terça-feira, 12 de outubro de 2010

Desafio XL - Resposta

Give a heart, take a heart.

O coração é um orgão acessório. Pode aquecer-se com um filme lamechas, pode gelar-se com medo, pode acelerar-se com cafeína, pode parar-se com um susto, pode pôr-se a funcionar com um choque eléctrico, pode evitar-se com um bypass, pode arrancar-se para oferecer a um grande amor e substituir-se pelo da outra pessoa. E fica-se assim, a trabalhar como um relógio com outra máquina, e dá-se horas ao mesmo tempo.

Give a heart, but you cannot take a heart.

O coração só é um orgão essencial quando a pessoa a quem oferecemos o nosso coração não nos oferece o seu de volta. A troca fica incompleta. E ficamos com um vazio no peito do tamanho do nosso afecto. Efectivamente morremos. E movemo-nos como vampiros sem dentes, irremediavelmente sedentos, incansavelmente sem descanso. E sofremos do coração. Tornamo-nos pessoas sem coração.

You have no heart to give, but you take a heart.

O coração chega a queimar quando o nosso peito está vazio. Se alguém nos oferece o seu coração, aceitamos. Mas se não temos coração nenhum para oferecer de volta, ficamos com um coração nas mãos que não é nosso. Ele arde, magoa. Vemos o sorriso no rosto daquele coração delicado, docemente pedindo retribuição. Sentimos o nosso coração lá longe e reconhecemo-nos na dor deste que agora usamos para tapar o buraco no nosso peito. E amaldiçoamos o dia em que mandámos o coração embora.

Give no heart, take your heart back.

Mas o coração também é um orgão que volta a crescer. É preciso tempo e cuidado, mas ele reaparece. No dia em que ele reaparecer, aprende que o teu coração não se dá a ninguém. Quanto muito, empresta-se.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Desafio XXXIX- Resposta

Ele amou-te mas que importa isso para ti? Nada. Disse-te que o amor era inutil para ele , que era irrelevante. E quando um dia se foi embora, nunca mais voltou. Nunca mais voltou para ti. Mas para ti o amor não era inutil nem irrelevante. O amor era tudo o que te fazia levantar da cama no dia seguinte. E o amor dele, o ser dele, era o teu sol de Verão que aquece e ilumina.
Mas nunca mais ele telefonou. Nunca mais lhe ouviste o riso alto e exótico. Nunca mais viste o seu rosto tao belo, tao peculiar e desumanamente belo. Porque quando se foi embora, deixou-te o pedaço de coraçao de pano negro dele que te pertencia. Para nunca mais voltar. Porque o amor para ele era inutil mas sabia que para ti não era, tornou o sentimento real , para não ficares com nada. Amava-te, ele, te nunca esqueças disso. So que já não pode voltar.
Mas, às vezes, quando caminhavas na rua e alguem se parecia com ele uma esperança moribunda e triste nasciate no peito, os teus dedos ganhavam vida. O coraçao entregava-se ao fogo expectante e ardia de tristeza. Porque não era ele, sabias que não era ele. Mas o teu ser preferia essa ilusao, essa pequena ilusao de felicidade durante uma fracçao de tempo. Porque já nem o consolo da ausencia de vida tinhas, tinhas menos do que nada e nada disto é possivel. Tinhas muito menos do que nada e, nesses momentos, abrias o cofre e seguravas com carinho o pedaço de coraçao de pano dele. Era tao fragil e ele é este ser, que um dia se foi embora e no dia anterior já não estava mais contigo.
O tempo passa sempre e congela sempre a dor mais crua e aguda. A tua memória dele tornou-se desfocada, perdeu nitidez. Deixaste de te lembrar exactamente de quem ele era, deixaste de ter um referencial para procurar. Continuaste à espera do telefonema mas como nunca o recebeste habituaste-te a não espera-lo.
E , um dia, ias a caminha na rua e ouviste o riso dele. O teu coração reconheceu-o de imediato. Lembraste-te que nunca te telefonou e que agora estava ali, igual ao que sempre foi. E deste-lhe o teu pedaço de coraçao de pano que lhe pertencia, que lhe pertenceu durante todos estes anos porque tu já não eras tu. Porque ele era o teu Sol de Verão e na ausencia dele tornaste-te na pessoa que ama o Inverno. A memoria dele passou a ser desfocada, o teu coraçao ardeu. Tu já não és tu por todas as noites que não dormiste à espera do telefonema dele, do telefonema que ele te prometeu que nunca faria.
Ele tornou o teu amor inutil.

Desafio XXXVIII- Resposta

Ah não te consideras pouco ou mesquinho? Não claro que não, como poderias tu, tudo o que vês é tudo o que és. Vês pouco, julgas muito, condenas em vácuo. Não importa o que almejas ser o teu horizonte é demasiado curto .
Mas poder-me-ias ouvir , só por respeito. Só por uma questao de não deixares transparecer que essa tua opiniao mediocre que te define é tudo o que tens, se a puserem em causa morres vivo e amanha estaras morto, estando vivo ainda.
Oh vá lá não faças isso não me tentes distorcer e estrangular o coraçao até te estou a tentar ajudar. Estou-te a tentar dizer que tens uma leve hipotese. Não reajas assim ao choque, não o critiques, não o abomines. Não o condenes porque vês um pecado monstruoso. O choque é te util para ti enquanto Homem que deseja ser melhor. O choque é te util porque te obriga a reflectir. O choque faz-te ponderar sobre tudo o que tu já conheces, sobre tudo o que consideraste que já conhecias. Sei, eu sei, o choque bruto e aberto é extraordinariamente desconfortavel. Tens a tendencia da repulsa, da repugnancia , tens intrinseco em ti o acto de virar a cara e condenar sob julgamento moral.
Sob o teu julgamento moral, não ajas dessa forma de pessoa minuscula que diz que o seu valor moral é o valor moral do mundo. Sabes que o não é, tens as tuas opiniões que são verdade absoluta para ti. E é isso que o sentimento de choque explicito te faz. Reflectes sobre as tuas opinioes, consolidas as tuas teorias ou deixas a mente fluir para encontrares outras. O choque é o exagero máximo que te deixa formular uma opiniao fudnamentada. Uma reflexao válida. Porque, ouve-me, não importa se o que pensas é verdade absoluta, interessa que seja válido. Os argumentos têm de ser válidos, a verdade não deixa de ser sempre subjectiva.
Oh vais morrer assim, de mansinho. Nem as tuas cinzas vao conseguir não serem apenas isso. Pedaços de uma existencia pequena e mediocre, altamente parasita. Porque? Porque?! Porque nunca quiseste ser salvo pelo sentimento de choque, pela repulsa do choque. Levantaste a mao e condenaste porque para ti, para a tua verdade absoluta ,era pecado.
Mas normalmente o choque é fundamentado. É valido. Normalmente, o choque é uma forma extraordinária e perspicaz de te fazer passar uma mensagem de uma forma tao excentrica que te obriga a reflectir sobre ela. O choque é o inverso da discriminação, dos tabus, das convençoes sociais visiveis e invisiveis. O choque é te util e tu sempre o condenaste. Morrerás porque recusaste ser salvo por esse sublime sentimento que te alcança quando podes não ter razao. E morrerás assim, pequeno e mediocre. Parasita. E ninguem chorará por ti porque nunca causaste choque algum. Nem quando agias sob pensamentos radicais extremistas, cheios de uma falta de humanidade decorada com carnificina. Ninguem se importará porque nunca causaste choque, foste simplesmente mais um inutil cru que viveu neste mundo. E nem sequer foste bom o suficiente para esse papel.
Ironico, não? Devias ter-me ouvido porque eu fui educado pelo sentimento de choque em bruto.

Desafio XXXVII - Resposta

Estava lá sentado calmamente. Confortavel e dístraído enquanto o vento marítimo brincava com o seu cabelo vermelho. Parecia absorto do mundo que escorria debaixo dos olhos de mar dele. A vida que sustentava a existencia da praia era lhe tao distante e estava tao perto.
Tinha sempre momentos daqueles em que o mundo circundante tornava-se desfocado porque estava em auto-reflexao e não se apercebia do quanto atraia as mulheres com a sua beleza peculiar e postura carismática. Não queria saber, intrinsecamente, sabia so por respirar que nenhuma delas o interessava.Se fossem carismáticas não se exibiam daquela forma tao banal.
E esta percepção sempre foi a sorte estranha que o acompanhou. Não era sortudo numa tonalidade aleatoria, tinha sorte aos jogos que exigiam um raciocinio astuto. Alias, era mestre nesses jogos que favoreciam quem tinha uma percepçao perspicaz rapida da realidade. Ele era um estratego brilhante. Insconscientemente, inatamente, inocentemente brilhante.
Bebeu devagar o café. Fumou devagar . Deuses, ele tinha sorte ou já não estaria vivo. Mas, ao mesmo tempo, tinha mérito. Era mestre em aproveitar as oportunidades que surgiam quando nasciam dos seus dedos. Sempre foi mestre em morrer honradamente pelo ideal que o move. Sempre procurou problemas existenciais que lhe acrescentavam uma certa irresponsabilidade e sempre teve perspicácia suficiente para aprender com eles e sair vivo assumindo-se na maior plenitude de toda a liberdade que podia ter. E isto não foi sorte, a sorte vem depois. Sempre foi uma mistura de favorecimento não-aleatório do Universo com a mente aberta e astutamente perspicaz dele.
A vida continuava a escorrer na praia, eram os ultimos dias de Verão. O mar nunca parecia tao bonito como nos ultimos dias de Verao. O fim das coisas enche-as de uma beleza utopica.
E ele sempre teve esta mente minuciosa e consciente. O mar de Inverno, violento e triste, sempre o fascinou mais. O mar de Inverno era so seu porque ele era dos unicos que amava verdadeiramente o mar. E isto não é sorte a sorte vem depois.
Encostou-se para tras e riu-se baixinho e discretamente. As mulheres que o rodeavam devem ter pensado que era louco e ele confirmou a sua teoria. So um louco reconhece outro louco e se sente tao confortavel ao ponto em que descobre que loucos são os que não são loucos. São tao desinteressantes que são loucos, negativamente. Como elas. Vazias. Se não fossem inócuas seriam loucas e se fossem loucas o não encontravam atraentemente louco. Viam alguem igual a elas.
Conseguia, no final, nunca errar um pensamento sensorial porque, sempre brilhante, começava por se deixar fascinar por aquilo que passa despercebido a maioria das pessoas. Os pequenos pormenores que ninguem considera relevantes . Não tinha sorte, tinha sorte por saber esmiuçar espontaneamente as oportunidades que o espirito dele criava.
Sentou-se de novo direito na cadeira. Era uma sorte gostar mais do mar de Inverno. Não era uma sorte ser o ser que ama o mar, que procura o sentimento de paz e faz da praia um Santuário. Isto não é sorte, é ele que é este ser suficientemente astuto para ser abençoado com a sorte.

Desafio XL

Wings para Alice in Wonderland:



Alice in Wonderland para Ricardo:


Ricardo para Wings:

"Não admira, pois, que o mundo vá de mal a pior e que os males aumentem cada vez mais, à medida que aumenta o tédio, e o tédio é a raiz de todo o mal. A história deste pode acompanhar-se desde os primórdios do mundo. Os deuses estavam entediados, pelo que criaram o homem. Adão estava entediado por estar sozinho, e por isso foi criada Eva.

Assim o tédio entrou no mundo e aumentou na proporção do aumento da população. Adão aborrecia-se sozinho, depois Adão e Eva aborreceram-se juntos, depois Adão e Eva e Caim e Abel aborreceram-se em família; depois a população do mundo aumentou e os povos aborreceram-se em massa. Para se divertirem congeminaram a ideia de construir uma torre tão alta que chegasse ao céu. Esta ideia, por sua vez, é tão aborrecida como a torre era alta, e constitui uma prova terrível de como o tédio se tornou dominante."

(Soren Kierkegaard)

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Desafio XXXIX - Resposta

(A origem do Mundo)


Foi o meu primeiro namorado.
O amor escorregava-nos das mãos desastradas. Éramos dois inexperientes com vontade de tentar e por isso cada gesto tosco tinha um gosto especial. Reunimos, sem saber, as condições que fazem duma receita a melhor do mundo.
Foi a primeira vez que senti um descontrolo das minhas veias e um bater do coração que me assustou como se a morte tivesse chegado.
E depois foi a tua mão no ombro, aquele abraço apertado antes da música que circundava a casa que cheirava a cera. O teu perfume que cheirava a cera como a casa. Dançamos num jardim onde as rosas espreitavam invejosas o nosso amor inocente. E depois fugimos para aquele recanto, tu descobrias quem eu era e eu sabia que a morte afinal era o maior prazer que podia ter.
Tudo foi virgem e solitário, impregnado dum suor delicioso que ainda hoje existe quando abro a caixa das recordações e vejo a tua fotografia naquela tarde.
E sempre que a vejo, amo-a perdidamente.
Porque foi a primeira. E foi ali que tudo começou. A origem do meu mundo começou contigo e com o teu beijo de saliva que cheirava a futuro.

Só que na verdade foi só isso. O amor que arde por tudo quanto foi maravilhoso é uma bala disparada eternamente. E se por um acaso me desligar desse fotografia que me traz a origem, não há muito que fique da tarde que passei contigo. Ela existe em mim desta forma, porque foi a primeira.

Porque a origem do Mundo não é mais do que uma coisa tremendamente feia e desconcertada, errada em cada segundo de existência. Mas porque é a origem do futuro, torna-se linda.

Desafio XXXIX - Resposta

Observo-o sentado, pela janela. Chego a casa, olho para o prédio de fronte, e lá está ele, de costas totalmente descoladas da cadeira. Está sempre curvado, marreco, a empurrar os ombros já de si franzinos para dentro enquanto dactilografa como se fosse uma secretária antiga. Apetece quase dar-lhe uma sapatada no cerro e gritar-lhe, “faz-te homem!”. A secretária está tão impecavelmente aperaltada como o fato apertado que o faz parecer o moço que entrega as alianças num casamento. Nunca sai, e está sempre só, sempre de nariz enfiado na folha. Ele faz-me perguntar que tanto tem para escrever alguém que se afasta tão pouco de casa.

Topei-o há anos. Se jogássemos à sueca saber-lhe-ia a mão só de o ver tremelicar e suar nervoso. Interpretaria os seus tiques no olhar como a sorte a trazer-lhe um ás de espadas. Saberia ler uma desistência no remover cauteloso dos óculos seguido de um coçar de pálpebras. Por isso sei bem que toda aquela calma é como uma fachada imaculadamente branca num prédio devoluto. As suas palavras tresandam a fracasso.

Eu já as li. Por vezes, pega nas folhas e arruma-as direitinhas, como camisas, dentro de uma arca. Outras vezes, poucas vezes, atira-as pela janela fora. As folhas voam e acertam nas janelas dos outros. As pessoas abrem e apanham-nas. Um dia o vento trouxe-me algumas.

Se não o conhecesse, quase diria que ele não passa de mais um heterónimo do Pessoa.

Eram palavras tão retorcidas como a figura que as pariu. Eram simples, mas estavam organizadas de forma desconcertante. As ideias que o seu conjunto formava tanto podiam ser incrivelmente profundas como de uma banalidade gritante. A gosto do leitor. O que ele escreve são jogos de sorte ou azar. Ele joga à sueca com as palavras. Porque testa a sorte a cada janela onde as folhas se vão colar. E eu, topei-lhe logo o jogo todo.

Ele tenta passar-se por um doutor da alma, por um engenheiro das emoções, por um pastor de sensibilidades. Nesta superficialidade transvestida de intelecto, o leitor é conduzido à sala de tribunal a decidir as reais intenções do escritor. Pois eu quero fazer uma declaração a esse juri distraído, a essa espécie de divindade que pode simpatizar e ser benevolente com ele, mas que não conhece a verdade. Senhoras e senhores do juri: este indivíduo é pop pastilha elástica: agradável ao ouvido, deixa um gostinho bom a algo que faz sentido. Mas substância tem zero. E a filosofia de vida subjacente é desprezível.

Aquelas palavras não me ensinam nada. Que me pode ensinar que sabe tão pouco da vida? Ainda assim, as malditas folhas colam-se nos vidros. E é preciso raspá-las cuidadosamente e ligar pouco ao espelho baço que elas são de nós mesmos.

Sim, observo-o sentado, pela janela. Ele mora em frente a mim, não posso evitar vê-lo. Mas observo-o em doses moderadas, e nunca por muito tempo. Eu não passo muito tempo em casa. Prefiro fechar a janela, vestir um casaco grosso, levantar-lhe a gola e enfrentar o Janeiro frio da rua. Ele é exemplo apenas para as minhas horas curtas de coragem e sede de viver. Ele é passatempo apenas para o tédio. E só de falar dele já me deu o sono.

Boa noite.