Wings para Alice in Wonderland:
http://www.youtube.com/watch?v=_mVW8tgGY_w
Alice in Wonderland para Ricardo:
"Imagine if you suddenly learned that the people, the places, the moments most important to you were not gone, not dead, but worse, had never been. What kind of hell would that be? "
from A Beautiful Mind
Ricardo para Wings:
“Great spirits have always found violent opposition from mediocrities. The latter cannot understand it when a man does not thoughtlessly submit to hereditary prejudices but honestly and courageously uses his intelligence.”
(Albert Einstein)
terça-feira, 19 de outubro de 2010
domingo, 17 de outubro de 2010
Desafio XLI - Resposta
Passam hoje cinco anos e ainda não consigo cortar a barba. Apará-la com uma tesoura é fácil, e sempre controla o maior influxo de pelos que tentacularmente me cobrem a face. O sangue não deixa de me subir à cabeça ao sentir o frio reflectido nas faces das lâminas. Mas com a tesoura sinto-me como um explorador submarino, caçando em alto mar um polvo e cortando-lhe os tentáculos, um pelo de cada vez. O mar acalma-me. Aprendi esse truque com o primeiro psicólogo que me assistiu no aeroporto. E também foi ele quem me ensinou a usar sons do mar para adormecer. É curioso como o mar não me assusta. Isto porque estávamos a sobrevoar o Atlântico quando aconteceu. Não havia senão aquela grande massa de água debaixo dos nossos pés. Água espessa como o pânico em que nos afogámos dentro do avião. Água, que em pequenas quantidades ainda é o meu fantasma. Por vezes, quando me servem um copo, vejo-o tingir-se de vermelho, e esfrego longamente os olhos para repor a sanidade. E de novo penso nele. O passageiro 15A.
Eu era o passageiro 15B. Já revivi a cena nos meus pesadelos conturbados centenas de vezes. Lá estou eu, ordeiramente na fila para o check-in. Lá estou eu, finalmente a chegar ao balcão de check-in, e lá estão a perguntar-me se tenho preferência no lugar. E eu a responder que não. Quando se acumulam voos no historial, as cadeiras de avião tornam-se semelhantes, e começa a ser indiferente estar mais à frente ou mais atrás. E por isso respondi-lhe que não tinha preferência. Tinha sido tão fácil quanto dizer à senhora do check-in para me colocar mais à frente ou mais atrás. E talvez hoje esta barba não tivesse que permanecer no meu rosto como uma cicatriz, uma amputação ao contrário.
As máscaras de oxigénio caíram sem nada que o anunciasse. A turbulência só começou depois. A tripulação saltou dos seus lugares e pediu-nos que permanecessemos calmos. Pediu-nos que colocassemos as máscaras. Mas ele recusou-se. O passageiro 15A. Não tinha nem reparado nele nos vinte minutos anteriores desde a descolagem. Ele levantou-se do lugar, passou por cima de mim sem pedir permissão. E levantou os braços e levantou a voz.
Os braços foram-lhe violentamente baixados por duas hospedeiras-homem. O seu corpo ténue foi facilmente subjugado por forças superiores à sua. Parecia possuído, e só parou de gritar quando recebeu um punho fechado no estômago e um punhado de saliva lhe saltou da boca, juntamente com um uivo grave. Por essa altura, o avião já era um poço da morte. Levantei-me para o colocarem na cadeira ao meu lado. Estava fraco, ligado à vida pelo tubo que lhe bombeava ar concentrado para os pulmões, e apertado por um cinto que lhe amplificaria por certo a dor proveniente do estômago violentado. Estavamos todos assim. Surpreendidos e amedrontados pela forma como o avião nos sacudia como um cão com pulgas. Projectávamos a nossa esperança por um tubo que nos dava um ar relaxante. Acho que nenhum de nós se apercebeu bem das palavras loucas do passageiro 15A.
O avião parecia cada vez mais irado. E o passageiro 15A retirou a máscara. E, sorvendo longamente o ar rarefeito da cabina, expelia a custo um riso ofegante. Eu ainda acordo a meio da noite com aquele riso a cortar os sons de maresia no meu quarto. E ainda julgo escutá-lo tantas vezes durante o dia a discursar, gritando uma palavra de cada vez.
Bastaram segundos. Um minuto, no máximo, e o passageiro 15A deixou de se mexer. A tripulação correu a cobri-lo com uma manta para que mais ninguém reparasse. Tudo para evitar o pânico. Estranho como o sacrifício do passageiro 15A fez o avião parar imediatamente de tentar matar-nos. Já tivera o seu sangue, o seu sacrifício humano. Os deuses estavam calmos. Fez-me pensar, em choque, se as tribos primitivas não estariam correctas.
Em terra, disse-se que o passageiro 15A perecera ao retirar a máscara. Disse-se que sofria de problemas psiquiátricos sérios. E todos aceitam que esses são os indivíduos que morrem primeiro: os que se recusam a jogar a vida com as regras todas.
O avião ia lotado, e eu fui o único passageiro a saber a verdade. Eu, o passageiro 15B. Eu, que fui recebido no aeroporto por um psicólogo e um papel para assinar em como nunca revelaria a verdade. Em troca, recebi informação. Eu sei que houve inquéritos. Pessoas foram demitidas. Eu sei que ninguém conseguiu explicar como ele violou tão obviamente o controlo de segurança. Talvez não o tivessem revistado com cuidado, ou talvez as máquinas estivessem avariadas. Bastava que lhe tivessem apalpado o bolso pequeno das calças de ganga, aquele bolso que ninguém sabe para que serve, e talvez hoje o passageiro 15A estivesse vivo. O bolso pequeno foi onde ele procurou, com gestos moles, aquela coisa. Lâmina. De barbear. Ainda me custa a dizer o nome. Acho que nunca mais conseguirei tocar numa.
Foi neste mesmo dia, há cinco anos atrás. Eu aprendi muito com o passageiro 15A. Aprendi que o seu sangue jorrar enquanto a pressão for suficiente. Aprendi que depois goteja e mancha terrificamente o chão. Aprendi que a barba crescida não contribui em nada para o charme de um homem. Aprendi que dormir pode ser mais complicado do que passar uma noite em claro. Depois de muitas sessões com o psicólogo do aeroporto, aprendi a ter pena do passageiro 15A. Afinal, ele demitiu-se desnecessariamente da vida antes de se poder demitir do emprego e da namorada. Depois de mais sessões ainda, aprendi que prefiro viver a vida ordeiramente numa fila até chegar a minha vez para ser atendido pela morte. Porque nesta fila a penalidade por desrespeito é sermos puxados para o primeiro lugar de acesso à morte.
E neste momento o psicólogo do aeroporto está a tentar que eu aprenda a responder ao passageiro 15A quando, da profundeza dos meus pesadelos, ele irrompe por entre os sons do mar da minha insónia e me diz:
Eu era o passageiro 15B. Já revivi a cena nos meus pesadelos conturbados centenas de vezes. Lá estou eu, ordeiramente na fila para o check-in. Lá estou eu, finalmente a chegar ao balcão de check-in, e lá estão a perguntar-me se tenho preferência no lugar. E eu a responder que não. Quando se acumulam voos no historial, as cadeiras de avião tornam-se semelhantes, e começa a ser indiferente estar mais à frente ou mais atrás. E por isso respondi-lhe que não tinha preferência. Tinha sido tão fácil quanto dizer à senhora do check-in para me colocar mais à frente ou mais atrás. E talvez hoje esta barba não tivesse que permanecer no meu rosto como uma cicatriz, uma amputação ao contrário.
As máscaras de oxigénio caíram sem nada que o anunciasse. A turbulência só começou depois. A tripulação saltou dos seus lugares e pediu-nos que permanecessemos calmos. Pediu-nos que colocassemos as máscaras. Mas ele recusou-se. O passageiro 15A. Não tinha nem reparado nele nos vinte minutos anteriores desde a descolagem. Ele levantou-se do lugar, passou por cima de mim sem pedir permissão. E levantou os braços e levantou a voz.
“Que momento maravilhoso! Vocês nunca mais se vão sentir assim tão vivos. Não fiquem aí atrás de máscaras, usem-no para fazerem o que sempre quiseram! Beijem o passageiro do lado, liguem os telemóveis e digam a alguém aquilo que sempre quiseram dizer e nunca tiveram coragem! Não entendem como isto é o melhor que já vos aconteceu?”
Os braços foram-lhe violentamente baixados por duas hospedeiras-homem. O seu corpo ténue foi facilmente subjugado por forças superiores à sua. Parecia possuído, e só parou de gritar quando recebeu um punho fechado no estômago e um punhado de saliva lhe saltou da boca, juntamente com um uivo grave. Por essa altura, o avião já era um poço da morte. Levantei-me para o colocarem na cadeira ao meu lado. Estava fraco, ligado à vida pelo tubo que lhe bombeava ar concentrado para os pulmões, e apertado por um cinto que lhe amplificaria por certo a dor proveniente do estômago violentado. Estavamos todos assim. Surpreendidos e amedrontados pela forma como o avião nos sacudia como um cão com pulgas. Projectávamos a nossa esperança por um tubo que nos dava um ar relaxante. Acho que nenhum de nós se apercebeu bem das palavras loucas do passageiro 15A.
O avião parecia cada vez mais irado. E o passageiro 15A retirou a máscara. E, sorvendo longamente o ar rarefeito da cabina, expelia a custo um riso ofegante. Eu ainda acordo a meio da noite com aquele riso a cortar os sons de maresia no meu quarto. E ainda julgo escutá-lo tantas vezes durante o dia a discursar, gritando uma palavra de cada vez.
“O que esperam? Estão todos aí parados, a marcar lugar na fila para a morte? Eu cá não espero por ninguém. Sempre me quis demitir. Demitir do meu emprego. Demitir da minha namorada que me aborrece. Demitir-me de viver. Mas acho que andava à espera do momento certo. Este é o momento!”
Bastaram segundos. Um minuto, no máximo, e o passageiro 15A deixou de se mexer. A tripulação correu a cobri-lo com uma manta para que mais ninguém reparasse. Tudo para evitar o pânico. Estranho como o sacrifício do passageiro 15A fez o avião parar imediatamente de tentar matar-nos. Já tivera o seu sangue, o seu sacrifício humano. Os deuses estavam calmos. Fez-me pensar, em choque, se as tribos primitivas não estariam correctas.
Em terra, disse-se que o passageiro 15A perecera ao retirar a máscara. Disse-se que sofria de problemas psiquiátricos sérios. E todos aceitam que esses são os indivíduos que morrem primeiro: os que se recusam a jogar a vida com as regras todas.
O avião ia lotado, e eu fui o único passageiro a saber a verdade. Eu, o passageiro 15B. Eu, que fui recebido no aeroporto por um psicólogo e um papel para assinar em como nunca revelaria a verdade. Em troca, recebi informação. Eu sei que houve inquéritos. Pessoas foram demitidas. Eu sei que ninguém conseguiu explicar como ele violou tão obviamente o controlo de segurança. Talvez não o tivessem revistado com cuidado, ou talvez as máquinas estivessem avariadas. Bastava que lhe tivessem apalpado o bolso pequeno das calças de ganga, aquele bolso que ninguém sabe para que serve, e talvez hoje o passageiro 15A estivesse vivo. O bolso pequeno foi onde ele procurou, com gestos moles, aquela coisa. Lâmina. De barbear. Ainda me custa a dizer o nome. Acho que nunca mais conseguirei tocar numa.
Foi neste mesmo dia, há cinco anos atrás. Eu aprendi muito com o passageiro 15A. Aprendi que o seu sangue jorrar enquanto a pressão for suficiente. Aprendi que depois goteja e mancha terrificamente o chão. Aprendi que a barba crescida não contribui em nada para o charme de um homem. Aprendi que dormir pode ser mais complicado do que passar uma noite em claro. Depois de muitas sessões com o psicólogo do aeroporto, aprendi a ter pena do passageiro 15A. Afinal, ele demitiu-se desnecessariamente da vida antes de se poder demitir do emprego e da namorada. Depois de mais sessões ainda, aprendi que prefiro viver a vida ordeiramente numa fila até chegar a minha vez para ser atendido pela morte. Porque nesta fila a penalidade por desrespeito é sermos puxados para o primeiro lugar de acesso à morte.
E neste momento o psicólogo do aeroporto está a tentar que eu aprenda a responder ao passageiro 15A quando, da profundeza dos meus pesadelos, ele irrompe por entre os sons do mar da minha insónia e me diz:
“não aprendeste nada.”
sexta-feira, 15 de outubro de 2010
Desafio XLI
Alice in Wonderland para Wings:
http://www.youtube.com/watch?v=WLrrBs8JBQo
Ricardo para Alice in Wonderland:
http://www.youtube.com/watch?v=WLrrBs8JBQo
Ricardo para Alice in Wonderland:
"We don't read and write poetry because it's cute. We read and write poetry because we are members of the human race. And the human race is filled with passion. And medicine, law, business, engineering, these are noble pursuits and necessary to sustain life. But poetry, beauty, romance, love, these are what we stay alive for. To quote from Whitman,
'O me! O life!... of the questions of these recurring;
Of the endless trains of the faithless--of cities filled with the foolish;
What good amid these, O me, O life?
Answer:
That you are here - that life exists, and identity;
That the powerful play goes on and you may contribute a verse.'
That the powerful play goes on and you may contribute a verse.
What will your verse be?"
("Dead Poets Society")
'O me! O life!... of the questions of these recurring;
Of the endless trains of the faithless--of cities filled with the foolish;
What good amid these, O me, O life?
Answer:
That you are here - that life exists, and identity;
That the powerful play goes on and you may contribute a verse.'
That the powerful play goes on and you may contribute a verse.
What will your verse be?"
("Dead Poets Society")
Ninguém sabe para quê.
Deve ser para a morte."
Roberto Juarrot
terça-feira, 12 de outubro de 2010
Desafio XL - Resposta
Give a heart, take a heart.
O coração é um orgão acessório. Pode aquecer-se com um filme lamechas, pode gelar-se com medo, pode acelerar-se com cafeína, pode parar-se com um susto, pode pôr-se a funcionar com um choque eléctrico, pode evitar-se com um bypass, pode arrancar-se para oferecer a um grande amor e substituir-se pelo da outra pessoa. E fica-se assim, a trabalhar como um relógio com outra máquina, e dá-se horas ao mesmo tempo.
Give a heart, but you cannot take a heart.
O coração só é um orgão essencial quando a pessoa a quem oferecemos o nosso coração não nos oferece o seu de volta. A troca fica incompleta. E ficamos com um vazio no peito do tamanho do nosso afecto. Efectivamente morremos. E movemo-nos como vampiros sem dentes, irremediavelmente sedentos, incansavelmente sem descanso. E sofremos do coração. Tornamo-nos pessoas sem coração.
You have no heart to give, but you take a heart.
O coração chega a queimar quando o nosso peito está vazio. Se alguém nos oferece o seu coração, aceitamos. Mas se não temos coração nenhum para oferecer de volta, ficamos com um coração nas mãos que não é nosso. Ele arde, magoa. Vemos o sorriso no rosto daquele coração delicado, docemente pedindo retribuição. Sentimos o nosso coração lá longe e reconhecemo-nos na dor deste que agora usamos para tapar o buraco no nosso peito. E amaldiçoamos o dia em que mandámos o coração embora.
Give no heart, take your heart back.
Mas o coração também é um orgão que volta a crescer. É preciso tempo e cuidado, mas ele reaparece. No dia em que ele reaparecer, aprende que o teu coração não se dá a ninguém. Quanto muito, empresta-se.
O coração é um orgão acessório. Pode aquecer-se com um filme lamechas, pode gelar-se com medo, pode acelerar-se com cafeína, pode parar-se com um susto, pode pôr-se a funcionar com um choque eléctrico, pode evitar-se com um bypass, pode arrancar-se para oferecer a um grande amor e substituir-se pelo da outra pessoa. E fica-se assim, a trabalhar como um relógio com outra máquina, e dá-se horas ao mesmo tempo.
Give a heart, but you cannot take a heart.
O coração só é um orgão essencial quando a pessoa a quem oferecemos o nosso coração não nos oferece o seu de volta. A troca fica incompleta. E ficamos com um vazio no peito do tamanho do nosso afecto. Efectivamente morremos. E movemo-nos como vampiros sem dentes, irremediavelmente sedentos, incansavelmente sem descanso. E sofremos do coração. Tornamo-nos pessoas sem coração.
You have no heart to give, but you take a heart.
O coração chega a queimar quando o nosso peito está vazio. Se alguém nos oferece o seu coração, aceitamos. Mas se não temos coração nenhum para oferecer de volta, ficamos com um coração nas mãos que não é nosso. Ele arde, magoa. Vemos o sorriso no rosto daquele coração delicado, docemente pedindo retribuição. Sentimos o nosso coração lá longe e reconhecemo-nos na dor deste que agora usamos para tapar o buraco no nosso peito. E amaldiçoamos o dia em que mandámos o coração embora.
Give no heart, take your heart back.
Mas o coração também é um orgão que volta a crescer. É preciso tempo e cuidado, mas ele reaparece. No dia em que ele reaparecer, aprende que o teu coração não se dá a ninguém. Quanto muito, empresta-se.
terça-feira, 5 de outubro de 2010
Desafio XXXIX- Resposta
Ele amou-te mas que importa isso para ti? Nada. Disse-te que o amor era inutil para ele , que era irrelevante. E quando um dia se foi embora, nunca mais voltou. Nunca mais voltou para ti. Mas para ti o amor não era inutil nem irrelevante. O amor era tudo o que te fazia levantar da cama no dia seguinte. E o amor dele, o ser dele, era o teu sol de Verão que aquece e ilumina.
Mas nunca mais ele telefonou. Nunca mais lhe ouviste o riso alto e exótico. Nunca mais viste o seu rosto tao belo, tao peculiar e desumanamente belo. Porque quando se foi embora, deixou-te o pedaço de coraçao de pano negro dele que te pertencia. Para nunca mais voltar. Porque o amor para ele era inutil mas sabia que para ti não era, tornou o sentimento real , para não ficares com nada. Amava-te, ele, te nunca esqueças disso. So que já não pode voltar.
Mas, às vezes, quando caminhavas na rua e alguem se parecia com ele uma esperança moribunda e triste nasciate no peito, os teus dedos ganhavam vida. O coraçao entregava-se ao fogo expectante e ardia de tristeza. Porque não era ele, sabias que não era ele. Mas o teu ser preferia essa ilusao, essa pequena ilusao de felicidade durante uma fracçao de tempo. Porque já nem o consolo da ausencia de vida tinhas, tinhas menos do que nada e nada disto é possivel. Tinhas muito menos do que nada e, nesses momentos, abrias o cofre e seguravas com carinho o pedaço de coraçao de pano dele. Era tao fragil e ele é este ser, que um dia se foi embora e no dia anterior já não estava mais contigo.
O tempo passa sempre e congela sempre a dor mais crua e aguda. A tua memória dele tornou-se desfocada, perdeu nitidez. Deixaste de te lembrar exactamente de quem ele era, deixaste de ter um referencial para procurar. Continuaste à espera do telefonema mas como nunca o recebeste habituaste-te a não espera-lo.
E , um dia, ias a caminha na rua e ouviste o riso dele. O teu coração reconheceu-o de imediato. Lembraste-te que nunca te telefonou e que agora estava ali, igual ao que sempre foi. E deste-lhe o teu pedaço de coraçao de pano que lhe pertencia, que lhe pertenceu durante todos estes anos porque tu já não eras tu. Porque ele era o teu Sol de Verão e na ausencia dele tornaste-te na pessoa que ama o Inverno. A memoria dele passou a ser desfocada, o teu coraçao ardeu. Tu já não és tu por todas as noites que não dormiste à espera do telefonema dele, do telefonema que ele te prometeu que nunca faria.
Ele tornou o teu amor inutil.
Mas nunca mais ele telefonou. Nunca mais lhe ouviste o riso alto e exótico. Nunca mais viste o seu rosto tao belo, tao peculiar e desumanamente belo. Porque quando se foi embora, deixou-te o pedaço de coraçao de pano negro dele que te pertencia. Para nunca mais voltar. Porque o amor para ele era inutil mas sabia que para ti não era, tornou o sentimento real , para não ficares com nada. Amava-te, ele, te nunca esqueças disso. So que já não pode voltar.
Mas, às vezes, quando caminhavas na rua e alguem se parecia com ele uma esperança moribunda e triste nasciate no peito, os teus dedos ganhavam vida. O coraçao entregava-se ao fogo expectante e ardia de tristeza. Porque não era ele, sabias que não era ele. Mas o teu ser preferia essa ilusao, essa pequena ilusao de felicidade durante uma fracçao de tempo. Porque já nem o consolo da ausencia de vida tinhas, tinhas menos do que nada e nada disto é possivel. Tinhas muito menos do que nada e, nesses momentos, abrias o cofre e seguravas com carinho o pedaço de coraçao de pano dele. Era tao fragil e ele é este ser, que um dia se foi embora e no dia anterior já não estava mais contigo.
O tempo passa sempre e congela sempre a dor mais crua e aguda. A tua memória dele tornou-se desfocada, perdeu nitidez. Deixaste de te lembrar exactamente de quem ele era, deixaste de ter um referencial para procurar. Continuaste à espera do telefonema mas como nunca o recebeste habituaste-te a não espera-lo.
E , um dia, ias a caminha na rua e ouviste o riso dele. O teu coração reconheceu-o de imediato. Lembraste-te que nunca te telefonou e que agora estava ali, igual ao que sempre foi. E deste-lhe o teu pedaço de coraçao de pano que lhe pertencia, que lhe pertenceu durante todos estes anos porque tu já não eras tu. Porque ele era o teu Sol de Verão e na ausencia dele tornaste-te na pessoa que ama o Inverno. A memoria dele passou a ser desfocada, o teu coraçao ardeu. Tu já não és tu por todas as noites que não dormiste à espera do telefonema dele, do telefonema que ele te prometeu que nunca faria.
Ele tornou o teu amor inutil.
Desafio XXXVIII- Resposta
Ah não te consideras pouco ou mesquinho? Não claro que não, como poderias tu, tudo o que vês é tudo o que és. Vês pouco, julgas muito, condenas em vácuo. Não importa o que almejas ser o teu horizonte é demasiado curto .
Mas poder-me-ias ouvir , só por respeito. Só por uma questao de não deixares transparecer que essa tua opiniao mediocre que te define é tudo o que tens, se a puserem em causa morres vivo e amanha estaras morto, estando vivo ainda.
Oh vá lá não faças isso não me tentes distorcer e estrangular o coraçao até te estou a tentar ajudar. Estou-te a tentar dizer que tens uma leve hipotese. Não reajas assim ao choque, não o critiques, não o abomines. Não o condenes porque vês um pecado monstruoso. O choque é te util para ti enquanto Homem que deseja ser melhor. O choque é te util porque te obriga a reflectir. O choque faz-te ponderar sobre tudo o que tu já conheces, sobre tudo o que consideraste que já conhecias. Sei, eu sei, o choque bruto e aberto é extraordinariamente desconfortavel. Tens a tendencia da repulsa, da repugnancia , tens intrinseco em ti o acto de virar a cara e condenar sob julgamento moral.
Sob o teu julgamento moral, não ajas dessa forma de pessoa minuscula que diz que o seu valor moral é o valor moral do mundo. Sabes que o não é, tens as tuas opiniões que são verdade absoluta para ti. E é isso que o sentimento de choque explicito te faz. Reflectes sobre as tuas opinioes, consolidas as tuas teorias ou deixas a mente fluir para encontrares outras. O choque é o exagero máximo que te deixa formular uma opiniao fudnamentada. Uma reflexao válida. Porque, ouve-me, não importa se o que pensas é verdade absoluta, interessa que seja válido. Os argumentos têm de ser válidos, a verdade não deixa de ser sempre subjectiva.
Oh vais morrer assim, de mansinho. Nem as tuas cinzas vao conseguir não serem apenas isso. Pedaços de uma existencia pequena e mediocre, altamente parasita. Porque? Porque?! Porque nunca quiseste ser salvo pelo sentimento de choque, pela repulsa do choque. Levantaste a mao e condenaste porque para ti, para a tua verdade absoluta ,era pecado.
Mas normalmente o choque é fundamentado. É valido. Normalmente, o choque é uma forma extraordinária e perspicaz de te fazer passar uma mensagem de uma forma tao excentrica que te obriga a reflectir sobre ela. O choque é o inverso da discriminação, dos tabus, das convençoes sociais visiveis e invisiveis. O choque é te util e tu sempre o condenaste. Morrerás porque recusaste ser salvo por esse sublime sentimento que te alcança quando podes não ter razao. E morrerás assim, pequeno e mediocre. Parasita. E ninguem chorará por ti porque nunca causaste choque algum. Nem quando agias sob pensamentos radicais extremistas, cheios de uma falta de humanidade decorada com carnificina. Ninguem se importará porque nunca causaste choque, foste simplesmente mais um inutil cru que viveu neste mundo. E nem sequer foste bom o suficiente para esse papel.
Ironico, não? Devias ter-me ouvido porque eu fui educado pelo sentimento de choque em bruto.
Mas poder-me-ias ouvir , só por respeito. Só por uma questao de não deixares transparecer que essa tua opiniao mediocre que te define é tudo o que tens, se a puserem em causa morres vivo e amanha estaras morto, estando vivo ainda.
Oh vá lá não faças isso não me tentes distorcer e estrangular o coraçao até te estou a tentar ajudar. Estou-te a tentar dizer que tens uma leve hipotese. Não reajas assim ao choque, não o critiques, não o abomines. Não o condenes porque vês um pecado monstruoso. O choque é te util para ti enquanto Homem que deseja ser melhor. O choque é te util porque te obriga a reflectir. O choque faz-te ponderar sobre tudo o que tu já conheces, sobre tudo o que consideraste que já conhecias. Sei, eu sei, o choque bruto e aberto é extraordinariamente desconfortavel. Tens a tendencia da repulsa, da repugnancia , tens intrinseco em ti o acto de virar a cara e condenar sob julgamento moral.
Sob o teu julgamento moral, não ajas dessa forma de pessoa minuscula que diz que o seu valor moral é o valor moral do mundo. Sabes que o não é, tens as tuas opiniões que são verdade absoluta para ti. E é isso que o sentimento de choque explicito te faz. Reflectes sobre as tuas opinioes, consolidas as tuas teorias ou deixas a mente fluir para encontrares outras. O choque é o exagero máximo que te deixa formular uma opiniao fudnamentada. Uma reflexao válida. Porque, ouve-me, não importa se o que pensas é verdade absoluta, interessa que seja válido. Os argumentos têm de ser válidos, a verdade não deixa de ser sempre subjectiva.
Oh vais morrer assim, de mansinho. Nem as tuas cinzas vao conseguir não serem apenas isso. Pedaços de uma existencia pequena e mediocre, altamente parasita. Porque? Porque?! Porque nunca quiseste ser salvo pelo sentimento de choque, pela repulsa do choque. Levantaste a mao e condenaste porque para ti, para a tua verdade absoluta ,era pecado.
Mas normalmente o choque é fundamentado. É valido. Normalmente, o choque é uma forma extraordinária e perspicaz de te fazer passar uma mensagem de uma forma tao excentrica que te obriga a reflectir sobre ela. O choque é o inverso da discriminação, dos tabus, das convençoes sociais visiveis e invisiveis. O choque é te util e tu sempre o condenaste. Morrerás porque recusaste ser salvo por esse sublime sentimento que te alcança quando podes não ter razao. E morrerás assim, pequeno e mediocre. Parasita. E ninguem chorará por ti porque nunca causaste choque algum. Nem quando agias sob pensamentos radicais extremistas, cheios de uma falta de humanidade decorada com carnificina. Ninguem se importará porque nunca causaste choque, foste simplesmente mais um inutil cru que viveu neste mundo. E nem sequer foste bom o suficiente para esse papel.
Ironico, não? Devias ter-me ouvido porque eu fui educado pelo sentimento de choque em bruto.
Desafio XXXVII - Resposta
Estava lá sentado calmamente. Confortavel e dístraído enquanto o vento marítimo brincava com o seu cabelo vermelho. Parecia absorto do mundo que escorria debaixo dos olhos de mar dele. A vida que sustentava a existencia da praia era lhe tao distante e estava tao perto.
Tinha sempre momentos daqueles em que o mundo circundante tornava-se desfocado porque estava em auto-reflexao e não se apercebia do quanto atraia as mulheres com a sua beleza peculiar e postura carismática. Não queria saber, intrinsecamente, sabia so por respirar que nenhuma delas o interessava.Se fossem carismáticas não se exibiam daquela forma tao banal.
E esta percepção sempre foi a sorte estranha que o acompanhou. Não era sortudo numa tonalidade aleatoria, tinha sorte aos jogos que exigiam um raciocinio astuto. Alias, era mestre nesses jogos que favoreciam quem tinha uma percepçao perspicaz rapida da realidade. Ele era um estratego brilhante. Insconscientemente, inatamente, inocentemente brilhante.
Bebeu devagar o café. Fumou devagar . Deuses, ele tinha sorte ou já não estaria vivo. Mas, ao mesmo tempo, tinha mérito. Era mestre em aproveitar as oportunidades que surgiam quando nasciam dos seus dedos. Sempre foi mestre em morrer honradamente pelo ideal que o move. Sempre procurou problemas existenciais que lhe acrescentavam uma certa irresponsabilidade e sempre teve perspicácia suficiente para aprender com eles e sair vivo assumindo-se na maior plenitude de toda a liberdade que podia ter. E isto não foi sorte, a sorte vem depois. Sempre foi uma mistura de favorecimento não-aleatório do Universo com a mente aberta e astutamente perspicaz dele.
A vida continuava a escorrer na praia, eram os ultimos dias de Verão. O mar nunca parecia tao bonito como nos ultimos dias de Verao. O fim das coisas enche-as de uma beleza utopica.
E ele sempre teve esta mente minuciosa e consciente. O mar de Inverno, violento e triste, sempre o fascinou mais. O mar de Inverno era so seu porque ele era dos unicos que amava verdadeiramente o mar. E isto não é sorte a sorte vem depois.
Encostou-se para tras e riu-se baixinho e discretamente. As mulheres que o rodeavam devem ter pensado que era louco e ele confirmou a sua teoria. So um louco reconhece outro louco e se sente tao confortavel ao ponto em que descobre que loucos são os que não são loucos. São tao desinteressantes que são loucos, negativamente. Como elas. Vazias. Se não fossem inócuas seriam loucas e se fossem loucas o não encontravam atraentemente louco. Viam alguem igual a elas.
Conseguia, no final, nunca errar um pensamento sensorial porque, sempre brilhante, começava por se deixar fascinar por aquilo que passa despercebido a maioria das pessoas. Os pequenos pormenores que ninguem considera relevantes . Não tinha sorte, tinha sorte por saber esmiuçar espontaneamente as oportunidades que o espirito dele criava.
Sentou-se de novo direito na cadeira. Era uma sorte gostar mais do mar de Inverno. Não era uma sorte ser o ser que ama o mar, que procura o sentimento de paz e faz da praia um Santuário. Isto não é sorte, é ele que é este ser suficientemente astuto para ser abençoado com a sorte.
Tinha sempre momentos daqueles em que o mundo circundante tornava-se desfocado porque estava em auto-reflexao e não se apercebia do quanto atraia as mulheres com a sua beleza peculiar e postura carismática. Não queria saber, intrinsecamente, sabia so por respirar que nenhuma delas o interessava.Se fossem carismáticas não se exibiam daquela forma tao banal.
E esta percepção sempre foi a sorte estranha que o acompanhou. Não era sortudo numa tonalidade aleatoria, tinha sorte aos jogos que exigiam um raciocinio astuto. Alias, era mestre nesses jogos que favoreciam quem tinha uma percepçao perspicaz rapida da realidade. Ele era um estratego brilhante. Insconscientemente, inatamente, inocentemente brilhante.
Bebeu devagar o café. Fumou devagar . Deuses, ele tinha sorte ou já não estaria vivo. Mas, ao mesmo tempo, tinha mérito. Era mestre em aproveitar as oportunidades que surgiam quando nasciam dos seus dedos. Sempre foi mestre em morrer honradamente pelo ideal que o move. Sempre procurou problemas existenciais que lhe acrescentavam uma certa irresponsabilidade e sempre teve perspicácia suficiente para aprender com eles e sair vivo assumindo-se na maior plenitude de toda a liberdade que podia ter. E isto não foi sorte, a sorte vem depois. Sempre foi uma mistura de favorecimento não-aleatório do Universo com a mente aberta e astutamente perspicaz dele.
A vida continuava a escorrer na praia, eram os ultimos dias de Verão. O mar nunca parecia tao bonito como nos ultimos dias de Verao. O fim das coisas enche-as de uma beleza utopica.
E ele sempre teve esta mente minuciosa e consciente. O mar de Inverno, violento e triste, sempre o fascinou mais. O mar de Inverno era so seu porque ele era dos unicos que amava verdadeiramente o mar. E isto não é sorte a sorte vem depois.
Encostou-se para tras e riu-se baixinho e discretamente. As mulheres que o rodeavam devem ter pensado que era louco e ele confirmou a sua teoria. So um louco reconhece outro louco e se sente tao confortavel ao ponto em que descobre que loucos são os que não são loucos. São tao desinteressantes que são loucos, negativamente. Como elas. Vazias. Se não fossem inócuas seriam loucas e se fossem loucas o não encontravam atraentemente louco. Viam alguem igual a elas.
Conseguia, no final, nunca errar um pensamento sensorial porque, sempre brilhante, começava por se deixar fascinar por aquilo que passa despercebido a maioria das pessoas. Os pequenos pormenores que ninguem considera relevantes . Não tinha sorte, tinha sorte por saber esmiuçar espontaneamente as oportunidades que o espirito dele criava.
Sentou-se de novo direito na cadeira. Era uma sorte gostar mais do mar de Inverno. Não era uma sorte ser o ser que ama o mar, que procura o sentimento de paz e faz da praia um Santuário. Isto não é sorte, é ele que é este ser suficientemente astuto para ser abençoado com a sorte.
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