quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Desafio XXXVI

Wings para Alice in Wonderland:


And I want my anger to be healthy,
And I want my anger just for me,
And I want my anger not to control me,
And I want my anger to be me
And I need to set my anger free

Saint Anger 'round my neck
He never gets respect

St. Anger, Metallica

Alice in Wonderland para Ricardo:

“I like a women who's got some balls, some strength. As long as I can beat her at arm wrestling, that's fine.”

James Hetfield


Ricardo para Wings:


segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Desafio XXXV - Resposta

A Hidra de Lerna dia apareceu-lhe em sonhos. A primeira vez era ainda criança e o Monstro horrível assustou-a tanto que deixou de conseguir adormecer na escuridão do seu quarto ondulante.

Habituou-se a distrair a mente com um livro antes de as pálpebras se fecharem. E dormia com uma mão pousada na transparência da almofada, filtrada pela luz ténue e discreta dum candeeiro bordado que fabricava sombras pelo tecto. Quer fizesse calor, quer fizesse frio, dormia sempre tapada, como para se proteger do monstro sôfrego que a perseguia e era capaz de derrotar o Reino de Luz frágil que ela tecera como origamis.

E como o Monstro era horrendo. Quando já era mais velha, descobriu-lhe uma imagem num velho livro que tinha lá por casa. Tinha a mesma boca sedenta de dentes mal afiados, dois olhos redondos e fixos com uma íris negra demasiado pequena. Um corpo fino e bem delineado cheio de escamas azuis claras e escuras que brilhavam no papel impresso, tal como no seu sonho. Um corpo feroz de silêncio que a perseguia sem piedade desde o começo dos tempos. E tal como no livro, em todos os seus sonhos o monstro tinha aquela peculiaridade que tanto a perturbava: três cabeças imponentes brotavam dos seus três pescoços estreitos e independentes. Três cabeças que a fitavam impiedosamente de todos os cantos do quarto, quando a persiana fazia balançar as sombras no tecto e o Monstro saia do armário. Três cabeças que a ameaçavam e nunca desprendiam os olhos magnéticos do seu corpo, como que a exigindo.

O êxtase daquele medo evoluiu até à noite, em que já não sendo mais criança, decidiu deixar o Monstro sair do armário e enfrentá-lo. Nessa noite dourada de sombras percebeu a razão do medo enraizado nas veias geladas do seu coração; pois Monstro era invencível: quando lhe cortou a primeira cabeça nasceram três pescoços hirtos no lugar do coto. Não tinha por onde fugir nem como matar o monstro.

E este êxtase irreversível e horroroso atravessou-a de tal forma que o medo tomou posse dela, entrou-lhe no corpo e misturou-se com as suas entranhas.

E um dia quando deu conta já não precisava de candeeiros para conseguir dormir. Era no escuro que as rendas da imaginação lhe decoravam o quarto. Era no medo fermentado que encontrava uma armadura resistente ao choque de se encontrar com a sua morte de vez em quando.

E sempre que lhe cortavam um sonho, nasciam três.

domingo, 5 de setembro de 2010

Desafio XXXV- Resposta

Deixa-o só. Há alturas em que a dor é inevitável e às vezes o amor é so isso. Uma forma bonita e melodica de ter como reflexo o rosto da propria dor. Deixa-o só, deixa-o em paz. Se o amas, deixa-o ser livre. Se ja o não amas respeita-o, isto é tudo o que tem, esta tentativa de se tornar livre, senhor de si mesmo. Respeita-o porque ele tem o coraçao pequeno, não consegue auto-disciplinar-se o suficiente para se respeitar. Intrinsecamente.
Que importa que tenha sido amor. O passado às vezes é apenas um cemitério triste que ele visita para encarar a fatalidade de que nada daquilo existe. Que importa que ainda seja amor, ele so quer ser livre. Deixa-o ser só, não te quer aqui. Quer ser livre, quer ter como reflexo uma dor que seja só dele. Não o incomodes, mesmo que o ames. Se o amas deixa-o só. Porque no final, no final de cada dia so tem no peito a marca da dor, os dias felizes cheios de sol contigo estao enclausurados na memoria. Não que sejam inuteis, não que sejam insignificantes. Simplesmente deixa-o só, não o obrigues a visitar o cemitéro. Para ele os mortos morreram, não os teme e o amor que lhes dedica causa-lhe desgosto nenhum. Não o faças descer ao seu profundo cemitério perguntar-se se o amas ainda, se respiras ainda.Para ele os mortos morreram, não lhe quebres esta esperança. Porque é inutil, é inocuo. Não o perturbes, esta paz é tudo o que tem, é o principio de uma nova liberdade. De uma nova vida. Deixa-o só, mesmo que o ames já aqui não estas. E ele deseja ser senhor de si proprio, quer ver no reflexo do espelho o futuro não o passado.
Por isso deixa-o so. Não lhe retires esta calma tranquila que chega depois do pronuncio de morte. Não o perturbes. Não lhe cortes as asas com essa faca pontiaguda de desespero e de amor. Não lhe faças isso se o amas. Porque ele tem esta necessidade de ser maior e melhor que a memoria do que foi, tem esta fome do infinito, esta vontade de tocar o inalcançavel horizonte. Não lhe ofereças tao pouco como a hipotese de o amares depois de ele ter como reflexo todas as noites a dor a sorrir-lhe do outro lado do espelho. O que quer que lhe ofereças não chega, já não lhe chega. A tua voz, a doçura da tua voz... não que não tenha saudades apenas já não é suficiente. Se lhe curasses as saudades que tem tuas era como se preenchesses o vazio dele com algo horrivel. Era como se assassinasses a sede dele com agua salgada. Se o amas ainda, deixa-o so. Já não é suficiente, pensares que é e forçá-lo a aceitar é cortares-lhe as asas e esperares que ele voe.

Desafio XXXIV - Resposta

A verdade é que sempre tiveste esse encanto alternativo e ela sempre te amou por isso. Tinhas o encanto de ter encanto nenhum. A segurança e a estabilidade que brilhavam nos teus olhos de uma forma tão solitária e afável tornavam-te único. E ela amava-te por isso, por seres alternativamente melhor.
Tinhas o encanto de ser desencantador. Eras alguem limpo e distante dos pecados do mundo. Eras alguem melhor , cheio de uma energia boa e iluminada, direccionada para fazer o bem. E ela amava-te por isso mas em noites de consciencia profunda , uma voz grave e caótica sussurava-lhe que eras bom sob proposito nenhum. Para proposito nenhum. Ela amava-te mas não eras melhor, tinhas um espirito disforme de uma forma alternativa.
Mas ela amava-te por teres o encanto de não teres encanto, eras o melhor ser que alguma vez existiu. Não necessitaste de ter no ombro a marca dos condenados a morte para rejeitares viver na escuridao e procurares o iluminismo. Não precisaste do conceito de dor e de morte para seres feliz. Ela amava-te por seres bom sem precisares de ser o melhor.
Mas a verdade é que o único encanto que tinhas era o de não ter encanto. O teu ser demonstrava-se tranquilo e condescente perante tudo. Mas o que era o tudo para ti? Uma felicidade fácil de comprar em cada esquina, uma alma tao limpa dos males do mundo que se torna ignorante. Ela amava-te mas algures esse teu encanto de não teres encanto algum tornou-se numa ilusão que lhe escorregava dos dedos. Não te amava menos, amava-se a si propria menos. Era o encanto dela, ter o coração no sitio do cerebro e as maos cheias de uma esperança numa fé de um melhor conceito de existir.
A verdade é que ela te amava e isso era inutil. Não era insignificante mas revelar-se-ia inutil. Eras um homem sem um encanto honesto no seu gesto mais pequeno e peculiar. Eras limpo dos pecados do mundo e , exactamente por isso. Não viste que cometeste o pior deles. O aborrecimento. Deixaste-te ser espectador da tua propria vida nunca conseguiste ter o papel decisivo de narrador ou de contador de historias. Eras simplesmente alguem com o encanto de não ter encanto nenhum que vivia num clima de paz sustentado por tranquilidade infundamentada.
Ela amava-te mas não era como tu. O encanto dela vivia na forma como encarava os desafios, como era responsavelmente irresponsavel. Como lidava com o desejo ardente de ser inconsequente e escolher se-lo. Ou não. Mas tu tinhas a tua vida cuidadosamente limpa e arrumada, tudo encaixado. E algures isso, essa arrumaçao com proposito nenhum, projectou-se no teu ser, no teu rosto.
E ela amava-te. Assim. Com o encanto de teres encanto nenhum. Via-te bom e tranquilo, quase intemporal. Mas algures perdeste o encanto. E algures ela perdeu o encanto e deixaram de se reconhecer. O encanto está no que fazes com o caos, não na ausencia dele.
A tua alma tao limpa dos pecados do mundo deixou-se corromper pelo ser dela, tao melodicamente irresponsavel e encontrou um mundo paralelo impossivel de existir. E ela rejeitou ter o seu caos interior organizado sem um bom fundamento. Lá no fundo, em algum momento, ela compreendeu que eras demasiado limpo e demasiado bom e que isso era detestável por ser uma limpeza unicamente superficial, no fundo eras igual a qualquer um.
Ela amava-te porque ela era o caos. Mas o que eras tu?

Desafio XXXV - Resposta

I'm telling you that life is just random. We like to believe that there is some higher purpose to life. And that's why we pamper the idea that some day we will understand what that purpose is, and maybe anticipate it.

But what about people like gurus and stuff? They seem to know something we don't. They seem to be in on life's secrets. They are like hackers who understand life's source code.

That's all lies and illusion.

How can you know for sure?

Look, take it for what it's worth. But I can tell you a story about a friend of mine. She once told me about this guru in India or Nepal or something like that. She used to think the same as you. Well, at least she was curious. Eastern prophets in western countries may be all about carnival tricks, but she thought that people who take on a life of isolation far from civilization had to understand something she did not. And so she went to some guru during one of her travels. This was about ten years ago.

She told me it was like stepping into a Hollywood set. There were these random religious figures, I think it was Buddha on one side of the door and Krishna on the other. I guess she thought what the hell, two religions have to better than one. The whole place stank with incense and cinnamon flavored candles. She recalls this brown light entering the room from a clothed window. And at the center there was a man. Apart from the whole setting, he was basically an old man in a turban. He was sitting on a rug, legs crossed, and get this: he had a long white beard. Could he be any more predictable? And this wasn't your ordinary western all show guru. This was the real thing, a true honest to god native.

Fist thing she asks him is the key to happiness. He tells her some random instant-self-help-catchphrase like “it's within you”, “just learn how to be with yourself”, or something like that. Naturally, it was then she started to doubt if anything good was ever going to come out of that fantasy world. She's really smart, you see. But not very attractive. So then she asks him the real question she would like to know the answer to: would she ever find true love? And this is the really good part. Out of nowhere, the old man grabs a velvet bag which was laying around in the set. He grabs something from inside the bag. It's an ugly polished gray stone. He takes her hand, puts the stone inside and closes it. And he says “when the sacred rock changes color, so will you be married to your one true love”. An what's more is he didn't let her pay. He said “when it happens, you come here with your husband and pay whatever you want”.

She admitted to me, that was intense stuff. She doesn't know if it was how dead certain he looked, the building up to the dramatic moment, or just the incense, but she felt like she couldn't take it anymore and left. That's the thing with elaborated and theatrical bullshit. You may rationally reject it, but it still gets to you. You may know it's worth next to nothing, and yet you can't shake it off from your mind. And so she began walking around with the stone, taking it to first dates, in some secret hope that it would switch colors. That would be a sign that she had found love. And she rationalized it: after all, isn't love an erotic alchemist that transforms you on the inside? It's far easier to transform a rock than a person.

Years go by, and she forgets the stone. But now get this: she's cleaning the house a couple of months ago, and she finds the stone. But now it's red, it's almost rusty. This confuses her, because there's still no trace of love or marriage in her life. She tells me now that she felt so stupid. She knew it was all a scheme, and yet she wanted it so much to be true that the rock blinded her. She gets mad for her own childishness. And she plots revenge. She goes to this art or design fair or something like that. She looks for the strangest pieces possible. Nothing was as farfetched as she hoped for. Until she found a young guy in a corner selling small white geometric models. Kind of what kids use in maths class. She pics one up and asks him “what this?”, “that's a white solid cube, ma'am”. “Well, what does it do?”, “it's just for decoration, your know...” So she takes the small cube and pays.

Her next vacations she goes back to India, or whatever country it was. She goes to the same guru, who is in the same place. Buddha and Krishna seem to have switched places, but apart from that everything is the same. Even the guru didn't seem to be one day older. But then again, it's a sad irony to be able to freeze time only when you're an old man.

He did not remember her. So she sits next to him, gives him the rusty rock and tells him she didn't find love as he'd promised. His feeble reply was something like “well, I am not god; I am human like you”. She told me she was infuriated by his answer. She felt betrayed. She goes all the way there expecting a good answer and he finds it suited to make funny remarks. He knew nothing more about life than her, but he was nevertheless as human as her. So why isn't she the guru?

So she reached the inside of her backpack, and grabbed the cube. Attached to it were a prepaid telephone card with her phone number written in blue ink. She took his right hand, put the card in it, and closed it while telling him “I only demand one answer from you today: tell me what this is”. And the great sage flinched. He raised his eyebrow. He gave no reply. So she continued “when you understand the secret of the rock, you will know the truth, and then you will call me. But since I trust your ability to understand, I will pay you right now.”. And so she takes his left hand and places a very generous sum in it. Then, she just leaves. Imagine it: the old man, completely stunned, with his two hands held up. In one, a ridiculous white cube, and on the other money.

She didn't expect him to call. Men rarely call her when she gives them her number. This one did, a couple of months later. And you know what? He called to say that he had journeyed through his land and meditated deeply on the meaning of such an odd artifact. “It is a key to open the door to great treasures, yes?” No, she replied. And he tried again, “it is the coveted philosopher's stone, to inspire reflection and dream, yes?”, and again she just replied “sorry, no”. She finally got what she wanted. The guru finally quit.

And then, over the telephone, she stepped up to the part of the western bitch and told him something like “it's not so fun when it's other people who challenge you with impossible riddles, is it?”. Dead silence from the old man.

So what? She made fun of an honest, poor old man who was only trying to make a living. That still doesn't prove anything.

Wait, there's more. As she terminated the call, she solved the enigma. She said something like “you gave me a rock that would signal me marriage. But it was a rock, plain and simple. There was iron on the surface, and so it rusted. And it was my knowledge and not yours that led me to be enlightened by this truth. As for the cube, well... it's also just a cube. Nothing more that a simple white cube.”. And she finished with a great touch: “so let this be your first lesson in Western philosophy: sometimes a cigar is just a cigar”. And she hung up.

So what do you mean?

Look, nobody can hack life's code, even if they honestly believe they can. Sometimes a liar is just a liar. No matter how seriously he takes himself.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Desafio XXXV

Alice in Wonderland para Wings:

"Não perturbes a paz que me foi dada.
Ouvir de novo a tua voz seria
Matar a sede com água salgada."

Súplica, Miguel Torga







Ricardo para Alice in Wonderland:





Wings para Ricardo:
Às vezes um charuto é só um charuto.


Sigmund Freud


Desafio XXXIII- Resposta

Não existem coincidencias porque te moves sempre num intuito de preencher um proposito. Não existem coincidencias porque tudo é fundamentado.
É verdade que este dia infértil define quem não és mas tambem é verdade que isso é uma escolha sensorial tua. Porque quando a maioria dos teus semelhantes aproveita as reminiscencias deste vazio para decidir quem são tu afastas-te do que nao és. E isso é uma escolha tua que não existe, coincidencias não existem.
É certo que este é so um mau dia. Objectivamente. Com propósito nenhum. A tua fome primitiva de satisfazer pequenas curiosidades avassaladoras perde importancia perante a triste fatalidade desta vertente cinzenta da vida. Mas esta realidade é muito maior que tu, atribuis-lhe significado. Só isso. E apenas isso. Esta realidade existe para alem de ti, depois de ti. E tu sabe-lo tao bem ao ponto de, inatamente, este dia ser um dia vazio. Sabes a extensao da tua impotencia, da tua fragilidade.
Porem não es como os outros. Procuras o que és e não quem és, coincidencias não existem. Há certos erros pequenos existenciais que nunca cometes, compreendes perfeitamente que escolhes a equação matemática que se adequa melhor, que soa melhor, a mais correcta. E depois realizas pequenos e discretos testes para garantires a validade da resposta. Procuras a calma e a segurança de uma equação para encontrares a resposta que sentes mas não consegues ver. Mas nunca te esqueces que foste tu que escolheu a equaçao , não o inverso.
Reconheces que esta realidade é muito maior que tu e que, por sua vez, a matemática é abstracta e intemporal. Está muito para alem de qualquer realidade. A verdade é que tu escolheste a equação, procuraste uma resposta válida e verdadeira. Isso torna-a correcta mas não demonstra a sua exclusividade. Porque a equaçao responde-te a um problema que só tu sabes qual é. O facto de estar correcta apenas prova que foi uma escolha tua porque os acasos não existem. Não existe necessariamente uma relação estreita entre a realidade e a matematica porque tu és fragil. E apercebes-te que precisas de , inconscientemente, atribuir significado a tudo. Não existem acasos porque não sabes o que existia antes de poder existir o acaso.Nao consegues ser imparcial ou pensar, intrinsecamente, como se tu não fosses tu, os acasos não existem porque não sabes se eles verdadeiramente existem. A matemática é infalível e tu dás-lhe um porque ocasional .
Existem dias assim. Inférteis. Mas tu decidiste que estes momentos de chuva densa definiam o que eras. E quem não eras. E não és isto, alguem demasiado fraco para assumir que morre e que a matematica é a realidade suprema por ser abstracta que consegue prever a tua morte e existir para alem da compreensao do teu cerebro. A concisao e exactidao matematicas são utilizadas para estabelecer as leias da tua realidade, são usadas como referencial. Nunca o inverso.