segunda-feira, 10 de maio de 2010

Desafio XX - resposta

“Esperar dói. Esquecer dói. Mas não saber que decisão tomar é o pior dos sofrimentos.”



Tinha uma estranha mania de viver múltiplas vezes os mesmos dias. Por vezes, imaginava também outras noites dentro da mesma. E os seus sonhos nunca foram outra coisa se não isso: realidades paralelas entre janelas que só ele conhecia.
Vivia muitas vidas. Percorria muitos caminhos. Sentia muitas coisas, todas ao mesmo tempo, testava o coração ao limite, fazia-o quase rebentar com vitaminas eléctricas de sentimentos contrastantes de euforia e depressão.
Às vezes encontravam-no triste, sentado debaixo da sua árvore preferida. Mas quando ele explicava porque, invariavelmente diziam-lhe “ Mas isso não aconteceu”. E ele gastava-os com as palavras que só ele entendia “ só porque não foi real, não quer dizer que não tenha acontecido”.
Mas que podia ele fazer, todos estes mundos lhe vivam na cabeça! Não conseguia virar à esquerda sem pensar no mundo igualmente real que surgiria se virasse à direita. Abusivamente alguém chamava a um dos mundos, realidade. Mas para ele, tudo o que sentia era real.
Como naquele dia em que chegou a casa mais cedo. Era demasiado pequeno e não estava lá ninguém. Deu a volta à casa e o gato não veio, como de costume, roçar-se nas suas pernas. No silêncio da casa, uma quantidade de múltiplos mundos se começaram a formar no seu cérebro. E começou a sentir cada um deles. Quando viu a caixa em cima da mesa dois mundos separam-se irreversivelmente: um em que o gato estava morto, e jazia dentro da caixa; outro em que o gato estava vivo e voltava do veterinário.
Sentou-se numa cadeira, a observar a caixa. E durante horas viveu aqueles dois mundos, com a mesma intensidade.
Ambos os mundos possíveis. Ambos a coexistirem com a mesma frequência. Metade dele vivia a descontracção de fim de tarde, a outra metade vivia o luto.
E por isso, era indiferente qual era o real. Ambos existiram. Mas fez a vontade à voz que ouvia no cérebro e abriu a caixa.

O gato estava morto.

E foi um alívio, viver com uma só realidade.

domingo, 9 de maio de 2010

Desafio xx- Resposta



"Even a clock that does not work is right twice a day."


A beleza exótica mas refinada dele serve para isso. Serve, alias, somente para isso. Conquista um lugar soalheiro neste mundo cinzento porque é eternamente deslocado. Mas é demasiado bonito para ser desperdiçado pelo mundo circundante. Entao permanece lá, num sitio estranho a que é dificil de aceder, aristrocatamente simples ele é rei de si proprio. E a sua beleza excentrica mas discreta encanta o mundo, a alma sobria , credivel e tranquila tornam a palavra dele sábia e decisiva.
É profundamente triste nessa sua solidao que a sociedade não etende porque o ama, o admira, o enaltece. Ele está profundamente só , o sitio requintado e importante que lhe oferecem é-lhe inteiramente inutil.
Só serve para isso, o poder dele. Demonstrar-te, a ti, a tua grandiosidade. Porque a realidade boémia e altiva trata-te como lixo mas vê bem essa tua beleza selvagem e livre, tao semelhante à dele. Só que sabe controlá-los e engana-los, ele, tu nem sequer te importas. Mas eles impoem-te uma visao distorcida e horrivel de ti, tornam-te numa outra especie de monstro. E , no final do dia, como podes não quebrar minimamente? Vais acabar por errar duramente contigo. Perder parte do requinte do teu ego.
E a beleza exótica e aristocrata dele serve para isso. O lugar importante e poderoso que ele ocupa na sociedade serve para isso. No final, ele escolhe-te. Diz-lhes que tu és muito maior e melhor que ele. E que o salvaste da corrosiva sensação de tristeza que conduz a um estado de não-vivencia activo.Tu , o lixo do mundo, salvaste-o a ele, senhor de si proprio que desvia a multidao da sua rotina
Conseguiste sentar-te junto dele, no sitio agreste e solitário a que mais ninguem ele convidou a entrar.
Só serve para isso a existencia suavemente bélica dele. Salvar-te deixando-se concertar por ti, alterando o sentido do mundo porque demonstra a tua grandiosa e misteriosa sensibilidade humana.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Desafio XX - Resposta

Senta-te aqui neste cadeirão antigo, avô, e conta-me uma história. A história já começava com o teu passar dos dedos pela protectora capa dura, suavemente percorrendo-a com um toque gentil de canto a canto, de baixo a cima, como quem acaricia um velho amigo reencontrado depois de muito tempo, antes do início da conversa. A estória que me contavas não faz sentido sem ti como personagem principal, protagonista do conto que narravas. A minha história e a minha lição contam-se ao contar como tu escolhias um texto ao acaso e o declamavas como a um salmo, com a mesma reverência pela palavra que para ti era divina, com a mesma esperança que dentro da minha cabeça ela viesse a ecoar quando alguma situação me colocar perante a mesma escolha, o mesmo dilema.

E o Mundo que imaginava e criava continha-te sempre. Quando me falavas da neve e da cidade dura onde a inocência era a única cor, eu colocava-te um gorro berrante, umas luvas de dedos cortados e um casaco para o frio, e transportava-te para lá, para dentro do conto. Punha-te uma caixa de fósforos nas mãos, e tu passavas a ser a menina. Porque cada frase docemente arrancada do arrastar da tua voz era tão sincera que eu só a concebia como tendo sido vivida. Eu não conseguia imaginar que pudesses não ter passado por aquelas privações, aquelas tristezas, aqueles triunfos e aquelas alegrias. O teu livro velho não eram estórias. O teu livro era a tua história. A tua biografia.

E não poderei nunca esquecer-me dessa imagem gravada a ferros na minha memória. Eu, sentada no chão, longe do teu cadeirão, para que nada escapasse no meu campo visual curto e lentamente mutável. Recorrias tanto à voz quanto ao suave bater dos pés, mais agitado quando a trama se tornava mais intensa, quanto à mão direita que, num gesto acompanhante do timbre da tua voz, por vezes se afastava do seu trabalho de restringir a pressa das folhas em soltar o desenlace. E os teus olhos, esses tinham personagens de corpo inteiro impregnadas de sentimentos fortes, expressivos.

E eu, menina hipnotizada pela tua força, pela oscilação da tua voz, caminhava livre nesse Mundo alternativo que me apresentavas. Resgatavas-me do laço no cabelo e dos sapatos hirtos, envernizados, capricho da minha mãe mas que tanto me magoavam, e que me obrigavas a tirar quando entrava na tua sala. Impossível esquecer aquelas palavras, essas totalmente tuas, com as quais encerravas as histórias de princesas que tanto me encantavam. "As meninas bonitas", dizias tu, "não são as que têm o laço e os sapatos. São as que vêem coisas bonitas no Mundo. As meninas deste livro são bonitas por isso, poque são capazes de ver coisas lindas onde elas existem; elas reconhecem as flores, os rios, a coragem, a sabedoria. Não é por serem princesas, nem é por terem uma cara bonita. Por isso, não saias daqui a querer ser uma princesa. Sai daqui a querer saber onde estão as coisas bonitas."

E do abraço final que me davas, apertado e carinhoso, soltavas-te para me revelares os olhos mais cheios de vida que já vi. Os olhos mais bonitos.

Deita-te aqui neste caixão de pinho, avô, e deixa-me contar-te uma história. Agora os teus velhos olhos expressivos já não contam histórias. Cansaram-se, fecharam-se, levaram consigo a força eléctrica que te transportava para dentro dos livros. E só agora, mulher feita, casada, me dou conta de quão principal foi o teu papel na minha vida. Até hoje, mesmo vincado na memória, via-te como um distante figurante numa estória minha, agigantado pela imaginação de criança. Mas aqui, vendo-te quieto, tão longe da personagem que és dentro de mim, pergunto-me em que pessoa me teria tornado se não tivesses gasto tanto tempo a abrir-me a janela para a beleza.

E eu, mesmo assim, cometi erros. De tanto procurar a beleza no Mundo, pensei sempre tê-la achado nos sítios óbvios. Tornei-me numa rapariga daquelas que se vêem e que revêem nas revistas. Tornei-me uma personagem dessas revistas, tornei-me até na capa que outros dedos por certo acariciavam com outras intenções muito diferentes da tua. Preenchi o Mundo de revistas, e não de livros. E nessa altura, afastei-me de ti. Ao tentar procurar o que me ensinaste, deixei-te ao abandono. De tal forma que já não te reconheço agora que te olho com um olhar repleto de personagens de corpo inteiro impregnadas de sentimentos tristes, saudosos.

Mas eu achei-me, e achei-te. Achei-te nele. Procurei o meu princípe para me tornar na princesa de uma das tuas histórias. E quando ele apareceu, foi tal como me disseste que seria. Tive que abrir mão dos laços e sapatos que todos os homens vestem achando que as mulheres apreciam mais um bom fato do que uma boa história. Porque ele não os usa. Tive que me lembrar que o que me poderia fazer bonita era reconhecer a verdadeira beleza no Mundo.

E eu vi-a, emanando deste homem, com uma luz e uma intensidade tão grande, que nem as flores, os rios, a coragem ou a sabedoria poderiam rivalizar consigo. E o que ele tinha era uma paixão forte que colocava em tudo o que dizia e em tudo o que fazia; era uma força sobre-humana que lhe moldava a voz e fazia a terra tremer a toda a volta quando falava; eram as palavras que usava nas estórias que escreve; era o olhar. O olhar, não os olhos castanhos banais, nem a boca proeminente, nem o nariz arqueado, nem as mãos pequenas, nem a envergadura curta. Quando ele me disse que era feio, eu respondi-lhe com as tuas palavras. O que nos torna belos é a beleza que sabemos reconhecer no Mundo. A beleza está do lado de lá, não do lado de cá do espelho.Partam-se os espelhos, e seremos mais bonitos que nunca.

E desde que ele se tornou na personagem principal da minha história, eu comecei a tornar-me na personagem principal das estórias dele. Estórias que mal acaba de escrever me lê, enquanto me sento no chão do nosso quarto, bem longe dele para que nada escape no meu campo visual curto e lentamente mutável. Ele recorre tanto à voz quanto às pernas que junta e pressiona quando a trama se tornava mais intensa, quanto às costas que dobra enquanto se inclina para à frente à medida que a voz se torna mais fina e as palavras mais rápidas. Esses são os momentos mais bonitos da minha vida. E foi contigo que eu aprendi a ver tanta beleza.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Desafio XX

Tiago para Alice in Wonderland:

“Se a dor tiver que vir, que venha rápido”, eu disse. “Porque tenho uma vida pela frente, e preciso usá-la da melhor maneira possível. Se ele tem que fazer alguma escolha, que faça logo. Então eu o espero. Ou o esqueço."

“Esperar dói. Esquecer dói. Mas não saber que decisão tomar é o pior dos sofrimentos.”

Paulo Coelho


Alice in Wonderland para Ricardo:

"I'm so ugly, but that's ok, 'cause so are you"
Kurt Cobain - Lithium


Ricardo para Blue Storm:
Time discovers truth.


Séneca


Blue Storm para Wings

"Even a clock that does not work is right twice a day."


Provérbio Polaco

Wings para Tiago:

"Ideias ousadas são como as peças de xadrez que se movem para a frente; podem ser comidas, mas podem começar um jogo vitorioso."




Johan Goethe

terça-feira, 4 de maio de 2010

Desafio XIX - Resposta

Zoom & freeze frame no teu futuro.” Era o que todos os amigos estavam sempre prontos a dizer. “Depois olha para trás, e ri-te de ti mesmo agora. Cheio de vontade de viver. Mas sem esperança.” Porque amigos ele tinha. Amigos, tinha. “Vê-te com ela, e verás que todo o tempo de espera não é mais do que... olha, chama-lhe pedras no caminho.” O problema era o resto. Era aquele ímpeto final para viver, para transfigurar a sua casa e os seus hábitos cronometrados com as horas de sol, era um amontoado de espectativas que moldara num corpo de mulher de carne e osso. “Sabes, pá, a vida é complicada porque estamos a olhá-la para a frente e a ver todas as ramificações possíveis. Mas só vamos seguir uma. Quando já estás lá bem ao fundo e olhas para trás, parece-te tudo muito simples e linear, e nem sabes porque foste ter dúvidas!” A sua salvadora. “Aguenta-te aí, ela vai aparecer, e depois vai parecer-te que estava destinado a acontecer precisamente desta maneira.”

Dezasseis horas de um dia de temperaturas tão altas como longos eram os dias e como curtas eram as roupas. Meteu pernas a caminho para o jardim, e sentou-se na sua poltrona vegetal. Era a árvore de sempre, aquela convenientemente recortada com dois braços abertos nas raízes, e que por isso o recebia com um abraço, quando se sentava, apoiava as costas e os cotovelos, e sentia-se aconchegado. Aquela era a árvore na qual podia, instalado como num trono, observar o espectáculo do Mundo. Era um rei pescador. A sua rede era o livro itinerante que o seguia para uma leitura exibicionista, de capa ao alto. Pescava com as letras eruditas olhares femininos, curiosidades despertas. E quem o visse ali, sentado, encostado a uma banal árvore castanha de folhas amareladas pela falta de água no Verão (a árvore, não o livro), achá-lo-ia só mais alguém tentando procurar na sombra momentos calmos com um bom livro. Só que não era assim que ele se via. Freeze frame & zoom na sua cabeça. Imaginava-se na terceira pessoa, via-se como um actor com metade do seu peso e o dobro da sua altura, de pose enigmática e num pôr-do-sol de cores dramáticas, com mulheres a passarem em câmara lenta à sua frente e a perguntarem-se “mas quem será aquele homem?”, “que estará ele a fazer naquela árvore magnífica?”. E a sopa de letras de dentro do livro, as frases que sorvia alarvemente, atropelando todo o significado, não eram mais do que o passar do tempo, do que os ponteiros do relógio marcando o compasso, enquanto aguardava que os seus olhos interiores com os quais via todo este filme se voltassem do avesso.

E um dia, magicamente, incompreensivelmente, numa daquelas raras materializações da imaginação, aconteceu mesmo. Retirando os olhos do livro, captou com a visão periférica alguém que frequentemente o olhava e esboçava uma brisa de sorriso, ténue como espuma, suave como só uma mulher o conseguiria. Seria um pouco mais velha que ele, talvez. Era indisfarçável o cabelo apanhado, os princípios de ruga, o vestido castanho e os sapatos de princesa. Estava encostada à árvore banal do lado esquerdo. Tinha um livro no colo. Fechou-o. Era uma biografia do General Eisenhower. Eisenhower?

“Olá, boa tarde.”

Freeze frame & zoom na pele dele, nos pequenos poros por onde vapor se escapava a uma explosão anunciada. Não era a primeira vez. Oh, a pressão! O momento da verdade, a resposta ideal, o ter que parecer inteligente, mas sempre, claro, sendo ele mesmo. Vapor condensado em gotículas de suor, expelidas com tremuras, acompanhadas num quase desejo de voltar ao quarto. E num só instante viu o seu quarto pacífico, ao qual estava tão acostumado, no qual era rei e senhor. O seu quarto, o seu reino, o seu verdadeiro trono. Aquele onde por breves instantes se sentia confortável. Se sentia quase bem.

“Acho que já te vi aqui antes. Também costumas vir para aqui ler? O que estás a ler?”

“Sim. Fernando Pessoa.”

“Ah... Estou a ver.”

“Ah, estou a ver”, diz ela. O desprezo era palpável, as palavras tinham uma quase espessura que lhes era dada pelo sorriso de gozo. Um sorriso arcado no canto da boca, humilhante, como só uma mulher consegue. Ou pelo menos, aquilo que ele achava ser uma mulher.

“Oh, desculpa, isto saiu-me mal. Às vezes as coisas soltam-se assim sem pensar. Eu claramente falo demais.”

“Não faz mal. Eu falo demenos.”

“É que eu não gosto nada do Pessoa, sabes? Desculpa, provavelmente nem queres ouvir isto, mas ele chateia-me. Eu não gosto de pessoas assim, que não sabem viver, que passam o tempo a beber ou a fazer previsões astrológicas, e a criar umas teorias de secretária sobre como Portugal um dia vai mandar no Mundo.”

“Pois, disso eu já não sei. Eu só gosto da poesia dele. Mas ele tem aqui um poema em que diz o contrário. Acho que ele está a dizer exactamente que há coisas que são para se sentir e para se viver, e não para se pensar, porque pensar às vezes só faz perder a vida.

Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...

“Mas é isso, o que ele admite é mesmo isso, é que não faz nada para aproveitar a vida. E a saudade do passado... Blargh! Eu desconfio sempre das pessoas que estão sempre a dizer que devemos fazer mais e pensar menos, ou para não fazermos o coração pensar. Essas pessoas normalmente são quem não faz nada, e passa o tempo a encher a cabeça aos outros. Quem efectivamente vive, não precisa de andar a dizê-lo. E aliás, só quem vive é que pode ter matéria de jeito para pensar! Por isso essa coisa do Pessoa não tem ponta por onde se lhe pegue.”

Freeze frame & zoom para o estômago, onde a raiva se amontoava como estalagmites que cresciam milhões de anos até lhe picarem o cérebro e exigirem que ripostasse. Apetecia-lhe dizer-lhe “como te atreves a falar assim do Pessoa, que foi tão importante para mim?”, “como te atreves a tentar destruir este homem fantástico em quem tanto me revejo?”, “como te atreves a descrever-me enquanto falas dele, quando ele não tem culpa nenhuma?”. Mas em vez disso, limitou-se a questionar.

“Isso que estás a dizer até pode ser muito certo, mas não acho que tenha nada a ver com o poema.”

“Ora, tem sim. Repara, ele escreveu invenções. Personagens inventadas, vidas inventadas, e teorias inventadas. Ele simulou vidas originais, mas a verdadeira originalidade não está na escrita, está na vida em si! É por isso que ando sempre a ler biografias. As grandes vidas de grandes homens inspiram-me muito mais do que todos os poemas que já foram escritos. Como aqui o Eisenhower. Mas espera, já me perdi no raciocínio. Bom, acho que o que quero dizer é isto. O Pessoa na verdade era um fulano que não sabia viver. Ele próprio o confessa nesse poema que me leste tão bem. E escreveu sobre não saber viver. É claro que quem também não sabe viver se sente reconhecido nele. Mas que tem alguém assim para ensinar seja a quem for?”

“Talvez. Eu gosto na mesma. E agora lamento, mas tenho que ir.”

“Oh, já? Peço desculpa se disse alguma coisa que não devia. Desculpa, a sério, eu falo demais. Mas olha, queres ir tomar um café? Não, desculpa, má ideia, nem nos conhecemos. Olha, eu costumo vir cá todos os domingos à tarde. Se apareceres, podemos conversar mais um pouco... Que achas?”

Freeze frame & zoom no novo sorriso dela. Um sorriso tão sincero e inseguro, pleno de expectativa, pleno de interesse. Mas é uma impossibilidade física que se sinta algum interesse por reencontrar alguém com quem se discorda desta forma, não é? Se a diferença para ela só o fez recuar, a diferença para ele tinha que a fazer perder toda a vontade de continuar a conversa, não tinha? Então ela tem que estar a mentir quando diz que o quer ver de novo, não tem? Então todo aquele sorriso, e aquele convite, não passam de dissimulação feminina, pois não? A mentirosa! É mentirosa, e de uma forma baixa, como só a mulher consegue. Não qualquer mulher. A mulher na cabeça dele, aquela que foi moldada a partir do barro de sonhos alquímicos de transfiguração da vida.

“Talvez, outro dia.”

Zoom & freeze frame no teu futuro.” De regresso ao quarto, irritado, nervoso, desapontado, voltava sempre a fixar esse ponto distante no qual tudo seria colocado em perspectiva, e todos os medos e fraquezas seriam vistos como acidentes de percurso. “Ainda te vais rir do tempo em que estiveste sozinho.” Mas rir, rir ele já ria. Ria de cada vez que uma amiga bonita lhe descrevia o seu homem de sonho, e em todas as características esse hipotético cavalheiro era igual a ele, mas mesmo assim esse tal não era ele. “Vais ver que até te soube bem esta liberdade de não teres que te preocupar com relações nem coisas complicadas assim.” O problema era o resto. Era estar tão dependente de outra pessoa como do seu livro do Pessoa para a pescar, era ver a vida a correr a toda a volta, e ele não a conseguir apanhar. Precisava de alguém que lhe parasse o tempo, que lhe mostrasse tudo o que há para além do espelho, quando se faz zoom & freeze frame nos prazeres e na beleza que a vida tem. “Só não esperes milagres! Muda a tua vida por ti, que vais ver que quando ela chegar será até muito melhor.” A sua salvadora. Nunca iria aparecer.

E por isso, em tantas noites como naquela noite, ligou o computador de secretária, instalou-se na sua cadeira, o seu trono de quarto, baixou as calças e tocou-se. Tocou-se imaginando que não era ele quem libertava em si o fogo que vivia por debaixo de tantas expectativas opacas. Tocou-se para se libertar de todas as angústias e pensamentos complicados. E no breve instante em que fazia freeze frame & zoom no rumo do tempo, no momento onde procurava a libertação de todo o pensamento, o seu coração e a sua imaginação traíram-no. Foi naquela rapariga da tarde que pensou.

domingo, 2 de maio de 2010

Desafio XIX - Resposta

Love cannot save you from your own fate

Passa-me essa fotografia que tenho na cabeça.
Perguntas-me em que estou a pensar?
Lembro-me dessa fotografia que me ficou calcificada nos olhos, como se me tivessem levantado as pálpebras e esculpido esse momento directamente na íris.
Vejo a figura dela a afastar-se, com os reflexos das costas e das nádegas apetitosas a deixarem os poros da pele dele. Vejo os olhos dele e a barba dele no horizonte. A ausência de lágrimas e a ausência de vento, como se o Nada chegasse naquele momento e os levasse aos dois num vazio que crescia de dentro de fora e explodia num fogo de artifício estático.

O amor consumira-a. Gastara e sugara-a. E ela era uma flor ressequida que ficara duma Primavera demasiado bela. O amor bebera-a sofregamente, abusara dela.
E ela agora dançava nos seus saltos agulha daquela forma mecânica que fazem os artistas estragados.
Ela afastava-se no horizonte árido de Sevilha. E eu via a figura dela cada vez mais longe, cada vez mais longe. E o nunca mais a gravar-se em cada segundo no relógio que ele tinha no coração.

Porque ele amava-a com os seus dois corações. Um era mais mecânico do que o outro; os dois eram sonhadores.
Vejo sempre os corações dele, no canto da fotografia. O que lhe batia descompassadamente no corpo e o outro, que ela já não quisera e colocara em cima do muro.
Oh, mas ela já não podia tê-lo. Ela já não tinha mãos para agarrar corações.
O amor que lhe vivera no seu queimara tudo. Violara-a.
E ela era só isso, uma cantora de Andaluzia a dançar todas as noites nos seus saltos agulha. Majestosa, vivera para esse amor grotesco e violento que era o amor de dois corações dum mesmo homem. E ele era só isso, um homem deformado que vivera para amar descompassadamente uma mulher que fazia o seu relógio de cuco cantar e o cegava de ciúmes quando a queria só sua em toda a pele e em toda a voz e cigarros.

Vejo a figura dela a desaparecer por entre o azul do céu e o amarelo da plataforma de terra de Sevilha. A mecânica do coração a desprogramar-se, a esquecer-se de como é amar. E vejo-o quieto, com dois corações inúteis, desmanchados pelas mãos de ambos, quando naquelas noites quentes se amaram demais.

(inspirado no livro "A mecânica do Coração")

Desafio XIX- Resposta

Já disse, Deus não existe. Não insistas no conceito. Deus não existe, nunca existiu resume-se tudo a ilusao filosofica e psicologica quase tao velha quanto o homem civilizacional.
A perfeiçao é uma mentira que gostas de acreditar porque procuras uma razao inocua para continuares a ter essa vida banal tao bem aceite por esta realidade obtusa. Mas nada está correcto, está tudo invertido. O sentido que existe é a ausencia de sentido algum. Já disse, não me faças repetir . Deus não existe porque o deus que tens guardado na subconsciencia e no peito não cabe neste mundo. Esse Deus divino senhor do amor e da paz e do merecido perdao é demasiado pouco para este mundo cheio de pecado. E coisas muito mais profundas e sangrentas do que o pecado tradicional. Acredita-me, Deus não existe. A vida é mesmo isto, só isto. Nada mais do que isto.
Não digas que tudo faz sentido, é uma mentira que insistes em dizer ao teu reflexo nocturno solitário acocorado no canto de uma sala escura. Escusas de ter medo porque tens todas as razoes para o sentires na pele, na mente e no espirito. Escusas de ter medo, é verdade. Deus não existe. Não temas isto, deus não te pode salvar.
Não insistas no conceito. Não pegues em pequenas coisas, estás a dificultar-te. Não argumentes com esse brilho tremulo nos olhos de que as crianças demonstram a existencia de deus, do teu Deus.
Ah! As crianças são a tua responsabilidade no mundo. São a marca que vais deixar nesta realidade triste entregue aos abutres. Não insistas, Deus não existe. As crianças são a projecçao do teu futuro fortemente influenciado pela cor do teu passado. As crianças mudam o mundo. Não faças o mundo muda-las-a elas.
No minimo, as crianças so existem para explicar a indecencia de Deus. E para um deus ser indecente mais vale ser queimado.
O mundo esteve sempre demasiado desregulado e cheio de excepçoes e incoerencias para existir um Deus, salvaguarda da aurea e profunda alma humana.