mais tristes do que costumavam ser, fechados entre quatro paredes, durante oito horas. O Inverno também não ajudava com dias curtos preenchidos por trabalho produtivo, nobre e necessário. E também seco, encarquilhado e sem romance.

Por isso liguei-lhe e encontramo-nos debaixo de uma chuva torrencial. Às sete estava escuro como se fosse noite cerrada.
Assim que me viu, agarrou-me num longo beijo. As poucas pessoas que passavam na rua pararam para olhar.

“Estava à porta da tua casa, quando me ligaste”

Voltamos para minha casa de mãos dadas. Eu não sabia se estava apaixonada por uma mulher, ou por um homem que vivia num corpo de mulher. Mas também não queria saber, a vida nunca me parecera tão autêntica.
Enquanto nos despíamos das roupas molhadas coladas ao corpo, ela passava as mãos pela minha pele. Nunca nenhum homem me tinha desejado daquela forma. E eu senti o romance e a unicidade da vida que ela me passava. A verdade é que também nunca tinha desejado alguém daquela forma.

“És a poesia da minha vida”

“És o homem da minha vida”

De manhã, quando acordamos, foi um Novo Mundo que acordou em nós.







segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Desafio XLII - Resposta

Conduzes a vida com um sonho na algibeira. E sonhas que algum dia esse sonho te faça inchar os bolsos e rebente com as calças do fato feito à medida da tua perna, e finalmente vás trabalhar vestido de ti. Tu mesmo, vestido apenas da tua pele última e verdadeira.

E gastas metade dos teus dias no inferno, suando num fato, e enchendo os bolsos de moedas, a cabeça de números e a boca de simpatias. Aguentas mais uma conversa sem rumo e alimentas mais um sorriso fácil, porque te palpita um coração no bolso que é maior do que a tua vida e do que a vida dos outros. Esse coração tomará um dia conta de ti. És como um chocolate, escritor por dentro e engenheiro por fora. Crias bibliotecas na cabeça, e um dia vais virar-te do avesso e todos os livros te cairão ao chão, e só terás que apanhá-los e atirá-los ao Mundo.

Porque sim, tu és mais do que a tua condição de escravo de carreira, a forma moderna de controlar a mente e congelar o sangue rumo a uma morte lenta. Porque sim, tu és capaz de te erguer do chão. Porque sim, o teu sonho é real e tem um corpo. É só esperar, e ele um dia vai tomar conta de ti.

Movido por essa esperança, o dia chega em que tu despes o fato. O Mundo é mais verde e o céu mais azul, e tu vais escrevê-lo com as mesmas cores vivas. Abandonas o inferno onde és estrangeiro, e à tua frente não há senão estradas e caminhos e possibilidades inúmeras, tantas quantas as combinações de palavras. Sentes a liberdade como uma brisa a passar-te pelo rosto, e prossegues a fazer do teu impossível o teu quotidiano.

E nada te sai. E descobres que as frases e as personagens que outrora se escreviam na tua mente eram apenas ecos e sombras de sombras. E quando se vive entre sombras, nunca se chega a ser concreto. Ficas imóvel, incapaz de arrancares uma linha para uma folha. Há uma mão a tolher a tua mão.

E aí o Mundo arde e o céu fecha-se em tempestade permanente. Achavas que dentro do fato vivias o inferno. Mas não. Conheces o inferno quando descobres que não chegaste sequer a viver teu o sonho tão querido e tão próximo, uma vez que nunca se perde o que nunca existiu. O inferno é o sítio onde não tens nada teu.

Os teus bolsos estiveram sempre vazios.