quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Desafio III - resposta

Ele acompanhou a multidão que seguia o cortejo do caixão, de forma paralela. Sem intercepção.
Caminhou debaixo das árvores do cemitério verde e húmido. A multidão seguia calma, sem entender o cemitério.
Perfeitamente sincronizados pararam perto da cova castanha, também ela húmida e fresca. Ele via agora perfeitamente o caixão mexer-se como se ela tivesse vida outra vez.
Reparou que não havia lápide junto à cova. Ela perderia o seu nome. O nome que ele repetira tantas vezes. Mas ganhara aquela multidão que a transportava. E que se esqueceria dela mais depressa do que o cemitério.
Baixou a cabeça, o vento suave enrolou-lhe os cabelos no pescoço. Tentara matá-la tantas vezes... E ela morrera assim, a dormir na frescura duma Primavera. Ele sabe que a tentara salvar tantas vezes...
Quando levantou a cabeça, a cova estava finalmente fechada. A multidão chorava em perfeito silêncio. Ela desaparecera para sempre.
Mas o coração dele endureceu. A morte dela desencantava-o. E quem desapareceu para sempre foi o amor dele. Saiu do cemitério sem olhar para trás.

Ele não seria assim. Ele morreria vivo.

My lifestyle determines my death style.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Desafio III

Tiago para Ricardo:


"Those who cannot remember the past are condemned to repeat it."
(George Santayana)

Ricardo para Wings:



"The male is a biological accident: the Y (male) gene is an incomplete X (female) gene, that is, it has an incomplete set of chromosomes. In other words, the male is an incomplete female, a walking abortion, aborted at the gene stage. To be male is to be deficient, emotionally limited; maleness is a deficiency disease and males are emotional cripples."
(Valerie Solanas, Scum Manifesto, London, Olympia Press, 1971)





Wings para Alice in Wonderland:

"My life style determines my death style"


(Metallica)





Alice in Wonderland para Blue Storm:


"Mais longe do que o fim do mundo está o fim do coração"



(Provérbio dinamarquês)





Blue Storm para Tiago:

"Faithless is he that says farewell when the road darkens."

J. R. R. Tolkien


Desafio II - Resposta

"The things you own end up owning you."
(Chuck Palahniuk, Fight Club)

Ele só voltou a sentir-se realmente sozinho muito depois de ter deixado Lisboa. Com a azáfama do aeroporto, e do avião, e de novo do aeroporto, só voltou a sentir-se sozinho quando saiu pela porta do aeroporto e inspirou pela primeira vez o frio de França. Estavam exactamente menos dez graus que em Lisboa, e a roupa de meia estação que trazia protegiam-no apenas o mínimo razoável para o frio que agora sentia. Olhou em volta. Conhecia tudo aquilo muito bem, tudo bem demais.

Esperou pelo primeiro táxi. Ele não era um turista qualquer. Não, ele nem sequer era um turista. “Saint Nicolas, côté Pont Neuf”. A determinação nas palavras e na voz deixavam para trás qualquer dúvida. E foi aí, foi ao falar pela primeira vez na “sua” França, que em vez de frio sentiu calor. Sentiu o mesmo calor que sentia de cada vez que voltava a Lisboa. “Melhor que ir, só mesmo voltar”, ouvira uma vez, e com que razão. Sentiu-se em casa. E assim que este pensamento se materializou na sua cabeça, sentiu um arrepio. Sentiu-se em casa. Casa.

Viu pela enésima vez passar a auto-estrada periférica, depois entrar na cidade, as ruas e ruelas. Em tempos sentiu-se um turista naquela cidade. Muito mais que um estudante. Sentiu-se perdido, depois campónio numa azáfama desconhecida de uma cidade que não era sua. E que foi descobrindo aos poucos. O castanho. As vielas. As pequenas lojas, as pessoas, a voz. A língua. Que aos poucos e poucos tomou como sua. Era a sua cidade, era a cidade onde agora passava os dias, com quem partilhava alegrias e tristezas. E foi a sua cidade até ao dia em que se foi embora, e de novo voltou a Lisboa. E o voltar soube-lhe bem.

O táxi parou sem que ele desse por isso. Tinha chegado. A casa era mesmo ali. Pagou e saiu. Sentiu-se de novo sozinho, e de novo inspirou. Sentiu o frio que lhe entrava pelo corpo. Sentiu o calor de estar em casa. Pensou apenas escassos segundos no que tinha feito. No que estava a fazer. Depois tocou à campainha, e ouviu-a ressoar lá dentro. Abriram. Entrou pelo pátio interior, direito à casa. Ouviu a porta da rua fechar-se atrás de si. Sentiu outro arrepio. Mais do que a sua cidade, ele fazia agora parte da cidade.

Quando finalmente a viu, ambos sorriram. Mesmo que fosse por pouco tempo, agora ele era dali. E o voltar soube-lhe tão bem.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Desafio II - resposta

Então eu comecei logo por lhe dizer "sabe, senhor doutor, se é que você é médico mesmo... eu não acredito em nada disto". E ele respondeu-me "então estás curado", vê lá se isto se entende. Eu repeti que não acreditava nesta coisa da anti-psicologia, que tinha sido um amigo nosso a dar-me o contacto. Ele perguntou-me "e porque te deu esse teu amigo o meu contacto?", e sempre assim, a tratar-me por tu, como se me conhecesse há anos ou como se não me respeitasse. Mesmo assim, eu lá lhe contei, já que ali estava.

"Porque ele acha que se calhar eu senti que a minha vida estava demasiado orientada. A empresa onde trabalho propôs-me ficar como sócio. Isso implica um ordenado maior. Mas eu tenho 26 anos. A minha mulher está grávida de 6 meses. Casei-me aos 24 anos. E no momento em que me propuseram ser sócio, senti um peso enorme. Saí a correr da sala e fui vomitar. Passei três dias de cama sem vontade de voltar ao meu emprego. Comecei a pensar que se passava alguma coisa de mal comigo. Então comentei com um amigo meu que já cá veio que talvez precisasse de ir a um psicólogo. Mas ele disse-me que com os meus sintomas, do que precisava mesmo era de um anti-psicólogo. Eu nem sei o que é isso, se quer que lhe diga. O senhor é doutor?"

Depois ele perguntou-me se nunca tinha ouvido falar da anti-psicologia. Eu disse que não. E pronto, ele lá começou a falar e eu praticamente já não disse mais nada. Disse-me que numa consulta normal seria eu a falar. Naquela, eu estava ali para ouvir. Que numa consulta normal eu iria chegar às minhas próprias conclusões, e assim conhecer-me melhor. Mas eu estava ali para ser destruído. Ele iria destruir tudo o que tenho por adquirido de uma vez só, para que eu me pudesse depois reconstruir a partir do nada. Eu disse-lhe apenas que...

"... o senhor doutor não entendeu! Eu não me sinto infeliz. Sim, é verdade que senti um peso naquela sala, mas eu gosto muito da minha vida. Eu sinceramente não poderia ser mais feliz."

E isso enfureceu-o. Levantou-se da cadeira e já gritava que eu sei lá o que posso, que "a felicidade é o caminho dos inconscientes", que "felicidade nenhuma leva ninguém a superar-se" e que a única felicidade que me esperava se me entregasse ao emprego do vómito seria "tornar a minha vida em vomitado".

"Mas não é esse o objectivo das nossas vidas, ser feliz?"

Parece-me óbvio que sim. E se eu sou feliz, mesmo com um ou outro momento mau ou de indecisão, para quê pôr isso em causa? Ele respondeu-me com qualquer coisa estranha sobre pedaços de carvão. Acho que queria dizer que só conhecendo as alternativas podemos avaliar o caminho que escolhemos, que entregarmo-nos muito facilmente e sem qualquer reflexão à primeira felicidade que nos aparece no caminho só gera angústia. Que a felicidade é um objectivo de longo prazo que só se mede no final da vida, e que não conseguimos nunca avaliar com clareza no presente. E acho que ele queria também dizer que só perguntando à realidade o que acontece quando arriscamos é que verdadeiramente podemos saber quão felizes os novos caminhos serão. E por isso, nunca devo ter medo de correr riscos. Nunca devo tornar sagradas as coisas que me fazem felizes. Elas podem estar apenas a esconder uma realização muito maior. Porque nunca se está tão bem quanto se poderia estar.

"Mas tu és feliz comigo, não és?"

"Claro que sou. Sou feliz por ter casado contigo. Sou feliz no meu emprego. Simplesmente sou. E nem penso demasiado nisso. Simplesmente sinto-o."

"Ainda bem."

"Mas olha, vou lá mais uma vez ver como corre. Ah, já me lembrei do que ele disse sobre carvão. Era qualquer coisa como que é possível que um pedaço de carvão no forno não se queime. Ele depois repetiu antes de eu vir embora. Mas nessa altura, mesmo antes de eu fechar a porta, acrescentou qualquer coisa. Disse "mas andar a meter carvão num fogo que não acende é simplesmente estúpido".

"Vou fazer o jantar, já são horas."

Desafio II - Resposta

"Medo"

Gosto de estudar o Medo, de ver as reacções das pessoas às mais diversas situações. Há quem me chame louco, há quem me chame demónio. Eu chamo-me estudioso, pois tal como toda a gente tenho direito de investigar o que me interessa.

Fecho as pessoas em salas escuras e vejo-as perder o norte e o sul, estender os braços á procura de apoio que está lá, mas que o medo destrói, dando a ideia de um lugar sem paredes, nem tecto, nem chão. Vejo-as agacharem-se e enrolarem-se em si, para se protegerem de algo que na realidade não existe: os seus demónios interiores. Talvez isso lhes dê confiança, essa que de alguma maneira as trevas levaram. Não compreendo.

Vejo um certo indivíduo a atravessar uma multidão. O modo como olha em redor, os seus olhos brilhando de pressa e urgência, o animal que foge do caçador. Vejo como a respiração se apressa, como treme, como corre para fugir daquele aperto, de todas as vozes que o perseguem e enlouquecem. Não compreendo.

Observo como estremecem ao ouvir trovões. Como se afastam dos parapeitos de grandes altitudes. Como fogem de pequenos animais que lhes zumbem aos ouvidos. Como fecham os olhos e se agarram aos bancos quando o avião se levanta. Não compreendo, não consigo compreender.

No entanto, há algo que percebo de todos estes estudos. Os humanos têm medo de tudo, quer seja grande, pequeno, material ou imaterial. Têm medo da morte, do fim, do desconhecido, e até arrisco dizer que têm medo da vida. Tentam ignorá-lo e ele apenas cresce, limitando-lhes o horizonte. Passam a vida limitados pelo medo.

A Humanidade vive com medo de si própria. Mas parece não se importar, e continua assim. Acho que nunca poderei compreender.

domingo, 3 de janeiro de 2010

Desafio II - resposta

"I accept chaos, I'm not sure whether it accepts me"

Ele disse: “Existimos para transformar o caos em ordem, percebes?”
Ela não percebia.
Talvez tivessem os conceitos trocados. Talvez a ordem fosse o caos dele.
“Queremos facilitar a vida das pessoas, percebes?”
Ela não percebia. Olhava as barreiras estruturadas. As fronteiras delgadas. Um arco-íris que morria entre as suas sete cores.
Talvez o caos dela fosse a ordem dele. Talvez tivessem os conceitos trocados. Talvez o caos fosse esse.
“Precisamos conhecer o fim para construir o início”
Mas ela não percebia. Construía o fim sendo o início. E o início era o meio. Ou o Nada.
Talvez não fossem os conceitos. Talvez fosse ela quem estivesse trocada.
“Eu sei que consegues fazer isto. É apenas colocar o caos em ordem”
Mas ela não conseguia.
Aquela ordem não a entendia.
Aquele caos não estava preparado para ela.

Desafio II- resposta

Penteou o cabelo ruivo vivo. Não era culpa nem sequer era arrependimento. Não era uma lenta e triste teimosia perfumada com uma legítima crença. Não. Então de onde vinha o aperto no coração, a lágrima que a mente não encontrava maneira de libertar?
Porque o amor é a forma máxima de Narcisismo. E ele sabe-o, Narciso era suavemente ingénuo – não se conhecia. Mas ele penteava seguramente o cabelo ruivo, dominava-se, dominou-se ate ao fim. De mais. Porque ela amou-o coerente e ingenuamente: ele era a libertação dela, a emoção primitiva extasiante do conforto e da insegurança. A perfeição inexistente na razão pela qual os contos de fada não são inócuos. E educam as crianças.
Mas ele não era assim. Penteou o cabelo ruivo, a claustrofobia de ter sido amor.E ele lamentar. Duramente , estridentemente. Não o reconheceu logo, deixou-se comover e perder-se se na esperança inócua de ter a ingénua e adorável ignorância dela.( Antes que seja demasiado tarde.)
Porque o amor é a forma máxima de Narcisismo. E ele sabe-o, porque quando a olhava nos olhos via a pessoa melhor que podia ser, via a compactação do tradicional conceito de bem. Ela era o reflexo da sua própria beleza.
Aprisionou a tristeza , o aperto claustrofóbico que tornava o coração pesado e velho. Dominou-se de mais porque não se conhecia. Mas ela sempre o reconheceu muito bem, sempre o amou . Ela sempre teve razão. Via o reflexo da sua própria beleza quando olhava para o cabelo vermelho-sangue dele, daí o êxtase.
Mas já era demasiado tarde para ele. Viu-a a chorar.
Foi assim que soube que tinha morrido.


"Choro por Narciso, porque todas as vezes que ele se debruçava sobre as minhas margens eu podia ver, no fundo dos seus olhos, a minha própria beleza reflectida "