segunda-feira, 8 de março de 2010

Desafio XI- Resposta

Quem te não avaliar correctamente sentirá um medo corrosivo se olhar directamente para o poço dos teus olhos. Podem ser feitos de aço, sim, os teus olhos são a tua mais destrutiva arma. Desfazes qualquer um com esse punhal que tens implicito no olhar critico. Critico construtivo, é preciso conhecer-te para reconhecer que não és insensivel.
Tomaste uma direcçao algo única. E como todas as opções inovadoras são, ate certo ponto, questoes socialmente clandestinas , tiveste de te endurecer. Disciplinar o coraçao. Quem não for suficientemente forte, honesto ou resistente olhará para ti e temerá o fim. Porque quando tu entras numa sala fazes-te acompanhar por toda a energetica mudança que está no teu espirito. E é ai que se inicia a rotina natural da evolução. Ou acreditam na manutenção do conceito de melhor ou na insistencia em defender o que é estavel . Unicamente por ser seguro. E tu és a representaçao da morte, daquela que é saudavelmente selectiva. Sim, até a tua voz encantadora tem o som do fim. Os teus olhos são um poço, duro como o aço. Eles são tao fracos, tao sedentos de estabilidade e de qualquer felicidade. Tao frágeis. Tao dobraveis. Que quando se debruçam nas tuas aguas de aço vem o reflexo da mediocridade que são.
Às vezes, na calma de uma noite quente, desejas quebrar essa inovaçao, esse sobrevivente belico que existe em ti. Amoleceres um pouco, perderes a tua boa forma. Mas basta-te entrares numa sala. Olha-los. Observá-los. Eles são tao pequenos, são anoes num mundo de gigantes. E a sua ignorancia e tao grande que se veem como gigantes num mundo de anoes...
Mas basta-te entrar numa sala. Escolheste a direcçao única. O teu coraçao está disciplinado. O aço que brilha nos teus olhos é a força de existir que sustenta o teu espirito. Preferes esse poder, de auto-dominio. Preferes esse dom, de seres um poço.
És o vento que transporta a inovaçao. Os teus olhos são criticos construtivos. Não destrois. Simplesmente, o aço que tens em ti é uma arma poderosa contra a virtude suja que há no mundo. O aço que tens em ti é uma arma tão poderosa que a evolução és tu.

Fizeste a escolha certa. A estabilidade inócua so os tornou vulneraveis à sua propria consciencia de falhanço. Mas o teu aço é extraordinariamente humano.

Desafio XI - Resposta

"The future is something which everyone reaches at the rate of 60 minutes an hour, whatever he does, whoever he is."
C. S. Lewis

Não olhes para mim com essa cara!

Enganas-te se pensas que só por eu estar aqui sentado e tu aí a trabalhar, o teu futuro vai chegar mais depressa do que o meu... Enganas-te se pensas que me conheces. Não fazes senão perder o teu tempo se tens pena de mim quando por mim passas. E desprezo-te amargamente quando pões o teu ar superior e me debitas um qualquer cliché que outro pensou e que a ti te daria muito trabalho, mesmo que lá pudesses um dia chegar.

Mas não chegas, nem chegarias, e sabes porquê? Porque te manténs aí sentado, com esse fato que me poderia ter alimentado mais de um mês, com essa camisa que outros te lavaram e engomaram, com esses sapatos que outros, iguais a mim, te engraxaram. Preferes vê-los aos teus pés, bem sei. É isso que te permite o poder a que te permites, bem sei. Nunca serás nada.

Eu? Também não, mas sabes o que nos difere? Eu tenho um filho. Não, não abras sequer a boca para dizer essas palavras. O que tu tens não são filhos, são seres humanos com quem partilhas a casa e preferes ver pelas costas. Porque isso é trabalho para as amas, que estão certificadíssimas para as educarem na nobreza e nos bons costumes. Sim, eu admito. Se soubesse o que sei hoje não teria sido pai. Mas o meu filho foi apenas fruto do amor, enquanto o teu foi a rota habitual da conveniência. Depois a minha mulher morreu, e hoje vejo-me obrigado a usar o meu único rendimento para pagar um vão de escada, a comida do meu filho, e a poupança que faço para ele. Porque ele será alguém na vida ao contrário do pai, e enquanto eu cá estiver para ver, ele nunca será como tu, deus assim o permita.

Está na minha hora de me levantar. Pensavas que vivia de esmolas, era? Enganas-te. Por ironia, és tu quem me dá trabalho. Tu e todos os que atiram lixo para o chão no dia-a-dia, porque os caixotes do lixo são simplesmente sujos demais para te aproximares.

Pensas que te odeio? Que te desdenho, que falo mal de ti a todo o momento? Pensas que penso em ti mais que o tempo que perdi a desabafar nestas linhas? Pensas que tudo gira à tua volta, como todos os outros. Enganas-te. Quando acabar de escrever, tu vais ser apenas mais uma pessoa nessa fila de trânsito. Que veículo tão potente que conduzes, se não fazes mais que gastar a embraiagem.

Desculpa-me, tenho de ir trabalhar. Depois à noite vou ao teatro com o meu filho. Tenho bilhetes que me ofereceram por ter um part-time a limpar a sala de teatro antes das sessões.

O teu futuro não é assim tão risonho. Tu apenas o pintas para que assim pareça. No fundo, o teu futuro vai sempre andar a par do meu. E no fim ao menos eu sentirei que fiz tudo ao meu alcance para conseguir ter uma vida melhor. Para ti terá sido tudo simplesmente fácil demais.

domingo, 7 de março de 2010

Desafio XI - Resposta

A primeira vez em que a saudade o dominou o suficiente para deixar marca foi com a fotografia da sua avó portuguesa na mão. Roupa preta pesada de luto, o cabelo apanhado, brincos em argola e fios de ouro, um olhar grave e um padrão de núvens do estúdio do fotógrafo. Tudo na fotografia a preto e branco da época era assim: um conjunto de pormenores desgarrados, e uma sensação global de austeridade.

"So you say you want to study Portugal?"

"Not Portugal. Just one word. This 'saudade' word. I got it from my parents. They say it's unique. The media claims it cannot be translated. It's actually a feeling, a very Portuguese feeling. My late grandmother was Portuguese, and I think I can get that 'saudade' just from looking at an old picture of her. I believe there's something there."

"Humm. I don't really see the point… Even if there is no other single word to translate it, how can there be a feeling that can only be felt for Portuguese-related issues?”

“That’s just not it. You don’t understand.”

“Look, I can see that you’re very interested in this. So I’ll tell you what. You go to Portugal, see what you can find. If we come to the conclusion that the so-called ‘saudade’ feeling is rubbish, then you come back and we'll find you another PhD. thesis on national language specificities, or something like that."

A segunda vez em que a saudade o dominou foi ao ser confrontado pelo orientador com a necessidade de regressar a Portugal. Recordava-se do Verão em que, ainda menino, voou de New Jersey até Lisboa com os pais. Recordava-se dos jardins de Belém, dos símbolos dos Descobrimentos, de uma feira onde andara na montanha russa e no comboio fantasma. Recordava-se de um sítio lindo onde nem tudo eram prédios e avenidas, onde o Sol brilhava e as pessoas eram afáveis e interessadas. Recordava-se de uma felicidade sem nome. Talvez os portugueses tivessem nome para ela também.

Portanto meteu-se no primeiro avião que conseguiu reservar e rumou a Lisboa, para casa de amigos dos pais. Foi por eles que iniciou a sua diligência. Repetiu-lhes as suas dúvidas. Repetiu-lhes o discurso do seu orientador. A resposta era sempre a mesma, castradora e anti-esclarecedora.

“You just don’t understand. That’s not it.”

Os amigos dos pais recomendaram-lhe que falasse com linguistas. Perguntou-lhes tudo o que lhe passou pela cabeça.

“So, this ‘saudade’ that I keep hearing about... Is it like missing something or someone? Like, really wanting something that is no longer there? Is it the application of the ‘je ne sais quoi’ of the French to the past? Is it just a positive impression of something we lost?”

A todas as formulações que lhe ocorriam, a todas as definições que conjurava, não tinha senão respostas vagas. Qualquer ideia, por mais que lhe parecesse correcta, não lhes agradava. A resposta era sempre a mesma, castradora e anti-esclarecedora.

“That’s just not it. You don’t understand.”

E os linguistas recomendaram-lhe que falasse com historiadores. E os historiadores levaram-no a Belém. Explicaram-lhe a História portuguesa nos monumentos, nos símbolos dos Descobrimentos. Ensinaram-lhe que a Torre, o Padrão, o Mosteiro, todos, na sua imponência, são uma bandeira que recordará para sempre que Portugal que foi forte, aventureiro, e motivo de orgulho. Mas aquele Belém já não lhe parecia ser o Belém da sua infância. Na infância, eram só coisas bonitas. Assim descritos, aqueles edifícios pareciam chamá-lo e dizer-lhe “deixa-nos contar-te um segredo: Portugal descobriu um Mundo novo só para depois se ajoelhar a rezar”. E ainda está na mesma posição. Enquanto outros construíram caminhos de ferro, revolucionaram as Artes, inventaram o cinema, em Portugal construíram-se igrejas. Não admira que este povo tenha saudades do passado. Só que o próprio passado de que sente falta já não é real. A realidade já o ultrapassou. A tudo isto obteve a mesma resposta, castradora e anti-esclarecedora.

“You just don’t understand. That’s not it.”

E os historiadores recomendaram-lhe que falasse com moradores da zona antiga de Lisboa. E os moradores levaram-no a contemplar os prédios, de traçado único no Mundo, as ruas sinuosas, inclinadas e curvas, derrapantes e sombrias. Mas tudo o que viu foi sujidade e parcas condições de vida. Presenciou a ruralidade urbana, viu pessoas a cuspir no chão, viu casas a cair. Viu prédios fechados a cadeado, viu porta sim, porta não emparedada. Viu janelas e vidros quebrados, animais sujos e doentes que se arrastam nas janelas. Viu flores mortas nas varandas minúsculas. Viu idosos desprezados em pijama nas janelas. E apeteceu-lhe fugir dali sem mais respostas.

“That’s just not it. You don’t understand.”

E os moradores recomendaram-lhe que falasse com fadistas. E os fadistas levaram-no a ouvir fado, a música nacional, a melhor expressão da alma portuguesa. Mas o fado era uma canção monotónica e repetitiva, quase irritante no seu marasmo emocional evocativo de um passado que nunca foi tão bom que mereça tamanha monotonia perante o presente. O monocronismo dos cantores, o tradicionalismo das guitarras constantes, competentes mas sem imaginação, deram-lhe sono. No pequeno restaurante encardido de Alfama, levantou as suas questões, e foi insultado e expulso.

“You just don’t understand. That’s not it. We give up. You are just one dumb American who will never understand the true value of History and culture. Go back to your plastic culture. We are better than you.”

Mas entendia. Ainda viajou de carro. Foi ao Porto, foi a Évora, foi ao Algarve; foi à montanha, ao campo e à praia. Tomou café a olhar para o mar e adormeceu na areia. Leu Eça em aldeias de pedras estranhas e gastas, onde as luzes se apagam ao entardecer e os cães pulguentos e sarnentos espantam o futuro para bem longe. Passou um mês em Portugal. Descobriu um país lindo para visitar. Mas pavoroso para morar.

Em um mês entendeu perfeitamente o significado daquela palavra empolada na sua importância e distorcida no seu sentido. ‘Saudade’ significa ficar amorfamente a inventar uma delirante história feliz para aquele que foi um passado triste. 'Saudade' significa camuflar as vistas curtas e a falta de horizontes com mitos sobre um passado que toda a gente sabe que nunca foi presente. É por isso que até os poetas e escritores desta pátria não têm pejo em afirmar que o passado que cantam é uma ilusão. Aquilo que lhes interessa é a ideia do passado, e não o passado em si. De nenhuma outra forma, que não a auto-ilusão, poderiam sentir-se justificados. Os pobres desgraçados, os Eças e os Saramagos, que tentam acordar Portugal do marasmo da 'saudade', puxar o país pelo braço do altar beato onde reza há séculos, são exilados pela pior lei de todas – o decreto do discrédito.

E ele, pessoalmente, desistiu naquele momento de fazer uma tese sobre Portugal. Ele não sabia o que queria para a sua vida – mas essa inutilidade estilística não queria, de certeza. Em Portugal há muita História, mas não há nenhuma história.

E, por isso, a terceira vez em que a saudade o dominou foi perante a falta que New York lhe fazia, com os seus prédios e avenidas, a sua escolha, a sua diferença. Portanto meteu-se no primeiro avião que conseguiu reservar e rumou a Nova Iorque; guardou as malas num cacifo e caminhou pelas ruas, sem vontade de regressar à casa dos pais em New Jersey. E por uma vez a saudade que sentiu correspondeu ao que via. E por uma vez algo que via, e não uma memória de infância, geraram uma felicidade sem nome dentro de si. Por nenhum momento se iludiu – soube reconhecer os problemas e a podridão daquela cidade. Mas pelo menos as luzes e os carros, os ladões, os violadores e os assassinos, eram todos símbolos de uma História viva que se move connosco, que presenciamos e que ainda importa, e que só lá se encontra, naquele grande monstro que se ergue na vertical. Sentiu-se afortunado por ter entendido a tempo que as fabulações sobre o passado não trazem mais do que angústias e perspectivas distorcidas do real. E bloqueiam um futuro melhor. E condensou este princípio numa frase só.

"’Saudade’ is bullshit.”

Quando uma vontade imensa de comida chinesa o invadiu, já nem sequer lhe chamou saudade. E satisfez essa vontade, sentado na mesa de toalha xadrez vermelho e verde. Pediu a conta, e recebeu o seu fortune cookie. Sorriu, pensou parvamente que talvez naquele biscoito pudesse achar o novo tema para a sua tese. Algo vivo, actual, com relevância para o Mundo. E mesmo que o que ele procura não fosse tão simples que se possa achar na frase do papel no interior, ela foi pelo menos o corolário de uma viagem que lhe valeu uma lição de vida.

"Treasure the past that never was, and all you get is the future that will never be."

terça-feira, 2 de março de 2010

Desafio XI

Tiago para Ricardo:

O que me seduz no passado não é o presente que foi - é o presente que não é nunca. O que sonho nestes cânticos não é a paz do passado: o que sonho é o sonho."

Virgílio Ferreira, em Aparição




Ricardo para Wings:

"Steel?
We have no butter,
But I ask you
Would you rather have butter or guns?
Shall we import lard or steel?
Let me tell you
Prepardness makes us powerful,
Butter merely makes us fat.
"

(The Prodigy, booklet de "The Fat of the Land")


Wings para Alice in Wonderland:
And the road becomes my bride
I have stripped of all but pride
So in her I do confide
And she keeps me satisfied
Gives me all I need

And with dust in throat I crave
Only knowledge will I save
To the game you stay a slave

Roamer, wanderer
Nomad, vagabond
Call me what you will

But I'll take my time anywhere
Free to speak my mind anywhere
And I'll redefine anywhere

Anywhere I roam
Where I lay my head is home

(Metallica, Wherever I may roam, Black Album)




Alice in Wonderland para Blue Storm:



"Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar"



Alberto Caeeiro


Blue Storm para Tiago:

"The future is something which everyone reaches at the rate of 60 minutes an hour, whatever he does, whoever he is."
C. S. Lewis

Desafio X - Resposta

“I don't believe in an afterlife, so I don't have to spend my whole life fearing hell, or fearing heaven even more. For whatever the tortures of hell, I think the boredom of heaven would be even worse.”
Isaac Asimov

O que os tornava tão especiais era o quão eram diferentes. Naquela tarde de Inverno, embrulhados numa manta grossa de lã, bebiam chá enquanto viam o pôr-do-sol ao fundo da rua. O prédio onde moravam era igual a tantos outros naquela velha cidade europeia. Como tantas. Como muitas.

Embora fosse um ritual tão repetido nas tardes de sexta-feira – ver o pôr-do-sol de forma a apreciar o início do fim-de-semana e beberem um chá como todos os habitantes naquela cidade – ele não podia deixar de se sentir desconfortável. Já perdia a conta ao tempo a que faziam aquilo, no entanto sentia ainda os olhos dos transeuntes e dos vizinhos sobre eles quando passavam, entrava ou saíam do prédio. Ela, por seu lado, sentia-se completamente à vontade, e acima de tudo feliz. Na verdade aquele era para ela dos poucos rituais que fazia com prazer; todos os outros eram feitos como compensação do seu companheiro embarcar muitas vezes contrafeito nas aventuras dela. E era exactamente aquele dicotomia que os tornava especiais. Porque o amor que sentiam um pelo outro ia muito além dos rituais e tradições dele, ou da sede de aventura e inconstância dela. Era algo muito mais profundo e inexplicável. Era um sentimento de pura completude, como se a partir de um momento um não pudesse existir sem o outro, como se a loucura dela não pudesse viver sem a calmaria dele.

- “Já pensaste como será o céu?” – Foi ele quem quebrou o silêncio. E conforme abriu a boca, uma nuvem de vapor saiu e juntou-se à que saía da chávena de chá com que aquecia as mãos.

- “Ou o Inferno? Não sei, não acredito especialmente nessas coisas.”

- “Porquê o Inferno? Fizeste alguma coisa de mal?”

- “Pequei contra a sociedade.”

- “Que tola… só se pecaste por escolher tomar a tua vida nas mãos, ao contrário de todos os outros que se deixam ir.”

- “… Como tu?”

- “Eu deixei-me ir por ti. Não sei, achas que mereço o Inferno?”

- “Eu acho que merecemos os dois ir para o Inferno.” – A cara dela continuava séria.

- “E lá se vai o meu desejo de eterno repouso.”

- “O eterno repouso é uma seca!”

- “E eu para Inferno já bem me basta o meu dia-a-dia.”

- “Vamos fugir?”

A pergunta ficou no ar. Ele lembrou-se imediatamente daquele dia de Fevereiro. Chovia a potes quando aterraram no seu destino, o céu estava negro para um dia que ainda mal começara, e nem sabiam muito bem o que haveriam de fazer. Decidiram fugir, não no sentido rápido da fuga, visto que foi algo planeado e pensado, mas fugiram na mesma. Das famílias, e dos amigos, e do país e de todas as coisas que deixaram para trás. Com eles apenas duas malas e duas mochilas. Os olhos dela irradiavam luz. Os dele transpareciam medo.

- “Já fugimos que chegue. Vamos assentar. Vamos para o céu.”

- “Que piada teria isso, assentar?... Que sentido faria tal coisa? Como pôr um ponto final na nossa vida, e não passarmos de mais dois escravos da sociedade?” – Ela sorveu um pouco do seu chá, depois olhou-o nos olhos pela primeira vez. – “Tu gostavas de assentar?”

Ele bebeu também um pouco de chá. Depois olhou o pôr-do-sol um pouco, reflectindo sobre a pergunta dela. Ele próprio já se tinha questionado várias vezes sobre isso. Depois olhou-a de novo nos olhos.

- “Um dia, talvez… Mas senão também vou contigo para o Inferno.”

Desafio X - Resposta

Lucy. A simplicidade de um nome inglês suspirado num trago. Sem interrupções, sem pausas nem descanso. Lucy, e a sua mão agitando-se ao mesmo tempo dos ombros, palma acima e palma abaixo, dançando como uma onda ao ritmo das luzes e dos sons descontrolados e chiado por uma má aparelhagem. Lucy dançando, Lucy cantando. Habituei-me a ler nos lábios dela o que a música alta não deixa ouvir. Ela só me aparece entre muitos, quando alguma banda vinha à cidade ou quando éramos nós a descer à cidade à sexta-feira à noite. Habituei-me a escutá-la por entre o barulho, a saciar-me com os gestos, com o cabelo solto comprido a oscilar, com um toque no ombro e um sorriso que dizia "trás-me mais uma bebida". Lucy. A simplicidade de um sonho de algum dia a sua voz ser a única onda a escutar.

Ela saltou do nosso grupo de amigos para a minha vida numa despedia de solteiro. No jantar não éramos muitos, uns dez talvez. Dez, como as horas em que saímos precocemente do restaurante. Chegámos ao clube de strip ainda nem eram onze. Onze, e chegou ela. Com a sua camisola de Verão de mangas largas, uma t-shirt de alças por cima, e calças à boca de sino. A minha Lucy fora de sítio, fora do contexto, fora da década. Imaginei aqueles cabelos lisos ondulando no pó de Woodstock, de olhar saltitante, apressado enquanto muda o semblante onde se fixa brevemente, como um pardal pulando de ramo em ramo. Imagino-a sempre como naquela primeira noite. A única mulher entre homens, dez, eu um deles. Eu, de longe. Eu, observando dolorosamente enquanto ela ri, enquanto ela se senta ao colo de um, enquanto coloca uma perna em cima de outro. O corpo, ela usava-o com as strippers que dançavam, parecia que muito longe. O corpo dela era permitido até certo ponto. A fronteira do privado estava demasiado adiantada. Entendi naquele banco de clube, enquanto outra má aparelhagem incitava uma mulher a despir-se, que a minha Lucy nunca seria só minha.

A minha Lucy sentada na estrada à porta do clube, com cinco ou seis resistentes que ainda esperavam quebrar essa fronteira do permitido. Música! Onde quer que esteja a Lucy, há música. Alguém ligou um rádio de um carro. Uma outra má aparelhagem ainda quebra a noite em mil estilhaços que ao cair cobrem a voz de Lucy. Lucy, de mãos viajantes entre as costas de um e o cabelo de outro. Lucy, sempre dando-se e retraindo-se ao mesmo tempo, sempre agitando-se, sempre amante da música.

Apoderei-me do banco do condutor do carro, e mudei a rádio. Alguém por entre as colunas traseiras, vibrando desde o porta-bagagens aberto, cantava

"Lucy in the sky with diamonds".

Lucy deitada no banco de trás do carro. Pela primeira vez. De cabeça encostada no banco, de pernas semi-flectidas apoiadas no vidro do outro lado, olhava pelo pouco que o vidro da frente a deixava descobrir do céu, e sorria. Mexia os lábios, mas eu não a escutava. Ainda não os sabia ler. E as colunas vibravam furiosamente, repetiam freneticamente

"Lucy in the sky with diamonds".

E ela apontou para o céu. Apontou para uma estrela, a única forte o suficiente para rasgar a poluição luminosa da cidade e a sujidade do vidro, e chegar até nós. Quem me dera tê-la ouvido só daquela vez, só falando sobre aquela estrela. Quem me dera que este momento fosse uma fotografia legendada. Apaixonei-me e entristeci-me ao mesmo tempo. E ela foi embora.

O casamento a que fomos, esse, já acabou há muito tempo. Mas a nossa estrela sobreviveu-lhe. A Lucy continua a ser a legenda para o diamante no meu céu. E nele guardo a vontade de um dia vir a ser a única estrela no céu dela.

E apesar de não lhe conhecer a voz, de nem lhe conhecer o nome, sei que ela será para sempre a minha Lucy.

"Lucy in the sky with diamonds".

segunda-feira, 1 de março de 2010

Desafio X - Resposta

"If I had a world of my own, everything would be nonsense. Nothing would be what it is, because everything would be what it isn't. And contrary wise, what is, it wouldn't be. And what it wouldn't be, it would. You see?"

Abriu a porta e fechou-a.
Aquele mundo nunca lhe fez sentido. Na maior parte dos dias, vagueava entre as outras pessoas de forma estranha. Como se precisasse de andar para se manter no mesmo sítio.
Sentou-se. Fechou os olhos e sentiu as viagens nas pálpebras. Sim, para sair dali, teria de permanecer quieta entre a multidão.
Aquele mundo nunca lhe fez sentido. Por isso nunca se tornou real.
E ela manteve-se num estado latente de quem espera acordar de um sonho. Tinha aquela fina persistência no olhar de quem não dá relevância a flores que não falam.
Ás vezes via borboletas no ar. Outras, pensava em torradas. Visualizava ambas com a mesma intensidade morna. Nada lhe era tão estranho, com a própria estranheza húmida que escorria dos habitantes daquele mundo.
Quem lhe dera acordar daquele sonho. O pior é que eles sonhavam com ela. E por vezes aquela realidade translúcida, onde ela não sabia quem era, era só isso, o sonho deles. Que ela penosamente vivia.
Por várias vezes sentiu-se tentada a acordá-los. Mas teve medo da reacção catastrófica: e se afinal ela não fosse mais nada para alem daquele sonho?
Até que um dia, a libertação deu-se: ao virar da esquina pareceu-lhe conhecer as costas que o seu ângulo via. O que viu na verdade foi um propósito suculento. Uma ambição curiosa de descobrir um enigma.
Correu atrás daquelas costas, primeiro devagar depois mais depressa. De repente deu consigo a cruzar a cidade axadrezada. As pessoas pareciam-lhe todas peças de xadrez, umas com mais inteligência do que outras para não serem peões
As costas familiares iam desaparecendo no meio daquele enevoado de sonho. Ela corria, corria, e surgiram no ar as palavras “Quem és tu?” Mas ela não sabia, e não queria olhar para o céu. Queria encontrar aquelas costas, mais do que queria entrar amanhã no autocarro, ir trabalhar, ganhar dinheiro, casar-se e ter filhos. Queria agarrar aquela pessoa como não queria nada e sentia a o coração a percorrer-lhe o corpo.
Fazia-lhe sentido.
E foi sem espanto que viu as costas que espreitava do seu ângulo, entrarem em sua casa. Abrir e fechar a porta. Ela seguiu-as. E quando chegou à sala, viu o espelho enorme e gigante que tinha comprado para ocupar toda a parede. Do lado de lá, ouviu a rapariga que perseguira dizer: “Olá Alice”. Então seguiu em frente, atravessou o espelho e nunca mais voltou.